Cahetés/Capítulo I

I

Adrião, arrastando a perna, tinha-se recolhido ao quarto, queixando-se duma forte dor de cabeça. Fui collocar a chicara na bandeja. E dispunha-me a sahir, porque sentia acanhamento e não encontrava assumpto para conversar.

Luiza quiz mostrar-me uma passagem no livro que lia. Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ella ergueu-se, indignada:

— O senhor é doido? Que ousadia é essa? Eu...

Não poude continuar. Dos olhos, que deitavam faiscas, saltaram lagrimas. Desesperadamente perturba­do, gaguejei tremendo:

— Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.

— E’ bom que se vá embora, gemeu Luiza com o lenço no rosto.

— Foi uma tentação, balbuciei suffocado, agarran­do o chapéo. Se a senhora soubesse... Tres annos nis­to! O que tenho soffrido... por sua causa... Não volto aqui. Adeus.

Retirei-me anniquilado. Na rua considerei com as­sombro a grandeza do meu atrevimento. Como fiz aquillo? Deus do céo! Lançar em tamanha perturbação uma criaturinha delicada e sensivel! Tive raiva de mim. Animal estupido e lubrico.

E que escandalo! Misericordia! Naturalmente ella avisaria o marido. Adrião Teixeira com certeza ia dizer-me: “Você, meu filho, não presta.” E mandaria ba­lancear a casa Teixeira & Irmão, onde eu era guarda-livros e interessado, para afastar-me da sociedade. O inventario é rapido num estabelecimento que só vende aguardente, alcool e assucar. Victorino Teixeira, acavallando os oculos de ouro no grosso nariz vermelho, abriria o cofre, contaria o meu saldo com lentidão e, pon­do o dinheiro sobre a carteira, deixaria cahir, naquella voz morosa e nasal, que dá arrepios, este epilogo arra­sador: “Tome lá, João Valerio, veja se confere. Nós julgavamos que o Valerio fosse homem direito. Enga­námo-nos: é um traste.” E eu sahiria escorraçado, mor­to de vergonha.

Segredo que quatro pessoas sabem transpira: al­guma coisa havia de propalar-se na cidade. D. Engracia, teceria mexericos; o Neves forjaria uma calumnia; Nicolau Varejão narraria mentiras espantosas. Assim pensando, eu experimentava um grande mal estar, me­nos pelos dissabores que as chocalhices me trariam que por antever misturado a ellas o nome de Luiza.

Eu amava aquella mulher. Nunca lhe havia dito nada, porque sou timido, mas á noite fazia-lhe sózinho confidencias apaixonadas e passava uma hora, antes de adormecer, a acaricial-a mentalmente. Até certo ponto isto bastava á minha natureza preguiçosa.

Ás quintas e aos domingos ia aos chás de Adrião. Ficavamos tempo estirado cavaqueando — e era para mim um verdadeiro prazer tomar parte em duas conversações cruzadas sobre moda e cambio. Algumas vezes Luiza falava de contos, versos, novellas. O marido ferrava no somno. Ou então, com enormes bocejos, lá se ia claudicando, a lamentar que a enxaqueca não lhe permittisse saborear um enredo tão philosophico. Elle entendia bem de commercio; o resto era philosophia.

Quando vinha o advogado Barroca, serio, cortez, bem aprumado, a sala se animava. Também apparecia com frequencia o tabellião Miranda, Miranda Nazareth, jogador de xadrez, com a filha, a Clementina. E o vi­gario, o Dr. Liberato, Isidoro Pinheiro, jornalista, pe­queno proprietario, collector federal, typo excellente. Luiza, ao piano, divagava por trechos de operetas; Evaristo Barroca, com os olhos no livro de musica, tocava flauta.

Uma extranha doçura me invadia, dissipava os abor­recimentos que fervilham nesta vida pacata, vagaro­samente arrastada entre o escriptorio e a folha hebdoma­daria de padre Athanasio. Os velhos moveis, as pare­des altas e escuras, quadros que não se distinguiam na claridade vaga das lampadas de abat-jour espesso, que uma rendilha pardacenta reveste, tudo me dava socego. Fugiam-me os pensamentos e os desejos. A religiosida­de de que a minha alma é capaz ali se concentrava, dian­te de Luiza, emquanto, entranhados nas combinações de partidas rancorosas, Adrião grunhia impertinente e Na­zareth piscava os olhinhos de palpebras engelhadas, co­çava os quatro pêlos brancos que lhe ornam o queixo agudo. Victorino dormia. E Clementina, de cabeça á banda, procurava os cantos e esfregava-se nas hombreiras das portas.

Coitada! Nunca achou quem a quizesse. Tenho pena della. Não a tornaria a ver encolhida á sombra do piano, fascinada pelos bigodes de Evaristo, negros e densos. Nem veria as cortinas pesadas, os montes de revistas, a mesa do xadrez. Tudo perdido.

Percorri á toa as ruas desertas, envoltas num luar baço, tentando achar tranquillidade no pó e no calor de Janeiro. Mais tarde, na hospedaria de D. Maria José, corti uma insomnia atroz, rolei horas no colchão duro, ouvindo os roncos dos companheiros de casa e conjecturando o que me iriam dizer no dia seguinte os irmãos Teixeira.