Caetés (1947)/Capítulo IV

IV

— ENTRE, respondi sem saber quem batia.

Evaristo Barroca entreabriu a porta de manso.

— Ia sair, seu Valério?

— Não senhor, cheguei agora.

— Vinha roubar-lhe dez minutos, disse êle com uns modos excessivamente corteses, de que não gosto. Mas se sou importuno...

— Importuno? Não senhor. Entre pra aí.

Retirei uma pilha de jornais da cadeira, abri a janela que dá para a rua:

— Então, que é que há?

Evaristo avançou com gravidade, pôs o chapéu e a bengala sôbre a mesa empoeirada, olhou com descon­fiança a palha da cadeira e sentou-se, sem se recostar, com medo de sujar a roupa. Maneiras detestáveis.

Ia para seis anos que eu conhecia aquêle tipo, en­contrava-o quási diàriamente. Horrível. Empertigava-se para largar trivialidades abjectas, e o pior é que só muito depois de as ter dito me vinha a compreensão de que aquilo não valia nada.

— Vamos lá, doutor. Que é que há? perguntei de novo.

— Há isto, respondeu o visitante. Primeiramente necessito a sua opinião a respeito de um assunto que re­quer minucioso exame.

— Assim de importância... ia eu interrompendo.

Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de ora­dor, a mão bem tratada, onde um rubi punha em evi­dência o seu grau de bacharel:

— Em segundo lugar venho solicitar-lhe um ob­séquio.

— Perfeitamente. Vamos ver.

— O senhor se dá com o Fortunato?

— O padeiro? Dou-me. O Fortunato é bom homem. Na opinião de padre Atanásio...

— Não, não é o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se dá com êle?

— Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso é política. Eu entendo de política?

— O Fortunato é exemplar. Como funcionário é um modêlo; como chefe de família, um espelho.

Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em si­lêncio, esperando o efeito daquele açúcar todo. Depois tornou, e foi aí que percebi que êle tinha dito três vezes a mesma coisa.

— Não possui talvez inteligência muito lúcida, mas o coração é de ouro. O protector dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem aludir à nobre parentela...

— Já sei. Êle diz que é bisneto de Matias de Al­buquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.

— Pois sim. Pareceu-me... (É sôbre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franque­za.) Pareceu-me obra meritória demonstrar pùblicamen­te a gratidão do município...

— Ao Mesquita? Que fêz êle pelo município, dou­tor?

Evaristo recolheu-se um momento, disse com len­tidão:

— Tem feito pouco, mas sempre tem feito. E se o apoiarmos, o senhor compreende, se o estimularmos, fará muito mais. Foi por isso que tracei uns artiguetes... Sim, não falo em capacidade para administrar. Deixemos isto de parte. Mas os atributos morais, pondere, os atributos morais são de facto dignos de encômios. E aqui está o favor que venho pedir-lhe.

Meteu a mão no bôlso e entregou-me uns papéis:

— Eu desejava obter a publicação dos artigos no jornal do vigário. Mas não me posso dirigir a êle. Fo­ram intrigar-me: que sou ateu, livre pensador — calúnias. É um desaguisado que pretendo desfazer, pois nada me inspira mais respeito que o catolicismo. O papado, que instituïção, o papado! Eu tenciono...

— Espere lá, doutor. Elogio ao Mesquita? Não con­vém. O Mesquita é uma bêsta.

— Não senhor, é exagêro. Antes de tudo...

— Um quartau. Quando diz sim, balança a cabeça negativamente; quando diz não, afirma com a cabeça. Não há no mundo inteiro um sujeito mais burro. E o doutor vem cantar loas ao Mesquita? De mais a mais padre Atanásio é levado do diabo...

Porquê? Não seja irreflectido nos seus julga­mentos, senhor. Fale com o reverendo. Uma questão de interêsse geral!

Eu ia desculpar-me, recusar, mas o bacharel prosseguiu:

— Escrevi os artigos de um fôlego. Têm imperfei­ções, evidentemente. Não me sobra tempo para cultivar a língua vernácula. Aí só se aproveita a idéia, a forma é incorrecta. Emendem. E adeus.

Deixou-me espantado. Sim senhor. Maneira interessante de forçar a gente a prestar um serviço. Loquaz, amável, espichado, sem se apoiar no encôsto da cadeira — que impertinência! Até logo, adeus. Que descaramento!

Já agora, porém, era feio correr atrás dêle para restituir-lhe a papelada. Desdobrei as tiras e li bur­rices consideráveis em honra do Mesquita, recheadas de adjectivos fofos. A família do Mesquita, que ia en­troncar na de fidalgos lusos; a caridade do Mesquita, um largo rio de benefícios inundando Palmeira-dos-Índios; o pedaço de rua que o Mesquita andava a calçar, sem pressa; a roupa branca do Mesquita, o asseio do Mesquita, os banhos, as ensaboadelas, a barba escanhoa­da. Uma chusma de sandices.

— Vá lá. Isto não tira nem põe. Se fôsse desafôro, podia render desgôsto; como é adulação, se bem não fizer, mal não faz. Sempre vou ver se padre Atanásio quer publicar esta porcaria.

Era domingo. Eu tinha entrado em casa para es­crever algumas páginas no meu romance, e a tarde voa­ra com as sabujices daquele imbecil. Olhei o relógio: quatro horas.

Ia agüentar um jantar em casa do Vitorino. Na ausência de d. Josefa, aquilo é fúnebre.

E que negócio tinha comigo Isidoro, que me fôra pela manhã procurar à tipografia?

Lá dentro arranjavam louça.

— Dia perdido. Vamos com esta cruz ao Vito­rino.

Cheguei à porta do corredor:

— Ó d. Maria José, o Pinheiro está aí?

— Não senhor. Venha para a mesa.

— Obrigado, d. Maria. Não espere por mim.

Ao sair, reflecti com espanto na insensatez que Evaristo revelava engrossando o Fortunato. Que ma­luco! Empenhar-se para meter na Semana aquêles ra­papés indecentes.

A rua dos Italianos estava deserta. Quando atravessei a praça da Independência, o antigo Quadro, tam­bém deserto, a campainha do cinema começou a bater. Demorei-me à esquina da padaria, vendo um cartaz en­costado a um poste. De repente dei uma palmada na testa:

— O idiota sou eu. Ali há interêsse, ali há cava­ção. Descendo pela rua Floriano Peixoto, admirei o talento do Barroca.

Sim senhor, é um alho, pensei. Faz seis anos que aqui chegou, pobre, saído de fresco da academia, sem recomendações, com os cotovelos no fio e os fundilhos remendados. E lá vai furando, verrumando. Grande clientela, relações com gente boa. Construíu uma casa, comprou fazenda de gado e terra com plantações de café, colocou dinheiro nos bancos e veste-se no me­lhor alfaiate da capital. Improvisa discursos com abundância de chavões sonoros, dança admiràvelmente, joga o poker com arte, toca flauta e impinge às senhoras ex­pressões amanteigadas que elas recebem com deleite. Tem recursos para reconciliar dois indivíduos que se malquistam, ficando credor da gratidão de ambos. Como advogado, sabe captar a confiança dos clientes e, o que é melhor, a confiança das partes contrárias.

— Boa tarde, doutor.

Era uma prova da perícia do Barroca: o adminis­trador da recebedoria, que passava pela calçada frontei­ra, macilento, com a mulher de banda, enorme, aper­tada num vestido de xadrez.

Ofereceram a Evaristo aquêle cargo de adminis­trador. Rendimento pequeno. Agradeceu e indicou para o lugar um colega cheio de necessidades. Naturalmen­te ganhou com a indicação, pois os negócios lhe anda­ram sempre de vento em pôpa. E estava à bica para deputado estadual.

— Sim senhor, disse comigo. Deputado!