Apontamentos de Psychologia/Psychologia Racional/Capitulo I
CAPITULO I
DA INTELLIGENCIA
OBJECTO DA INTELLIGENCIA
I. A intelligencia pode, de algum modo, perceber tudo que existe ou que pode existir. De muitos objectos não pode formar conceitos proprios, perfeitos, mas nenhum ser é excluido do ambito da intelligencia. A propria experiencia o attesta, porque os homens fallam de tudo, logo tem tambem de tudo uma idea, ainda que imperfeita. Alem disso: a intelligencia percebe, certamente, o ser (i. é existir). Ora em tudo que existe este conceito é realisado. Logo tudo pode ser attingido pela intelligencia, ao menos enquanto existe.
II. Objecto formal proprio da intelligencia são as essencias daquelles seres que foram percebidos pelos sentidos.
1. Formal proprio é aquelle objecto que a intelligencia percebe directamente e assim como é em si mesmo. São para a intelligencia só as essencias das coisas sensiveis, porque só ellas são directamente percebidas pelo entendimento.
Esta dependencia dos sentidos e por conseguinte da imaginação é attestada pela experiencia. Tudo que actua sobre os sentidos e a imaginação (doença, temperatura etc.) actua tambem, ainda que indirectamente, sobre a intelligencia. Todos os pensamentos são acompanhados de imagens. A propria etymologia confirma esta asserção, sendo que as raizes primitivas até das palavras que exprimem as ideas mais afastadas dos sentidos são raizes que significam objectos materiaes. Aquillo que ha de positivo em nossas ideas mais elevadas, são notas que adquirimos pela percepção dos objectos sensitivos.
2. A intelligencia percebe a essencia dos objectos propostos pelos sentidos.
a) Essencia, quer dizer "aquillo que o objecto é".
b) Este conhecimento é abstracto, porque fazendo abstracção dos accidentes, sabems o que é a essencia. Sendo abstracto este conhecimento (idea) será tambem, pelo facto mesmo universal, i. é applicavel a todos os seres da mesma especie.
c) Argumentos. Os conceitos formados pela intelligencia são abstractos (não incluem nenhuma nota accidental de forma, côr, peso, som etc.) universaes, representam a essencia, pois :
1.° Pela reflexão descobrimos na consciencia duas séries de representações: uma concreta e uma abstracta. As representações concretas são os objectos assim como os sentidos os representam e como a imaginação os reproduz, com todas suas particularidades de lugar, forma etc. As abstractas são as essencias. Assim por exemplo, alem da representação imaginativa de uma folha, temos ainda uma representação de folha que se applica do mesmo modo a todas as folhas de todas as plantas, que se applica com a mesma universalidade como a palavra "folha", e que, por conseguinte, não pode incluir nenhum elemento concreto. Incluindo a mais pequena nota concreta (de forma etc.) não seria applicavel a todos os seres da especie em que este elemento falharia.
2.° Os nomes communs, quando falamos, devem evocar na intelligencia do interlocutor a idea que queremos exprimir. Ora, para isso, os nomes communs devem exprimir uma idea abstracta. Logo...
Prova da menor: uma representação concreta representa tantas ideas quantas determinações contem e quantas o uso liga a ella. E՚, por conseguinte, incapaz de representar uma só. Uma arvore pintada por ex., alem de evocar a idea de arvore (planta alta, com tronco fixo no chão e ramos que se extendem pelo ar) evoca ainda a idea de altura, espessura, forma, vida, especie, substancia, liberdade, força, revolução etc. Com representações tão vagas seria impossivel falar.
A intelligencia pode, pois, ser definida: a faculdade de formar ideas abstractas e universaes e de formar com ellas juizos e raciocinios.
A philosophia perenne diz: nihil est in intellectu, quod non fuerit in sensibus, sed alio modo est in intellectu, alio autem in sensu.
3.° Contra a precedente exposição, levantaram as seguintes difficuldades: Não me posso representar um homem que não seja nem alto, nem mediano, nem baixo. Por conseguinte só me represento cousas concretas (Berkley, Stuart Mill.)
Resp. Nesta objecção confunde-se a representação imaginativa com a idea abstracta.
A imagem pode ser universal camo a supposta abstracção, pois ella pode apresentar-se sem forma distincta, sem côres etc. e assim applicar-se a todos os individuos da mesma especie.
R. Então a imagem é vaga e confusa, porem nas linhas que ainda representa não deixa de ser determinada e concreta.
Os animaes tambem têm linguagem, cf. as formigas.
Resp. Os signaes entre animaes despertam imagens sensitivas e concretas que actuam sobre o appetite sensitivo. Este, por sua vez, desperta a idea de movimentos por executar. Toda esta associação pode ser muito influenciada pelo adestramento. Os animaes, se tivessem a faculdade de tirar das cousas sensiveis algumas ideas abstractas, porque não podiam tirar muitas, porque não podiam falar?
A propria alma, substancia espiritual, não pode ser objecto immediato da nossa intelligencia. Podemos, porem, conhecel-a pela reflexão sobre os seus actos.
O conhecimento da realidade da existencia de um ser infinito e necessario ganhamol-o por meio de demonstração. As ideas sobre as qualidades do mesmo ganhamol-as por synthese (o autor da natureza deve reunir em si todas as perfeições das creaturas), por negação (estas perfeições em Deus não podem ter limites nem imperfeição alguma), por elevação (até sem limites nem imperfeições ficam infinitamente debaixo de Deus, devem, pois, ser elevadas a potencia infinita para se tornarem predicados de Deus). Cf. Theodicea.
4. As palavras intelligencia, juizo, entendimento, razão significam a mesma faculdade. A palavra intelligencia diz mais respeito á força abstractiva, razão á faculdade de raciocinar, juizo á applicação das ideas á vida pratica.
Intelligencia especulativa tem por objecto as verdades em si, a pratica a applicação das mesmas.
Intelligencia analytica e synthetica: veja-se a logica.
Distinguem ainda a intelligencia representativa (talento) e a intelligencia creadora (genio).
DEFINIÇÃO E DESCRIPÇÃO DO JUIZO
Quanto á definição e analyse do juizo, intervenção das paixões no juizo, juizo negativo veja-se a logica e a psychologia sensitiva.
O acto do juizo é um acto simples. A identificação conscia inclue termos, mas não partes.
Ainda que para o homem constitua uma perfeição, o juizo é um modo bastante imperfeito de pensar. Seria muito mais perfeito chegar á plena posse da verdade sem estes processos de separação e de comparação.
O juizo tira os termos das conhecidas fontes de verdade; a comparação se faz sob a influencia de principios geraes.
A vontade pode intervir indirectamente, dirigindo o curso das ideas conforme lhe for conveniente, e directamente impellido para um juizo determinado. Num e no outro caso a intelligencia é exposta ao erro.
O juizo pode ser affirmativo ou negativo — novo ou reproductivo (este ultimo pode-se tornar simples associação) — theorico ou pratico.
RACIOCINIO
1. O raciocinio em geral. Alem do que foi tratado na logica, cumpre notar o seguinte.
O trabalho psychologico no raciocinio distingue-se claramente do trabalho psychologico no sonho, verdadeiro ou acordado. Binet: O estado do sonho é caracterisado pelo sentimento que não dominamos os pensamentos, pelo esquecimento do meio ambiente, começa, muitas vezes pela fixidez dos olhos.
O trabalho do raciocinio é orientado pela idea principal ("tendencia determinante"). Esta idea determinante pode ainda depois de longa interrupção redintegrar o trabalho mental interrompido. (Cf. a chave na musica. )
Neste trabalho a intelligencia e a vontade afastam o que não pertence ao assumpto, procuram o que pode ajudar, confiam á memoria os resultados adquiridos.
Alem dos pensamentos primarios, podem ainda intervir no juizo muitos pensamentos secundarios, que podem ser aproveitados, p. ex. se um pensamento é novo, se estamos no bom caminho etc.
2. Raciocinios concretos. O raciocinio concreto, i. é o raciocinio sobre coisas concretas pode ser feito:
a) em forma mais ou menos rigorosamente syllogistica (cf. o trabalho do agrimensor);
b) por raciocinios cumulativos. Nestes raciocinios a intelligencia abrange muitos raciocinios num só olhar. Os processos logicos não são postos á parte mas subintendidos.
c) Passando como por intuição de um facto concreto para outro. P. ex. na diagnose medica, conhecimento psychologico dos homens.
NB. A memoria intellectiva é uma funcção da intelligencia, não é uma faculdade nova.
DA LINGUAGEM
A linguagem é um conjuncto de signaes pelos quaes manifestamos os factos internos da nossa consciencia. Seu uso é um acto da razão pratica.
1. Origem. O homem tem na sua natureza quanto é preciso para formar uma lingua: pensamentos, orgam para formar sons articulados e a faculdade de ligar uns com os outros. Entretanto, creando o homem, Deus não podia deixar de dar-lhe desde o principio uma lingua adaptada ás suas necessidades.
2. Distinguem linguagem gesticular, real (que exprime as ideas por objectos, telegrapho optico), oral, escripta. A lingua escripta é idiographica (symbolos representantes das ideas), ou phonetica, esta ultima exprime conforme o gráo de perfeição: palavras, syllabas ou, por lettras, vogaes e diphtongos. Este modo é o mais perfeito porque com o menor numero de signaes pode exprimir o maior numero de ideas.
3. Pouco explorado é ainda o modo como a creança apprende a lingua. Parece que faz a flexão, a conjugação, a construcção da phrase por analogia ouvindo muitas vezes como as palavras e as proposições são formadas, exprime analogicamente os seus proprios pensamentos, e assim é que acerta tambem com a flexão de palavras que nunca ouviu conjugar ou declinar.
Ouvindo falar, não entendemos sempre a proposição na ordem das palavras, entendemol-a toda de uma vez, ouvindo as ultimas palavras della.
Na leitura só lemos quando os olhos param, emquanto estão em movimento não lemos. Dentro de 0,1 segundo podemos ler 6—7 lettras. Quando conhecemos a lingua, basta ler poucas lettras: a imaginação suppre o resto.
4. Palavra interna é a expressão mental do objecto, que precede necessariamente a palavra externa, a idea. Não se deve confundir a palavra interna com a imagem cinesthetica.
ORIGEM DAS IDÉAS
Do que fica dito no paragrapho precedente, segue que as ideas abstractas são o resultado da actividade intellectiva. Surge, pois, a questão: como é que o intellectivo forma as ideas abstractas?
Explicação: O processo da intellecção é um acto de operação immanente. Ora, como os actos immanentes da sensação precisam de um objecto que os determine, assim tambem a intellecção precisa de um objecto. Este objecto é a imagem sensitiva, mas não directamente, porque uma cousa material e extensa não pode actuar sobre uma faculdade immaterial e simples. O intellecto deve, por conseguinte, primeiro despojar esta imagem de todas as determinações concretas. O resultado desta "abstracção" de todo differente da imagem sensitiva, chama-se determinante cognoscitiva", porque é capaz de determinar o acto cognoscitivo. Esta determinante é directamente percebida pelo intellecto e junto com ella o objecto representado. O intellecto, percebendo-a, se diz a si mesmo o que a cousa é.
Esta explicação pode-se reduzir ás proposições seguintes:
1. A intelligencia é uma faculdade que precisa de um objecto para ser determinada.
2. A imaginação e o intellecto produzem a determinante cognoscitiva necessaria á intellecção.
O poder abstractivo da intelligencia une-se á imagem sensitiva, como o artista se une ao instrumento, e unido produz a determinante. Esta união do immaterial com o concreto recebe alguma luz pelo facto de as duas faculdades, intellecto e imaginação estarem na mesma alma.
Como o effeito não pode ser superior á sua causa, como a imagem sensitiva é só cousa concreta, ella exige o concurso de uma faculdade immaterial para formar uma idea abstracta.
3. A intelligencia, unindo-se à determinante cognoscitiva, percebe o que o objecto é; pois perceber um objecto não é senão unir-se, num acto immanente, com uma imagem representativa do mesmo objecto.
4. A propria determinante cognoscitiva bem como a natureza da faculdade intellectiva, não se percebem directamente senão num acto de reflexão sobre o acto intellectivo.
SYSTEMAS FALSOS SOBRE A ORIGEM DAS IDEAS
1. Idealistas. a) Platão: O objecto do entendimento são as ideas universaes, absolutas, necessarias (o eterno, a unidade, a belleza...) que existem na alma como lembranças de uma existencia que precedeu a entrada do homem neste mundo, e despertam á vista dos objectos sensiveis.
b) Descartes: O homem nasce com ideas innatas.
Resp. a) A consciencia não sabe nada disso.
b) Todas as nossas ideas levam o cunho de origem sensitiva (cf. § 1).
c) applicamos ás cousas que existem as nossas ideas metaphysicas. Ora de duas uma: ou as applicamos porque vemos que nellas se verificam, e então para que admittir ideas innatas, visto que podemos adquiril-as olhando para os objectos? ou applicamol-as á tóa, com esta affirmação o innatismo levaria ao scepticismo.
c) Kant: (Criticismo): Aquillo que uma cousa é não podemos perceber, percebemos apenas aquillo que apparece (o phemomenon). Aos phenomenos juntamos as formas a priori que o intellecto contem (p. ex. espaço, tempo, substancia, causa etc.) e que fóra do intellecto não existem. O resultado desta união é o objecto do intellecto.
Foi provado na critereologia que as categorias kantianas não tem valor objectivo. Por conseguinte todo este systema pecca pela base.
2. Ontologismo. (Malebranche) pretende que o entendimento percebe as essencias das cousas immediatamente na essencia divina.
3. Scepticismo. Fichte, p. ex., affirma que todas as ideas são apenas producções da intelligencia sem que lhes corresponda realidade alguma.
4. Os Tradicionalistas. (Baunald, La Mennais, Bautain): O homem é incapaz de perceber directamente as cousas materiaes .As ideas nos vêm das palavras que Deus dirigiu ao homem e que pela tradição vão de geração em geração. A palavra, conforme alguns, produzem as ideas, conforme outros despertam-as.
5. Materialistas. As differentes theorias materialistas sobre a origem das ideas podem ser reduzidas a tres.
a) Materialismo propriamente dito (Leucippo, Democrito, Hobbes, Feuerbach, Czolbe). Para estes auctores os actos psychicos são apenas, como os effeitos physicos e chimicos, differentes estados da materia.
b) Sensualistas. (Locke, Condillac, Lamoriguière, Hume). Rejeitando o materialismo, não admittem, entretanto, outra origem das ideas a não ser só os sentidos. Negain a differença entre imagem e idea.
c) Empiristas (Empirismo, Relativismo, Positivismo, Agnosticismo). Negam que seja possivel conhecermos alguma coisa que não seja sensivel.
Resp. Todas estas affirmações materialistas estão em contradicção com os factos. Pois não só possuimos ideas de objectos abstractos que nem podiam ser objectos dos sentidos, mas tambem todas as nossas ideas são abstractas, suprasensiveis em si, como foi provado na logica e pela analyse do objecto da intelligencia; e estas ideas tem valor objectivo, como foi demonstrado na critereologia.
NATUREZA DA INTELLIGENCIA
A intelligencia é uma faculdade simples (inextensa), intrinsecamente independente dos orgãos corporaes. Os sentidos e a imaginação concorrem apenas como condição na actividade intellectiva.
Argumentos. 1. Numa faculdade organica, a clareza da percepção está sempre em razão directa com a representação no orgão, como é provado pela experiencia dos sentidos. Ora a clareza dos nossos conceitos intellectuaes não está em relação tão directa com as representações dos objectos nos sentidos e na imaginação.
Podemos, por ex., falar e pensar com muita clareza sobre um assumpto de mathematica, sendo muito imperfeitas as representações imaginativas que acompanham as ideas. Por conseguinte a intelligencia não é organica.
2. Na supposição materialista, as faculdades organicas deviam possuir um elemento que não só representasse a negação, mas que fosse a propria negação. Ora a negação não tem nada de corporeo. Com effeito, a negação não pode ser um elemento corporeo positivo. Qual seria? Nem é simples falta de um elemento, porque, a falta, a ausencia causaria apenas falta de uma idea. Logo os juizos negativos são effeitos de uma faculdade immaterial.
3. Muitas ideas, como a idea de espirito, infinito, virtude, não tem nada de material. Logo não podem ser nem produzidas, nem representadas por uma faculdade organica.
4. As ideas que exprimimos pelos substantivos communs são universaes. Ora só podem ser universaes na supposição de não incluirem nenhum elemento material. Veja-se acima.
NB. As faculdades materiaes tem symbolos para as ideas immateriaes (p. ex. vocabulos). Estes symbolos, porem, não são a idea. Os symbolos variam, a idea é sempre a mesma. Todos os homens tem a mesma idea de "planta", as palavras correspondentes são tantas quantas as linguas. E o mesmo se pode dizer dos outros symbolos.
Esta obra entrou em domínio público no contexto da Lei 5988/1973, Art. 42, que esteve vigente até junho de 1998.
