A Poetica de Aristoteles/XIV
compaixão na Tragedia.
O terror, e compaixão deve naſcer do contexo da Fabula.PÓde pois excitar-ſe o terror, e a compaixão pelo Apparato da Scena, e tambem pelo meſmo contexto das couſas, o que tem o primeiro lugar, e he na verdade de melhor Poeta.
Por quanto a Fabula deve eſtar compoſta de tal maneira, que quem ouvir as couſas, que vão acontecendo, ainda que nada veja, ſó pelos ſucceſſos ſe horrorize, e ſe compadeça, como experimentará quem ouvir a Tragedia de Edipo.
Erro dos que querem excitar o terror, e a compaixão ſómente pela decoração da Scena, ou pelos incidentes monſtruoſos.Ora o querer conſeguir iſto pelo eſpectaculo he couſa, para que não concorre a Arte do Poeta, e que depende do Apparato, e do cuſto da Scena.
Tambem ſe deſvião inteiramente da Tragedia os que nos offerecem em eſpectaculo não couſas terriveis, mas monſtruoſas; porque na Tragedia não ſe ha de procurar indiſtinctamente qualquer genero de prazer, porém ſómente o que he proprio della.
Como pois o Poeta deve por meio da imitação preparar-nos aquelle prazer, que naſce da compaixão, e do terror, ſegue-ſe evidentemente, que elle ſe ha de valer para iſto das couſas que repreſenta.