A Poetica de Aristoteles/XXIV


 
CAPITULO XXIV.
Da clareza, e nobreza da Dicção.
I.

A clareza da Dicção provém do uſo dos termos proprios.A virtude da Dicção he que ſeja clara, e não humilde. Ora a que ſe compõe de palavras proprias he a mais clara de todas, mas he humilde. Sirva de exemplo a Poezia de Cleophonte, e a de Sthenelo.A nobreza da Dicção provém do uſo de palavras eſtranhas: e que são ſo ſejão palavras eſtranhas. Mageſtoſa porém, e affaſtada do uſo vulgar he a que uſa de palavras eſtranhas. Chamo palavras eſtranhas ao Dialecto, á Metaphora, á exten são, e a tudo o que não he palavra propria.

II.

Defeitos do Enigma, e do Barbariſmo, que póde haver neſte uſo.Porém ſe alguem accumular todas eſtas couſas, juntamente ou fará enigmas, ou barbariſmos. De modo, que ſe uſar de Metaphoras, ſerá enig-ma; ſe de Dialectos, ſerá de mais a mais barbariſmo. Por quanto a natureza propria do enigma he ajuntar no diſcurſo couſas, que são impoſſiveis. Iſto pois não ſe póde fazer pela ſimples contextura das palavras, mas póde ſer pela Metaphora: aſſim como vi hum homem collando bronze com fogo ſobre outro homem; e outras ſemelhantes. O barbariſmo provém dos Dialectos. Pelo que he neceſſario miſturar eſtas couſas de certo modo. Por tanto o Dialecto, a Metaphora, o Ornato, e as mais eſpecies ſobreditas farão que a Dicção não ſeja popular, nem humilde; e a propriedade das palavras a fará clara.

III.

A extensão, a diminuição, e a mudança das palavras concorrem muito para a clareza e nobreza da Dicção.Não contribuem em pouca parte para que a Dicção ſeja clara, e não popular as extensões, diminuições, e mudanças das palavras; porque deixando as expreſsões proprias, e affaſtando-ſe do ordinario, evitará a vulgaridade, e participando ao meſmo tempo do uſo commum, ſerá clara. Por cuja razão não he juſta a cenſura daquelles, que reprehendem a expreſsão, que ſe faz por eſta maneira, e que vituperão o Poeta; aſſim como fez o antigo Euclides (como ſe o compôr foſſe facil todas as vezes que a cada hum ſe permittir accreſcentar o que lhe parecer) ſatyrizando-o no meſmo genero de Dicção, como

ἦ τí χάριν εἶδον μαραθῶνα βαδíζοντα, e Ȣ͂κ ἂνγειναμενος τòνἐκείνȢ ἐξελεβόρον.

IV.

Moderação neſte uſo.He pois ridiculo affectar o uſar com exceſſo deſte genero de expreſsão, e na verdade ha huma medida commum a todas eſtas eſpecies. Pois que aquelle, que uſaſſe ſem decóro das Metaphoras, dos Dialectos, e das demais eſpecies, virìa a conſeguir o meſmo que ſe uſaſſe dellas de propoſito para o ridiculo.

V.

Vantagem das palavras Figuradas ſobre as Proprias para a nobreza da Dicção.Notemos porém quanto ſobreſaia nos verſos aquillo, que lhes he conveniente. Poſtas as palavras em verſo, ſe alguem em lugar do Dialecto, das Metaphoras, e das outras eſpecies ſubſtituir os nomes proprios, conhecerá que dizemos a verdade. Por exemplo, fazendo Eſchylo, e Euripedes o meſmo verſo Jambo, pela mudança de hum ſó nome de proprio, e uſual para Dialecto, hum delles parece bello, e o outro humilde; Porque Eſchylo no Filoctetes diſſe: A chaga me come a carne do pé; Euripedes porém em lugar da palavra comer, repoz ſe banquetea. E tambem neſte verſo:

Νῦνδὲ μ' ἐὼν ὀλίγοστε καὶ Ȣ͂τιδανὸς καὶ ἀειδὴς.

ſe alguem diſſer, ſubſtituindo-lhe os nomes proprios:

Νῦνδὲ μ' ἐὼν μικρόστε καὶ ἀσθενικὸς καὶ ἀειδὴς.

E em lugar de

Δίφνον ἀεικέλλιον καταθεὶς ὀ λίγην τε τράπεζαν.

diſſer

Δίφρον μοχθηρὸν καταθεὶς μικρᾶντε τρᾶπεζαν.

E em vez de dizer as praias mugem, puzer as praias gritão. Ariphrades tambem mofava dos tragicos, porque uſavão na expreſsão de couſas, que nenhum outro diria, por exemplo, δώματων από, e não ἀπο δώματων. ςέθεν, ἐγὼ δένιν ἀχιλλέωςπέρι, e não πέρι ἀχιλλέως, e tudo o mais deſte genero. Por quanto todas eſtas expreſsões, por não ſerem do número das proprias, fazem que a Dicção não ſeja vulgar; o que elle ignorava.

VI.

Decóro neceſſario.Tem pois grande merecimento o uſar com decóro de cada huma das couſas ſobreditas, tanto dos nomes compoſtos, como dos Dialectos; Uſo da Metaphora difficil.mas o mais difficultoſo he o uſo das Metaphoras, porque ſó iſto ſe não póde tirar de outro, e he ſignal de engenho feliz. Porque o fazer bem as Metaphoras, he obſervar a ſemelhança das couſas.

VII.

Quando convém uſar dos Nomes compoſtos, e quando dos Nomes Propríos, da Metaphora, e do Ornamento.Dos nomes os compoſtos convém principalmente aos Dithyrambos, os Dialectos aos verſos Heroicos, e as Metaphoras aos Jambos. Poſto que nos Heroicos tem uſo todas as eſpecies referidas. E nos Jambos, porque imitão principalmente o eſtilo familiar, são convenientes todas aquellas palavras, de que ſe póde uſar na converſação. Deſte genero são o Proprio, a Metaphora, e o Ornato. A reſpeito pois da Tragedia, e da imitação, que ſe faz por acção, baſte-nos o que fica dito.