Caetés (1947)/Capítulo III

III

PASSEI uma semana inquieto, e na quinta-feira não tive um momento de sossêgo. Ao fechar o armazém, Adrião despediu-se de mim:

— Até mais tarde, João Valério.

Até mais tarde! Como se eu pudesse lá voltar. Pre­cisava inventar uma desculpa.

Encontrei os companheiros de pensão a jantar, sob o sorriso de d. Maria José, gordinha e miúda.

— Uma novidade! gritou Pascoal quando desdobrei o guardanapo. A Clementina vai casar.

Era a eterna pilhéria: não se cansavam de forjar casamentos para a pobre da Clementina.

— Quem é o noivo? inquiriu o dr. Liberato erguendo os grossos vidros das suas lunetas de míope.

— Não se sabe, respondeu Pascoal. Foi um espírito que deu a notícia na última sessão. Clementina ficou actuada...

— Então isso continua? interveio Isidoro Pinheiro. Essas sessões têm água pela barba a padre Atanásio. Ainda arte do diabo, um oficial puxou questão comigo e tirou a espada para me bater no lombo. E cá no meu lombo ninguém bate. Matei o of­icial com uma estocada, porque eu era feroz e fugi para a República-Argentina. Depois larguei-me para a Europa, para a sua terra, seu Pascoal. Não é na Europa a sua terra?

— É isso mesmo. Continue.

— Pois eu estive lá, numa cidade grande. Onde foi que o senhor nasceu?

— Em Turim.

— Turim, exactamente. Morei trinta anos em Turim e ganhei o pão como tipógrafo. Não há uma tipografia em Turim? Aprendi o italiano. Ainda sei algumas palavras: Marconi, macarroni, massoni... Tudo em italiano acaba em oni. Terra boa, Turim. Cada pedaço de mulher!

— Morreu lá? perguntou o dr. Liberato.

— Não, tive saüdades da pátria. Voltei quando o crime prescreveu.

Em roda louvaram aquela memória admirável.

— O senhor devia publicar isso, aconselhou Isidoro Pinheiro. Um furo.

— Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever. Idéias não me faltam, mas de gerúndio não en­tendo. Demais onde queria você que se fôsse publicar uma história assim? No jornal de um padre?

Todos lamentaram que a Semana, fôlha católica, não pudesse propagar aquela revelação tremenda.

— Que informações preciosas sôbre a história do Brasil! opinou o dr. Liberato.

— Que triunfo para o espiritismo! E que baque para as outras religiões! ajuntou Pascoal.

— Sem contar que a reputação do autor garanti­ria a veracidade do facto, acrescentou Isidoro. A sua vida... Diga aí um adjectivo, doutor.

— Impoluta.

— Impoluta... vá lá, vida impoluta. Que idade tem o senhor, seu Varejão?

— Sessenta, meu filho. Sessenta anos na corcun­da. Tenho muito Janeiro.

— Como! bradou o dr. Liberato. Sessenta anos? Não é possível. Setenta com trinta... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Itália, não pode ter mais de vinte e seis. E se ainda viveu algum tempo e andou vagando no espaço... Não é por lá que vocês andam quando morrem? Se se calcular isso direito, o senhor está morto, seu Varejão.

Uma gargalhada estalou na sala. Nicolau Vare­jão, que ia pegar uma xícara de café, deixou pender a mão suja e embatucou. Depois, ressentido:

— Então, pelo que vejo, não acreditam.

— Acreditar? Acreditamos, afirmou o doutor. Mas sessenta anos é que o senhor não tem.

Nicolau baixou o carão trigueiro, coberto de marcas de varíola, ajeitou os óculos, tomou o café e declarou com lealdade:

— Parece que me enganei. Não foi na guerra do Paraguai, foi noutra mais velha. Não houve outra an­tes? Pois foi nessa. Tinha graça eu esquecer o que me aconteceu no exército! Eu até me chamava Cunha, o sargento Cunha. Está aí uma prova.

Levantou-se e saíu.

— Magnífico! exclamou Isidoro Pinheiro.

— E a filha é a herdeira mais rica da cidade, se a d. Engrácia lhe deixar a fortuna, observou o dr. Liberato.

— Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Porque não se engata com ela, João Valério?

— Obrigado, respondi. Com um pai dêste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clemen­tina.

— O pai não existe, o pai está morto, pelas contas do doutor. A pequena é da d. Engrácia, nunca viveu com êle. Bonita como o diabo. Eu, se não tivesse trinta e oito anos, um emprêgo tão bêsta, e um desconchavo no coração, atirava-me a ela.

Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaçar. O dr. Liberato receava que aquilo acabasse em loucura.

— É pena que não lhe arranjem um homem.

— Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem à moça? E isso lhe traria saúde?

— Talvez trouxesse.

Citou autores, empregou têrmos arrevesados e a conversa morreu com três respeitosas inclinações de cabeça.

Porque será que êle inventa sempre essas histórias? murmurou Isidoro Pinheiro.

Tirei o relógio, impaciente. Que haveria àquela hora em casa de Adrião?

— Êle quem? O Nicolau?

— Sim, o sargento Cunha.

— Necessidade, explicou o doutor. Com certeza jul­ga que os outros o tomam a sério. Em todo o caso tem muita imaginação.

Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Êle, com a calva brilhando sob um foco eléctrico, o beiço caído, a pálpebra meio cerrada, os óculos na ponta da venta, percorria a parte comercial dos jornais. Luísa lia um romance francês; ou tocava piano; ou pensava indignada nos beijos que lhe dei no pescoço.

— Necessidade de mentir, doutor? objectou Pascoal.

— De mentir, de matar, de beber água, de abraçar alguém, de roer as unhas, tudo é necessidade.

Puxei de novo o relógio. Sete horas. Porque não teria ela exposto ao marido o meu procedimento ruim? Compaixão. Inspirar compaixão, que miséria! Levan­tei-me:

— Com licença, meus senhores. Boa noite. Vou deitar-me.

— Deitar-se? Que diabo tem você para dormir tão cedo? exclamou Isidoro.

Acharam-me apático e murcho. D. Maria José perguntou, solícita, se as comidas me desagradavam. Maçada. As comidas eram óptimas, respondi, mas o estômago e a cabeça não me iam bem. O dr. Liberato indicou um remédio. Agradeci e recolhi-me.

Deitei-me vestido, às escuras, diligenciei afastar aquela obsessão. Inùtilmente. Ergui-me, procurei pelo tato o comutador, sentei-me à banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a última tira. Prosa chata, imensamente chata, com erros. Fazia semanas que não metia ali uma palavra. Quanta dificuldade! E eu supus concluir aquilo em seis meses! Que estupidez ca­pacitar-me de que a construção de um livro era emprei­tada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei órfão quando a Felícia me levou o dinheiro da herança, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrião me em­pregou no escritório como guarda-livros. Fôlha hoje, fôlha amanhã, largos intervalos de embrutecimento e preguiça — um capítulo desde aquêle tempo.

Também aventurar-me a fabricar um romance his­tórico sem conhecer história! Os meus caetés realmen­te não têm verosimilhança, porque dêles apenas sei que existiram, andavam ns e comiam gente. Li, na escola primária, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já esqueci quási tudo. Sorria-me, entretanto, a esperança de poder transformar êsse ma­terial arcaico numa brochura de cem a duzentas páginas, cheia de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho.

Corrigi os erros, pus um enfeite a mais na barriga de um caboclo, cortei dois advérbios — e passei meia hora com a pena suspensa. Nada. Paciência. Quem esperou cinco anos pode esperar mais um dia. Atirei os papéis à gaveta.

Naquele momento Adrião devia estar com o Mi­randa Nazaré defronte do tabuleiro de xadrez.

Caciques. Que entendia eu de caciques? Melhor se­ria compor uma novela em que arrumasse padre Atanásio, o dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, d. Engrácia. Mas como achar enrêdo, dispor as persona­gens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a emprêsa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorfa.

De repente imaginei o morubixaba pregando dois beijos na filha do pajé. Mas, reflectindo, compreendi que era tolice. Um selvagem, no meu caso, não teria beijado Luísa: tê-la-ia provàvelmente jogado para cima do piano, com dentadas e coices, se ela se fizesse arisca. Infelizmente não sou selvagem. E ali estava, mudan­do a roupa com desânimo, civilizado, triste, de cuecas.

Porque foi que ela não contou aquilo?

Veio-me um pensamento agradável. Talvez gostasse de mim. Era possível. Olhei-me ao espelho. Tenho o nariz bem feito, os olhos azuis, os dentes brancos, o cabelo louro — vantagens. Que diabo! Se ela me pre­ferisse ao marido, não fazia mau negócio. E quando o velhote morresse, que aquêle trambolho não podia durar, eu amarrava-me a ela, passava a sócio da firma e engendrava filhos muito bonitos.

Embrenhei-me numa fantasia doida por aí além, de tal sorte que em poucos minutos Adrião se finou, padre Atanásio pôs a estola sôbre a minha mão e a de Luísa, os meninos cresceram, gordos, vermelhos, dois machos e duas fêmeas. À meia-noite andávamos pelo Rio-de-Janeiro; os rapazes estavam na academia, tudo sabido, quási doutor; uma pequena tinha casado com um médico, a outra com um fazendeiro — e nós íamos no dia seguinte visitá-las em S. Paulo.

Um cão uivava na rua; os galos entraram a can­tar. O dr. Liberato pigarreava; Isidoro Pinheiro ron­cava o sono dos justos; esmoreciam no corredor as pisadas sutis do Pascoal e um rumor, também sutil, na porta do quarto de d. Maria José. Excelente criatura. Depois que enviüvou, não cons­ta que haja conhecido outro homem. Aqui pela hospe­daria passam dezenas dêles. Nenhum lhe agrada. O italiano, robusto, sangüíneo e de bigodes, satisfaz-lhe plenamente as necessidades do corpo e da alma. Boa mulher. Deus a conserve por muitos anos.