A Poetica de Aristoteles/XXVIII


 
CAPITULO XXVIII.
Da ſuperioridade que tem a Tragedia
ſobre a Epopêa.
I.

Argumentos dos que preferem a imitação Epica á Tragedia. Ora qual das duas ſeja melhor, ſe a imitação Epica, ſe a Tragica, he ponto duvidoſo. Porque ſe a melhor he aquella, que neceſſita de menos auxilio, e deſte genero he a que ſe dirige a eſpectadores mais habeis, he claro que a que imita todas as couſas, neceſſita de mais auxilio. Porque ahi ſe fazem muitos géſtos, e movimentos, como ſe para os eſpectadores perceberem foſſe neceſſario ao Poeta ajuntar-lhe eſtas couſas.

II.

Aſſim como fazem os máos tocadores de flauta, que rodão por terra, quando querem imitar hum diſco, e que arraſtão a ſi o chefe do Coro, quando na Muſica imitão a Scylla. Deſte genero pois he a Tragedia, e os Actores antigos aſſim conſideravão os modernos. Pois que Myniſco chamava macaco a Callippides por ſer muito exceſſivo nos géſtos. A meſma opinião havia a reſpeito de Pindaro. De forte que os Actores modernos são a reſpeito dos antigos, o que a Arte Tragica he a reſpeito da Epopêa. Dizem pois que eſta he para eſpectadores mais nobres, porque para elles não he neceſſario repreſentação, ou géſto algum; e a Tragica para o povo. Por conſequencia eſta que neceſſita de mais auxilio, vem a ſer inferior.

III.

Reſpoſta a eſtes argumentos.Porém em primeiro lugar eſta accuſação não reſpeita á Poezia, mas á repreſentação; pois que podem ajudar-ſe dos géſtos tanto os que recitão os Poemas Epicos, como fazia Soſiſtrato, como os que os cantão, como fazia Mnaſitheo Opuntio. Além do que nem todos os movimentos merecem ſer reprovados, aſſim como nem as danças, mas ſómente os movimentos vicioſos, o que ſe reprehendia a Callippides, e preſentemen-te ſe reprehende a outros, porque não imitão mulheres ingenuas, e honeſtas. Quanto mais que a Tragedia póde tambem fazer-ſe ſem movimento, do meſmo modo que a Epopêa. Porque lendo-ſe, conhece-ſe claramente o ſeu merecimento. Se ella pois he melhor que a Epopêa nas demais couſas, por certo que iſto não he neceſſariamente da ſua eſſencia.

IV.

A Tragedia tem o meſmo, e ainda mais do que a Epopêa.Depois diſto a Tragedia tem tudo o que tem a Epopêa, porque póde tambem uſar do metro, e tem do mais huma parte não pequena, a ſaber, a Muſica, e o Apparato; pelas quaes ſe concilia evidentiſſimamente o prazer, e além diſtoTem mais evidencia e menos extensão. tem evidencia tanto na leitura, como na acção; e tem a vantagem de que o fim da ſua imitação ſe comprehende em menos extensão; porque aquillo, que eſtá reduzido a menos eſpaço, cauſa muito maior prazer, do que ſe eſtiveſſe diſperſo por tempo dilatado, como por exemplo, ſe alguem puzeſſe o Edipo de Sophocles em tantos verſos, quantos tem a Iliada.

V.

Tem mais unidade.Finalmente qualquer imitação Epica tem menos unidade; o que ſe prova, porque de qualquer deſtas imitações ſe fazem muitas Tragedias. Pelo que ſe o Poeta na Epopêa ſe ſervir de huma Fabula, neceſſariamente ou ha de parecer mutilada, e imperfeita, ſe elle a expuzer brevemente, ou ha de parecer languida, ſe quizer dar-lhe com o metro a ſua juſta extensão. E ſe uſar de muitas Fabulas, quero dizer, ſe ella for compoſta de muitas acções, faltará á unidade. Aſſim como a Iliada, e a Odyſſea tem muitas partes deſte genero, as quaes tem tambem a ſua grandeza; poſto que eſtes dous Poemas eſtejão na verdade compoſtos o melhor que he poſſivel, e ſejão principalmente imitação de huma ſó acção.

VI.

Conclue-ſe que a Tragedia he mais perfeita que a Epopêa.Se pois a Tragedia ſe diſtingue em todas eſtas couſas, e além diſto no fim proprio da Arte, pois que eſtas Poezias não devem produzir indiſtinctamente qualquer prazer, mas o prazer que já diſſemos; ſegue-ſe maniſeſtamente que ella he mais perfeita, e que conſegue o ſeu fim muito melhor do que a Epopêa.

VII.

Baſte pois o que fica dito da Tragedia, e Epopêa, tanto em ſi meſmas, como das ſuas fórmas, e partes, números, e differenças dellas: quaes ſejão as cauſas da ſua bondade, ou maldade, e finalmente ſobre as objecções, e reſpoſtas, com que ſe diſſolvem.

FIM.