Cahetés/Capítulo III

III

Passei uma semana inquieto, e na quinta-feira não tive um momento de socego. Ao fechar o armazem, Adrião despediu-se de mim:

— Até mais tarde, João Valerio.

Até mais tarde! Como se eu pudesse lá voltar! Pre­cisava inventar uma desculpa.

Encontrei os companheiros de pensão a jantar, sob o sorriso de D. Maria José, gordinha e miuda.

— Uma novidade! gritou Paschoal quando desdobrei o guardanapo. A Clementina vai casar.

Era a eterna pilheria: não se cançavam de forjar casamentos para a pobre da Clementina.

— Quem é o noivo? inquiriu o Dr. Liberato erguendo os grossos vidros das suas lunetas de myope.

— Não se sabe, respondeu Paschoal. Foi um espirito que deu a noticia na ultima sessão. Clementina ficou actuada...

— Então isso continua? interveio Isidoro Pinheiro. Essas sessões têm agua pela barba a padre Athanasio. Ainda hontem estava arengando com o Neves por causa das materializações.

Falaram de espiritismo, de pessoas conhecidas que se desgarravam da Igreja. Aqui e ali appareciam timidamente alguns adeptos. Na opinião do Dr. Liberato, eram elles os verdadeiros crentes: tinham uma convicção que faltava aos outros.

— Crentes? exclamou Paschoal. Então o Neves é crente?

— Com certeza. Não é o chefe dessa mixordia?

— Um safado é o que elle é.

— E que tem isso? fez o doutor.

Interrompeu-se, engulindo o pigarro. Isidoro Pi­nheiro endireitou-se, ia de certo defender o Neves, quan­do Nicolau Varejão entrou na sala:

— Espiritismo? E’ a unica verdade que ha neste mundo.

— Como é que o senhor sabe? perguntaram.

— Pelos sonhos. Coisa que eu sonho é um evange­lho. Não falha, nunca falhou. Assim que enviuvei... Nem gosto de pensar, é um caso triste. E aqui para nós: eu me lembro da minha ultima encarnação.

— O senhor se lembra... atalhou Paschoal.

— Positivamente. Sou reservado porque ha muito incredulo, mas juro, metto a mão no fogo.

— Extraordinario! bradou Isidoro Pinheiro, serio, offerecendo-lhe uma cadeira. O senhor era homem ou mulher?

Nicolau Varejão olhou-o por cima dos oculos de vidros rachados, sentou-se, franziu as narinas, disse em tom confidencial:

— Homem.

— Brazileiro?

— Brazileiro, carioca. Como os amigos não ignoram, lembrar-se a gente do que foi em outra vida é commum. E eu appello aqui para o doutor.

— Certamente, confirmou o Dr. Liberato. Vá con­tando.

— Pois lá vai. Eu era typographo no Rio de Ja­neiro, um bom typographo, mas naquelle tempo a mi­nha vocação era para militar. Na guerra do Paraguay fui voluntario, entrei na dança e andei pelo sul quasi até o fim da campanha. Como tinha vocação...

— Chegou a general?

— Não senhor, cheguei a sargento, na batalha de S. Bartholomeu. S. Bartholomeu ou S. Bonifacio. Não me recordo, uma batalha importante. Emfim cheguei a sargento. Ora, por arte do diabo, um official puxou questão commigo e tirou a espada para me bater no lombo. E cá no meu lombo ninguem bate. Matei o of­ficial com uma estocada, porque eu era feroz e fugi para a Republica Argentina. Depois larguei-me para a Europa, para a sua terra, seu Paschoal. Não é na Europa a sua terra?

— E’ isso mesmo. Continue.

— Pois eu estive lá, numa cidade grande. Onde foi que o senhor nasceu?

— Em Turim.

— Turim, exactamente. Morei trinta annos em Turim e ganhei o pão como typographo. Não ha uma typographia em Turim? Aprendi o italiano. Ainda sei algumas palavras: Marconi, macarroni, massoni... Tudo em italiano acaba em oni. Terra boa, Turim. Cada pedaço de mulher!

— Morreu lá? perguntou o Dr. Liberato.

— Não, tive saudades da patria. Voltei quando o crime prescreveu.

Em roda louvaram aquella memoria admiravel.

— O senhor devia publicar isso, aconselhou Isidoro Pinheiro. Era um furo.

— Publicar? Não seria mau. A difficuldade é escrever. Idéas não me faltam, mas de gerundio não en­tendo. Demais onde queria você que se fosse publicar uma historia assim? No jornal dum padre?

Todos lamentaram que a Semana, folha catholica, não pudesse propagar aquella revelação tremenda.

— Que informações preciosas sobre a historia do Brazil! opinou o Dr. Liberato.

— Que triumpho para o espiritismo! E que baque para as outras religiões! ajuntou Paschoal.

— Sem contar que a reputação do auctor garanti­ria a veracidade do facto, accrescentou Isidoro. A sua vida... Diga ahi um adjectivo, doutor.

— Impolluta...

— Impolluta... vá lá, vida impolluta. Que idade tem o senhor, seu Varejão?

— Sessenta, meu filho. Sessenta annos na corcun­da. Tenho muito Janeiro.

— Como! bradou o Dr. Liberato. Sessenta annos? Não é possivel. Setenta com trinta... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Italia, não póde ter mais de vinte e seis. E se ainda viveu algum tempo e andou vagando no espaço... Não é por lá que vocês andam quando morrem? Se se calcular isso direito, o senhor está morto, seu Varejão.

Uma gargalhada estalou na sala. Nicolau Vare­jão, que ia pegar uma chicara de café, deixou pender a mão suja e embatucou. Depois, resentido:

— Então, pelo que vejo, não acreditam.

— Acreditar? Acreditamos, affirmou o doutor. Mas sessenta annos é que o senhor não tem.

Nicolau baixou o carão trigueiro, coberto de marcas de variola, ageitou os oculos, tomou o café e declarou com lealdade:

— Parece que me enganei. Não foi na guerra do Paraguay, foi noutra mais velha. Não houve outra an­tes? Pois foi nessa. Tinha graça eu esquecer o que me aconteceu no exercito! Eu até me chamava Cunha, o sargento Cunha. Está ahi uma prova.

Levantou-se e sahiu.

— Magnifico! exclamou Isidoro Pinheiro.

— E a filha é a herdeira mais rica da cidade, se a D. Engracia lhe deixar a fortuna, observou o Dr. Liberato.

— Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Porque não se engata com ella, João Valerio?

— Obrigado, respondi. Com um pae deste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clemen­tina.

— O pae não existe, o pae está morto, pelas contas do doutor. A pequena é da D. Engracia, nunca viveu com elle. Bonita como o diabo. Eu, se não tivesse trinta e oito annos, um emprego tão besta, e um desconchavo no coração, atirava-me a ella.

Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaçar. O Dr. Liberato receava que aquillo acabasse em loucura.

— E’ pena que não lhe arranjem um homem.

— Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem á moça? E isso lhe traria saude?

— Talvez trouxesse.

Citou auctores, empregou termos arrevezados e a conversa morreu com tres respeitosas inclinações de cabeça.

— Porque será que elle inventa sempre essas his­torias? murmurou Isidoro Pinheiro.

Tirei o relogio impaciente. Que haveria áquella hora em casa de Adrião?

— Elle quem? O Nicolau?

— Sim, o sargento Cunha.

— Necessidade, explicou o doutor. Com certeza jul­ga que os outros o tomam a serio. Em todo o caso tem muita imaginação.

Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Elle, com a calva brilhando sob um foco electrico, o beiço cahido, a palpebra meio cerrada, os oculos na ponta da venta, percorria a parte commercial dos jornaes. Luiza lia um romance francez; ou tocava piano; ou pensava indignada nos beijos que lhe dei no pescoço.

— Necessidade de mentir, doutor? objectou Paschoal.

— De mentir, de matar, de beber agua, de abraçar alguem, de roer as unhas, tudo é necessidade.

Puxei de novo o relogio. Sete horas. Porque não teria ella exposto ao marido o meu procedimento ruim? Compaixão. Inspirar compaixão, que miseria! Levan­tei-me:

— Com licença, meus senhores. Boa noite. Vou deitar-me.

— Deitar-se? Que diabo tem você para dormir tão cedo? exclamou Isidoro.

Acharam-me apathico e murcho. D. Maria José perguntou, solicita, se as comidas me desagradavam. Maçada! As comidas eram optimas, respondi, mas o estomago e a cabeça não me iam bem. O Dr. Liberato indicou um remedio. Agradeci e recolhi-me.

Deitei-me vestido, ás escuras, diligenciei afastar aquella obsessão. Inutilmente. Ergui-me, procurei pelo tacto o commutador, sentei-me á banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a ultima tira. Prosa chata, immensamente chata, com erros. Fazia semanas que não mettia ali uma palavra. Quanta difficuldade! E eu suppuz concluir aquillo em seis mezes! Que estupidez ca­pacitar-me de que a construcção dum livro era emprei­tada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei orpham quando a Felicia me levou o dinheiro da herança, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrião me em­pregou no escriptorio como guarda-livros. Folha hoje, folha amanhã, largos intervallos de embrutecimento e preguiça — um capitulo desde aquelle tempo!

Tambem aventurar-me a fabricar um romance his­torico sem conhecer historia! Os meus cahetés realmen­te não têm verosimilhança, porque delles apenas sei que existiram, andavam nús e comiam gente. Li, na escola primaria, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já esqueci quasi tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar esse ma­terial archaico numa brochura de cem a duzentas pa­ginas, cheia de lorotas em bom estylo, editada no Ramalho.

Corrigi os erros, puz um enfeite a mais na barriga dum caboclo, cortei dois adverbios — e passei meia hora com a penna suspensa. Nada. Paciencia! Quem esperou cinco annos póde esperar mais um dia. Atirei os papeis á gaveta.

Naquelle momento Adrião devia estar com o Mi­randa Nazareth defronte do taboleiro de xadrez.

Caciques! Que entendia eu de caciques? Melhor se­ria compor uma novella em que arrumasse padre Athanasio, o Dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, D. Engracia. Mas como achar enredo, dispor os persona­gens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorpha.

De repente imaginei o morubixaba pregando dois beijos na filha do pagé. Mas, reflectindo, comprehendi que era tolice. Um selvagem, no meu caso, não teria beijado Luiza: tel-a-ia provavelmente jogado para cima do piano, com dentadas e coices, se ella se fizesse arisca. Infelizmente não sou selvagem. E ali estava, mudan­do a roupa com desanimo, civilizado, triste, de cuecas.

— Porque foi que ella não contou aquillo?

Veio-me um pensamento agradavel. Talvez gostasse de mim. Era possivel. Olhei-me ao espelho. Tenho o nariz bem feito, os olhos azues, os dentes brancos, o cabello louro — vantagens. Que diabo! Se ella me pre­ferisse ao marido, não fazia mau negocio. E quando o velhote morresse, que aquelle trambolho não podia durar, eu amarrava-me a ella, passava a socio da firma e engendrava filhos muito bonitos.

Embrenhei-me numa fantasia doida por ahi além, de tal sorte que em poucos minutos Adrião se finou, padre Athanasio poz a estola sobre a minha mão e a de Luiza, os meninos cresceram, gordos, vermelhos, dois machos e duas femeas. A’ meia noite andavamos pelo Rio de Janeiro; os rapazes estavam na academia, tudo sabido, quasi doutor; uma pequena tinha casado com um medico, a outra com um fazendeiro — e nós iamos no dia seguinte visital-as em S. Paulo.

Um cão uivava na rua; os gallos entraram a can­tar. O Dr. Liberato pigarreava; Isidoro Pinheiro ron­cava o somno dos justos; esmoreciam no corredor as pisadas subtis do Paschoal e um rumor, tambem subtil, na porta do quarto de D. Maria José.

Excellente criatura. Depois que enviuvou, não cons­ta que haja conhecido outro homem. Aqui pela hospe­daria passam dezenas delles. Nenhum lhe agrada. O italiano, robusto, sanguineo e de bigodes, satisfaz-lhe plenamente as necessidades do corpo e da alma. Boa mulher. Deus a conserve por muitos annos.