A Poetica de Aristoteles/VIII


 
CAPITULO VIII.
Da veroſemelhança na Fabula.
I.

O Poeta deve ſeguir ou a veroſemelhança, ou a poſſibilidade das couſas.HE manifeſto, pelo que já fica dito, que o Officio do Poeta não he referir as couſas, que realmente acontecêrão, mas ſim as que poderião, ou deverião acontecer.

II.

Differença neſte ponto entre o Poeta, e o Hiſtoriador.Porque o Hiſtoriador, e o Poeta não differem em eſcrever em verſo, ou proſa, (pois que bem poderião pôr-ſe em verſo as obras de Herodoto, e nem por iſſo deixaria de ſer huma Hiſtoria em verſo a que o era em proſa), mas differem em que hum diz as couſas, que ſuccedêrão, e o outro as que poderião ſucceder.

III.

A Poezia mais moral, e inſtructiva, do que a Hiſtoria.Pelo que a Poezia he mais Filoſofica, e inſtructiva, do que a Hiſtoria, pois que refere principalmente as couſas geraes, e a Hiſtoria as particulares de cada hum. Chamo couſas geraes áquellas, que convém a peſſoas de certa qualidade dizer, ou fazer ſegundo a veroſemelhança, ou a neceſſidade; e eſte he o alvo da Poezia, dando a eſtas peſſoas os nomes que lhe parece; couſas particulares são aquellas, que Alcibiades por exemplo, particularmente fez, ou lhe acontecêrão.

IV.

A Comedia repreſentando as couſas geraes, ſegundo a veroſemelhança, ou poſſibilidade, inventa os nomes dos Actores. Ora em quanto á Comedia, já ifto eſtá moſtrado; porque os Poetas compondo a Fabula ſegundo a veroſemelhança, põem depois aos Actores os nomes, que lhes parece, e não fazem como os Poetas Jambicos, que fallão do que reſpeita a cada hum em particular.

V.

A Tragedia conſerva os verdadeiros nomes.Na Tragedia porém ſe conſervão os verdadeiros nomes. A razão he, porque nós cremos tudo aquillo, que he poſſivel; por conſequencia não julgamos poſſivel aquillo, que certamente não aconteceo; pelo contrario as couſas, que acontecêrão, ſem dúvida são poſſiveis, pois que a ſerem impoſſiveis, não acontecerião.

VI.

Algumas vezes admitte nomes fingidos.Com tudo ainda em algumas Tragedias ſó hum, ou dous nomes são de peſſoas conhecidas, e os demais são fingidos; e em outras nenhum he conhecido, como na Flor de Agathon; pois que neſta Tragedia tanto as couſas, como os nomes, ſão igualmente fingidos, e nem por iſſo deleita menos.

VII.

Não he neceſſario he ſeguir em tudo as Fabulas vulgares.Pelo que não he neceſſario que procuramos ſeguir á riſca as Fabulas vulgares, donde a Tragedia he tirada; pois ſería ridiculo trabalharmos niſto, quando he certo, que ainda as couſas conhecidas, são conhecidas de poucos, é com tudo deleitão ellas a todos igualmente.

VIII.

Como o Poeſia pôde compôr a Fabula ao ſeu modo.Daqui pois claramente ſe ſegue, que o Poeta deve ſer Author mais de Fabulas, do que de verſos, em quanto he Poeta pela imitação, e imita as acções. E ainda que lhe aconteça fazer uſo dos ſucceſſos verdadeiros, nem por iſſo deixa de ſer Poeta; porque nada tolhe, que algumas das couſas, que realmente acontecem, tenhão toda a probabilidade, e poſſibilidade neceſſaria, e neſte ſentido vem o Poeta a ſer Author dellas.

IX.

Falta de veroſemelhança nas Fabulas Epizodicas.Das Fabulas, e Acções Simplices, as Epizodicas são as peiores: chamo Fabula Epizodica áquella, em que os epizodios não são ligados huns com os outros neceſſaria, nem veroſimilmente. Os máos Poetas fazem ſemelhantes Fabulas por defeito proprio, e os bons em attenção aos eſpectadores. Porque compondo para os Certames, e alongando a Fabula mais do que he poſſivel, são muitas vezes obrigados a perverter a boa ordem.