A Poetica de Aristoteles/XXVI


 
CAPITULO XXVI.
Da applicação das regras da Tragedia á Epopêa.
I.

Na Epopêa ha tambem as demais partes da Tragedia, excepto a Melopêa, e a Decoração.Além diſto deve a Epopêa ter as meſmas eſpecies que a Tragedia; porque ou ha de ſer Simples, ou Implexa, ou Moral, ou Pathetica, e as meſmas partes, excepto a Melopêa, e a Decoração. Por quanto tambem neceſſita de Peripecias, de Agnições, e de Paixões, e de belleza igualmente nas Sentenças, e na Dicção; de todas as quaes couſas uſou Homero primeiro que todos, e quanto era neceſſario. Pois que elle compoz cada hum dos ſeus Poemas, a Iliada Simples, e Pathetica, e a Odyſſea Implexa, porque he toda cheia de Agnições, e he moral. Além diſto excedeo a todos na Dicção, e na Sentença.

II.

Differença entre a Epopêa, e a Tragedia.Porém em quanto ao contexto differe a Epopêa da Tragedia na extensão, e no metro.I. Na extensão, que he maior na Epopêa, e porque. O termo da ſua extensão he o que já diſſemos; porque he neceſſario que ſe poſſa ver ao meſmo tempo o principio, e o fim. Iſto ſe conſeguirá, ſe o contexto for mais curto que os antigos, e correſponder ao número de Tragedias, que ſe deſtinão para ſe ouvirem de huma vez. Porém a Epopêa tem huma couſa muito principal para extender a ſua grandeza. Pois na Tragedia não cabe a imitação de muitas couſas, que ſe fazem ao meſmo tempo, mas ſómente a do que ſe paſſa no theatro, e diz reſpeito aos Actores. Mas na Epopêa, por iſſo meſmo que he narração, podem tratar-ſe muitas couſas ſeparadas, que ſe executárão no meſmo tempo, com as quaes por lhe ſerem proprias, creſce o volume do Poema. Pelo que a Epopêa tem eſta vantagem para a magnificencia, como tambem o fazer variar o ouvinte, e o epizodiar com Epizodios diverſos. Porque a uniformidade, cauſando logo ſaciedade, faz que as Tragedias não tenhão boa acceitação.

III.

II. No Metro, que he Heroico.Em quanto ao metro, o Heroico he por experiencia o mais accommodado; porque ſe alguem fizer huma imitação narrativa em qualquer outro metro, ou em muitos metros diverſos, iſto certamente parecerá improprio. Por quanto o Heroico he o mais mageſtoſo, e o mais pompoſo de todos os metros. E por iſſo he o que mais admitte Dialectos, e Metaphoras, porque tambem a imitação narrativa he a mais excellente de todas as outras. O Jambo, e o Tetrametro são proprios para o movimento; aquelle para a Orcheſtica, e eſte para a acção. Porém ainda ſerá maior abſurdo ſe alguem miſturar eſtes generos de verſos, aſſim como fez Cheremon. Por iſſo ninguem fez compoſição dilatada em outro metro, ſenão no Heroico. Antes, como diſſemos, a meſma natureza enſina a preferir aquillo, que he mais accommodado.

IV.

Homero pois não ſó he digno de louvor por outras muitas couſas, mas tambem porque ſó elle entre os Poetas conhece o que lhe compete fazer. Porquanto o Poeta deve dizer muito poucas couſas, porque de outra forte não he imitador. Ora, os outros geralmente figurão por ſi meſmos continuamente, e imitão poucas couſas, e poucas vezes. Elle porém, depois de huma pequena preſação, logo introduz hum homem, ou huma mulher, ou alguma outra couſa, que tenha coſtumes; e nunca couſa alguma ſem coſtumes, mas ſim que ſeja morata.

V.

III. No Maravilhoſo, que convém mais á Epopêa.He neceſſario que nas Tragedias ſe excite o maravilhoſo; porém elle á proporção ainda tem mais lugar na Epopêa. Por iſſo o maravilhoſo lhe convém ſummamente, pois que não temos diante dos olhos as peſſoas, que fazem a acção. Porquanto o paſſo do ſeguimento de Heitor ſería ridiculo, ſe ſe puzeſſe no theatro, vendo-ſe huns parados, e ſem o ſeguirem, e o outro acenando com a cabeça. Mas no Poema Epico fica iſto encuberto.

VI.

E que o maravilhoſo ſeja agradavel, ſe demoſtra; porque todos os que narrão alguma couſa, a amplificão para a fazerem agradavel. Homero foi o que principalmente enſinou os demais a dizer couſas falſas de hum modo conveniente. Iſto he hum paralogiſmo. Porque os homens julgão que quando de exiſtir, ou fazer-ſe alguma couſa, reſulta fazer-ſe outra, tambem da exiſtencia da ſegunda ha de ſeguir-ſe o exiſtir, ou fazer-ſe a primeira. Iſto porém he falſo; logo tambem ſerá falſo o primeiro. Mas deve accreſcentar-ſe, que exiſtindo huma couſa, deve a outra exiſtir, ou fazer-ſe neceſſariamente. Por quanto ſabendo que iſto he verdadeiro, raciocina falſamente a noſſa alma, que tambem o primeiro exiſte.

VII.

Eſcolha de couſas provaveis, e veroſimeis.Devem tambem eſcolher-ſe antes couſas impoſſiveis, e provaveis, do que poſſiveis, e incriveis; e não compôr os diſcurſos de partes, que ſe não conformem com a razão, antes he muito eſſencial que não tenhão couſa alguma contra a razão; ou ſe a houver, que ſeja fóra da Fabula, como no Edipo o não ſaber elle como foi a morte de Laio; mas nunca no Drama, aſſim como na Electra os que vem dar noticia dos jogos Pythicos, e nos Myſios o que vem de Tegea até Myſia ſem fallar.

VIII.

Como ſe deve haver o Poeta nas couſas incriveis.Por tanto o dizer-ſe que então a Fabula ſe deſtruiria, he couſa ridicula, porque deſde o principio ſe não devem compôr ſemelhantes Fabulas; ſe ella porém eſtiver eſtabelecida, e ſe fizer com que pareça mais racionavel, póde admittir-ſe, ainda que ſeja abſurda. Pois que tambem as couſas pouco conformes á razão, que ha na Odyſſea, quero dizer, o paſſo da expoſição, conhecer-ſe-hia claramente que erão inſoffriveis, ſe foſſem tratadas por hum Poeta máo; ahi porém o Poeta repreſenta o que he abſurdo, temperando-o com as outras bellezas.

IX.

Deve pois o Poeta trabalhar muito com a Dicção nos lugares ocioſos, e não nos que tem coſtumes, ou ſentença; porque antes a Dicção muito brilhante encobre os coſtumes, e as ſentenças.