A Poetica de Aristoteles/XVI


 
CAPITULO XVI.
Das condições, que hão de ter os
coſtumes na Tragedia.
I.

Os coſtumes devem ter IV. condições.ÁCerca dos coſtumes ha quatro os couſas, que ſe devem procurar.

II.

I. Bondade dos coſtumes.A primeira, e a principal he, que elles ſejão bons. Ora haverá coſtumes, como já ſe diſſe, ſe as palavras, ou as acções derem a conhecer alguma propensão, ou inclinação; e ſerão máos, ſe ella for má; e bons, ſe ella for boa. Acha-ſe iſto em todo o genero de peſſoas; porque tambem ha mulheres, e eſcravos bons, poſto que ellas tenhão talvez mais maldade, e que eſtes ſejão inteiramente perverſos.

III.

II. A conveniencia dos coſtumes.Em ſegundo lugar devem ſer convenientes; porque a fortaleza varonil he hum coſtume, e todavia não convém a huma mulher o ſer varonil, ou terrivel.

IV.

III. A ſemelhança dos coſtumes.Em terceiro lugar hão de ſer ſemelhantes entre ſi, pois que iſto he diverſo do fazer os coſtumes bons, e convenientes, como fica dito.

V.

IV. A igualdade dos coſtumes.Em quarto lugar devem ſer iguaes; porque ainda que imitemos hum homem deſigual, e repreſentemos ſemelhante coſtume, com tudo elle deve ſer igualmente deſigual.

VI.

Exemplos de alguns defeitos neſta materia.Temos exemplo de coſtumes máos introduzidos ſem neceſſidade em Meneláo no Oreſtes; de coſtumes indecoroſos, e não convenientes na lamentação de Ulyſſes na Scylla, e na falla de Menalippe; de coſtumes deſiguaes na Iphygenia em Aulis; porque a Iphygenia, que ao principio ſupplíca, não ſe parece ao depois comſigo meſma.

VII.

Da veroſſemelhança, e da neceſſidade, que ha de haver nos coſtumes.Tambem nos coſtumes, aſſim como na conſtituição das couſas, ſe ha de procurar ſempre ou o neceſſario, ou o veroſimil, e que os acontecimentos ſuccedão huns aos outros, ou ſegundo a neceſſidade, ou ſegundo a veroſemelhança.

VIII.

A veroſſemelhança, e a neceſſidade das ſoluções deve reſultar da veroſemelhança,ou neceſſidade dos coſtumes na Fabula.He pois manifeſto, que as ſoluções das Fabulas devem reſultar do contexo da meſma Fabula, e não de máquina, como na Medea, e na Illiada no lugar, em que ſe trata da retirada por mar.

IX.

Quando ſe pôde uſar de máquinas.Mas póde-ſe uſar de máquina no que he de fóra da Tragedia, ou naquellas couſas, que acontecêrão antes, as quaes não he poſſivel que os homens ſaibão; ou naquellas, que hão de ſucceder depois, que neceſſitão de ſerem prognoſticadas, e annunciadas dantes; porque nós attribuimos aos Deoſes o poder de verem tudo.

X.

Não deve pois haver nos ſucceſſos, que ſe repreſentão, couſa alguma, que ſe não conforme com a razão, excepto ſe for fóra da Tragedia, como ſe faz no Edipo de Sophocles.

XI.

Como póde o Poeta ſeguir o veroſimil, conſervando ao meſmo tempo a ſemelhança dos coſtumes.Como porém a Tragedia he a imitação dos melhores homens, he neceſſario que imitemos os bons Pintores, por quanto eſtes dando a todos a ſua propria figura, e repreſentando-os com ſemelhança, os pintão com tudo mais formoſos; aſſim tambem o Poeta, que imita homens iracundos, ou arrebatados, ou com outros ſemelhantes coſtumes, deve formar hum modêlo de colera, ſegundo a veroſemelhança, aſſim como Homero, e Agathon repreſentárão a Achilles.

XII.

Por tanto ha de ſe attender cuidadoſamente a eſtas couſas, e depois diſſo aos ſentidos, que acompanhão a Poetica, além das couſas, que são de neceſſidade; porque niſto nos enganamos muitas vezes: mas já tratámos deſte ponto na obra, que publicámos.