Cahetés/Capítulo IV

IV

— Entre, respondi sem saber quem batia.

Evaristo Barroca entreabriu a porta de manso:

— Ia sahir, seu Valerio?

— Não senhor, cheguei agora.

— Vinha roubar-lhe dez minutos, disse elle com uns modos excessivamente cortezes, de que não gosto. Mas se sou importuno...

— Importuno? Não, senhor. Entre p’ra ahi.

Retirei uma pilha de jornaes da cadeira, abri a janella que dá para a rua:

— Então, que é que ha?

Evaristo avançou com gravidade, poz o chapeo e a bengala sobre a mesa empoeirada, olhou com descon­fiança a palha da cadeira e sentou-se, sem se recostar, com medo de sujar a roupa. Maneiras detestaveis.

Ia para seis annos que eu conhecia aquelle typo, en­contrava-o quasi diariamente. Horrivel! Empertigava-se para largar trivialidades abjectas, e o peor é que só muito depois de as ter dito me vinha a comprehensão de que aquillo não valia nada.

— Vamos lá, doutor. Que é que ha? perguntei de novo.

— Ha isto, respondeu o visitante. Primeiramente necessito a sua opinião a respeito dum assumpto que re­quer minucioso exame.

— Assim de importancia... ia eu interrompendo.

Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de ora­dor, a mão bem tratada, onde um rubi punha em evi­dencia o seu grau de bacharel:

— Em segundo lugar venho solicitar-lhe um ob­sequio.

— Perfeitamente. Vamos ver.

— O senhor se dá com o Fortunato?

— O padeiro? Dou-me. O Fortunato é bom homem. Na opinião de padre Athanasio...

— Não, não é o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se dá com elle?

— Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso é politica. Eu entendo de politica?

— O Fortunato é exemplar. Como funccionario é um modelo; como chefe de familia, um espelho.

Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em si­lencio, esperando o effeito daquelle assucar todo. Depois tornou, e foi ahi que percebi que elle tinha dito tres vezes a mesma coisa.

— Não possue talvez uma intelligencia muito lucida, mas o coração é de ouro. O protector dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem alludir á nobre parentela...

— Já sei. Elle diz que é bisneto de Mathias de Al­buquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.

— Pois sim. Pareceu-me... (E’ sobre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franque­za.) Pareceu-me obra meritoria demonstrar publicamen­te a gratidão do municipio...

— Ao Mesquita? Que fez elle pelo municipio, dou­tor?

Evaristo recolheu-se um momento, disse com len­tidão:

— Tem feito pouco, mas sempre tem feito. E se o apoiarmos, o senhor comprehende, se o estimularmos, fará muito mais. Foi por isso que tracei uns artiguetes... Sim, não falo em capacidade para administrar. Deixemos isto de parte. Mas os attributos moraes, pondere, os attributos moraes são de facto dignos de encomios. E aqui está o favor que venho pedir-lhe.

Metteu a mão no bolso e entregou-me uns papeis:

— Eu desejava obter a publicação dos artigos no jornal do vigario. Mas não me posso dirigir a elle. Fo­ram intrigar-me: que sou atheu, livre pensador — calumnias. E’ um desaguisado que pretendo desfazer, pois nada me inspira mais respeito que o catholicismo. O papado, que instituição, o papado! Eu tenciono...

— Espere lá, doutor. Elogio ao Mesquita? Não con­vem. O Mesquita é uma besta.

— Não, senhor, é exaggero. Antes de tudo...

— Um quartau. Quando diz sim, balança a cabeça negativamente; quando diz não, affirma com a cabeça. Não ha no mundo inteiro um sujeito mais burro. E o doutor vem cantar loas ao Mesquita? Demais a mais padre Athanasio é levado do diabo...

— Porque? Não seja irreflectido nos seus julga­mentos, senhor. Fale com o reverendo. Uma questão de interesse geral!

Eu ia desculpar-me, recusar, mas o bacharel proseguiu:

— Escrevi os artigos dum folego. Têm imperfei­ções, evidentemente. Não me sobra tempo para cultivar a lingua vernacula. Ahi só se aproveita a idéa, a forma é incorrecta. Emendem. E adeus.

Deixou-me espantado. Sim, senhor. Estava ali uma interessante maneira de forçar a gente a prestar um serviço. Loquaz, amavel, espichado, sem se apoiar no encosto da cadeira — que impertinencia! Até logo, adeus. Que descaramento!

Já agora, porém, era feio correr atraz delle para restituir-lhe a papelada. Desdobrei as tiras e li bur­rices consideraveis em honra do Mesquita, recheadas de adjectivos fofos. A familia do Mesquita, que ia en­troncar na de fidalgos lusos; a caridade do Mesquita, um largo rio de beneficios inundando Palmeira dos Indios; o pedaço de rua que o Mesquita andava a calçar, sem pressa; a roupa branca do Mesquita, o asseio do Mesquita, os banhos, as ensaboadelas, a barba escanhoada. Uma chusma de sandices.

— Vá lá. Isto não tira nem põe. Se fosse desaforo, podia render desgosto; como é adulação, se bem não fizer, mal não faz. Sempre vou ver se padre Athanasio quer publicar esta porcaria.

Era domingo. Eu tinha entrado em casa para es­crever algumas paginas no meu romance, e a tarde voa­ra, com as sabujices daquelle imbecil. Olhei o relogio: quatro horas.

Ia aguentar um jantar em casa do Victorino. Na ausencia de D. Josepha, aquillo é funebre.

E que negocio tinha commigo Isidoro, que me fôra pela manhã procurar á typographia?

Lá dentro arranjavam louça.

— Dia perdido. Vamos com esta cruz ao Victo­rino.

Cheguei á porta do corredor:

— Oh D. Maria José, o Pinheiro está ahi?

— Não, senhor. Venha para a mesa.

— Obrigado, D. Maria. Não espere por mim.

Ao sahir, reflecti com espanto na insensatez que Evaristo revelava engrossando o Fortunato. Que ma­luco! Empenhar-se para metter na Semana aquelles ra­papés indecentes!

A rua dos Italianos estava deserta. Quando atravessei a praça da Independencia, o antigo Quadro, tam­bem deserto, a campainha do cinema começou a bater. Demorei-me á esquina da padaria, vendo um cartaz en­costado a um poste. De repente dei uma palmada na testa:

— O idiota sou eu! Ali ha interesse, ali ha cava­ção.

Descendo pela rua Floriano Peixoto, admirei o talento do Barroca.

Sim, senhor, é um alho, pensei. Faz seis annos que aqui chegou, pobre, sahido de fresco da academia, sem recommendações, com os cotovellos no fio e os fundilhos remendados. E lá vai furando, verrumando. Grande clientela, relações com gente boa! Construiu uma casa, comprou fazenda de gado e terra com plantações de café, collocou dinheiro nos bancos e veste-se no me­lhor alfaiate da capital. Improvisa discursos com abundancia de chavões sonoros, dança admiravelmente, joga o poker com arte, toca flauta e impinge ás senhoras ex­pressões amanteigadas que ellas recebem com deleite. Tem recursos para reconciliar dois individuos que se malquistam, ficando credor da gratidão de ambos. Como advogado, sabe captar a confiança dos clientes e, o que é melhor, a confiança das partes contrarias.

— Boa tarde, doutor.

Era uma prova da pericia do Barroca: o adminis­trador da recebedoria, que passava pela calçada frontei­ra, macilento, com a mulher de banda, enorme, aper­tada num vestido de xadrez.

Offereceram a Evaristo aquelle cargo de adminis­trador. Rendimento pequeno. Agradeceu e indicou para o lugar um collega cheio de necessidades. Naturalmen­te ganhou com a indicação, pois os negocios lhe anda­ram sempre de vento em popa. E estava á bica para deputado estadual.

— Sim senhor, disse commigo. Deputado!