Caetés (1947)/Capítulo VI
VI
NO ESCRITÓRIO dos Teixeira, passando para o razão os diversos a diversos em bonita letra apurada, pensei naquela insistência de Isidoro.
É um ofício que se presta às divagações do espírito, êste meu. Enquanto se vão acumulando cifras à direita, cifras à esquerda, e se enche a página de linhas horizontais e oblíquas, a imaginação foge dali. Organizar partidas e escrever a correspondência comercial são coisas que a gente faz brincando. E para molhar o papel de sêda, enxugá-lo, pôr a factura ao lado, apertar o livro na prensa não é necessário esfôrço de pensamento. Dedicava-me às minhas ocupações singelas — e as idéias esvoaçavam em redor de Marta Varejão.
Realmente não era feia, com aquêle rostinho moreno, grandes olhos pretos, bôca vermelha de beiços carnudos, cabelos tenebrosos, mãos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simpática, sim senhor, óptima fêmea. Se ela me quisesse, eu não tinha razão para considerar-me infeliz.
Queria. Na segunda-feira do carnaval, defronte do cinema, fôra muito amável comigo. Olhadelas, sorrisos, um provérbio embaraçado, em francês. Aquilo prometia. Estava acabado, ia atirar-me a ela, como diz o Pinheiro. E se a d. Engrácia lhe deixasse a fortuna, bom casamento, negócio magnífico. Não que me preocupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Marta fôsse vesga e coxa, não a aceitaria por preço nenhum. Mas era bonita, e os bens da viúva davam-lhe encantos que a princípio eu não tinha descoberto.
Tocava piano. Naquele momento reconheci no piano um caminho seguro para a perfeição. Falava francês. Não havia certamente exercício mais honesto que falar francês, língua admirável. Fazia flores de parafina. Compreendi que as flores de parafina eram na realidade os únicos objectos úteis. O resto não valia nada.
Não seria difícil travar na igreja um namôro com ela, na missa das sete, e mandar-lhe, por intermédio de Casimira, umas cartas cheias de inflamações alambicadas, versos de Olavo Bilac e frases estrangeiras, dessas que vêm nas fôlhas côr-de-rosa do pequeno Larousse. Talvez, com algum trabalho, conseguisse completar para ela um soneto que andei compondo aos quinze anos e que teria saído bom se não emperrasse no fim. Depois obteria umas entrevistas à noite, à janela, e, conversa puxa conversa, pregava-lhe, ao cabo de uma semana, meia dúzia de beijos. Ficávamos noivos, casávamos, d. Engrácia morria. Imaginei-me proprietário, vendendo tudo, arredondando aí uns quinhentos contos, indo viver no Rio-de-Janeiro com Marta, entre romances franceses, papéis de música e flores de parafina. Onde iria morar? Na Tijuca, em Santa Teresa, ou em Copacabana, um dos bairros que vi nos jornais. Eu seria um marido exemplar e Marta uma companheira deliciosa, dessas fabricadas por poetas solteiros. Atribuí-lhe os filhos destinados a Luísa, quatro diabretes fortes e espertos. Suprimi radicalmente Nicolau Varejão, ser inútil.
Achava-me em pleno sonho, num camarote do Municipal, quando Adrião se abeirou da carteira:
— Diga-me cá, porque foi que você não apareceu mais lá em casa?
Abandonei a representação e voltei à realidade, com um nó na garganta. Vascolejei o cérebro à cata de uma resposta.
— Vamos ver, continuou Adrião. Detesto mistérios. Fizeram-lhe alguma grosseria por lá? Se fizeram...
— Não senhor, não fizeram. Não fazem. Que é que haviam de fazer?
— Então que sumiço foi êsse? Eu perguntei à Luísa. Não sabe, ninguém sabe. Você gostava de conversar com ela essas embrulhadas.
Procurei mostrar-me tranqüilo:
— Sempre me distinguiram com amabilidades que não mereço.
— Lambanças, homem. Deixe-se disso, fale direito, atalhou Adrião.
— Justamente. O senhor compreende, eu gosto de escrevinhar. Assim de noite, quando a gente não tem sono...
— Já sei, já sei. Essas filosofias são prejudiciais. É o padre Atanásio que lhe anda metendo bobagens no quengo.
— De mais a mais a minha presença não serve de nada. Com franqueza...
— Ora! ora! ora! Vai para cinco anos que você está cá na casa, e só agora pensou nisso. Mas eu hei-de decifrar essa charada. E diga ao dr. Liberato que mude aquela receita. Não pude dormir ontem, com uma dor de cabeça dos pecados. Uma peste.
Retirou-se claudicando, a amaldiçoar os médicos. Fiquei atordoado, perguntando ansiosamente ao cofre, à prensa, ao copiador, à máquina de escrever, como me saïria de semelhante dificuldade. Adrião Teixeira queria descobrir o motivo do meu afastamento. Se êle apertasse com Luísa, era possível que ela se aborrecesse e contasse que eu lhe tinha dado dois beijos no pescoço. Marta, o soneto e os quinhentos contos de d. Engrácia num instante se evaporaram.
Resignei-me a ir no domingo ao casarão dos Italianos. Uma impertinência, mas calculei que poderia, finda a atrapalhação do primeiro momento, esgueirar-me para a varanda e esconder-me por detrás das cortinas. Talvez Luísa nem reparasse em mim. Excelente coração. Outra qualquer teria feito da minha tolice um cavalo de batalha — e desmantelava-se êste honesto rapaz que arranca um pão insípido às fôlhas das costaneiras; ela não: provàvelmente julgara aquilo uma ligeira ousadia que apenas lhe tocara a epiderme. Blindada contra os sentimentos de um miserável João Valério, com certeza erguera os ombros: “Deixá-lo. Pobre diabo”.
Sentia-me terrìvelmente perturbado. Tanto que, durante o jantar, nem dei atenção a duas perguntas de Isidoro. O dr. Liberato ajeitou as lunetas, tossiu, disse com impaciência:
— Mexa-se, homem. Que tem você?
— Eu? Não tenho nada, não houve nada não me fizeram nada.
Compreendi o disparate e emendei:
— Estava distraído. Uns cálculos. E por falar em cálculos, doutor, lá o patrão mandou pedir outra receita. Anda com a cabeça doendo. A cabeça, a bexiga e as pernas.
Exploraram o Teixeira.
— Qual é a doença dêle? perguntou Isidoro, inquieto.
Quando ouve qualquer referência a enfermidades, murcha e apalpa o coração.
— Um bando de vísceras escangalhadas, explicou o dr. Liberato. Vida sedentária, poucas precauções...
— Temos viúva, interrompeu o Pascoal. Quanto tempo durará êle ainda? Liquidado. Qual é a fortuna, João Valério?
Ninguém respondeu. Isidoro apalpou novamente o coração, e d. Maria José referiu o caso medonho de uma preta que morrera queimada na semana anterior. Espalhou-se pela mesa uma sombra de morte. Baixei a cabeça, com pena da negra. O dr. Liberato interrogou d. Maria com exagerado interêsse, pedindo minudências, o que me trouxe aborrecimento e nojo. O italiano, que é robusto, tomava café e sorria.
A mulher tinha perdido no fogo os braços e as pernas, e do nariz corria um grude esverdeado.
— Ó d. Maria, exclamou o Pinheiro, repelindo a xícara e fazendo uma careta, para que vem contar essas histórias?
Levantou-se, desesperado. Eu e Pascoal levantámo-nos também. Saímos a passear pela rua.
— Preciso ver a Maria do Carmo, grunhiu Isidoro.
Entrámos na farmácia do Neves. Encostado à grade, um sujeito escondia no lenço manchado de pus o rosto meio comido por uma chaga. Fugimos. O italiano pôs-se a cantarolar entre dentes coisas aflitivas, com mamma e bara repetidas muitas vezes.
Às nove horas estávamos na redacção da Semana. Não encontrámos padre Atanásio.
— Foi confessar mestre Simão, que deu uma queda do andaime e vomitou sangue, informou o sargento. Os senhores querem escrever a notícia?
Não quisemos. Ficámos sentados, carrancudos.
— Com os demônios! bradou Isidoro, erguendo-se. Isto por aqui está fúnebre.
Subimos a rua do Melão. Lá para o caminho da Ribeira ouvimos rumor de vozes. Aproximámo-nos. Eram cantos, rezas, choros, ladainhas — uma sentinela de defuntos.
— Vamos ver, convidou Pascoal, interessado. A gente às vezes acha nas sentinelas muito boas mulheres. Vamos ver. Talvez esteja lá a Maria do Carmo.
— Ora pílulas! berrou Isidoro, furioso. Antes ir passear no cemitério.