A Poetica de Aristoteles/XV
para excitar o terror, e
a compaixão
Tres generos de peſſoas, entre as quaes podem haver ſucceſſos tragicos.
EStabeleçamos pois quaes dos acontecimentos são terriveis, e quaes são dignos de compaixão. Todas as acções, que ſe repreſentão, neceſſariamente hão de acontecer ou entre amigos, ou entre inimigos, ou entre peſſoas indifferentes.Ora ſe hum inimigo matar o ſeu inimigo, nem na occaſião em que o mata, nem quando ſe diſpõe para o matar nos dá motivo algum de compaixão, excepto a que provém da meſma calamidade;Nem entre peſſoas indifferentes. aſſim como tambem o não dão as peſſoas indifferentes.
Devem preferir-ſe os ſucceſſos Tragicos entre os amigos.Quando porém eſtas calamidades ſuccedem entre os amigos, por exemplo, quando hum Irmão mata, ou intenta matar a ſeu Irmão, o filho ao Pai, a Mãi ao filho, ou o filho á Mãi, ou fazem qualquer outra couſa ſemelhante, então são eſtes os acontecimentos, que devemos procurar.
Não he porém permitido deſtruir as Fabulas recebidas; por exemplo, que Clytmneſtra foi morta por Oreſtes, e Eriphyle por Alcmeon; mas deve-ſe achar a Fabula, e uſar bem das que eſtiverem recebidas.
Tres generos de acções atrozes entre os amigos, e qual convém mais á Tragedia.Expliquemos com mais clareza a que chamamos uſar bem. Porquanto a acção ou póde aſſim ſer feita por peſſoas, que ſabem, e conhecem o que fazem (como os antigos praticavão), e deſta maneira repreſentouI. genero. Euripedes a Medea matando a ſeus filhos:II. genero. ou póde ſer feita por peſſoas, que ignorem a atrocidade da acção, e eſtas conhecem depois a alliança, que tinhão com os offendidos, aſſim como o Edipo de Sophocles. (Ahi porém ſuccede iſto fóra da Tragedia: na meſma Tragedia o introduzírão, por exemplo, Aſtydamante no Alcmeon, e Telegono no Ulyſes, ferido).III. genero. Ou ultimamente, e em terceiro lugar, quando aquelle, que vai a cometter por ignorancia alguma acção atroz, a reconhece antes de a executar. Não ha outro modo além deſtes, porque neceſſariamente a acção ou ſe ha de fazer, ou não fazer; e as peſſoas ou hão de ſaber, ou hão de ignorar o que commettem.
O I. he reprovado, e muito principalmente, quando o que ſabe o que intenta, o não executa.De todos eſtes modos o peſſimo he, quando aquelle, que conhece, e intenta fazer o mal, o não chega a executar, porque iſto he abominavel, e não he Tragico, pois que não póde mover os affectos. Pelo que os Poetas não repreſentão couſas ſemelhantes, ſenão raras vezes; aſſim como Emon na Antigone, que quer matar a Creonte. Por quanto ainda val mais, que o que conhece a maldade, a chegue a executar.
O II. he melhor que o primeiro.He porém melhor, que o Author do crime o ignore, e que depois de feito o reconheça. Porque então niſto não ha coufa alguma abominavel, e vem a ſer a Agnição muito pathetica.
O III. he o mais perfeito de todos. Porém o ultimo modo he o melhor de todos: por exemplo, na Tragedia de Creſphonte eſtá Merope a ponto de matar ſeu filho; mas não o mata, porque em fim o reconhece. Na Ifigenia ſuccede o meſmo á Irmã a reſpeito de ſeu Irmão. E na Helle, quando o filho vai para entregar ſua Mãi, então he que a reconhece.
Cauſa da raridade dos aſſumptos Tragicos deſtes generos.Por eſta razão, como já diſſemos em outro lugar, não ha muitas familias, de que ſe poſsão tirar aſſumptos para as Tragedias. Porque como os Poetas não tiravão os aſſumptos da invenção da ſua arte, mas dos acaſos da fortuna, ſómente inventárão o modo de os accommodar na conſtituição das Fabulas. Por iſſo são elles obrigados a vir encontrar-ſe com todas aquellas familias, a quem acontecêrão ſemelhantes calamidades. Temos pois dito quanto baſta ácerca da conſtituição das couſas, e de quaes devão ſer as Fabulas.