Diálogos das grandezas do Brasil/Introdução

INTRODUCÇÃO

Os esforços até agora tentados para levantar o anonymato dos Dialogos das Grandezas do Brasil têm sido perdidos. Para que aventar novas hypotheses! Antes tomar do livro e penetrar em sua intimidade, se podermos.

Os dialogos são em numero de seis. O autor nunca passou do cabo de Santo Agostinho para o Sul; devem, pois, ter sido escriptos em uma das capitanias ao Norte do cabo. Destas apenas duas diz elle explicitamente ter visitado, e pelas abundantes informações mostra conhecer directamente: Pernambuco e Parahiba, — Tamaracá ficava a meio caminho e devia ser-lhe familiar.

Ha probabilidades a favor da Parahiba ser o lugar em que os Dialogos foram compostos.

Entre estas podem enumerar-se primeiramente as numerosas referencias a ella feitas, o modo desenvolvido por que é tratada: pouco mais de tres paginas tratam de Pernambuco, menos de quatro tratam da Bahia, ao passo que quasi cinco cabem á Parahiba. Á Parahiba attribúe-se o terceiro lugar entre suas irmãs e aproveitase qualquer pretexto para salienta-la: o administrador ecclesiastico, prelado quasi igual aos bispos nos poderes, é da Parahiba, esta, por conseguinte, a cabeça espiritual das capitanias do Norte, a começar de Pernambuco; na organização judiciaria proposta para substituir a Relação da Bahia, um corregedor com amplos poderes deve residir na Parahiba, por ser cidade real, e a elle serem subordinadas todas as justiças desde Pernambuco até Maranhão e Pará. Essa preferencia pela Parahiba não indica que á Parahiba o autor estava preso por laços muito particulares? Uma phrase escripta incidentemente legitima a resposta pela affirmativa. “Vos hei de contar, diz um dos interlocutores, uma graça ou historia que succedeu ha poucos dias neste Estado sobre o achar o ambar. Certo homem ia a pescar para a parte da Capitania do Rio Grande em uma enseada que ahi faz a costa...” A menos que não se provasse que o autor escrevia no Ceará, o que está fóra da questão, para a parte da Capitania do Rio Grande, só se podia escrever na outra Capitania contigua, isto é, na Parahiba.

Se a capitania em que os Dialogos foram escriptos tão vagamente se designa que apenas probabilidades se podem apurar a favor de uma, não é mais precisa a indicação do lugar em que a scena passa. O primeiro dialogo põe certa tarde, ex-abrupto, dois individuos já conhecidos entre si em nossa presença: Alviano e Brandonio. Em frente á casa do ultimo trava-se a conversa. Estiveram sentados discorriam peripateticamente? Nada se póde concluir. A conversa prolonga-se; sendo tarde, marcou-se o outro dia e lugar em que a pratica terminou para a contigua. O mesmo se fez das outras vezes. Entre o terceiro e o quarto dia falhou Brandonio: a conversação reproduzida nos Dialogos das Grandezas do Brasil durou, portanto, sete dias, com um de descanso.

Quem eram Alviano e Brandonio Por que foram escolhidos estes nomes? Conterão algum anagrama? Nem uma resposta se póde formular. Parecem antes personagens symbolicos: um representa o reinól vindo de pouco impressionado apenas pela falta de commodidades da terra; o segundo é o povoador, que desde 1583, veio para o Brasil, e, com as interrupções de varias viagens além-mar, ainda aqui estava em 1618, data da composição do livro. Tão abstractos são os personagens, que ás vezes saem dos labios de um palavras que melhor condiriam nos do outro.

A conversação irrompe sem preparo á vista de uma lanugem de monguba, passa aos motivos por que a terra é descurada, e após varios incidentes termina com a descripção summaria das diversas capitanias, desde o rio Amazonas até São Vicente; tal o objecto do primeiro dialogo. O segundo começa por uma discussão mais erudita que interessante sobre a zona torrida e sua inhabitabilidade affirmada pelos antigos philosophos, desmentida pela experiencia; explica por que apesar de negros e americanos morarem nas mesmas latitudes aquelles têm a pelle negra e o cabello carapinhado, ao contrario destes, cuja epiderme é baça e cuja cabelleira é lisa; explora a origem dos americanos, exalta as excellencias do clima, enumera as poucas molestias vigentes do Brasil. O terceiro estuda as quatro fontes de riquezas do Brasil: lavoura de assucar, mercancia em geral, o trato do pán-brasil em particular, os algodões e madeiras. O quarto expõe a riqueza que se póde angariar com o commercio de mantimentos, fala do mel, do vinho, do azeite, da tinta contida nas arvores indigenas e descreve ligeiros quadros da vida vegetal. O quinto enumera os animaes, subordinados aos tres elementos em que vivem ar, agua e terra; do elemento mais alevantado, do fogo não trata, diz Brandonio, “porque de todo o tenho por esteril, que a salamandra que se diz criar nelle entendo ser fabulosa, porque quando as houvera, nas fornalhas dos engenhos de fazer assucares do Brasil, que sempre ardem em fogo vivo, se deverão de achar”. O ultimo dialogo refere no principio os costumes dos Portuguezes, porém a maior parte é consagrada á descripção dos Indios, com que termina a obra.

Antes de ir para o Velho Mundo, de onde só voltou passados quasi tres seculos, teria o livro do senhor de engenho parahibano sido aproveitado deste lado do Atlantico! Em outros termos: teria servido de fonte a alguns dos escriptores que trataram dos mesmos assumptos? Frei Vicente do Salvador em sua Historia, terminada a 20 de Dezembro de 1627, umas vezes parece refuta-lo, outra reproduzi-lo com mais ou menos liberdade; como, porém, ao livro do escriptor franciscano faltam muitos capitulos, exactamente os que tratam de entradas ao sertão da Parabiba e Pernambuco, de que nosso autor fez parte, a questão por óra não póde ser decidida.

 

 

No entender de Varnhagen, o autor dos Dialogos era brasileiro, e funda sua convicção em achar neste escripto mais de uma vez nosso Brasil. De facto assim é; e tambem se encontra nossa Espanha, nosso Portugal, o que deixa bem patente a pouca força deste argumento subtil. O autor era portuguez; a leitura cuidadosa o attesta a cada passo e o proprio Brandonio o confirma explicitamente. Interrogado por que não secundou as experiencias de plantação de trigo, responde: “Porque se me communica tambem o mal da negligencia dos naturaes da terra.” Se fosse natural da terra, a resposta seria dada nestes termos?

Era portuguez e do Sul de Portugal, ou pelo menos lá passára muito tempo. Só assim se explica a importancia que attribúe a “alguma restinga de terra que então (no tempo das navegações carthaginezas) continuava com uma ilhota situada na costa do Algarve, a que chamamos de Pecegueiro, na qual paragem por costumarem a continuar os atuns que por alli passam a desovar dentro no estreito, se tomam muitos hoje em dia”. Teria reparado em cousas tão somenos um simples viajante?

Era homem de instrucção: conhecia o latim, a lingua literaria e scientifica da época e lêra os livros representativos da sciencía coéva: Aristoteles, Dioscorides, Vatablo, Juntino; sabia a historia, a geographia, a producção de Portugal e de suas colonias, e dispunha de intelligencia extremamente clara, cuja força se manifesta na precisão com que trata dos objectos, como por exemplo a polvora, o assucar, a farinha de mandióca, o papel; no modo por que subordina os factos mais diversos a categorias simples, como quando reduz os moradores do Brasil a cinco condições de gente, dos modos de adquirir fortuna a seis; distribúe a vida animal pelos elementos, desfia a inutilidade do commercio da India e dispõe as arvores silvestres em hortas e jardins (fim do Dialogo quarto).

Não era um espirito simplesmente contemplativo, occupava-o olado pratico, a applicação possivel. A larga navegabilidade do Amazonas suscita a idéa de aproveita-la para as communicações com o Perú; a existencia de aves rapineiras lembra a caça de altemaria; mesmo a secreção mephitica da jaguatataca antolha-se aproveitavel na ordem militar; fazia ou mandava fazer experiencias por conta propria, preparou anil para mostrar que a terra podia dar do melhor, fez examinar em Portugal uma especie de madeira, que lhe pareceu propria ao preparo da tinta de escrever.

Como seus contemporaneos, tinha uma veia de credulidade, fala em palavras fortes de encantamento; avisa que os pajés dos Indios não são legitimos feiticeiros; sobre certos animaes e mariscos, adianta affirmações bem singulares; mas era um espirito aberto aos factos novos; nas ultimas paginas ainda apresenta um facto a favor da origem vegetal do ambar, geralmente contestada naquelle tempo: a credulidade para elle era o principio da critica e da sabedoria.

Era finalmente um escriptor colorido, energico, vehemente, capaz de attingir á eloquencia; a phrase sáe ás vezes retorcida para acompanhar o vibrante da sensação; a força vegetativa do novo mundo sobretudo agitava-o vivamente. Um breve trecho do terceiro dialogo mostrará como elle sabia externar suas emoções:

“Certamente, diz Brandonio, que estimara muito não me metter em semelhante trabalho [tratar das madeiras] pelo muito que ha que dizer desta materia. Porque por toda parte que ponho os olhos, vejo frondosas arvores, entrabastecidas matas e intrincadas selvas, amenos campos, composto tudo de uma dôce e suave primavera; porquanto em todo o decurso do anno gozam as arvores de ama fresca verdura, e tão verdes se mostram no verão como no inverno, sem nunca se despirem de todo de suas folhas, como costumam de fazer em nossa Espanha; antes, tanto que lhe cáe uma, lhe nasce immediatamente outra, campeando a vista com formosas paizagens, de modo que as alamedas de alemos e outras semelhantes plantas que em Madrid, Valhadolid e em outras villas e Ingares de Castella se plantam e grangêam com tanta industria e curiosidade para formosura e recreação dos povos, lhe ficam muito atraz — quasi sem comparação uma cousa de outra. Porque aqui as matas e bosques são naturaes e não industriosos, acompanhados de tão crescidos arvoredos, que além de suas topadas, frescas folhas defendem aos raios do sol poder visitar o terreno de que gozam, não é bastante uma flecha despedida de um teso arco por galhardo braço a poder sobrepujar a sua alteza. E destas semelhantes plantas ha tantas e diversas castas que se embaraçam os olhos na contemplação dellas e sómente se satisfazem com dar graças a Dens de as haver criado daquella sorte. Donde certamente cuido que, se neste Brasil houvera bons arbolarios, se poderiam fazer de qualidade a natureza das plantas e arvores muitos volumes de livros maiores que os de Dioscorides, porque gozam e encerram em si grandissimas virtudes e excellencias occultas e enxerga-se o seu merito em algumas poucas dellas, de que nos aproveitamos” .

 

 

Procuremos agora enfeixar os dados dispersos através dos Dialogos das Grandezas.

Em 1618 os estabelecimentos fundados por Portuguezes começavam no Pará sob o Equador, terminavam adiante de S. Vicente, além do tropico.

Entre uma e outra capitania havia grandes espaços devolutos de dezenas de leguas. Para as bandas do sertão na facha da floresta, apontava quasi o mar a natureza intemerata. A população total cabia folgadamente em cinco algarismos.

Assegura Brandonio que as tres capitanias do Norte poderiam pôr em campo mais de 10.000 homens armados, isto é, deviam contar pelo menos 40.000 almas. Palpavel exagero: em todas as capitanias juntas mal passaria desta somma a gente de procedencia portugueza.

A camada infima da população era formada por escravos, fillios da terra e africanos. Aquelles apparecem em menor numero, em consequencia da população indigena ser pouco densa; os Jesuitas e depois as outras ordens, mais ou menos, a exemplo destes, prégaram pela liberdade dos indios tornando precaria sua posse; finalmente, a experiencia tem demonstrado a superioridade dos Africanos para o trabalho.

“Neste Brasil, diz Brandonio, se ha criado um novo Guiné com a grande multidão de escravos vindos de lá que nelle se acham, em tanto que em algumas capitanias ha mais delles que dos naturaes da terra, e todos os homens que nelles vivem têm mettida quasi toda a sua fortuna em semelhante mercadoria. Todos fazem sua grangearia com escravos de Guiné, que para esse effeito compram For subido preço... o de que vivem é sómente do que grangeiam com taes escravos...”

Acima deste rebanho, sem terra e sem liberdade, seguiam-se os Portuguezes de nascimento ou de origem, sem terras, porém livres, vaqueiros, feitores, mestres de assucar, officiaes mecanicos, vivendo de seus salarios ou do feitio de obras encommendadas.

Vinham depois, já donos de terrenos, os criadores de gado vaccum. Seu numero era exiguo, exigia a importancia de sua classe. O territorio colonizado limitava-se quasi á zona da mata, onde ogado não prospera facilmente e cumpria defender os cannaviaes e outras plantações de seus ataques. Medidas defensivas tomaramse mais tarde, ou já começavam a ser tomadas; mas o desenvolvimento deste ramo, destinado a assumir tão vastas proporções ainda no decurso daquelle seculo, deve-se sobretudo ao afastamento do gado para longe da ourela litoreanea, evitando a mata, procurando os campos, mais tarde certas catingas menos invias, separando a lavoura do que com alguma lisonja se poderia chamar industria criadora.

Os lavradores de menor cabedal, ou terras menos ferazes, cultivavam mantimentos: milho, arroz, mandióca. Dos dois primeiros não faziam grande consumo as capitanias, — São Paulo era excepção quanto ao milho. No preparo da mandioca usavam de grande roda movida a mão para reduzi-la á massa, de prensa para enxuga-la e extrahir a tapióca; a farinha cozia-se em alguidares ou tachos, — talvez no Rio de Janeiro, onde muito tempo preponderou esta producção e este commercio, empregassem logo grandes formos. Com tachos só se podia cozer pouca farinha de cada vez; por isso é natural que a safra não se colhesse toda numa estação como agora, porém durasse o anno inteiro. No tempo de Pero de Magalhães de Gandavo parece que se fazia farinha diariamente, a maneira de pão hoje em dia nas cidades mais povoadas. O alqueire, duas vezes e meia maior que o de Portugal, custava trezentos, duzentos e cincoenta réis, ás vezes menos no principio do seculo XVII.

É provavel que fossem lavradores destes os que plantavam algodão, vendido a 2$000 a arroba, depois de descaroçado no machinismo rudimentar da machina, encontrado ainda agora no interior e descripto pelos viajantes europeus vindos depois da transmigração da familia real; os que mandavam páu-brasil e depois de debastado vendiam-no aos contratadores ao preço de 700 e 800 réis o quintal; os que do sertão traziam madeira e depois de trans- formada em caixões vendiam-nos aos fabricantes de assucar á ra- zão de 450 a 500 réis cada um, ou serrada em pranchões exporta- vam-na para o Reino. Um lavrador de mantimentos que reunisse todos esses achêgos podia lucrar tanto como um senhor de engenho de primeira ordem.

Engenhos havia movidos por agua e por bois; servidos por car- ros ou barcos; situados á beira-mar ou mais afastados, não muito, porque as difficuldades de communicações só permittiriam arcus de limitados raios; havia-os sufficientes para produzir mais de dez mil arrobas de assucar e incapazes de dar um terço desta somma. Imaginemos um engenho schematico para termo de comparação: do schema os engenhos existentes divergiam mais ou menos, como é natural.

Devia possuir grandes cannaviaes, lenha abundante e proxi- ma, escravaria numerosa, boiada capaz, apparelhos diversos, moen- das, cobres, formas, casas de purgar, alambique; devia ter pessoal adestrado, pois a materia prima passava por diversos processos an- les de ser entregue ao consumo; dahi certa divisão muito imper- feita de trabalho, sobretudo certa divisão de producção. O produ- eto era directamente remettido para além-mar; de além-mar vinha o pagamento em dinheiro ou em objectos dados em troca e não eram muitos fazendas finas, bebidas, farinha de trigo, em summa, antes objectos de luxo. Por luxo podiam comprar os mantimentos aos lavradores menos abastados e isto era usual em Pernambuco, tanto que entre os aggravos dos Pernambucanos contra os Hollandezes capitulava-se o de por estes terem sido obrigados a plantar certo numero de cóvas de mandióca.

Tirando isto, o engenho representa uma economia autonoma; para os escravos tecia-se o panno alli mesmo; a roupa da familia era feita no meio della; a alimentação constava de peixe pescado em jangadas ou, por outro modo, de ostras e mariscos apanhados nas praias e nos mangaes, de caça pegada no mato, de aves, cabras, porcos para as bandas do Sul, para as do Norte ovelhas principalmente, criadas em casa: dahi a facilidade de agasalhar convivas inesperados, e dahi a hospitalidade colonial, tão caracteristica ainda hoje de lugares pouco frequentados. De vaccas leiteiras havia curraes, poucos, porque não fabricavam queijos nem manteiga; pouco se consumia carne de vacca, pela difficuldade de criar rezes em lugares improprios á sua propagação, pelos inconvenientes para a lavoura resultantes de sua propagação, que reduziu este gado ao estrictamente necessario ao serviço agricola. Um trecho de Frei Vicente do Salvador esclarecia melhor a situação geral: “Não notei en isto tanto, escreve o historiador bahiano, quanto o vi notar a um bispo de Tucuman, da ordem de São Domingos, que por algumas destas terras passou para a Côrte. Era grande canonista, homem de bom entendimento e muito rico; notava as cousas e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe e nada lhe traziam, porque não se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas cousas e outras muitas a casas particulares lh’as mandavam. Então o bispo: “Veramente que nesta terra andam as cousas trocadas, porque toda ella não é Republica, sendo-a cada casa”. E assim é que estando as casas dos ricos (ainda que seja á custa alheia, pois muitos devem o que têm) providas de todo o necessario, porque têm escravos pescadores e caçadores que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e azeite que compram por junto, nas villas muitas vezes se não acha isto de venda.” — [Historia do Brasil, ps. 16-17, ed. de 1918].

Alguns dos senhores de engenho tinham lojas, ou alguns dos mercadores tinham engenhos, — para o caso presente é a mesma cousa; o caracteristico na mercearia eram o commercio de cousignação, que continuou ainda depois da independencia, o trafico de mascates que iam pelos lugares afastados, como ainda hoje, levar miudezas; e mais que tudo, as vendas a credito, ou permutação de generos. A vida economica tinha suas faces: nas transacções internacionaes ou antea inter-oceanicas era a moeda o typo a que tudo se referia; nas transacções internas dominavam o naturalismo economico, a permuta do genero contra genero, ou emprestimo de geberos, e encontravam-se aqui todos os caracteristicos ou quasi que Hildebrand apuron para esta phase de humanidade.

“Quando os diversos haveres são permutados immediatamente á medida da superabundancia e da necessidade, existe a circulação natural, e todo povo começa a sua carreira economica pela carreira naturalista. Della são particularidades caracteristicas:

  1. — Circulação de haveres, lenta, geralmente localizada, extremamente irregular, por isso muito pouca divisão de trabalho;
  2. — Falta de capitaes, porque fallecem meios para poupar e assim falta o impulso para a formação de capitaes;
  3. — Completa dependencia da natureza, apathia quanto no futuro, oscillação constante entre a superabundancia e a penuria;
  4. — Falta a classe de capitalistas; mesmo depois de definidas as differenças de classe, só ficam em frente uns dos outros como factores unicos da producção os possuidores do solo e os trabalhadores;
  5. — Só a propriedade de terras dá poder e consideração; o trabalhador, que nada possúe della, depende inteiramente do trabalho e fica adscripto á gleba, pela qual tem de prestar serviços forçados e pagar impostos naturalisticos; o Estado remunera o serviço pela concessão de terrenos; forma-se o Estado feudal; —
  6. — A coacção do trabalhador, a improbabilidade de melhorar de condição difficulta todo progresso consideravel; por isso vigora a maior estabilidade.”[1]

A falta de capitaes restringia muito as manifestações da vida collectiva: não havia fontes, nem pontes nem estradas. As igrejas, as casas do Conselho, as cadeas eram feitas pelo Governo, ou com dinheiro vindo de além-mar, ou com impostos cobrados desapiedadamente. Para as casas e concertos de diversas obras não se podiam dispensar os subsidios do erario. Só as Casas de Misericordia deviam-se exclusivamente ou quasi á iniciativa particular, incitada talvez por motivos egoistas mais ainda que por altruismo. As sédes de capitanias, mesmo as mais prosperas, eram lugarejos insignificantes; a gente abastada possuia ahi predios, mas só os occupava no tempo das festas; lojistas, officiaes, tinham de accumular officios para viver com certa folga.

Ajunte-se a isto a desaffeição pela terra, facil de comprehender se nos transportarmos ás condições dos primeiros colonos, abafados pela mata virgem, picados por insectos, envenenados por ophidios, expostos ás feras, ameaçados pelos indios, indefesos contra os piratas, que começaram a acudir apenas souberam de alguma roupa a roubar. Mesmo se sobejassem meios, não havia disposi ção para metter mãos a obras destinadas aos vindouros; esfolava-se eruamente a terra; tratava-se de ganhar fortuna o mais depressa possivel para ir desfructa-la além-mar, onde se encontravam commodidades, abundavam attractivos, a crosta de civilização não se empinava incontrastavel e perenne. Assegura Pedro de Magalhães que os velhos acostumados ao paiz daqui não queriam sair mais, é possivel; dos moços, a quem não intimidavam a demora e os perigos das largas travessias, de organismos rijos para os caprichos e carrancas da zona temperada, testemunhas contestes affirmam o contrario. Como hoje o portuguez que viveu nesta ao voltar para sua terra ganha o nome de brasileiro, talvez então o mazombo ido para a metropole torna com os fóros de lidimo portuguez, ou reinol, como então se chamava, e isto era mais um incitamento á viagem.

Desaffeição igual á sentida pela terra nutriam entre si os diversos componentes da população.

Examinando superficialmente o povo, discriminavam-se logo tres raças irreductiveis, oriunda cada qual de continente diverso entre as quaes nada favorecia a medra de sentimentos de benevolencia. Tão pouco apropriados a essa floração delicada, antolhavam-se seus descendentes mestiços, mesclados em proporção instavel quanto á receita da pelle e à dosagem do sangue, medidas naquelle tempo, quando o phenomeno estranho e novo em toda a energia do estado nascente, tendia a observação ao requinte e atiçava os sentidos até exacerba-los, medidas e pesadas com uma precisão de que nem podemos formar idéa remota, botos como ficamos ante o facto consumado desde o berço, indifferentes ás pelles de qualquer aviação e ás dynamísações do seu sangue em qualquer ordinal.

Ao lado destes factores dispersivos de natureza ethnographica formavam outros mais de ordem psychologica. Tem sido notado que nas colonias geralmente se distinguem muito as pessoas de raça dominante nascidas na metropole e as nascidas na dependencia. Entre os nossos vizinhos da America latina os filhos de espanhóes chamavam-se criôlos, nome dado entre nós aos negros aqui nascidos; em Gôa os filhos de portuguezes chamavam-se castiços; de nossa terra os nomes dos portuguezes em differentes pontos dariam materia a um glossario; naquelle tempo eram chamados reinóes, como os filhos de portuguezes aqui nascidos chamavam-se mazombos. A simples existencia do nome dá a entender uma especie de capitis diminutio (pelo menos a principio; mais tarde, o padre Antonio Vieira, nascido aliás, no além-mar, em uma carta diz-se mazombo). De ter isto realmente succedido póde-se apresentar como prova o facto do inglez Knivet, que passon do seculo XVI ao XVII amargando no captiveiro de Salvador Corrêa de Sá, chamar ao filho deste, Martim de Sá, de mulato; foi o termo de sua lingua que mais proprio lhe pareceu para exprimir a força de mazombo.

Parece que no Brasil a differença entre o indigena e o alienigena da mesma raça ainda passou adiante: moleque foi talvez o nome dado pelos africanos a seus parceiros nascidos no aquemmar; caboclos eram primitivamente chamados os indios catechizados em aldêas pelos Jesuitas e seus rivaes de catechese.

Esse estado centrifugo começou a ceder desde a terceira e quarta decadas do seculo XVII. Reinóes, mazombos, moleques, caboclos, mulatos, mamalucos, todas as denominações se sentiam com todas as differenças que os apartavam irreductivelmente, mais proximos uns dos outros que dos Hollandezes, e dahi a guerra que de 1624 a 1654 não se interrompen emquanto o invasor calcou o solo da patria. O mesmo sentimento de solidariedade foi-se avigorando a ponto de que ao primeiro e segundo decennios do seculo XVIII o Portuguez passou á categoria de inimigo, e rebentaram as guerras dos Mascates entre Pernambucanos e dos Emboabas entre os Paulistas.

Antes disto já se effectuára a fundição de Brandonio quando a respeito da terra assim dizia a Alviano:

“Condenso minha pouca memoria em vos dizer que isto se remediará quando a gente que houver no Brasil fôr por mais daquella que de presente se ha mister para o grangeamento dos engenhos de fazer assucares, lavoura e mercearia, porque então os que ficarem sem occupação de força hão de buscar alguma de novo de que lançar mão, e por esta maneira se farão, uns pescadores, outros pastores, outros hortelões, e exercitarão os demais officios, dos que hoje não ha nesta terra na quantidade que era necessario houvesse. E com isto assim succeder, logo não haveria falta de nada, e a terra abundaria de tudo o que lhe era necessario, enxergandose ao vivo a sua grande fertilidade e abundancia, com não ter necessidade de cousa nem uma das que se trazem de Portugal; e quando o houvesse fôra de poucas”.

 

 

Os esforços até hoje tentados para levantar o anonymato dos Dialogos das Grandezas do Brasil têm sido perdidos. Para que aventar novas hypotheses? A quem quizer tentar a aventura pódem ser indicados dois rastros novos:

A) Diz Brandonio que em 1583 estava a seu cargo o recebimento dos dizimos de assucar na capitania de Pernambuco e accrescenta, que era então novo na terra. Entre os contratadores de dizimos da terra conhecemos Bento Dias de Santiago, que entrou nas guerras de Duarte de Albuquerque Coelho, segundo donatario, feitas depois do embarque de Jorge de Albuquerque em 1565 [Frei Vicente do Salvador, Historia do Brasil, ps. 198, ed. de 1918]. Um alvará de 12 de Fevereiro de 1572 manda levar-lhe em conta certa quantia de dinheiro; outro de 23 de Dezembro de 1575 designa-o como contratador dos dizimos de Pernambuco e Itamaracá. Documentos existentes por cópia na bibliotheca do Instituto Historico inostram que Bento Dias de Santiago arrematou os dizimos de Pernambuco em 1576, 1577, 1578, 1582, 1583, 1584 e 1585. Nos ultimos annos arrematou igualmente os da Bahia. No de 1583 obteve uma moratoria de dez dias em seus pagamentos, equivalente aos dez dias supprimidos em Outubro do anno anterior, quando se poz em vigor o calendario gregoriano.

Bento Dias de Santiago, morador em Pernambuco desde 1565, não podía dizer-se novo na terra em 1583, e está fóra de combate; inas um documento de 1582 permitte-lhe nomear escrivães para assistir á sahida dos assucares, outro de 1583 fala em seus feitores. O autor dos Dialogos das Grandezas do Brasil póde ter sido seu feitor ou escrivão: póde ter sido seu parente. Um dos historiadores da guerra pernambucana Diogo Lopes de Santiago, embora caprichosamente Barbosa Machado o considere natural da cidade do Porto, o nome está indicando como pertencente á familia. Por que della seria a primeira pessoa amante de escrever?

B) Passemos ao outro rastro.

Barcia affirma que o autor dos Dialogos se chamava Brandão, e era vizinho de Pernambuco. Provavelmente concluiu isto da leitura do livro. A conclusão nada tem de repugnante: podia apresentar-se com o nome ligeiramente alatinado, como sem alatinamento apparece Garcia da Orta em seus Coloquios, que o nosso autor conhecia.

Os documentos contemporaneos falam em diversos Brandões: o que tem mais probabilidades, ou antes o unico a ter probabilidades a seu favor, chamava-se Ambrosio Fernandes Brandão, e a respeito delle encontra-se o seguinte na Historia de Frei Vicente do Salvador, e, em uma sesmaria descoberta pelo meritorio Irineu Joffily:

Morava em Pernambuco em 1583, e acompanhou Martim Leitão em uma de suas expedições contra os Francezes e Indios do Parahiba, no posto de capitão de mercadores.

Antes de 1613 estabeleceu-se na Parahiba, foi por muitas vezes como capitão de infantaria á guerra contra os gentios Petiguares e Francezes.

Antes de 1613 possuia dois engenhos proximos á séde da Capitania chamados Inobi, por outro nome de Santos Cosme e Damião, e o do Meio ou São Gabriel.

Em 1613 pediu para fazer outro engenho na ribeira de Gurgaú, uma sesmaria, que de facto lhe foi concedida a 27 de Novembro de 1613.

Ignora-se quando falleceu; já não era dos vivos quando os Hollandezes tomaram a Parahiba. Os herdeiros de Brandão emigraram; a Companhia das Indias Occidentaes confiscou os tres engenhos, vendeu-os a um negociante de Amsterdam chamado Isaac de Rasière, que ao Inobi chrismou Amistel, ao de São Gabriel chrismou Middelburg, ao de baixo chrismou La Rasière.

Depois da restauração contra os Hollandezes os engenhos dos Brandões caíram nas mãos de João Fernandes Vieira.

É pelo menos o que assegura um parente de André Vidal de Negreiros, em cujas palavras Varnhagen se louva.

J. Capistrano de Abreu.

Notas

  1. J. Conrad — Nationale Ekonomie, Jena, 1898.