Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/2ª parte/Capitulo II
CAPITULO II
Sentidos reproductivos
A imaginação é a faculdade organica que retem, reproduz e combina entre si as representações sensitivas dos differentes sentidos.
A imaginação não retem a propria imagem, mas uma disposição (especie commemorativa), a qual reproduz, quando determinada para isso, uma imagem identica com aquella que antes tiveramos. Cf. a chapa do grammophone. Esta disposição não é puramente material, porque as reproducções por associação não se fazem conforme leis mechanicas; ella reside na faculdade informada, pois as ditas reproducções se fazem conforme as leis psychologicas.
A imaginação pode ainda compor e decompor as imagens recebidas, e como tal é chamada "constructiva". Quando prosegue fins artisticos, chama-se tambem "creadora".
Dintinguem ainda: (a) imagem propriamente dita (as vezes erradamente chamada "idea"). (b) Assimilação: imagens de objectos que só julgamos perceber e que associamos a objectos actualmente percebidos. (c) Allucinações: imagens sem objecto, mas tão vivas que se projectam fora dos sentidos.
Cada sentido possue sua imaginação.
B. Differença entre a imaginação e a percepção externa
Os sentidos externos (a) dependem de um estimulo externo. (b) Suas imagens são incomparavelmente mais claras e (c) completas. (d) Quando applicados aos objectos, seu trabalho é independente da nossa vontade. (e) Trazem a convicção da realidade objectiva. A imaginação, por sua vez, não depende da presença dos objectos, dispõe, á vontade, dos elementos que os sentidos externos forneceram, constitue, por isso, uma faculdade mais alta.
A differença entre as duas faculdades não parece, entretanto, ser essencial senão só gradual. E՚ a mesma faculdade que como sentido percebe e como imaginação reproduz e combina. A natureza das allucinações falla a favor desta opinião.
Associação é o vinculo que liga duas imagens e que com ellas perdura. Em virtude da associação dispertam-se mutuamente imagens que estão em relação entre si, p. ex.: 1868 — guerra — victoria — feriado — passeio. Estas relações entre ideas reduzem-se a relações de semelhança e de contiguidade no tempo e no espaço. Das muitas imagens com que cada imagem está em relação despertará, as mais das vezes, aquella com que a associação é mais intensa.
E՚ de suppor que um elemento material entre nos constitutivos da associação; seria, porem, engano querer reduzil-a totalmente a elementos materiaes. Com effeito:
1.° As imagens associadas possuem, em geral, uma certa e determinada unidade. Ora se as associações se fizessem conforme leis puramente materiaes, esta unidade superior havia de faltar.
2.° Os mesmos elementos (côr, pessoas, paisagens...) podem entrar em associações muito diversas, formando cada vez uma nova unidade. Ora esta unidade suppõe um elemento cognoscitivo superior.
3.° Uma associação material depende do tamanho das imagens. Este porem pode variar, ficando egual a força associativa das imagens.
4.° Quem concede que as associações voluntarias não seguem as leis da materia, não tem motivo nenhum de restringir as associações espontaneas a estas leis.
O dispertar das imagens pode, ás vezes, ter uma causa puramente physiologica, p. ex.: a fome.
Por causa da união estreita entre imaginação e intelligencia, a associação das imagens provoca naturalmente associações de ideas.
A intensidade da associação entre duas imagens (ideas) depende muito das circumstancias. Na sua parte material depende, por ex., do numero das vezes que se fez o transito de uma imagem a outra; na sua parte supra-material do interesse que temos pelas differentes imagens. O curso das associações pode totalmente ser dirigido pela vontade.
A importancia da associação é muito grande para a vida sensitiva e intellectual. Ella intervem na memoria (mnemonica), no sentido commum, no instincto, abrange a vida affectiva e os movimentos espontaneos (andar).
Sendo a imaginação a condição (extrinseca, mas) indispensavel da actividade intellectual, esta depende muito da orientação e das disposições daquella. A imaginação de uma pessoa pode ser mais propria para representações mathematicas, a de outra mais propria para representações graphicas, phonicas... As disposições physicas influem muito na actividade da imaginação.
Orgam da imaginação é o cerebro. Doenças mentaes vem de uma indisposição deste orgam.
1. Allucinações são imagens provocadas por estimulos internos, eguaes em intensidade ás sensações externas. Subjectivamente não differem dellas. A origem das allucinações ainda não tem explicação certa
2. Sonhos são, em geral, illusões e allucinações, provocadas por estimulos internos ou externos e que seguem, muitas vezes, seu curso conforme as leis da associação, sem a direcção da intelligencia e da vontade. Ainda que estas ultimas faculdades possam de algum modo intervir no sonho, faltará sempre o criterio da verdade. Quem sonha, dá fé a todas as illusões. Alguns autores querem explicar a falta deste criterio pela impossibilidade de comparar as imaginações do sonho com as percepções dos sentidos externos; outros pela falta da direcção da parte da intelligencia e da vontade.
3. O somnambulismo natural distingue-se do sonho só pelo facto de se accrescentarem movimentos espontaneos.
1. Definição. A memoria é a faculdade de conservar e de reproduzir impressões e conhecimentos passados e de os reconhecer como taes. E՚ chamada sensitiva emquanto se limita a factos da vida sensitiva; esta existe tambem no animal.
2. Analyse. A memoria sensitiva não inclue a noção abstracta do tempo passado, nem reconhece abstractamente o passado como tal, nem forma o juizo: o objecto A presente é egual ao objecto A passado.
Ella reconhece de um modo concreto o facto passado como tal. E՚ evidente que a imagem do objecto A, que o sentido reproduz pela decima vez, differe de algum modo da imagem do objecto B que está produzindo pela primeira vez, e é nesta differença que se baseia a memoria sensitiva. A successão no tempo é percebida pelo animal materialmente, como tambem é percebida a successão no espaço, e o tempo presente que tambem é successão, cuja percepção suppõe a memoria.
3. A memoria sensitiva do homem, sob a direcção da intelligencia é naturalmente capaz de effeitos muito mais complicados do que a memoria do animal: colloca, com mais exactidão, o facto relembrado na serie dos acontecimentos passados, avalia melhor o tempo decorrido desde aquelle facto etc.
4. Recordação, isto é, procurar propositalmente na memoria um facto esquecido. Só o homem possue a faculdade de recordar porque só elle conhece o esquecido como esquecido. No animal só pode haver recordações improprias, effeitos do acaso.
5. Differença entre a simples imagem, effeito da imaginação, e a imagem que reproduz um facto passado. Quando as distinguimos: (1) a imagem da memoria apresenta-se em geral com outras imagens associadas que dão um fundamento para esta distincção; (2) apresenta-se sempre do mesmo modo; (3) colloca-se espontaneamente na serie dos acontecimentos passados. (4) No homem accrescenta-se o conhecimento intellectual do passado como meio mais poderoso de distincção.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
