Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/1ª parte/Capitulo V

V O principio da vida sensitiva
é essencialmente superior ás forças da materia
bruta

 

1.° argumento. A vida vegetativa suppõe um principio superior ás forças da materia. Logo, a mesma superioridade deve ser concedida ao principio da sensação

2.° argumento. A superioridade da sensação segue das considerações seguintes: a) A actividade da materia é sempre inconsciente, a sensação é consciente. Comparem-se, por ex., as vibrações do. ar e o som, a força attractiva da terra, actuando sobre um corpo, e a sensação do cansaço, a imagem produzida na chapa photographica com a imagem produzida nos olhos, a destruição da materia com a do ser vivo, uma poesia impressa e uma poesia relembrada.

A superioridade do ser sensitivo consiste nisto que só para o ser consciente existe o resto do mundo.

b) Toda a actividade da materia é transeunte, a do ser sensitivo é immanente. O acto immanente é essencialmente superior ao acto transeunte, porque só o acto immanente é todo inteiro a bem do individuo

c) As forças da materia podem ser transformadas umas nas outras. (Movimento, calor, luz, electricidade). As forças sensitivas não são convertiveis entre si, e muito menos podem ser transformadas em energias mechanicas.

d) Toda a materia pode receber todas as formas das forças materiaes; nunca pode receber qualquer forma das forças sensitivas. Logo estas forças pertencem a uma categoria essencialmente superior.

e) As forças da materia estão sempre em relação directa com o espaço. As forças sensitivas não assim.

O movimento material segue sempre uma "linha". O effeito da attracção, da luz, do calor... está sempre em relação com a distancia entre dois corpos. O peso... depende do tamanho dos corpos. Esta dependencia mutua é a consequencia necessaria da materialidade destas forças.

Nada disto se pode affirmar dos actos sensitivos, que não são nem lineares, nem quadrados, nem movimento, nem dependentes de distan- cias. A intensidade de um acto sensitivo (da vista p. ex.) pode soffrer a influencia da distancia, mas não o acto como sensitivo. Com mais razão ainda applica-se este argumento aos actos sensitivos de odio...

A superioridade do ser sensitivo manifesta-se, pois, de muitos modos. Só elle tem consciencia de si e consciencia da existencia do mundo, só a actividade delle é immanente (alem da actividade vegetativa) dirigida para o proprio bem, só elle reproduz o resto do mundo pelas faculdades cognoscitivas, só elle pode com independencia completa do mundo exterior crear, pela imaginação, existencias novas, a acção delle é a unica que não depende do espaço.

Pelo que precede fica provado que um principio supramaterial (i. é, de ordem superior às forças da materia bruta), deve concorrer para o acto da sensação. A necessidade de um principio material é provada pela experiencia. Estes dois principios juntos formam o principio total: o orgão sensitivo vivo.

Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.