Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/2ª parte/Capitulo IV
CAPITULO IV
AS OUTRAS FACULDADES SENSITIVAS
I O APPETITE SENSITIVO CONSIDERADO
EM SI MESMO
O sentido mais geral da palavra appetite abrange todas as inclinações naturaes, incluindo até as affinidades chimicas.
O appetite sensitivo é a inclinação sensitiva de fugir ou de approximar-se de um objecto, considerado como sensitivamente agradavel ou desagradavel; manifesta-se nos movimentos espontaneos, como alegria, como medo etc. Para os irracionaes o appetite sensitivo é indispensavel. Só por elle são governados e sem este appetite pereceriam os individuos bem como as especies.
O appetite sensitivo está no mesmo nivel de perfeição como a cognição sensitiva, reside numa faculdade material, informada por um principio supramaterial. As disposições corporaes que acompanham as diversas especies do appetite sensitivo (p. ex. alegria e medo) são muito differentes entre si e podem tambem ser provocadas artificialmnte por medicamentos, podem ser effeito de doenças etc., sem correspondente causa psychica.
A experiencia attesta que o appetite sensitivo não depende do livre arbitrio, que é muitas vezes provocado pelo bem agradavel (mal desagradavel) sem consentimento da parte da vontade. Entretanto, a vontade tem sobre o appetite sensitivo um "imperio politico" e são assombrosos os resultados realisados no recinto do appetite sensitivo por uma vontade soberana e energica.
O animal, empregando meios para adquirir um bem agradavel, não os emprega como taes, mas pratica toda esta série de acções que termina neste bem, porque percebe esta série como sensitivamente agradavel.
II OS AFFECTOS (EMOÇÕES, PAIXÕES)
1. Definição e descripção. A terminologia a respeito das manifestações do appetite sensitivo não é ainda absolutamente fixa, pode-se dizer, entretanto, que entre affectos, emoções e paixões existe apenas uma differença de intensidade.
As emoções são fortes movimentos da faculdade appetito-sensitiva, determinados pela percepção de um bem ou de um mal. O elemento corporal, p. ex. no sangue, no coração é essencial. A palavra paixão indica que a emoção se levanta, frequentemente, contra a vontade. Esta "soffre" (pati) a emoção a seu pezar.
A percepção do bem ou do mal sensivel precede e determina, em geral, a emoção. Quando, porem, esta é provocada artificialmente, a imaginação se dirige naturalmente para um objecto cognoscivel correspondente, cuja influencia, por sua vez augmentará o estado emocional. Quando, por exemplo, a doença irrita os nervos, quando bebidas alcoolicas preparam o fundamento physiologico da melancholia, a imaginação orienta-se nesta direcção, e influe assim no desenvolvimento da paixão. Por via de regra, entretanto, é a imaginação que precede O estado physiologico sem o elemento cognoscitivo não seria emoção no sentido proprio. Percepções intellectivas (injurias) podem redundar na faculdade sensitiva e assim provocar a paixão que neste caso tem, por concomitancia, o mesmo objecto como a intelligencia.
Como as paixões actuam sobre o systema nervoso, sobre a circulação do sangue etc., ellas podem, quando muito fortes, causar grandes abalos na vida vegetativa e sensitiva. Muito grande é egualmente sua influencia sobre a imaginação: obrigam-na a ver, interpretar e representar os objectos conforme o sentido da paixão presente; e como a actividade intellectiva depende, de alguma maneira, da imaginação, as paixões podem, por meio desta, exercer grande influencia sobre toda a vida psychica. As perturbações assim provocadas reagem sobre a paixão, augmentam-na até ella, emfim, se extinguir por exgottamento de forças. Enfraquecendo, a paixão mantem-se, ainda, por vezes, como disposição boa ou má, bom ou mau humor. Quando as disposições organicas que acompanham as paixões, se fixam no corpo, provocam facilmente estados pathologicos, como por ex. a melancholia.
A dependencia mutua entre as paixões e as faculdades cognoscitivas, indica tambem o modo como as paixões podem ser refreadas. Afastando a imaginação do objecto da paixão, obrigando-a a interpretar os acontecimentos conforme a verdade objectiva e não conforme o sentido da paixão, fixando-se na convicção que a paixão não é capaz de julgar conforme a verdade, pode o homem adquirir muito poder sobre a mesma.
2. Valor moral das paixões. Os estoicos e modernamente Kant consideram as paixões como más. Esta opinião é errada, porque só aquillo pode ser moralmente máo que depende da livre vontade do homem, ora as paixões em muitos casos não dependem da nossa vontade. A origem deste erro é a confusão entre as tendencias sensitivas, muitas vezes não livres, e as correspondentes tendencias livres da vontade. As paixões em si são indifferentes, tornam-se boas ou más na medida em que o livre arbitrio as applica a objectos desta ou daquella ordem. Bem dirigidas as paixões são meios muito efficazes para o bem moral, mal dirigidas são fontes de muitos males.
3. Classificação das paixões. Todas as paixões podem ser reduzidas a 11 typos :
amor: a tendencia para um bem, raiz e fundamento de todas as paixões,
odio : a paixão que nos afasta de um mal sensivel,
desejo : tendencia para um bem ausente,
aversão : fuga de um mal ausente,
alegria : gozo de um bem sensivel possuido,
tristeza : afflicção por um mal presente,
esperança : tendencia para um bem arduo possivel de alcançar,
desespero : paixão que nasce quando a consecução de um bem parece impossivel,
audacia : a. paixão pela qual o homem tende para um bem difficil a realisar,
medo : procura afastar-se de um mal imminente, difficil de se evitar,
ira : desejo de vingar um mal soffrido.
As paixões dividem-se em concupisciveis e irasciveis. O objecto das concupisciveis é o bem ou o mal considerado em si ; objecto das irasciveis é a propria difficuldade que se interpõe entre a pessoa e o bem que procura, resp. o mal que quer evitar.
Amor e odio, tem por objecto o bem ou o mal presente, fazendo abstracção das circumstancias.
Desejo e aversão : tem por objecto o bem ou o mal ausente.
Alegria e tristeza : tem por objecto o bem ou o mal presente.
Esperança e desespero : tem por objecto o bem emquanto é difficil de alcançar.
Audacia e medo : tem por objecto o mal difficil de evitar.
Ira : tem por objecto o mal presente.
III CLASSIFICAÇÃO DAS FACULDADES
SENSITIVAS
Os modernos costumam distinguir tres faculdades da vida sensitiva : cognição, sentimento e appetite sensitivo. O termo sentimento — "estado emocional, provocado geralmente por uma percepção". — é mais lato do que o termo paixão, porque faz abstracção da intensidade. O appetite é uma tendencia psychica para um objecto sensitivamente percebido, ou a fuga delle. Ha casos em que sentimento e appetite são unidos, em outros são separados. As paixões pertencem a ambas as categorias.
Considerando que o cerebro é a séde das sensações, e que é de lá que partem as innervações para os movimentos espontaneos, julgam muitos modernos que o mesmo cerebro seja tambem a séde dos sentimentos e do appetite. Caso assim fosse, as alterações provocadas pelos sentimentos no systema nervoso, na circulação do sangue etc., seriam apenas phenomenos que acompanham a vida affectiva.
OS MOVIMENTOS
I CLASSIFICAÇÃO
1. Movimentos automaticos: São produzidos por estimulos internos, p. ex., as palpitações do coração. Seu estudo pertence á physiologia.
2. Movimentos reflexos: São causados, independentemente da consciencia, por uma impressão que partindo do sentido externo, actua directamente sobre um dos centros dos nervos motores e por meio deste sobre o musculo. (Tosse.) Movimentos reflexos encontram-se na propria vida vegetativa das plantas, em animaes aos quaes se tirou parte do cerebro; não são, pois, privativos da vida sensitiva.
São summamente importantes, porque defendem o ser vivo contra muitas influencias funestas, e porque por meio delles é que as crianças apprendem os movimentos espontaneos. Em si inconscientes, estes movimentos podem despertar a attenção e assim se tornar conscientes.
3. Movimentos imperfeitamente dependentes da consciencia, constituem uma classe intermedia entre os movimentos reflexos e os voluntarios, dependem de um acto cognoscitivo, mas não dependem plenamente do appetite. São:
a) Movimentos de imitação. Echolalia, echocinesis etc.
b) Movimentos que pelo costume se tornaram quasi reflexos (andar). Não são automaticos porque dependem sempre ainda de alguma attenção ao menos.
c) Movimentos instinctivos dos animaes.
4. Movimentos voluntarios: Os movimentos conscientes, dirigidos para um determinado fim. Suppõe uma representação do fim e dos movimentos parciaes que conduzem ao fim, a "formula dos movimentos". A falta desta formula causa a agraphia, apraxia etc.
II GENESIS DO MOVIMENTO
1. Os movimentos dos recem-nascidos são, durante bastante tempo, movimentos reflexos. Accrescenta se-lhes, aos poucos, o sentimento cinesthetico, junto com a appreciação das distancias, do logar etc., e estes dois elementos, representação do movimento no espaço e representação cinesthetica do movimento, formam entre si uma associação firme, pela qual a criança apprende quaes as innervações necessarias para determinados movimentos. A representação dos movimentos por fazer provocará, d՚ora em deante, por associação, a correspondente imagem cinesthetica, e esta, sem intervenção de outra faculdade do que o appetite sensitivo ou racional, porá os musculos em movimento. A actividade está, pois, toda da parte do cerebro (espinha dorsal), os musculos são passivos.
2. Esta explicação baseia-se nos factos seguintes:
a) As doenças de apraxia etc. revelam claramente que os movimentos dependem das imagens cinestheticas.
b) A força effectiva da imagem cinesthetica torna-se patente naquella lei psychologica em virtude da qual "todo o movimento imaginado tende á sua realisação", i. é: o movimento imaginado associa-se sempre com a correspondente imagem cinesthetica, e esta por sua vez inicia o respectivo movimento, inconscientemente, quasi imperceptivelmente, até contra a vontade. Por esta lei explicam-se: os movimentos de imitação, a arte de "ler os pensamentos", os movimentos dos hypnotisados, impostos pelo experimentador, etc.
c) O movimento origina-se no cerebro. E, pois, natural attribui-lo ás faculdades ahi residentes: imaginação e appetite. Os nervos senso-motores parecem ser os que servem nos movimentos.
I DEFINIÇÃO E DIVISÃO
O habito não é uma faculdade especial, mas uma facilidade e uma uniformidade, baseada na repetição dos mesmos actos, que aperfeiçoa as faculdades da natureza. Pode ser definida disposição estavel e permanente que ajuda ás faculdades a operar com facilidade e uniformidade. O habito é sempre, mais ou menos, arraigado e distingue-se assim das disposições transitorias. Disposições permanentes, que aperfeiçoam a natureza (saude), não são propriamente habitos. A propria repetição torna os habitos faceis e agradaveis.
Os habitos podem ser: cognoscitivos ou appetitivos — bons ou máos — especulativos ou praticos — particulares, especiaes ou universaes (conforme se extendem a determinadas acções em particular ou a toda uma especie de acções).
II CAPACIDADE PARA HABITOS
Capazes de desenvolver habitos são:
1. Os animaes. Nos animaes, entretanto, o habito não é de muita importancia, porque são governados pelo instincto. Adestramento.
2. No homem, os sentidos internos e o appetite sensitivo. A imaginação, acostumando-se a certo genero de representações (p. ex. poeticas), o appetite acostumando-se a certa orientação (p. ex. ira), desenvolvem os respectivos habitos. Estes habitos são formados sob o influxo da razão, mas exercidos pelas faculdades sensitivas.
3. Intelligencia e vontade. Esta ultima sobretudo é capaz de adquirir muitos habitos.
Os sentidos externos não são, em geral, capazes de desenvolver habitos. A facilidade que parecem adquirir (vista aguda dos Indios) reside antes na intelligencia. Aos membros do corpo, como por exemplo aos dedos do pianista, não se pode attribuir habito, porque o habito reside na faculdade e esta no cerebro.
III ORIGEM DO HABITO — LEIS
DE DESENVOLVIMENTO
Origem do habito são os actos. A força do habito depende de varias circumstancias: da attenção, da intensidade do acto. Parece que até um só acto, quando extraordinariamente intenso, pode dar um habito. Do numero dos actos. A intensidade do habito não cresce, entretanto, em razão directa do numero dos actos. No principio a intensidade augmenta mais, em seguida menos até chegar a uma certa constancia, ficando egual, por todo o periodo desde a origem, o numero dos actos praticados na unidade do tempo. Das condições do organismo. Nos primeiros annos da vida os habitos formam-se com grande facilidade.
O habito diminue por omissão dos actos e por actos contrarios.
Bichat formulou a lei seguinte: o habito enfraquece a sensibilidade e aperfeiçoa a actividade. (Cf. o medico que sente cada vez menos o repugnante de certas doenças, e se torna cada vez mais habil na cirurgia.)
IV NATUREZA DO HABITO
O habito está baseado em associações. Se as imagens e as acções são muitas vezes associadas na mesma ordem de successão, o vinculo associativo torna se cada vez mais firme, de tal modo que em muitos casos será bastante iniciar conscientemente a série dos actos, para ella decorrer espontaneamente sem attenção plenamente conscia. Accrescenta-se ainda um elemento affectivo: a satisfacção que sempre sentimos em praticar actos a que estamos acostumados.
Esta explicação do habito pela associação e pelo elemento affectivo explica, do mesmo passo, o porque das leis do desenvolvimento. Com effeito, tanto a attenção, como a intensidade, o numero dos actos, as condições do organismo influem muito sobre a firmeza da associação, e por meio desta sobre a satisfacção que a pratica do costume sempre traz
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
