Caetés (1947)/Capítulo V

V

O DIRECTOR da Semana mourejava na extracção de um dos seus complicados períodos, que ninguém enten­de. Tinha aberto o dicionário três vezes. Soltou o li­vro com desânimo, olhou de esguelha para a banca de Isidoro e perguntou-me em voz baixa:

— Eucalipto é com i ou com y? Estou esquecido, e o dicionário não dá.

— Eucalipto... eucalipto... respondi indeciso. Também não sei, padre Atanásio. Ó Pinheiro, como é que se escreve eucalipto?

— Com p, ensinou Isidoro, solícito.

— Não é isso. Nós queremos saber se é com i ou com y.

— Deve ser com i. Ou com y. Uma das duas, pen­so eu. O y sempre é mais bonito. Para que eucalipto?

— Para plantar na beira do açude, explicou o vi­gário. Um conselho ao prefeito. Faltava um pedaço da segunda página.

Ajeitou a volta, abotoou a batina, passou o lenço pelo rosto vermelho e suado, coçou o queixo enorme, enterrado entre os ombros, que lhe chegam quási às orelhas, e atirou de chofre uma das suas falas embaralhadas:

— Pois, meninos, não foi senão isto. Quem havia de supor, hem? Êstes dicionários miúdos não pres­tam. Faltava um pedaço da segunda página. É cavador! Parece que o eucalipto seca os pântanos. A gen­te abre e não encontra nunca o que procura. E dá beleza. Vem o sargento: “Quarenta linhas.” É cavador, é cavador.

— Quem é que é cavador, padre Atanásio? inqui­riu Isidoro com um sorriso que lhe mostrava os largos dentes brancos.

O director da Semana pregou nêle os grandes bugalhos dos olhos surpreendidos, sacudiu a cabeça com um gesto de nervoso e engrolou uma explicação:

— O advogado, homem, êsse Barroca. Também você não percebe nada. Foram os artigos, João Valério, aquêles artigos. É cavador. Deputado, hem? Não foi senão isto. Os artigos. Quem havia de supor?

— Eu conheci logo que êle me mostrou os originais, acudi. Aquilo não mete prego sem estôpa. Não lhe invejo o gôsto. Tanta chaleirice, tanta baixeza, por uma cadeira na câmara de Alagoas! É um pulha. Antes ficasse aqui, explorando os matutos, que fazia melhor negócio. Um idiota.

— Está enganado, retorquiu Isidoro. Tem talento. Entra deputado estadual e sai senador federal. Vai lon­ge. Em três anos será para aí um figurão. Quem fôr vivo há-de ver. Inteligência, e muita, é que nin­guém lhe pode negar.

O vigário, que mordia de leve os beiços grossos, passou a mão pela testa, arrancou uma idéia:

— Talvez seja boato. Não há certeza. Era conve­niente dar uma notícia, mas não há certeza.

— Há, fêz Isidoro. Foi o Neves que me contou. O Neves está no segrêdo da política.

— Êsse é outro, resmunguei. Você se dá com essa pústula?

Mas Isidoro, que defende tôda a gente, defendeu o Neves:

Porquê, homem? O Neves é inofensivo.

— Um canalha, um maldizente.

— Como sabe você disso? Não priva com êle.

— Nem desejo.

— Pois então? É injustiça.

— Um caluniador, um miserável.

Isidoro Pinheiro franziu a cara, com desconsôlo, e padre Atanásio, que não gosta do Neves, censurou a violência da minha linguagem:

— Leviandade, João Valério. Não se ofende assim uma pessoa ausente. Deixe para dizer isso a êle, se tiver razão para dizer. Razão e coragem. A nós, não.

Interrompeu-se, gritou para a saleta da tipografia:

— Sargento, traga uma segunda prova dessa besteira.

O tipógrafo, sargento reformado, sujo, magro, de casquete, entrou e pôs sôbre a mesa do reverendo duas provas mui­to manchadas. Padre Atanásio conferiu uma com a outra, corrigiu, continuou:

— A nós, não. Sapeque logo essa trapalhada, sargento. A nós, não. Que eu lorotas de espiritismo não tolero. E o Allan Kardec...

Concentrou-se um instante, os olhos arregalados, o beiço pendente. Depois acrescentou:

— O Allan Kardec e essa cambada, o William Crookes, o Flammarion, o João Lício Marques, um que apareceu ago­ra... Como se chama êle? Que o Neves tem a língua um bo­cado comprida, tem, eu reconheço. Tem, ora essa, seu Pinhei­ro! Tem, e o William Crookes é um parlapatão. Onde foi que já se viu defunto conversando com gente viva?

Abracei o director da Semana, um amigo, sem ressentimen­to pelo que êle me havia dito:

— Está bem, padre Atanásio, fica o resto para outro dia. Ande lá, Pinheiro, isto é quási meia-noite.

Isidoro levantou-se, vestiu o jaquetão prêto, pôs o cha­péu de grandes abas.

— Esperem aí, bradou o vigário. Vamos deitar êsse ne­gócio de reencarnação em pratos limpos. Vejam vocês o Pla­tão. Aquilo é coisa séria, ninguém pode contestar. Dizem vocês...

— Não dizemos nada, padre Atanásio. Boa noite.

E deixámos o excelente eclesiástico remoendo Platão.

Andámos algum tempo em silêncio, na rua mal iluminada. Para as bandas do quartel da polícia um trovador afina­va o violão. No céu negro uma coruja passou alto, piando.

— Diabo! exclamou Isidoro, supersticioso, estremecen­do. Não gosto de ouvir êstes amaldiçoados gritos. Justa­mente por cima da casa do Silvério, que está de cama, esta peste voar, rasgando mortalha.

Levantou a gola, arrepiado, baixou a voz:

— Pensou no que lhe disse ontem?

— Hem? Não me lembro. É o empréstimo?

Tínhamos chegado ao fim da rua de Baixo, estávamos em frente às balaüstradas do paredão do açude. Tomámos pela direita, deixámos atrás a pracinha.

— Não, não é o empréstimo. Que horas são?

Consultou o relógio da usina eléctrica:

— Só onze? Julguei que fôsse mais tarde. Vamos para diante, quebrar as pernas pelos buracos do Pemambuco-Novo.

Olhei a frontaria da casa de Adrião, fechada. Hesitei receoso.

— Não há ninguém, tudo deserto. Vamos dar um passeio, insinuou Isidoro.

Penetrámos cautelosamente no Pernambuco-Novo, o bairro das meretrizes.

— Não era ao empréstimo que eu me referia. Mas já que tocámos nisto, você falou aos homens?

— Esqueci, Pinheiro, respondi com acanhamento. Falo amanhã. Que nem sei se êles poderão. Muitas obrigações a pagar... Talvez não aceitem.

— E a hipoteca do sítio, criatura? Uma propriedade que me está em mais de cinco contos! Afinal se não fizer com êles, faço com outro.

Era um empréstimo que desejava contrair com os Teixeira, por meu intermédio, operação regular, com efeito; mas Teixeira & Irmão não tinham fundos suficientes para dedicar-se à agiotagem.

— Faço com outro, prosseguiu Isidoro, invisível nas trevas da rua. Faço com o banco, faço com o Monteiro. É um usurário, um ladrão, esfola a gente com juro de judeu, mas não recusa nunca, tem sempre dinheiro, é um excelente velho. E não recebo favor. Que diabo! Para uma transacção de um conto e quinhentos garantia de cinco contos!

Calou-se, amuado. Acendeu um cigarro. E, à luz do fósforo, surgiram à direita calçadas altas e desiguais. À es­querda, entre sombras confusas de arvoredos, a mancha negra do açude avultava. Formas vagas, cheiro de aguardente, in­júrias obscenas, sons de pífano.

Subimos o alto dos Bodes. Isidoro Pinheiro deitou fora a ponta do cigarro, deu um trambolhão, agarrou-me um braço e berrou:

— Que lembrança a sua de vir passear, com uma noite assim, neste inferno!

Depois, calmo, já perto da igreja do Rosário, na indeci­sa claridade que vinha da rua de Cima:

— Boa caminhada, sim senhor, isto por aqui é pitoresco. Que fim terá levado a Maria do Carmo? Gosto dela. Se não fôsse tão descarada... Enfim cada qual como Deus o fêz, que a gente não é rapadura, para sair tudo igual. Você viu êsse anjo?

Torceu o caminho para não perturbar um noivado de cães. Entrámos no Quadro. Eu não tinha visto anjo ne­nhum. E que me queria dizer o amigo Pinheiro lá em baixo? O amigo Pinheiro não se recordava.

— Foi o empréstimo que me esquentou o sangue. Não ad­mito que desconfiem de mim. Acabou-se, vou falar com o Monteiro.

Estacou:

— Ah! sim! a história de ontem, êsse infeliz que anda morrendo de fome.

— O sapateiro?

— O sapateiro. Vive quási nu, uma indecência. E imundo que faz nojo. Uma penca de filhos! Vamos ver se ajudamos êsse desgraçado, que tem vergonha de pedir esmo­las. A mulher tísica, no catre, lançando sangue, homem!

Pôs-se a caminhar, triste. De repente apontou a casa de d. Engrácia, grande como um convento, defronte do arma­zém dos Teixeira:

— E se você casasse com a Marta?

Casar com a Marta? Recuei, desconfiado:

— Que interêsse tem você nisso, Pinheiro?

— Interêsse? Nenhum. Mas acho...

— O que não compreendo é essa preocupação de me que­rer amarrar à fôrça. Já me deu três vezes o mesmo conselho.

— É que desejo a sua felicidade, rapaz.

— E quem lhe disse que eu seria feliz casando com ela?

— Quem me disse? E porque não seria? A pequena é bonita, bem-educada, toca piano, esteve no colégio das freiras. Onde se vai achar outra em melhores condições? Se aquela não lhe agrada, só mandando fazer uma de encomenda.

Interrompeu-se, bateu-me no ombro, exclamou com ad­miração e energia, quási engasgado:

— Olhe aquilo, veja que prédio. Vale vinte contos. Pe­dra e madeira de lei. E terras, cada zebu de trinta arrôbas, libra esterlina por desgraça, fortuna grossa, meu filho, e tu­do da Marta, que o Miranda me contou. Atraque-se com a moça.

Não contive o riso. Estava êle certo de que a Marta Varejão aceitava o arranjo?

Porque não? Que diabo pode ela querer mais? Você é bem apessoado, tem boas relações, sabe escrituração mer­cantil e um bocado de aritmética. Oh! demônio! Lá se apa­gou a luz.

Chegámos à rua dos Italianos. À porta da pensão, quan­do ia introduzir a chave na fechadura, ouvi rumor lá dentro. E Isidoro Pinheiro soprou-me ao ouvido:

— Espere aí, não abra agora.

— Que é?

— O Pascoal que vai entrar no quarto de d. Maria. É bom demorar um pouco.