A Poetica de Aristoteles/XXVII


CAPITULO XXVII.
Das objecções, que ſe fazem aos Poetas,
e da ſua ſolução.
I.

Quantos porém, e quaes ſejão os generos de objecções, que ſe oppõem aos Poetas, e as ſuas ſoluções, claramente conhecerão aquelles, que fizerem as reflexões ſeguintes.

II.

Dos tres lugares communs, donde ſe tira a ſolução das objecções.
I. do objecto da Imitação.
Porque como o Poeta he imitador, aſſim como o pintor, ou qualquer outro, que repreſenta imagens, neceſſariamente ha de imitar huma de tres couſas, pois que ou elle imita as couſas, quaes forão, ou são, ou quaes dizem, e he provavel que ſerião, ou quaes devem ſer.II. do meio, ou inſtrumento da Imitação. E expõe iſto com a Dicção, ou tambem com Dialectos, e Metaphoras. E com effeito são muitas as affeições da Dicção, que concedemos aos Poetas.

III.

Do modo, por que ſe faz a Imitação.
Dous generos de defeitos na Poezia.
I. proprios, e eſſenciaes.
II. eſtranhos, e accidentaes.
Além diſto a bondade da Poezia não conſiſte no meſmo, em que conſiſte a bondade da Politica, ou de outra qualquer arte. Porém os defeitos da Poezia são dous, pois que hum naſce della meſma, e o outro lhe he accidental. Porque ſe ella ſe propõe imitar couſas impoſſiveis, o defeito he ſeu; porém ſe fizer boa eſcolha, mas por exemplo repreſentar hum cavallo, que lança para diante ambos os pés direitos; ou errar a reſpeito de alguma Arte, como a reſpeito da Medicina, ou de outra qualquer; ſe fizer couſas impoſſiveis, não errará então por ſi meſma. Pelo que as objecções que ha ſobre eſtas queſtões, devem reſolver-ſe, examinando-ſe por eſtos principios.

IV.

Porque em primeiro lugar ſe o Poeta fizer na meſma Arte couſas, que não ſe podem fazer, erra; mas obraria bem, ſe vieſſe a conſeguir o fim della (eſte fim já eſtá explicado), por exemplo, ſe por eſta maneira fizer eſta, ou outra parte mais paſmoſa, e admiravel: temos exemplo no ſeguimento de Heitor. Porém ſe o fim pouco mais, ou menos ſe podia conſeguir, e houve erro na Arte ſobre eſtes pontos, o Poeta não obra bem, porque ſe iſto ſe conſentiſſe, então não erraria elle em caſo algum.

V.

Deve tambem ver-ſe em que couſas ſe commetteo o erro, ſe he contra o que pertence á Arte, ou contra outra couſa accidental. Porque he menos importante que o Poeta ignore que a Cerva não tem cornos, do que que a imite mal na diſcrição.

VI.

De que modo ſe reſpondem ás objecções, que ſe fazem a reſpeito do objecto da Imitação. O Poeta trata as couſas:
I. ou como deverião ſer;
II. Ou ſegundo a fama;
Além diſto ſe o accuſarem de que diz as couſas, não como são na verdade, mas como devem ſer, tambem o Poeta Sophocles por exemplo dizia, que elle fazia os homens quaes devem ſer, e Euripedes quaes na realidade são. Pelo que eſta he a reſpoſta, que ſe lhes deve dar. E ſenão puder ſer de nenhum modo deſtes, reſponderſe-ha que aquellas couſas ſe contão aſſim, como por exemplo, as hiſtorias, que ſe referem dos Deoſes; porque ſuppoſto o referillas aſſim, talvez nem ſeja melhor, nem verdadeiro; com tudo he certo, que aſſim correm, como dizia Xenophanes. Mas elles não dizem iſto.

VII.

III. Ou ſegundo a verdadeira Hiſtoria.Póde tambem ſer que o que ſe diz não ſeja o melhor, mas com effeito ſuccedeſſe, aſſim como aquelle lugar, em que ſe falla das armas

⸻ ἐγχεαιδέσφιν ἴρθʹ ἐπι σαυρωτῆρυς,
e as ſuas lanças Direitas ſobre os contos ſtão cravadas.

Porque aſſim coſtumavão então, e ainda hoje coſtumão os Illyrios. E para conhecer ſe huma couſa foi bem, ou mal obrada, ou bem, ou mal dita por alguem, não ſómente deve attender-ſe á meſma acção, ou dito, vendo ſe elle he bom, ou máo, mas tambem ao que obrou, ou diſſe, a reſpeito de quem, quando, a quem, e porque motivo: por exemplo, ſe a cauſa de ſe fazer foi o maior bem, ou a cauſa de ſe não fazer o maior mal.

VIII.

Como ſe podem diſſolver as objecções a reſpeito do meio, ou inſtrumento da Imitação.
I. Palavra razão do Dialecto.
Diſſolveremos outras dúvidas, olhando para a Dicção, por exemplo, no Dialecto Ούρῆας μὲν πρώτον (Primeiramente accommoddeo a peſte os machos): Porque talvez o Poeta não entenda por ουρηας os machos, mas os ſentinellas. E a reſpeito de Dolon εἷδος μὲν ἓην κακός (era de máo aſpecto) não ſignifica a irregularidade do corpo, mas a deformidade do roſto, porque os Cretenſes chamão ἐνειδές ao que tem o roſto formoſo. E quando ſe diz ζωρότερον δὲ κέραιρε (lança-lhe vinho puro) ζωρότερον não ſignifica ahi vinnho puro, como ſe dá aos bebados, mas ſignifica depreſſa.

IX.

II. Pela Metaphora. Outras couſas explicão-ſe pela Metaphora, por exemplo, ἂλλοι μὲν ρἁ θεοί τε, καὶ ἀνέρες εὗδον παννύχιοι (Já os outros Deoſes, e homens dormião por toda a noite'). E tambem ἤτοι ὅτ᾽ ἐς πεδίον το τρωϊκὸν ἀθρηςειεν (Ou quando olhava para o campo Troiano). E ἀυλῶν ςυρίγγωντε ὁμαδὸν (O eſtrepito das flautas, e gaitas). Porque todos diz-ſe por Metaphora, em lugar de muitos, pois que tudo certamente he muito. Tambem neſta paſſagem ὂιη δ᾿ ἂμμορος (Ella unicamente he izenta) ſe falla por Metaphora; porque aquillo, que he mais conhecido, ſe chama unico.

X.

III. Pelos Accentos.Tambem ſe reſponde a eſtas objecções pelo modo de pôr os accentos, como Hippias Thaſio explicou eſtas palavras δίδομεν δὲ ὁi (porém nós damos, ou, porém nós lhe damos): e eſta ἷυ κατα πὺθεται ὂμβρω (do qual apodrece com a chuva, ou, não apodrece com a chuva).

XI.

IV. Pela pontuação.Outras ſe diſſolvem pela pontuação, como no lugar de Empedocles ἄιψα δὲ θνητὰ ἐφύοντο, τὰ πρὶν μάθον ἀθὰνατα ζωά τε, πρὶν κἑκρητο. (E logo ſe fizerão mortaes as couſas, que eu primeiramente conheci, que erão immortaes, e Simplices as que antes erão compoſtas).

XII.

V. Pela Amphibologia.Outras por Amphibologia, por exemplo παρώχηκε πλέον νύξ (Tem paſſado a maior parte da noite).VI. Pelo uſo ordinario das palavras. Outras pelo uſo ordinario das palavras; a palavra κεραμένον (miſturado) dizem que ſignifica o vinho. Donde vem tambem κνημὶς νεοτέυκτου καςςιτέροιο (a greva de eſtanho recentemente feito); e o chamar officiaes de bronze χαλκέας aos que trabalhão em ferro. Daqui tambem ſe diz, que Ganimedes miniſtrava vinho aos Deoſes οἰνοχοεύειν. Mas tambem iſto póde ſer por Metaphora.

XIII.

VII. Pela variedade das ſignificações.Quando tambem algum nome parece ſignificar alguma couſa contraria ao ſentido, deve-ſe conſiderar quantas ſignificações póde ter na materia, de que ſe trata, por exemplo, τῆ ῥ᾽ ἒςχετο χάλκεον ἒγχος (e a eſta ficou pegada a lança de bronze); porque aqui ἒςχετο ſignifica ſer detida, embaraçada. Quantas ſejão as ſignificações diverſas, conhece-ſe principalmente comparando a palavra com a ſignificação contraria. E não como aquelles, de quem diz Glauco, que ſe preoccupão, e com os ſeus raciocinios condemnão logo per ſi meſmos; e como ſe pronunciaſſem a Sentença, reprehendem tudo o que ſe oppõe á ſua opinião. Iſto aconteceo a reſpeito da hiſtoria de Icario; porque aſſentão que elle era Lacedemonio, e por conſequencia que he abſurdo, que indo Telemaco á Lacedemonia ſe não encontraſſe com elle. Iſto porém talvez ſeja do modo que dizem os Cefalenſes, porque eſtes ſeguírão que Ulyſſes caſára na ſua terra, e que elle era Ieadio, e não Icario. Eſta objecção pois naſce provavelmente deſte engano.

XIV.

Reduzindo o impoſſivel, e o abſurdo ao que póde ſer crivel na Poezia.Em huma palavra, o impoſſivel deve reduzir-ſe ou á Poezia, ou ao que he melhor, ou á opinião. Porque em quanto á Poezia, deve-ſe antes eleger o impoſſivel, que ſe póde crer, do que o incrivel, ainda que ſeja poſſivel; e as peſſoas devem ſer taes, quaes Zeuxis as pintou.Ao que he melhor. O meſmo he a reſpeito do que he melhor, porque o modêlo deve ſempre ſer excellente.

XV.

Ao que he ſegundo a fama.Em quanto á opinião deve ſeguir-ſe o que commummente ſe diz. As couſas, que ſe dizem oppoſtas á razão, dá-ſe-lhes a meſma reſpoſta; e tambem ſe reſponde, que algumas vezes não são contrarias á razão, porque he veroſimil ſuccederem algumas couſas, ainda além da veroſemelhança. Aquellas couſas, que do modo que eſtão ditas, parecem contrarias entre ſi, devem examinar-ſe da meſma maneira, que ſe examinão as objecções na Logica, iſto he, ſe ſe diz o meſmo para o meſmo fim, e do meſmo modo; como tambem ſe o que o diz he o meſmo, ſe falla de ſeu motu proprio, ou ſegundo o parecer de algum homem prudente. Porém juſtamente ſe critíca o que he contrario á razão, e a maldade; quando o Poeta uſa, ſem neceſſidade alguma, ou do que ſe oppõe á razão, como Euripedes no Egiſto, ou da maldade, como no Oreſtes a de Meneláo.

XVI.

Por tanto eſtas objecções, que ſe propõe, são de cinco eſpecies; porque ou ſe critíca alguma couſa como impoſſivel, ou como abſurda, ou como má, ou como contradictoria, ou como contraria ás regras da Arte. As reſpoſtas devem procurar-ſe nos lugares, que ficão ditos, e são doze.