Caramuru/I
CANTO I.
I.
De hum Varão em mil caſos agitado,
Que as praias diſcorrendo do Occidente,
Descubrio o Reconcavo affamado
Da Capital Brazilica potente:
Do Filho do Trovão denominado,
Que o peito domar ſoube á fera gente;
O valor cantarei na adverſa ſorte,
Pois ſó conheço Heróe quem nella he forte.
II.
Santo Eſplendor, que do Grão Padre manas
Ao ſeio intacto de huma Virgem bella,
Se da enchente de luzes Soberanas
Tudo diſpenſas pela Mãi Donzella;
Rompendo as ſombras de illusões humanas,
Tu do grão caſo a pura luz revéla;
Faze que em ti comece, e em ti conclua
Eſta grande Obra, que por fim foi tua.
III.
E vós, Principe excelſo, do Ceo dado
Para baſe immortal do Luſo Throno;
Vós, que do aureo Brazil no Principado
Da Real ſuceſsão ſois alto abono:
Em quanto o Imperio tendes deſcançado
Sobre o ſeio da paz com doce ſonno,
Não queirais dedignar-vos no meu metro
De pôr os olhos, e admitillo ao ſcetro.
IV.
Nelle vereis Nações deſconhecidas,
Que em meio dos Sertões a Fé não doma;
E que pudérão ſervos convertidas
Maior Imperio, q̃ houve em Gracia, ou Roma:
Gentes vereis, e Terras eſcondidas,
Onde, ſe hum raio da verdade aſſoma,
Amanſando-as, tereis na turba immenſa,
Outro Reino maior que a Europa extenſa.
V.
Devora-ſe a infeliz, miſera Gente;
E ſempre reduzida a menos terra,
Virá toda a extinguir-ſe infelizmente;
Sendo em campo menor maior a guerra.
Olhai, Senhor, com reflexão clemente
Para tantos Mortaes, que a brenha encerra;
E que, livrando deſſe abyſmo fundo,
Vireis a ſer Monarca de outro Mundo.
VI.
Príncipe, do Brasil, futuro dono,
Á Mãi da Patria, que adminiſtra o mando,
Ponde, excelſo Senhor, aos pés do Throno
As deſgraças do Povo miſerando:
Para tanta eſperança he o juſto abono,
Voſſo titulo, e nome, que invocando,
Chamará, como a outro o Egypcio Povo,
D. Joſé Salvador de hum Mundo novo.
VII.
Nem podereis temer, que ao ſanto intento
Não ſe nutrão Heróes no Luſo povo,
Que o antigo Portugal vos apreſento
No Brasil renaſcido, como em novo.
Vereis do domador do Indico aſſento
Nas guerras do Brazil alto renovo,
E que os ſeguem nas bellicas idéias
Os Vieiras, Barretos, e os Correas.
VIII.
Dai por tanto, Senhor, potente impulſo,
Com que poſſa entoar ſonoro o metro
Da Brazilica gente o invicto pulſo,
Que aumenta tanto império ao voſſo Scetro;
E em quanto o povo do Brazil convulſo[1]
Em nova lyra canto, em novo pletro,
Fazei que fideliſſimo ſe veja
O vosso Throno em propagar-ſe a Igreja.
IX.
Da nova Luſitania o vaſto eſpaço
Hia a povoar Diogo, a quem biſonho
Chama o Brazil, temendo o forte braço,
Horrivel filho do trovão medonho:
Quando do abyſmo por cortar-lhe o paſſo
Eſſa Furia ſahio, como ſupponho,
A quem do Inferno o Paganiſmo aluno,
Dando o Imperio das aguas, fez Neptuno.
X.
O grão Tridente, com que o mar commove,
Cravou dos Orgãos na montanha horrẽda,[2]
E na eſcura caverna, adonde Jove
(Outro eſpirito) eſpalha a luz tremenda,
Relampagos mil faz, coriſcos chove;
Bate-ſe o vento em horrida contenda:
Arde o Ceo, zune o ar, treme a montanha,
E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha.
XI.
O Filho do trovão, que em baixel hia
Por paſſadas tormentas ruinoſo,
Vê que do groſſo mar na traveſſia
Se ſorve o lenho pelo pégo undoſo;
Bem que conſtante, a morte não temia,
Invoca no perigo o Ceo piedoſo;
Ao ver que a furia horrivel da procélla
Rompe a náo, quebra o leme, e arranca a véla.
XII.
Lança-ſe ao fundo o ignivomo inſtrumento,
Todo o pezo ſe alija; o paſſageiro,
Para nadar no tumido Elemento,
A taboa abraça, que encontrou primeiro;
Quem ſe arroja no mar temendo o vento;
Qual ſe fia a hum batel; quem a hũ madeiro,
Até que ſobre a penha, que a embaraça,
A quilha bate e a náo ſe deſpedaça.
XIII.
Sete ſómente do batel perdido
Vem á praia cruel, luctando a nado;
Offerece-lhe hum ſoccorro fementido
Barbara multidão, que acode ao brado:
E ao ver na praia o Bemfeitor fingido,
Rende-lhe as mãos o naufrago enganado:
Triſtes! que a ver algum, qual fim o eſpera
Com quanta ſede a morte não bebêra!
XIV.
Já eſtava em terra o infauſto naufragante,
Rodeado da turba Americana;
Vem-ſe com paſmo ao pôrem-ſe diante,
E huns aos outros não crem da eſpecie humana:
Os cabellos, a côr, barba, e ſemblante
Fazião crer aquella Gente inſana,
Que alguma eſpecie de animal ſeria,
Deſſes, que no ſeu ſeio o mar trazia.
XV.
Algum chegando aos miſeros, que a arêa
O mar arroja extinctos, nota o vulto;
Ora o tenta deſpir, e ora recea
Não ſeja aſtucia, com que o aſſalte occulto.
Outros do Jacaré tomando a idéa[3]
Temem que acorde com violento inſulto;
Ou que o ſomno fingindo os arrebate,
E entre as prezas crueis no fundo os mate.
XVI.
Mas vendo a Sancho, hum naufrago que eſpira,
Rota a cabeça n’huma penha aguda,
Que hia tremulo a erguer-ſe, e que cahira,
Que com voz laſtimoſa implora ajuda:
E vendo os olhos, que elle em branco vira;
Cadaverica a face, a boca muda,
Pela experiencia da commua sorte
Reconhecem tambem que aquillo he morte.
XVII.
Correm depois de crello ao paſto horrendo;
E retalhando o corpo em mil pedaços,
Vai cada hum famelico trazendo,
Qual hum pé, qual a máo, qual outro os braços:
Outros da crua carne hião comendo;
Tanto na infame gula erão devaſſos:
Taes ha, que as aſsão nos ardentes foſſos,
Alguns torrando eſtão na chamma os oſſos.
XVIII.
Que horror da Humanidade! ver tragada
Da propria eſpecie a carne já corrupta!
Quanto não deve a Europa abençoada
Á Fé do Redemptor, que humilde eſcuta?
Não era aquella infamia praticada
Só deſſa gente miſeranda, e bruta;
Roma, e Carthago o ſabe no nocturno
Horrivel ſacrificio de Saturno.[4]
XIX.
Os ſete em tanto, que do mar com vida
Chegárão a tocar na infame arêa,
Paſmão de ver na turba recreſcida
A brutal catadura, horrida, e fea:
A côr vermelha em ſi, moſtrão tingida
De outra côr differente, que os affèa:
Pedras, e páos de embiras enfiados,[5]
Que na face, e nariz trazem furados.
XX.
Na boca em carne humana enſanguentada
Anda o beiço inferior todo cahido;
Porque a, tem toda em roda esburacada,
E o labro de vís pedras embutido:
Os dentes (que he belleza que lhe agrada)
Hum ſobre outro deſponta recreſcido:
Nem ſe lhe vê naſcer na barba o pello,
Chata a cara, e nariz, rijo o cabello.
XXI.
Vê-ſe no ſexo recatado o pejo,
Sem mais que a antiga gala que Eva uſava,
Quando por pena de hum voraz desejo
Da ſêa a deſnudez ſe envergonhava:
Vão ſem pudor com barbaro deſpejo
Os homens, como Adão ſem culpa andava;
Mas vê-ſe, alma Natura, o que lhe ordenas;
Porque no Sacrificio usão de penas.
XXII.
Qual das bellas Araras traz viſtoſas
Louras, brancas, purpureas, verdes plumas:
Outros põem, como tunicas luſtroſas,
Hum verniz de balſamicas eſcumas:
Nem temem nelle as chuvas procelloſas,
Nem o frio rigor de aſperas brumas;
Nem ſe receão do mordaz biſouro,
Qual Anta, ou qual Tatú dentro em ſeu couro.[6]
XXIII.
Por armas, fréchas, arcos, pedras, béſtas;
A eſpada do pao ferro, e por eſcudo
As redes de algodão nada moleſtas,
Onde a ponta ſe embace ao dardo agudo:
Por capacete nas guerreiras teſtas
Cintos de pennas com galhardo eſtudo; braço.
Mas o vulgo no belico ameaço
Não tem mais q̃ unha ou dente, ou punho ou
XXIV.
Deſta arte armada a multidão confuſa
Inveſte o naufragante enfraquecido,
Que ao ver ſe deſpojar, nada recuſa;
Porque ſe enxugue o madido. veſtido:
Tanto mais pelo mimo, que ſe lhe uſa,
Quando a barbara gente o vê rendido:
Trouxerão-lhe abatata, o coco, o inhame;[7]
Mas o que crem piedade he gula infame.
XXV.
Cevavão deſta fórma os deſditoſos
Das fadigas maritimas desfeitos:
Por pingues ter os paſtos horroroſos,
Sendo nas carnes miſeras refeitos:
Feras! mas feras não; que mais monſtruoſos
São da noſſa alma os barbaros effeitos:
E em corrupta razão mais furor cabe,
Que tanto hum bruto īmaginar não ſabe.
XXVI.
Não mui longe do mar na penha dura
A boca eſta de hum antro mal aberta,
Que horri vel dentro pela ſombra eſcura,
Toda he fora de ramas encuberta:
Alli com guarda á viſta ſe clauſura
A infeliz companhia, eſtando alerta,
E por cevallos mais, dão-lhe o recreio
De ir pela praia em placido paſſeio.
XXVII.
Diogo então, que á gente miſeranda,
Por ſer de nobre ſangue precedia,
Vendo que nada entende a turba infanda,
Nem do ferreo moſquete uſar ſabia;
Da rota náo, que ſe deſcobre á banda,
Polvora, e bala em copia recolhia;
E como enfermo, que no paſſo tarda,
Servio-ſe por baſtão de huma eſpingarda.
XXVIII.
Forte ſim, mas de tempra delicada,
Aguda febre traz deſde a tormenta;
Pállido o roſto, e a côr toda mudada;
A carne ſobre os oſſos macilenta:
Mas foi-lhe aquella doença affortunada,
Porque a gente cruel guardallo intenta,
Até que ſendo a ſi reſtituido,
Como os mais vão comer, ſeja comido.
XXIX.
Barbarie foi (ſe crê) da antiga idade
A propria prole devorar naſcida;
Deſde que eſſa cruel voracidade
Fora ao velho Saturno attribuida:
Fingimento por fim, mas he em verdade,
Invenção do diabolico homicida,
Que huns cá ſe matão, e outros lá ſe comem:
Tanto aborrece aquella furia ao homem.
XXX.
Mas já tres veres tinha a Lua enchido
Do vaſto globo o luminoſo aſpecto,
Quando o Chefe dos barbaros temido
Fulmina contra os ſeis o atroz decreto:
Ordena que no altar ſeja offrecido
O brutal ſacrificio em ſangue infecto,[8]
Sendo a cabeça ás victimas quebrada,
E a gula infanda de os comer ſaciada.
XXXI.
Em tanto que ſe ordena a brutal feſta,
Nada ſabião na marinha gruta
Os habitantes da prizão funeſta;
Que ardiloſa lho eſconde a gente bruta:
E em quanto a feral pompa já ſe apreſta,
Toda a pena em fayor ſe lhe commuta;
Nem parecem ter dado a menor ordem,
Senão que comão, e comendo engordom.
XXXII.
Mimoſas carnes mandão, doces frutas
O araças, o cajû, coco, e mangaba;
Do bom maracuia lhe enchem as grutas
Sobre rimas, e rimas de Guaiaba:
Vaſilhas põem de vinho nunca enxutas,
E a immunda catimpocira, que da baba[9]
Fazer coſtuma a barbara patrulha,
Que ſó ds ouvillo o eſtomago ſe embrulha.
XXXIII.
Hum dia pois que a ſombra deſeiada
Se repousão, paſſando a calma ardente,
Por dar alli vio á dor reconcentrada,
De ver-ſe oſcrayos de tão fera gente;
Fernando, hum delles, diz, que aos mais agrada
Por cantigas, que entoa docemente,
Que em cithara, que o mar na terra langa,
Se divirtão da funebre lembrança.
XXXIV.
Mancebo era Fernando mui polido,
Douto em Letras, e em̄ prendas celebrado,
Que nas Ilhas do Atlantico naſcido,
Tinha mnuito co’as Muſas converſado:
Tinha elle os rumos do Brazil ſeguido,
Por ver o monumento celebrado
De huma Eſtatua famoſa, q̃ n’hum pico[10]
Aponta do Brazil ao Paiz rico.
XXXV.
Pedíra-lhe Luiz, que iſto eſcutára,
Da profetica Eſtatua o conto inteiro,
Se fōi verdade, ſe invencão foi clara
De gente rude, ou poyo nō veleiro:
Fernando entao, que em metro ja cantára
O ſucceſſo, que atteſta verdadeiro,
Toma nas mãos a cithara ſuave,
E entoando, comega em canto grave.
XXXVI.
Occulto o tempo foi, incerta a éra,
Em que o grão caſo contão ſuccedido;
Mas em parte he ſem dúvida ſincera
A bella Hiſtoria, que a eſcutar convido;
Felis foi o ditoſo, e feliz era
Quem tanto foi do Ceo favorecido.
Pois em meio ao corrupto Gentiliſmo
Merecer ſonbe a Deos o ſeu Baptiſmo.
XXXVII.
Incerto pelas brenhas caminha va
Hum Varão ſanto, que perdera a via,
Quando pelos cabellos o elevava
Q Anio. adonde o Sol já ſe eſcondia;
E hum ſalvagem lhe moſtra, q̃ ſe achava,[11]
Quaſi Iuctando em ultima agonia:
Ouve (lhe diz) o juſto agonizante,
E huma eſtrada de Iuz tomoū brilhante.
XXXVIII.
Auréo (que aſſim ſe chama o Sacro Enviado)
Encoſtando-ſe ao Velho titubante,
Por ignorar-lhe o idioma não fallado.
No ſeu diz, de que o enfermo era ignorante:
E ouve-ſe reſponder (caſo admirado!)
N’huma lingua de todo eſtravagante,
Que ſendo em tudo extraordinaria, e bruta,
Faz-ſe entender, e entende-o no que eſcuta.
XXXIX.
Do grande Creador por menſageiro
A benção (diz) te offereço, homem ditoſo;
Neſte Mundo ignorado em o primeiro,
Quer que o ſeu Nome eſcutes glorioſo:
Do Eterno Pai, de hum Filho verdadeiro,
Do Eſpirito tambem, laço amoroſo,
Quer que o Myſterio ſaibas da Verdade:
São tres Peſſoas n'huma ſó Unidade.
XL.
Hum ſó Senhor, que todo o ſer governa,
Que ſó com dizer ſeja o fez de nada;
Que á Natureza deſde a idade eterna,
Certa época fixou de ſer ercada:
Que abrindo liberal a mão paterna,
Toda a couſa abençoa, que he animada:
Que ſua imagem nos fez; e ſem ſegundo,
Quer q̃ o homem reine ſobre o vaſto Mundo.
XLI.
Que havendo em mil delicias collocado
Noſſos primeiros Pais n'hum Paraiſo,
Por homenagem deſſe Imperio dado,
Privou de hum pomo com ſevero aviſo;
Que, vendo o ſeu reſpeito profanado,
E igual ſatisfação ſendo preciſo,
No duro lenho a poz, no ferreo cravo,
E deo o filho por ſalvar o eſcravo.
XLII.
Eſte no ſeio pois de Virgem pura,
Invocada no nome de Maria,
Redemptor, Meſtre, e Luz da Creatura,
Naſceu, pregou, morreo na Cruz impia:
Rompeo do abyſmo a immovel fechadura;
Depois reſurge no terceiro dia;
E ao Ceo ſubindo em fim, donde commanda,
Aos fins da Terra os menſageiros manda.
XLIII.
Hum deſtes venho a ti: lavar-te intento,
Se queres aceitar meu Cateciſmo;
E ſervindo de porta o Sacramento,
Incorporar-te ao ſanto Chriſtianiſmo.
Purga o teu coração, teu penſamento,
Por chegar puro ás aguas do Baptiſmo,
Onde ſe entras com dor do mal primeiro,
De Jeſus Chriſto morrerás coherdeiro.
XLIV.
Aos primeiros accentos que eſcutára,
Guaçú (q̃ eſte he ſeu nome) a frente empena;
Attenda ao que ouve a orelha, e fixa a cara,
Senão que co'a cabeça a tudo acena:
Dos olhos mal ſe ſerve, que cegára,
Bem que a viſta pareça ter ſerena;
As mãos de quando em quando eſtende, e toca,
E pende attento da Sagrada boca.
XLV.
Bom Ministro (reſponde) do Piedoſo
Excelſo grão Tupá, que o Ceo modera,[12]
Não me vens novo, não: que tive o goſo
De ouvir-te em ſonho já; quem ver pudera!
Se a imagem tens, que o ſono fabuloſo
Ha muito, que de ti na mente gera!
Serás, diſſe, (e na barba o vai tocando)
Homem com barbas, branco e venerando.
XLVI.
Louvores a Tupá, que em fim chegaſte;
Que o caminho me enſinas, donde elejo
Buſcar logo o Graõ Deos, que m'annunciaſte,
Que deſde a infancia com ardor deſejo:
Nunca ſoube, aſſim he, quanto contaſte;
Mas não ſei, como o que ouço, e quaſi vejo
Sentia, como em ſombra mal formada;
Não que o creſſe ainda aſſim, mas por toada.
XLVII.
Vendo deſſe Univerſo a mole immenſa,
Sem ſer de ainda maior entendimento
Fabricada a não cri: que ele o diſpensa,
Tem, rege, e guarda, infere o penſamento:
Que repugna á creatura eſtar ſuſpenſa,
Sem ultimo fim ter notava attento:
E eſte Ente, que me fez hum Deos ſegundo,
He o grão Tupá, fabricador do Mundo.
XLVIII.
Vi as chagas da própria natureza,
A ignorância, a malicia, a variedade,
E bem reconheci, que eſta torpeza
Naſcer não pode da eternal bondade.
Onde, ſem o ſaber, cri, que era acceza
Neſte incendio commum da humanidade
Antiga chamma, donde o mal nos veio;
Crer que taes nos fez Deos.. eu tal não creio.
XLIX.
Também vi q̃ o Grão Deus, q̃ o Mundo cria,
Deixar nunca quizera em tanto eſtrago
A humana Natureza; e que a mão pia
De taes miſerias ao profundo lago
Havia de estender; como o faria?
Suſpenſo fiquei ſempre incerto, e vago;
Mas nunca duvidei que alguém ſe viſſe,
Que de tantas miſerias nos remiſſe.
L.
E como era a maior, que experimentava,
O ver que livremente o mal ſeguia;
Que a Suprema Bondade ſe aggravava,
Donde hum homem de bem ſe aggravaria:
Vendo que a affronta, que eſta acção cauſava,
Só ſe houvera outro Deos, ſe pagaria;
E impoſſivel mais de hum reconhecendo...
Daqui não paſſo, e cégo me ſuſpendo.[13]
- LI
Agora sim, que entendo a grã-verdade,
Que um só Deus se fez homem sem defeito;
E, sendo três pessoas na Unidade,
Do Filho ao Pai podia haver respeito.
A pessoa segunda da Trindade,
Novo homem, como nós, de terra feito,
A paz do homem com Deus fundar procura,
Redentor pio da mortal criatura.
- LII
Este creio, este adoro, este confesso;
E esta santa mensagem venerando
Por meu Deus e Senhor firme o conheço,
A quem da terra e céu pertence o mando.
Deste o batismo santo hoje te peço,
Onde, na porta celestial entrando,
Suba o espírito à glória que deseja
E com estes meus olhos ainda o veja."
- LIII
Disse o ditoso velho; e, acompanhando
Com devoto suspiro a voz que exprime,
Bem mostra que no peito o está tocando
A oculta unção do Espírito sublime,
As mãos ao céu levanta lagrimando;
E tanto ardor na face se lhe imprime,
Que acompanhar parece o humilde rogo
Um dilúvio de água, outro de fogo.
- LIV
Então o bom ministro: "É justo, amigo,
Que chores (lhe dizia) o teu pecado,
Por não amar a Deus; ser-lhe inimigo,
Se o blasfemaste: de o não ter honrado;
De não servir teus pais; de um ódio antigo;
E se não foste honesto, ou tens roubado;
Se em mulher, bens ou fama em caso feio
Fizeste dano, ou cobiçaste o alheio.
- LV
Esta a lei santa é, que em nós impressa
Ninguém ofende que mereça escusa,
Onde no que faltaste a Deus confessa,
Que tanto deve quem pecando abusa.
Quer se a satisfação com a promessa
De melhor vida, no que a lei te acusa;
Pois quem quer que pecou, que assim não faça,
Recebe o sacramento, mas não graça."
- LVI
"Eu, disse o americano, antes de tudo,
Amei do coração quem ser me dera:
Seu nome ignoro, mas honrá-lo estudo,
E com fé o adorei sempre sincera;
Em certos dias, recolhido e mudo,
Cuidava em venerar quem tudo impera;
Matar não quis, nem morto algum comia,
Pois que a mim mo fizessem não queria.
- LVII
Mulher tive, mas uma, persuadido
Que com uma se pode; ação impura
Meteu-me sempre horror, tendo entendido
Que só no matrimônio era segura;
Qualquer outro prazer fora proibido,
Porque, se entanto abuso se conjura,
Quem, seguindo esse instinto do demônio,
Se pudera lembrar do matrimônio?
- LVIII
Nunca roubei, temendo ser roubado;
Por conservar a fama, honrei a alheia;
Não me lembra de ter caluniado,
Nem de outrem disse mal, que é coisa feia:
E quem houvesse de outro murmurado
Que outro tanto lhe façam certo creia;
Não tive inveja do que alguém consiga,
Por ver que quem a tem seu mal castiga.
- LIX
Enfim, corri meus anos desde a infância
Sem ofender (que eu saiba) esta lei justa,
Sem ter à coisa boa repugnância,
Tudo mercê da mão de Deus augusta.
Nos meus males somente a tolerância
Mos fazia passar a menor custa:
Esta a minha ânsia foi, este o meu zelo,
Saber quem era Deus, tratá-lo e vê-lo."
- LX
Dizendo o velho assim, tanto se acende,
Como se n'alma se lhe ateara um fogo.
Reclina a humilde fronte e a voz suspende,
E, caindo em delíquio neste afogo,
Corre o ministro, que ao sucesso atende,
E buscando água que o batize logo;
Apenas "Félix, diz, eu te batizo,"
Partiu feliz dum vôo ao paraíso.
- LXI
Cuidava em sepultá-lo Auréo saudoso;
Porém de espessa névoa, que o ar condensa,
Ouve um coro entoando harmonioso
Louvor eterno majestade imensa;
E na atmosfera ali do ar nebuloso
Luz arraiando, que a alumia intensa
Viu Félix, que na glória que o vestia
A graça batismal lhe agradecia.
- LXII
"Que te conceda Deus, ministro justo,
(Diz-lhe a alma venturosa) o prêmio eterno;
Pois vens do antigo mundo a tanto custo
A libertar-me do poder do inferno.
Dos céus entanto o Dominante augusto
Que tornes manda ao ninho teu paterno,
E sobre a névoa em nuvem levantada
Vás navegando pela aérea estrada.
- LXIII
E quer na nuvem própria, que te indico
Que esse cadáver meu vá transportado,
E na ilha do Corvo, de alto pico
O vejam numa ponta colocado.
Onde acene ao país do metal rico,
Que o ambicioso europeu vendo indicado
Dará lugar que ouvida nele seja
A doutrina do céu e a voz da igreja."
- LXIV
Disse, e, cessando a voz e a visão bela,
Viu da nuvem Auréo, que o rodeava,
Transformar-se a bela alma em clara estrela,
E viu, que a nuvem sobre o mar voava;
O cadáver também sublime nela
Ao cume do grão-pico já chegava,
Onde a névoa, que no alto se sublima,
Depõe como uma estátua o corpo em cima.
- LXV
Ali batido do nevado vento,
De sol, de gelo e chuva penetrado,
Efeito natural, e não portento,
É vê-lo, qual se vê, petrificado.
Um arco tem por bélico instrumento,[14]
De pluma um cinto sobre a frente ornado,
Outro onde era decente, em cor vermelho,
Sem pêlo a barba tem, no aspecto é velho.
- LXVI
Voltado estava às partes do ocidente,
Donde o áureo Brasil mostrava a dedo,
Como ensinando à lusitana gente
Que ali devia navegar bem cedo.
Destino foi do Céu onipotente,
A fim que sem receio, ou torpe medo,
A piedosa empresa o povo corra,
E que quem morrer nela alegre morra."
- LXVII
Calou então Fernando, mas não cala
Na cítara dourada outra harmonia,
Onde parece a mão que também fala,
E que quanto a voz disse repetia.
Saíra entanto um bárbaro a escutá-la,
Que, encantado da doce melodia,
Toma nas mãos o músico instrumento,
Toca-o sem arte e salta de contento.
- LXVIII
Não pode ver dos nossos o congresso
Tanta rudeza sem tentar-se a riso,
Que, por mais que um pesar se tenha impresso,
Não da lugar a prevenção ao siso;
E, sendo inopinado algum sucesso,
Onde é nos homens quase o rir preciso,
Tal pessoa há que chora apaixonada
E passa do gemido a uma risada.
- LXIX
Diogo então, que dentro em si media
Da cruel gente a condição danosa,
Não sossega de noite nem de dia,
Antevendo a desgraça lastimosa;
E, vendo rir os mais com alegria,
Pela ação do selvagem graciosa,
Estranhou-lhe o prazer mal concebido,
Arrancando do peito este gemido:
- LXX
"Oh triste condição da humana vida,
Que tanto em breve do seu mal se esquece!
Pois vendo a liberdade enfim perdida,
Sentimos menos quando a dor mais cresce!
Vemos desde a água às praias despedida
A Infeliz gente que no mar perece,
E que o brutal gentio na mesm’hora,
Ainda bem os não vê, logo os devora.
- LXXI
Quem sabe se o cuidado que destina
Pôr-nos assim mimosos de sustento
Não é por ter de nós grata chacina
Nesse horrível, barbárico alimento?
Tanta atenção que têm mal se combina,
Sem mostrar-se o maligno pensamento;
Que quem os próprios mortos brutal come
Como é crível que aos vivos mate à fome?
- LXXII
Tempo fora, afligidos companheiros,
De levantar dos céus ao Rei supremo
Humildes vozes, votos verdadeiros,
Como quem luta no perigo extremo.
Mas vós que agora rides prazenteiros,
Oh quanto, amigos meus, oh quanto temo
Que essa gente cruel só nos namore,
Por cevar mais a presa que devore!
- LXXIII
Voltemos antes com fervor piedoso
Os tristes olhos ao etéreo espaço,
Esperando de Deus um fim ditoso,
Onde a morte se avista a cada passo.
Contrito o peito, o coração choroso,
Implore a proteção do excelso braço;
Que o coração me diz que, por desdita,
O cruel sacrifício se medita."
- LXXIV
Enquanto assim dizia, o herói prudente,
Comovido qualquer do temor justo,
Levanta humilde as mãos ao céu clemente,
Vendo o futuro com pressago susto:
Já cuida a cruel morte ver presente;
Já vê sobre a cabeça o golpe injusto;
Batem no peito e, levantando as palmas,
Fazem vítima a Deus das próprias almas.
- LXXV
Já numerosa
- LXXV
turba às praias vinha
E os seis levam ao corro miserando,
Onde a plebe cruel formada tinha
A pompa do espetáculo execrando;
E mal a gente bruta se continha,
Que, enquanto as tristes mãos lhe vão ligando,
No humano corpo pelo susto exangue,
Não vão vivo sorvendo o infeliz sangue.
- LXXVI
Qual se da Líbia pelo campo estende
O mouro caçador um leão vasto,
Em longa nuvem devorá-lo emprende
O sagaz corvo, sempre atento ao pasto;
Negro parece o chão, negro, onde pende
A planta, em que do sangue explora o rasto;
Até que avista a presa e em chusma voa,
Nem deixa parte que voraz não roa:
- LXXVII
Tal do caboclo foi a fúria infanda;
E o fanatismo, que na mente o cega,
Faz que, tendo esta ação por veneranda,
Invoque o grão-Tupá que o raio emprega.
No meio vê-se que em mil voltas anda
O eleito matador, como quem prega
A brados, exortando o povo insano
A ensopar toda a mão no sangue humano.
- LXXVIII
A roda, à roda! a multidão fremente
Com gritos corresponde à infame idéia;
Enquanto o fero em gesto de valente
Bate o pé, fere o ar e um pau maneia,
Ergue-se um e outro lenho, onde o paciente
Entre prisões de embira se encadeia;
Fogo se acende nos profundos fossos,
Em que se torrem com a carne os ossos.
- LXXIX
Dentro de uma estacada extensa e vasta,
Que a numerosa plebe em torno borda,
Entram os principais de cada casta
Com belas plumas, onde a cor discorda;
Outros, que a grenha têm com feral pasta
Do sangue humano, que ao matar transborda.
Os nigromantes são, que em. vão conjuro,
Chamam as sombras desde o Averno escuro.
- LXXX
Companheiras de ofício tão nefando,
Seguem de um cabo a turma e de outro cabo,
Seis torpíssimas velhas, aparando
O sangue sem um leve menoscabo.
Tão feias são, que a face está pintando
A imagem propriíssima do diabo;
Tinto o corpo em verniz todo amarelo,
Rosto tal, que a Medusa o faz ter belo.
- LXXXI
Têm no colo as cruéis sacerdotisas,
Por conta dos funestos sacrifícios,
Fios de dentes, que lhes são divisas
De mais ou menos tempo em tais ofícios.
Gratas ao céu se crêem de que indivisas
Se inculcam por tartáreos malefícios
E um testemunho do mister nefando,
Nos seus cocos com facas vêm tocando.
- LXXXII
Quem pode reputar que dor trespassa
A miseranda infausta companhia,
Vendo tais feras rodear a praça,
Que o sangue com os olhos lhe bebia?
Ver que os dentes lhe range por negaça,
Senão é que os agita a fome ímpia,
E dizer la consigo. "Em poucas horas
Sou pasto destas feras tragadoras".
- LXXXIII
Mas põe-lhe a vista o Padre Onipotente,
Da desgraça cruel compadecido,
E envia um anjo desde o Céu clemente,
Que deixe tanto horror desvanecido
E faça que o espetáculo presente
Venha por fim a ser sonho fingido;
Que quem recorre ao céu no mal que geme,
Logo que teme a Deus, nada mais teme.
- LXXXIV
Seis então dos infames Nigromantes
Lançaram mão das vítimas pacientes,
E a seis lenhos fatais, que ergueram d’antes,
Atam cruéis as mãos dos inocentes:
Postos no céu os olhos lacrimantes,
Com lembrar-se das penas veementes
Que sofreu Deus na cruz, nele fiados
Pediam-lhe o perdão dos seus pecados.
- LXXXV
Fernando ali, que em discrição precede,
Com voz sonora a companhia anima,
Cheio de viva fé, socorro pede;
E, quando a dor permite que se exprima:
"Grão-Senhor (diz) de quem tudo procede,
A glória, a pena, a confusão e a estima,
Que justo dás as graças e os castigos,
Na dor alívio, amparo nos perigos;
- LXXXVI
Vida não peço aqui, morte não temo,
Nem menos choro o caso desgraçado.
O que me dói, que sinto, o que só gemo
É, piedoso Deus, o meu pecado!
Feliz serei, Grão-Padre, se no extremo
For da tua bondade perdoado,
Pelo cálix amargo que aqui bebo,
Pela morte cruel que hoje recebo.
- LXXXVII
Mas, grande Deus, que vês nossa fraqueza
No duro transe desta cruel hora,
Não sofras que essas feras com crueza
Hajam de devorar a quem te adora;
Porque estremece a frágil natureza
Vendo a gula brutal, que emprende agora
Sacrifício fazer ao torpe abismo
Destas carnes tingidas no batismo!"
- LXXXVIII
Ouviu o céu piedoso a infeliz gente;
E, quando o fero a maça já levanta,
Que esmaga a fronte ao mísero paciente,
Trovão se ouve fatal, que tudo espanta.
Treme a montanha e cai a roca ingente
E na ruína as árvores quebranta;
Mas o que mais os brutos confundia,
Era o rumor marcial que se então ouvia.
- LXXXIX
Pedras, frechas e dardos de arremesso
Cobriam tudo o ar; porque o inimigo,
Que atrás se pôs de am próximo cabeço,
Aguarda expressamente aquele artigo.
De um lado e outro deste um mato espesso
Ameaça o furor, cerca o perigo;
E a gente crua, transformada a sorte,
Quanto cuidou matar, padece a morte.
- XC
Era Sergipe, o príncipe valente,
Na esquadra valorosa, que atacava;
Verão entre os seus bom, manso e prudente,
Que com justiça os povos comandava.
Armava o forte chefe de presente
Contra Gupeva, que cruel reinava
Sobre as aldeias, que em tal tempo havia
No recôncavo ameno, da Bahia.
- XCI
Por toda a parte o baiense é preso;
É trucidado o bruto nigromante;
Muitos lançados são no fogo aceso,
Rendem-se os mais ao vencedor possante.
Ficara em vida, todavia ileso
O mísero europeu, que ali em flagrante
Fez desatar o bom Sergipe e manda
À escravidão no seu país mais branda.
- XCII
Mas a gente infeliz, no sertão vasto,
Por matos e montanhas dividida,
É fama que uns de tigres foram pasto,
Outra parte dos bárbaros comida.
Nem mais houve notícia ou leve rasto
Como houvessem perdido a amada vida;
Mas há boa suspeita e firme indício
Que evadiram o infame sacrifício.
Notas
- ↑ ( 1 ) Povo convulſo. Epitheto, que dá Iſaias aos Americanos, como conjecturão os melhores Interpretes.
- ↑ ( 2 ) Serra dos orgãos. Ramo da célebre Cordilheira, que diſcorre pelo Brazil, ſahindo das ſuas cavernas nevoas tempeſtuoſas.
- ↑ ( 3 ) Jacaré. Huma eſpecie de Cocodrilo Brazilico.
- ↑ ( 4 ) Saturno. Os antigos Italianos forão, como ſe collige de Homero, Antropofagos; taes erão os Leſtrigões, e os Liparitanos. Os Fenicios, e os Carthaginezes uſárão de Victimas humanas, e Roma propria nos ſeus maiores apertos. São eſpecies vulgares na Hiſtoria.
- ↑ ( 5 ) Embiras. Eſpecie de cordão feito da caſca interior de algumas arvores.
- ↑ ( 6 ) Tatú. Eſpecie de animal cuberto de huma concha duriſſima, e impenetravel. Os Salvagens tingem-ſe com varias reſinas, ſenão com o fim, ao menos com o effeito de os livrar das mordeduras dos Infectos; ainda que alguns ſe tinjão com hervas inuteis para eſſe uſo.
- ↑ ( 7 ) Batata, Coco. Inhame. Frutos bem conhecidos ainda na noſſa Europa.
- ↑ ( 8 ) Sacrificio. He certo que os Brazilienſes não tinhão fórma alguma expreſſa de Sacrificio ; mas a ſolemne ſunção, e ritos, com que matavão os ſeus prizioneiros, parece com razão ao Padre Simão de Vaſconcellos na ſua Hiſtoria do Brazil, que erão hum veſtigio dos antigos Sacrifícios uſados dos Fenicios, de que aſſinia fallámos em outra Nota.
- ↑ ( 9 ) Vinho, Vem da America debaixo deſte nome
varios extractos de cajú, coco, e de outros frutos conhecidos, que podem competir com os noſſos vinhos.
Catimpoeira. Immunda bebida dos Salvagens, que maftigando o milho, fazem da ſaliva, e do ſucco meſmo do grão huma potagem abominável. - ↑ ( 10 ) Eſtatua. He eſtimada por prodigioſa a Eſtatua, que ſe vê ainda na Ilha do Corvo, huma das Açores, achada no deſcubrimento daquella Ilha ſobre hum pico, apontando para America. Foi achada ſem veſtigios, de que já mais alli habitaſſe peſſoa humana. Devo a hum Grande do noſſo Reino, Fidalgo eruditiſſimo, a eſpecie de que ſe conſerva huma Hiſtoria deſta Eſtatua manuſcripta, obra do noſſo immortal João de Barros.
- ↑ ( 11 ) Salvagem. Não ſuppomos uníco o Salvagem, que o Padre Anxieta achou em o Eſtado, que aqui ſe deſcreve. Muitos Theologos ſe perſuadem, que Deos por meios extraordinarios inſtruira a quem viveſſe na obſervancia da Lei Natural.
- ↑ ( 12 ) Tupá. Os Salvagens do Brazil tem expreſſa noção de Deos na palavra Tupá, que vale entre elles excellencia ſuperior, couſa grande que nos domina.
- ↑ ( 13 ) Suſpendo. Até aqui são os limites do Lume natural, e com elle ſómente o alcança a Filoſofia; porém o remedio da Natureza humana, ferida pela culpa, não póde conſtar-nos ſenão pela Revelação.
- ↑ ( 14 ) Hum arco. As memorias deſta Eſtatua concordão em ſer o ſeu traje deſconhecido : toma daqui occaſião o Poeta para o repreſentar arbitrariamente.