A Poetica de Aristoteles/VI


 
CAPITULO VI.
Da juſta Grandeza da Fabula.
I.

Explicadas pois eſtas couſas, ſegue-ſe dizermos, qual ſeja a Conſtituição da Fabula, pois que eſta he a primeira, e principal parte da Tragedia.

II.

Já eſtabelecemos como certo, que a Tragedia he a imitação de huma acção perfeita, e que conſtitue hum todo, o qual tem certa grandeza; porque póde haver hum todo, que não tenha a grandeza devida.Definição de hum Todo inteiro, e perfeito. Todo, he aquillo, que tem Principio, Meio, e Fim. O Principio, he aquillo, que não tem neceſſariamente outra couſa antes de ſi, e que depois de ſi tem, ou deve ter alguma couſa. Fim, pelo contrario he aquillo, que ou por neceſſidade, ou por coſtume, deve ter alguma couſa antes de ſi, e que depois de ſi nada tem. Meio, he o que eſtá depois de alguma couſa, e tem outra depois de ſi. Ora he neceſſario que as Fabulas bem compoſtas nem comecem, nem acabem onde ſucceder, mas que uſem das déas referidas.

III.

Em que conſiſte a belleza das couſas.Além diſto o bello, (ou ſeja animal, ou outra qualquer couſa) fendo compoſto de algumas partes, não ſó deve ter eſtas por boa ordem, mas tambem deve ter huma certa grandeza não arbitraria; por quanto o bello conſiſte na grandeza, e na ordem, e por iſſo nem ſéria bello hum animal muito pequeno; porque a viſta, quando ſe olha para alguma couſa por tempo imperceptivel, quaſi ſe confunde; nem tambem muito grande, porque então não ſe vê ao meſmo tempo, antes aquelle todo, e a unidade do ponto de viſta eſcapa aos eſpectadores, como ſe houveſſe hum animal do comprimento de dez mil eſtadios. Pelo que aſſim como tanto nos corpos, como nos animaes, deve haver grandeza, e eſta deve ſer capaz de ſe comprehender bem com a viſta; aſſim tambem as Fabulas devem ter extensão, e eſta ha de ſer facil de comprehender com a memoria.

IV.

Qual deva ſer a extensão dos aſſumptos das obras Dramaticas, e a duração da ſua repreſentação.Ora o determinar a extensão das Tragedias, pelo que reſpeita aos eſpectaculos, e á medida certa do tempo, não pertence á Arte; porque ſe houveſſem de recitar-ſe cem Tragedias nos Certames públicos, deveria medir-ſe o tempo por huma empulheta, como dizem que ſe fazia antigamente.

Porém em quanto ao termo, que convém á natureza da Tragedia, he certo que a que for maior (com tanto que ſe possa comprehender claramente toda junta) ſerá tambem a mais bella pelo que reſpeita á grandeza.

V.

Regra geral ſobre a juſta grandeza da TragediaDefiniremos iſto meſmo com huma regra ſimples; aquella extenſão, em que he provavel, ou neceſſario, que acontecendo as couſas pela ſua ordem, ſe paſſe da deſgraça para a fortuna, ou da fortuna para a deſgraça, he o termo proprio da grandeza da Tragedia.