Apontamentos de Psychologia/Psychologia Racional/Capitulo IV
CAPITULO IV
NATUREZA DO
PRIMEIRO PRINCIPIO DA VIDA HUMANA
I SUBSTANCIALIDADE
I. O principio vital do homem, aquillo que distingue o homem vivo do corpo morto, aquillo cujas funcções mais nobres são os actos conscios de volição e de pensamento, é uma substancia permanente.
Com effeito, os actos conscios são substancias ou accidentes. Ora não são substancias, logo são accidentes, i. é inherentes numa substancia, que, neste caso, é aquelle principio que os produz. Seria absurdo suppor pensamentos sem intelligencia que os pensasse ou volições sem vontade que as tivesse, e não menos absurdo é o querer explicar a vida psychica como "uma corrente de actos" sem substancia que produzisse os mesmos actos, e sem outra ligação entre elles do que a só recordação do passado.
II MATERIALISMO
II. A doctrina materialista affirma que este principio vital do homem é substancia material. Democrito e Leucippo: a alma consiste de atomos de fogo. Epicuro: ella consiste de finissimos atomos redondos. Thomas Hobbes: os actos psychicos são movimentos no cerebro; o homem não passa de uma machina. David Hume: as ideas de alma etc. são apenas hypotheses. Voltaire: toda a vida psychica explica-se pela materia; affirma, entretanto, a existencia de Deus. Estevão de Condillac: toda a vida psychica explica-se pelas sensações. Jul. de la Mettrie, Carlos Vogt, Luiz Büchner, Ernesto Haeckel etc. professaram um materialismo mais crasso, semelhante ao de Th. Hobbes.
Para a refutação do materialismo veja-se:
1. Introducção á psychologia n.° 4.
2. Psychologia sensitiva geral n.° V.
3. Veja Cap. I § 6, Cap. II, IV, Cap. IV, IV.
III PARALLELISMO PSYCHO-PHYSICO
A theoria psychologica, hoje em dia por muitos adoptada, é a do parallelismo psycho-physico. As escolas que defendem esta opinião differem bastante umas das outras, tanto no sentido que dão á these principal como nas explicações que lhe accrescentam e nos argumentos em que se esteiam.
Resumindo: todos os factos psychicos incluem duas séries parallelas, uma physica (p. ex. derramar lagrimas) e uma psychica (tristeza); estas duas séries correm parallelas sem influencia mutua, cada uma como se a outra não existisse, mas inseparavelmente unidas (como as duas incognitas da mesma equação).
Os principaes argumentos são: 1.° o physico não pode agir sobre o psychico. 2.° A interacção entre o physico e o psychico seria contra a lei da conservação da energia, porque, agindo o material sobre o espiritual haveria aniquilamento de energia; do contrario haveria creação de novas energias.
Metaphysicamente falando, estas duas séries parallelas são uma coisa só (sic!), assim como a mesma somma de dinheiro pode ser, no mesmo tempo, divida, com relação ao credor, e fortuna, com relação ao possuidor; ou assim como a mesma linha curva, é connexa ou concava conforme for yista de um ou do outro lado.
Apreciação. 1.° Existe evidente contradicção entre a concepção metaphysica e a concepção empirica.
2.° Para muitos actos psychicos não pode haver correspondente acto physico, p. ex. para a perecepção da identidade entre dois objectos.
3.° "Argumento Austerlitz".
4.° Quanto aos argumentos a favor do parallelismo, veja-se o numero seguinte. As comparações com a linha curva etc. não provam nada. Para terem força de argumento, deviam provar que uma unica substancia é capaz de desenvolver duas séries de processos oppostos e irreductiveis. Ora no caso da linha curva, ha apenas relações especiaes não irreductiveis ( A x ) x B ) Na medida em que as pontas da linha aa se approximam de A afastam-se de B) e no caso da somma de dinheiro, ha só relações juridicas que residem nas pessoas, deixando intacta a natureza do dinheiro.
IV ESPIRITUALISMO
1. A alma não é apenas um accidente, nem uma funcção, nem uma série de actos, como foi provado no n.° 1 deste capitulo. Ella é uma substancia.
2. Esta substancia é simples (não extensa). A substancia não sensivel não pode ser objecto directo da intelligencia (Capitulo I § 1). Deve, por conseguinte ser estudada nos actos pelos quaes se manifesta. Os actos mais elevados da alma são os de pensar e de se determinar pelo livre arbitrio. Ora estes actos não podem ser organicos, elles são necessariamente actos de faculdades simples, intrinsecamente independentes da materia, como foi provado acima (Cap. I § 6, Cap. II, IV). Por conseguinte impõe-se a conclusão: tambem a substancia, á qual intelligencia e vontade livre pertencem, deve ser uma substancia simples, i. é espiritual.
3. União entre o corpo e a alma. A união entre dois elementos é accidental, quando os dois elementos, conservando cada um sua natureza e sua independencia, formam apenas um aggregado; ella é substancial quando os elementos por sua união formam uma só natureza. Ora é este o caso da união entre o corpo e a alma. Elles constituem juntos a natureza humana, principio de actividade vegetativa, sensitiva e intellectiva. A alma communicando-se ao corpo, eleva-o a uma categoria de substancia mais alta, o constitue na especie humana. Considerada em si, a alma deve ser qualificada como substancia incompleta, porque ella exige, naturalmente, para suas funcções, até para as funcções intellectivas e volitivas, o concurso do corpo.
4. Não sendo material, a alma nem pode ser produzida pela materia, o effeito seria superior á causa. Nem pode ser produzida por geração espiritual, porque a alma dos paes é indivisivel. Devemos, pois, concluir que cada alma é creada por Deus.
5. Sendo simples e inextensa, a alma não tem partes, por conseguinte nem pode ser dissolvida em partes, i. é ella não pode morrer Até quando separada do corpo, ella continua sua existencia. Só anniquilada por Deus, cessaria de existir. Ora, em vista da conservação da materia e da energia, devemos dizer, com mais razão, que a substancia da alma, muito mais excellente do que a materia, será tambem conservada. Accrescenta-se o desejo innato e irresistivel de viver sempre, o desejo de uma felicidade completa, a necessidade de uma recompensa para a virtude, do castigo para o peccado, que nesta vida sempre são incompletos, a necessidade de uma justiça final e absoluta, a tendencia para conhecimentos e perfeições, muito maiores do que as que podemos adquirir nesta vida. Estas tendencias, porem, cuja universalidade, entre todos os povos, acha sua expressão na universalidade da crença numa vida futura, não podem ficar completamente satisfeitas numa sobrevivencia qualquer da alma, mas só numa vida sempre duradoura. A falta do corpo não obsta, porque na medida em que fôr preciso, a acção do creador o pode supprir. (Do facto da resurreição temos certeza plena só pela revelação divina.) E՚, pois, innegavel o gravitar do homem para uma vida eterna, ora o creador não seria bom mas cruel se, creando o homem neste estado, não quizesse satisfazer esta tendencia, nem seria sabio se desse ao homem esta finalidade interna, não querendo dar-lhe o seu complemento natural: a Immortalidade.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.

