Caetés (1947)/Capítulo II

II

NÃO DISSERAM nada que se referisse ao desastroso sucesso. Logo que abri o diário, com mão trêmula, tão perturbado que receei baralhar as partidas, Adrião chegou-se à minha carteira, folheou o contas-correntes, mexeu os dedos, calculando, e ordenou:

— Escreva a d. Engrácia, João Valério.

Saíu-me um pêso do coração.

— Escreva que o que tem cá em depósito está às ordens, pode mandar receber.

— E que se quiser deixar por mais um ano... atalhou Vitorino.

— Não senhor, fêz Adrião. Apenas isto: principal e juros à disposição dela. E dê a entender na carta que não nos interessa a renovação do negócio.

— Mas interessa muito, exclamou Vitorino mostrando o caixa. O mano sabe que interessa. Olhe estas entradas.

— De acôrdo, concluíu o outro. Se ela mandar retirar, que não manda, ofereça quinze por cento em vez dos doze que pagamos. Não retira, não tem em que empregar capital. Levou muito calote ùltimamente, os gêneros estão caros, a febre aftosa deu no gado. Não retira.

Por um instante esqueci as minhas inquietações e admirei o tino de Adrião. Não serei um comerciante nunca. Eu teria, inconsideradamente, mandado propor os quinze por cento a d. Engrácia.

Fiz a carta com inveja. Ora ali estava aquela viúva antipática, podre de rica, morando numa casa gran­de como um convento, só se ocupando em ouvir missa, comungar e rezar o têrço, aumentando a fortuna com avareza para a filha de Nicolau Varejão. E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escritório dos Tei­xeira, eu, moço, que sabia metrificação, vantajosa pren­da, colaborava na Semana de padre Atanásio e tinha um romance começado na gaveta. É verdade que o ro­mance não andava, encrencado miseràvelmente no segundo capítulo. Em todo o caso sempre era uma tentativa.

Quinhentos contos, seiscentos contos, nem sei, di­nheiro como o diabo nas mãos de uma velha inútil. E a afilhada, a Marta Varejão, beata e sonsa, é que ia apanhar o cobre. Mundo muito mal arranjado.

Arrumei as contas no diário, escriturei o razão, passei os lançamentos do borrador para os livros auxi­liares. Pouco a pouco vieram afligir-me as preocupações da véspera. Luísa guardara segrêdo. Provàvel­mente confessaria tudo depois. Senti uma espécie de frenesi. Quási desejei que ela falasse e os Teixeira me mandassem logo embora.

Afinal eu não tinha culpa. Tão linda, branca e for­te, com as mãos de longos dedos bons para beijos, os olhos grandes e azuis... De Adrião Teixeira, um ve­lhote calvo, amarelo, reumático, encharcado de tisanas! Outra injustiça da sorte. Para que servia homem tão combalido, a perna trôpega, cifras e combinações de xadrez na cabeça? Eu, sim, estava a calhar para ma­rido dela, que sou desempenado, gozo saúde e arranho literatura. Nova e bonita, casada com aquilo, que des­graça!