Apontamentos de Psychologia/Psychologia Sensitiva/1ª parte/Capitulo III
III Instincto
No estudo do instincto, muito escuro, alias, e muito discutido, devem se evitar dois extremos que estão em contradicção com outras theses certas. Um extremo seria exagerar as faculdades dos animaes attribuindo-lhes intelligencia, o outro diminuil-as e querer explicar o instincto mechanicamente. A melhor solução do problema parece ser aquella que reduz a vida instinctiva a associações e imagens.
1. O primeiro elemento do instincto é associativo. A percepção externa provoca um sentimento agradavel ou desagradavel, conforme se achar em harmonia, ou não, com a natureza do individuo. Este sentimento, por sua vez, determina um movimento espontaneo para o objecto ou então de fuga.
Esta associação explica, em geral, as acções que dependem do affecto.
2. O segundo elemento são imagens sensiveis e innatas de acções uteis ao individuo ou á especie. Estas imagens representam a obra (acção) por fazer, toda ou em parte, e pertencem a ellas tambem as imagens cinestheticas dos movimentos correspondentes. Estas imagens são innatas, i. é, não adquiridas pela experiencia (em geral) mas dadas pela natureza. Não sempre actualmente presentes na alma, ellas são conservadas a maneira das especies commemorativas, despertam, as mais das vezes, sob influxo de uma percepção externa, e provocam, mediante o appetite sensitivo, que acha satisfacção em cumprir estas acções, os movimentos espontaneos correspondentes.
3.Esta explicação do instincto parece a melhor, porque:
a) está em harmonia com todas os dados certos da psychologia sensitiva.
b) basta para explicar todas as acções instinctivas, bem como as anomalias que nas mesmas observamos.
c) é livre das supposições falsas que em outras theorias se encontram.
4. Descripção ulterior.
a) Caracteres do instincto: elle é innato, uniforme (nos individuos e nas especies), admitte adaptação ao meio ambiente, necessario (i. é, determina o animal), produz acções perfeitas desde o principio.
b) O instincto é: individual, ou social, ou da especie, conforme promove o bem do individuo, da sociedade ou da especie.
c) Admittindo uma certa transformação entre especies, deve se admittir tambem correspondente transformação do instincto.
5. Diversas opiniões.
Descartes: todos os movimentos instinctivos são movimentos reflexos.
Darwin: alguns instinctos ("primarios") são devidos a variações casuales, provocados pelas circumstancias; outros ("os secundarios") são devidos a actos primitivamente intellectuaes, que se mechanisaram com o tempo (!!). Lamarck, Spencer, Romanes, sustentam, com algumas modificações, a mesma these.
Cuvier: o instincto é "un rêve-inné".
Outros recorrem á intelligencia para explicar as acções dos animaes. Quanto a esta interpretação veja-se o n.° seguinte.
6. A definição do instincto que naturalmente se desprende do que fica dito é esta: Um impulso, anterior á experiencia do individuo, que determina o animal a realisar certos actos uniformes, coordenados, uteis á especie ou ao individuo, cujo fim porem não é conhecido pelo animal.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
