A Poetica de Aristoteles/XXI
TEmos pois tratado já das demais coufas. Reſta fallar da Dicção, e da Sentença.
Do que pertence à Sentença.O que pertence á Sentença, acha-ſe nos Livros, que eſcrevemos ſobre a Rhetorica, porque neſſe Tratado tem mais propriamente o ſeu lugar. Pertence á Sentença tudo aquillo, que faz a materia do diſcurſo.
Partes da Sentença.As ſuas Partes são: provar, refutar, e excitar as paixões, por exemplo, a piedade, o terror, a ira, e outras deſte genero, e ultimamente elevar, e abater alguma couſa.
He pois manifeſto, que tambem nos Dramas ſe ha de uſar das meſmas fórmas, quando for neceſſario apreſentar couſas dignas de compaixão, ou terriveis, ou grandes, ou veroſimeis.
Do que pertence á Dicção. Entre as couſas, que pertencem á Dicção, ſe devem conſiderar os modos de pronunciar, cujo conhecimento pertence á Arte dos Repreſentantes, e dos que tem outra ſemelhante profiſsão. Por exemplo, que couſa ſeja mandado, que couſa ſeja rogo, narração, ameaço, pergunta, reſpoſta, e tudo o mais deſte genero.
Por quanto da ſciencia, ou ignorancia deſtas couſas não ſe póde fazer á Poetica accuſação alguma, que mereça attenção. Porque quem ſe ha de perſuadir, que ha hum defeito naquillo, que reprehende Protagoras, a ſaber, que aquelle, que parecia rogar, na verdade manda, dizendo: Canta, ó Deoſa, a ira, por quanto diz elle, que o mandar fazer, ou não fazer alguma couſa, he preceito.
Fique pois iſto de parte, como eſpeculação, que pertence a outra Arte, e não á Poetica.