Cahetés/Capítulo V
V
O director da Semana mourejava na extracção de um dos seus complicados periodos, que ninguem entende. Tinha aberto o diccionario tres vezes. Soltou o livro com desanimo, olhou de esguelha para a banca de Isidoro e perguntou-me em voz baixa:
— Eucalypto é com i ou com y? Estou esquecido, e o diccionario não dá.
— Eucalypto... eucalypto... respondi indeciso. Tambem não sei, padre Athanasio. Oh Pinheiro, como é que se escreve eucalypto?
— Com p, ensinou Isidoro, solicito.
— Não é isso. Nós queremos saber se é com i, ou com y.
— Deve ser com i. Ou com y. Uma das duas, penso eu. O y, sempre é mais bonito. Para que eucalypto?
— Para plantar na beira do açude, explicou o vigario. Um conselho ao prefeito. Faltava um pedaço da segunda pagina.
Ageitou a volta, abotoou a batina, passou o lenço pelo rosto vermelho e suado, coçou o queixo enorme, enterrado entre os hombros, que lhe chegam quasi ás orelhas, e atirou de chofre uma das suas falas embaralhadas:
— Pois, meninos, não foi senão isto. Quem havia de suppor, hein? Estes diccionarios miudos não prestam. Faltava um pedaço da segunda pagina. E’ cavador! Parece que o eucalypto secca os pantanos. A gente abre e não encontra nunca o que procura. E dá belleza. Vem o sargento: “Quarenta linhas.” E’ cavador! é cavador!
— Quem é que é cavador, padre Athanasio? inquiriu Isidoro com um sorriso que lhe mostrava os largos dentes brancos.
O director da Semana pregou nelle os grandes bugalhos dos olhos surprehendidos, sacudiu a cabeça com um gesto de nervoso e engrolou uma explicação:
— O advogado, homem, esse Barroca. Tambem você não percebe nada. Foram os artigos, João Valerio, aquelles artigos. E’ cavador! Deputado, hein? Não foi senão isto. Os artigos. Quem havia de suppor?
— Eu conheci logo que elle me mostrou os originaes, acudi. Aquillo não mette prego sem estopa. Não lhe invejo o gosto. Tanta chaleirice, tanta baixeza, por uma cadeira na camara de Alagôas! E’ um pulha. Antes ficasse aqui, explorando os matutos, que fazia melhor negocio. Um idiota.
— Está enganado, retorquiu Isidoro. Tem talento. Entra deputado estadual e sai senador federal. Vai longe. Em tres annos será para ahi um figurão. Quem for vivo ha de ver. Intelligencia, e muita, é que ninguem lhe pode negar.
O vigario, que mordia de leve os beiços grossos, passou a mão pela testa, arrancou uma idéa:
— Talvez seja boato. Não ha certeza. Era conveniente dar uma noticia, mas não ha certeza.
— Ha, fez Isidoro. Foi o Neves que me contou. O Neves está no segredo da politica.
— Esse é outro, resmunguei. Você se dá com essa pustula? Mas Isidoro, que defende toda a gente, defendeu o Neves:
— Porque, homem? O Neves é inoffensivo.
— Um canalha, um maldizente.
— Como sabe você disso? Não priva com elle.
— Nem desejo.
— Pois então? E’ injustiça.
— Um calumniador, um miseravel.
Isidoro Pinheiro franziu a cara, com desconsolo, e padre Athanasio, que não gosta do Neves, censurou a violencia da minha linguagem:
— Leviandade, João Valerio. Não se offende assim uma pessoa ausente. Deixe para dizer isso a elle, se tiver razão para dizer. Razão e coragem. A nós, não.
Interrompeu-se, gritou para a saleta da typographia:
— Sargento, traga uma segunda prova dessa besteira.
O typographo, sargento reformado, sujo, magro, de casquette, entrou e poz sobre a mesa do reverendo duas provas muito manchadas. Padre Athanasio conferiu uma com a outra, corrigiu, continuou:
— A nós, não. Sapeque logo essa trapalhada, sargento. A nós, não. Que eu lorotas de espiritismo não tolero. E o Allan Kardec...
Concentrou-se um instante, os olhos arregalados, o beiço pendente. Depois accrescentou:
— O Allan Kardec e essa cambada, o William Crookes, o Flammarion, o João Licio Marques, um que apareceu agora... Como se chama elle? Que o Neves tem a lingua um bocado comprida, tem, eu reconheço. Tem, ora essa, seu Pinheiro! Tem, e o William Crookes é um parlapatão. Onde foi que já se viu defuncto conversando com gente viva?
Abracei o director da Semana, um amigo, sem ressentimento pelo que elle me havia dito:
— Está bem, padre Athanasio, fica o resto para outro dia. Ande lá, Pinheiro, isto é quasi meia noite.
Isidoro levantou-se, vestiu o jaquetão preto, poz o chapeo de grandes abas.
— Esperem ahi, bradou o vigario. Vamos deitar esse negocio de reencarnação em pratos limpos. Vejam vocês o Platão. Aquillo é coisa seria, ninguem pode contestar. Dizem vocês...
— Não dizemos nada, padre Athanasio. Boa noite.
E deixámos o excellente ecclesiastico remoendo Platão.
Andámos algum tempo em silencio, na rua mal iluminada. Para as bandas do quartel da policia um trovador afinava o violão. No ceo negro uma coruja passou alto, piando.
— Diabo! exclamou Isidoro, supersticioso, estremecendo. Não gosto de ouvir estes amaldiçoados gritos. Justamente por cima da casa do Silverio, que está de cama, esta peste voar, rasgando mortalha!
Levantou a golla, arrepiado, baixou a voz:
— Pensou no que lhe disse hontem?
— Hein? Não me lembro. E’ o emprestimo?
Tinhamos chegado ao fim da rua de Baixo, estavamos em frente ás balaustradas do paredão do açude. Tomámos pela direita, deixámos atraz a pracinha.
— Não, não é o emprestimo. Que horas são?
Consultou o relogio da usina electrica:
— Só onze? Julguei que fosse mais tarde. Vamos para diante, quebrar as pernas pelos buracos do Pemambuco Novo.
Olhei a frontaria da casa de Adrião, fechada. Hesitei receoso.
— Não ha ninguem, tudo deserto. Vamos dar um passeio, insinuou Isidoro.
Penetrámos cautelosamente no Pemambuco Novo, o bairro das meretrizes. — Não era ao emprestimo que eu me referia. Mas já que tocámos nisto, você falou aos homens?
— Esqueci, Pinheiro, respondi com acanhamento. Falo amanhã. Que eu nem sei se elles poderão. Muitas obrigações a pagar... Talvez não acceitem.
— E a hypotheca do sitio, criatura? Uma propriedade que me está em mais de cinco contos! Afinal se não fizer com elles, faço com outro.
Era um emprestimo que desejava contrahir com os Teixeira, por meu intermedio, operação regular, com effeito; mas Teixeira & Irmão, não tinham fundos sufficientes para dedicar-se á agiotagem.
— Faço com outro, prosseguiu Isidoro, invisivel nas trevas da rua. Faço com o banco, faço com o Monteiro. E’ um usurário, um ladrão, esfola a gente com juro de judeu, mas não recusa nunca, tem sempre dinheiro, é um excellente velho. E não recebo favor. Que diabo! Para uma transacção de um conto e quinhentos garantia de cinco contos!
Calou-se, amuado. Accendeu um cigarro. E, á luz do phosphoro, surgiram á direita calçadas altas e desiguaes. A’ esquerda, entre sombras confusas de arvoredos, a mancha negra do açude avultava. Fórmas vagas, cheiro de aguardente, injurias obscenas, sons de pifano.
Subimos o alto dos Bodes. Isidoro Pinheiro deitou fora a ponta do cigarro, deu um trambolhão, agarrou-me um braço e berrou:
— Que lembrança a sua de vir passear, com uma noite assim, neste inferno!
Depois, calmo, já perto da igreja do Rosario, na indecisa claridade que vinha da rua de Cima:
— Boa caminhada, sim, senhor, isto por aqui é pittoresco. Que fim terá levado a Maria do Carmo? Gosto della. Se não fosse tão descarada... Emfim cada qual como Deus o fez, que a gente não é rapadura, para sahir tudo igual. Você viu esse anjo?
Torceu o caminho para não perturbar um noivado de cães. Entrámos no Quadro. Eu não tinha visto anjo nenhum. E que me queria dizer o amigo Pinheiro lá em baixo? O amigo Pinheiro não se recordava.
— Foi o emprestimo que me esquentou o sangue. Não admitto que desconfiem de mim. Acabou-se, vou falar com o Monteiro.
Estacou:
— Ah! sim! a historia de hontem, esse infeliz que anda morrendo de fome.
— O sapateiro?
— O sapateiro. Vive quasi nú, uma indecencia! E immundo que faz nojo. Uma penca de filhos! Vamos ver se ajudamos esse desgraçado, que tem vergonha de pedir esmola. A mulher tisica, no catre, lançando sangue, homem!
Poz-se a caminhar, triste. De repente apontou a casa de D. Engracia, grande como um convento, defronte do armazem dos Teixeira:
— E se você casasse com a Martha?
Casar com a Martha? Recuei, desconfiado:
— Que interesse tem você nisso, Pinheiro?
— Interesse? Nenhum. Mas acho...
— O que não comprehendo é essa preoccupação de me querer amarrar á força. Já me deu tres vezes o mesmo conselho.
— E’ que desejo a sua felicidade, rapaz.
— E quem lhe disse que eu seria feliz casando com ella?
— Quem me disse? E porque não seria? A pequena é bonita, bem educada, toca piano, esteve no collegio das freiras. Onde se vai achar outra em melhores condições? Se aquella não lhe agrada, só mandando fazer uma de encommenda.
Interrompeu-se, bateu-me no hombro, exclamou com admiração e energia, quasi engasgado:
— Olhe aquillo, veja que predio. Vale vinte contos. Pedra e madeira de lei. E terras, cada zebú de trinta arrobas, libra esterlina por desgraça, fortuna grossa, meu filho, e tudo da Martha, que o Miranda me contou. Atraque-se com a moça.
Não contive o riso. Estava elle certo de que a Martha Varejão acceitava o arranjo?
— Porque não? Que diabo pode ella querer mais? Você é bem apessoado, tem boas relações, sabe escripturação mercantil e um bocado de arithmetica. Oh! demonio! Lá se apagou a luz.
Chegámos á rua dos Italianos. A’ porta da pensão, quando ia introduzir a chave na fechadura ouvi rumor lá dentro. E Isidoro Pinheiro soprou-me ao ouvido :
— Espere ahi, não abra agora.
— Que é?
— O Paschoal que vai entrar no quarto de D. Maria. E’ bom demorar um pouco.