Cahetés/Capítulo II
II
Não disseram nada que se referisse ao desastroso successo. Logo que abri o diario, com mão tremula, tão perturbado que receei baralhar as partidas, Adrião chegou-se á minha carteira, folheou o contas-correntes, mexeu os dedos, calculando, e ordenou:
— Escreva a D. Engracia, João Valerio.
Sahiu-me um peso do coração.
— Escreva que o que tem cá em deposito está ás ordens, pode mandar receber.
— E que se quizer deixar por mais um anno... atalhou Victorino.
— Não senhor, fez Adrião. Apenas isto: principal e juros á disposição della. E dê a entender na carta que não nos interessa a renovação do negocio.
— Mas interessa muito, exclamou Victorino mostrando o caixa. O mano sabe que interessa. Olhe estas entradas.
— De accordo, concluiu o outro. Se ella mandar retirar, que não manda, offereça quinze por cento em vez dos doze que pagamos. Não retira, não tem em que empregar capital. Levou muito calote ultimamente, os generos estão caros, a febre aphtosa deu no gado. Não retira.
Por um instante esqueci as minhas inquietações e admirei o tino de Adrião. Não serei um commerciante nunca. Eu teria, inconsideradamente, mandado propôr os quinze por cento a D. Engracia.
Fiz a carta com inveja. Ora ali estava aquella viuva antipathica, podre de rica, morando numa casa grande como um convento, só se occupando em ouvir missa, commungar e rezar o terço, augmentando a fortuna com avareza para a filha de Nicolau Varejão. E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escriptorio dos Teixeira, eu, moço, que sabia metrificação, vantajosa prenda, collaborava na Semana de padre Athanasio e tinha um romance começado na gaveta. E’ verdade que o romance não andava, encrencado miseravelmente no principio do segundo capitulo. Em todo o caso sempre era uma tentativa.
Quinhentos contos, seiscentos contos, nem sei, dinheiro como o diabo nas mãos duma velha inutil! E a afilhada, a Martha Varejão, beata e sonsa, é que ia apanhar o cobre. Mundo muito mal arranjado!
Arrumei as contas no diario, escripturei o razão, passei os lançamentos do borrador para os livros auxiliares. Pouco a pouco vieram affligir-me as preoccupações da vespera. Luiza guardara segredo. Provavelmente confessaria tudo depois. Senti uma especie de frenesi. Quasi desejei que ella falasse e que os Teixeira me mandassem logo embora.
Afinal eu não tinha culpa. Tão linda, branca e forte, com as mãos de longos dedos bons para beijos, os olhos grandes e azues... De Adrião Teixeira, um velhote calvo, amarello, rheumatico, encharcado de tisanas! Outra injustiça da sorte. Para que servia homem tão combalido, a perna tropega, cifras e combinações de xadrez na cabeça? Eu, sim, estava a calhar para marido della, que sou desempenado, goso saude e arranho literatura. Nova e bonita, casada com aquillo, que desgraça!