Apontamentos de Psychologia/Introducção

INTRODUCÇÃO

 

1. Definição. A psychologia é "a sciencia da vida sensitiva e racional do homem". Pode definir-se tambem: "a sciencia da alma", entendendo pela palavra alma o principio vital do homem, cuja definição exacta será o resultado do proprio estudo da psychologia.

A vida é "movimento immanente", manifesta-se como vida vegetativa, e intellectual. A vida vegetativa é objecto das sciencias naturaes, a vida sensitiva e intellectual é objecto da psychologia.

2. Methodos em psychologia.

1.° O methodo analytico comprehende:

a) a introspecção, a reflexão sobre os proprios actos. E՚ a parte principal em todas as experiencias, mas insufficiente sem os outros methodos.

b) methodo experimental ou physiologico. (Weber, Fechner, Dubois-Reymond, Wundt). Este methodo estuda experimentalmente as condições materiaes que acompanham os actos psychicos. Desenvolvida só modernamente, a psychologia experimental já está constituindo uma sciencia nova separando-se da psychologia racional. Esta separação só póde prejudicar aos seus trabalhos e não faltam entre seus proprios defensores autores que seriamente a lamentam.

2.° Methodo synthetico, quer deduzir toda a psychologia de alguns principios geraes (Platão, Fichte). Combatendo o uso exagerado que os idealistas fizeram deste methodo, Herbart imaginou o "methodo mathematico". Elimina as questões relativas á substancia e ás faculdades da alma, considera exclusivamente as "representações reaes" e tratando estas como valores mathematicos constróe uma psychologia sem alma. Esta theoria já passou á historia.

3.° O methodo mixto principia pelo estudo das operações psychicas, pois estas podem ser observadas immediatamente e nellas é que se revelam faculdades e natureza da alma. Determinada esta, procura chegar a novas conclusões pela synthese.

3. A vida. O ser vivo é uma substancia, da qual é proprio mover-se a si mesma conforme sua natureza. (S. Thomas.) Procurando explicar a ultima razão da vida (em geral), foram estabelecidos os systemas seguintes:

a) O Vitalismo exagerado que suppõe, até nos vegetaes, uma substancia immaterial como principio da vida. (Bichat).

b) O Mechanicismo que quer explicar a vida por forças physicas, chimicas, mechanicas; rega o supra-material e as causas finaes. A insufficiencia absoluta da these mechanicista resulta do seguinte n.° 4.

c) O vitalismo moderado, admitte, alem das forças da materia bruta, um "principio de ordem e actividade", uma "inclinação vital". na materia dos seres vivos. Este principio forma, junto com a materia e as forças materiaes, a substancia viva.

4. Superioridade da substancia viva sobre a materia bruta.

a) As novas formas que a materia bruta pode revestir são sempre conforme as leis da inercia e do equilibrio; as da materia viva são contra estas leis (p. ex. a planta cresce para cima, as raizes deslocam a terra).

b) Os seres vivos desenvolvem orgãos e systemas vitaes (p. ex. apparelho digestivo) para a utilidade do ser vivo todo. A materia nem os desenvolve nem lhe podiam servir.

c) A materia produz só actividade transeunte, a vida actividade immanente. A actividade transeunte diminue com as resistencias que encontra. A actividade vital augmenta com as mesmas (cf. a experiencia do musculo tetanisado).

d) A vida tem suas leis proprias para "vencer" as influencias da materia: o frio, o calor, a actividade chimica do oxygenio, a humidade etc. Mais claramente manifesta-se esta opposição nas doenças.

5. Primeira origem da vida. Em todos os pontos opposta á materia, a vida não se pode ter desenvolvido della. Será pois necessario concluir á intervenção do creador para explicar o apparecimento della na terra. A theoria da panspermia interastral e outras semelhantes carecem de fundamento serio, emquanto que a da intervenção do creador está em harmonia, não só com a superioridade da vida sobre a materia como também com a cosmologia e a theodicea.