A Poetica de Aristoteles/Introducção á Poetica de Aristoteles


INTRODUCÇÃO
A’ POETICA
DE
ARISTOTELES


NÃO faremos injúria a hum Seculo tão eſclarecido, como o noſſo, ſe diſſemos que o deſprezo das regras, e a ignorancia dos preceitos he ſobre tudo, o que mais retarda os progreſſos da Literatura. Pelo que pertence á Poezia, julga-ſe pelo commum que he inutil a Arte, porque as ſuas regras não podem dar ao homem o talento, ſe por ventura lho negou a natureza; por iſſo ſe deſpreza o conhecimento de ſeus preceitos, aſſentando-ſe que o que tem eſte talento, póde por ſi ſó perceber todos os ſegredos, e bellezas da Poezia, e que baſta ter naſcido Poeta, para o ſer perfeitamente.

A Arte he util, e neceſſaria para o bom uſo da Poezia. A experiencia com tudo tem moſtrado o contrario, porque os maiores Poetas forão ſempre os que mais eſtudárão as regras da Arte; e de quantos até agora as deſprezárão, ainda não houve hum ſó, que pudeſſe com razão liſonjear-ſe de as ter felizmente deſprezado.

Com effeito julgárão os Sabios em todo o tempo, que a Arte era util, e neceſſaria tanto áquelles, que querem julgar exactamente do merecimento de hum poema, como ao meſmo Poeta, que o compõe.

A Arte he util, e neceſſaria aos que querem julgar exactamente do merecimento dos poemas Porque em quanto aos primeiros, he certo que os que deſejão julgar ſolidamente, e ſem engano das virtudes , e defeitos de hum poema, não ſó por hum ſimples, e puro ſentimento d’alma mas tambem por todos principios certos, e luminoſos da razão, neceſſitão de ſubir até as primeiras idéas das bellezas Poeticas, e reduzir debaixo do imperio da Filoſofia as meſmas couſas, que parecem as mais independentes della, e que commummente ſe julgão commettidas á diſerição e goſto de cada hum. Ora ſómente a Arte lhes póde ſubminiſtrar principios certos, e ſeguros, por que poſsão raciocinar aſſim neſta materia, e ſaber a razão das couſas, que na Poezia nos maravilhão.

A Arte he util, e neceſſaria aos meſmos Poetas, que os compõem. Quanto aos Poetas não lhes são menos uteis, e neceſſarias eſtas regras na compoſição de ſuas obras. He verdade, que ſómente a natureza cria os Poetas, e que todas as regras da Arte não são mais que reflexões judicioſas, que ſobre ella ſe tem feito pelos mais ſabios dos Filoſofos. E ſerião com effeito inuteis eſtas regras, ſe a natureza foſſe logo perfeita em todos, os que naſcem com o precioſo talento da Poezia. Mas ella, ſeja por imperfeição natural ao homem, ſeja pelos habitos vicioſos da educação, ſempre apparece ou com ſaltas, ou com exceſſos. E tal por certo ſe tem viſto ſempre em todos os Poetas, que na compoſição de ſuas obras não tiverão outra guia, que o ſeu proprio natural. Porque por mais ſublimes que tenhão ſido os voos do ſeu genio, ſempre as ſuas grandes bellezas forão desluſtradas com grandes vicios.

Por tanto foi neceſſaria Arte, por que aprendeſſemos a conhecer bem a natureza, qual ella he em ſi meſma, e qual póde vir a ſer pela noſſa induſtria; como, e por quaes meios ſe corrigem ſeus defeitos, e ſe aperfeiçoa a ſua obra.

No principio os mais ſabios dos Poetas, como Homero, e outros, força de repetidas reflexões ſobre a natureza, a deſcubrírão, e por ella ſe regrárão em ſeus poemas, com mais, ou menos felicidade; ſeguírão-ſe Filoſofos illuſtrados, que depois de longas eſpeculações a reduzirão a ſyſtema; outros, que depois vierão, a aperfeiçoárão.

Ora eſta Arte huma vez deſcuberta, e ordenada com tanta ſabedoria, quanta tiverão ſeus authores, he certamente huma guia a mais facil, e a mais ſegura, que podemos ter; quanto as ſuas regras nos levão com muita facilidade, e ſegurança áquelle alto ponto de perfeição, a que nunca poderiamos talvez chegar por nós meſmos, ou a que não chegariamos ſenão muito tarde, e com muito cuſto.

A Arte he o meio mais facil de aperfeiçoar a Natureza. ¿Porque primeiramente quantos são os homens de hum genio tão feliz, e creador, que poſsão ſó por ſi, ſem mais ajuda, entrar em profundas, e ſublimes meditações da natureza, remontar até a origem das bellezas Poeticas, deſcubrir as couſas, que podem occupar o eſpirito do homem, ou mover o ſeu coração agradavelmente, diſcernir os quaſi imperceptiveis limites, onde finaliza a belleza, onde começa o vicio, reduzir todas eſtas couſas a principios, e eſtabelecellos tão certos, e infalliveis, que não deſmintão já mais, em fim crear de novo á força de laborioſas combinações huma Arte, e huma Arte tão ſublime?

Iſto são couſas, que demandão huma vaſta extensão de idéas, huma indagação profunda, e huma infinita exacção de eſpirito. São raros eſtes homens originaes, que a natureza tem dado de ſeculos em ſeculos para creadores das Artes, e das ſciencias; e nós todos não nos devemos liſonjcar de que ſomos deſta claſſe.

¿Mas quando cada hum de nós foſſe tão feliz, que á cuſta de ſuas proprias meditações por ſi ſó pudeſſe deſcubrir, o que ſó tantos homens ſabios, e em tanto tempo, e com tanto cuſto achárão, quanto maior trabalho não teriamos em formar por nós meſmos eſtas regras, do que em eſtudar as já feitas, e trabalhadas por grandes meſtres? ¿E qual homem ſe não poupará o trabalho immenſo de abrir com grande cuſto hum caminho novo, havendo outro já trilhado, que o póde guiar com muita facilidade ao meſmo fim? Pelo que fica claro, que a Arte he huma guia a mais facil, que podemos ter.

A Arte he o meio mais ſeguro de aperfeiçoar a Natureza. Não he menos huma guia ſegura, e ſabia; porque as ſuas regras em geral forão deſcubertas por homens de immenſos eſtudos, forão fundadas em reflexões, que ſe fizerão ſobre a razão, e a natureza; tem ſido conſagradas pela pratica dos mais illuſtres Poetas, e pelo eſtudo, e meditação dos mais eſclarecidos meſtres; e tem paſſado pela prova de todos os ſeculos illuſtrados, de todas as Nações polidas.

¿Pelo contrario hum ſó homem deſprovído deſtas regras, guiando-ſe unicamente pelo ſeu natural, quantas vezes ſe allucinará nas ſuas reflexões, e ſentimentos? Póde elle tomar muitas vezes o ſeu goſto particular, e pouco são pelo goſto univerſal, e commum dos homens, e ter por virtudes, e bellezas os defeitos proprios ou do ſeu genio, ou da ſua educação. Pelo que he muito mais ſeguro, e mais prudenre lançar mão das regras já feitas, e trabalhadas por homens, que as idades reſpeitárão ſempre como meſtres, do que arriſcar-ſe a não acertar ſempre com ellas nas ſuas meditações, e ſentimentos.

Iſto não he dizer, que não devamos trabalhar ſempre por adiantar os conhecimentos, que os antigos nos deixárão. A Filoſofia, de que hoje tanta luz tem raiado ſobre as letras, póde illuſtrar, ainda eſte genero de eſtudos, póde avançar alguma couſa de mais, e aperfeiçoar a obra da antiguidade; mas não ſe alcança iſto, ſenão ſeguindo os antigos meſtres, e engroſſando o noſſo cabedal ſobre o fundo, que eſtes homens nos deixárão. Iſto fizerão nos dous ſeculos paſſados os mais diſtinctos expoſitores da Poetica entre os modernos.

A melhor obra deſte genero entre os antigos he a Poetica de Ariſtoteles Ora o fundo mais rico, e precioſo, que temos dos antigos, e ſobre que eſtes meſtres trabalhárão, e nós por podemos trabalhar tambem, he certo a Poetica do Filoſofo de Stagyra, que preſentemente ſe offerece ao público traduzida na noſſa lingua[1]. Tal foi eſte homem, que tudo felizmente concorreo, para que elle pudeſſe obfervar a natureza, e os ſegredos da Poezia, e formar das ſuas obſervações huma obra digna de ſe apreſentar ao eſpirito humano.

Qual o talento de Ariſtoteles. Porque elle tinha hum genio o mais vaſto, o mais profundo, e o mais eſclarecido, que já mais houve, e hum entendimento o mais ſolido, o mais exacto, e o mais capaz de dirigir os progreſſos do eſpirito humano na compoſição daquellas obras, que são deſtinadas a deleitar, e a perſuadir os homens. Em fim hum grande Filoſofo, hum daquelles, que de cento em cento annos, como diz Ferreira, e ainda mais tarde o Ceo nos manda; porque parece dado pela natureza para honrar ſua nação, illuſtrar o ſeu ſeculo, e deixar obras maravilhoſas, que deſſem leis ás idades futuras, e tiveſſem direito á immortalidade.

Quaes os ſeus eſtudos. O eſtudo aperfeiçoou ſobre maneira o ſeu talento; e na eſcola de Platão, em que foi diſcipulo vinte annos, recebeo de tão ſabio meſtre, além de outros muitos conhecimentos, todas as grandes idéas, que elle tinha da Poezia, e de quanto podia concorrer para a ſua perfeição[2]. Deſde então ſe acoſtumou por longos, e aturados habitos ás mais ſublimes eſpeculações da theoria, porque longo tempo meditou profundamente ſobre a natureza, e a examinou em ſi meſma: adquirio hum íntimo conhecimento do coração do homem, donde tirou luzes neceſſarias para deſcubrir, e formar as regras da Poezia, que he toda fundada ſobre as noſſas paixões: penetrou até a alma, e eſſencia das bellezas Poeticas; deſcubrio as diverſas fontes do prazer, que ſente a noſſa alma com os bons lugares dos Poetas; e fixou neſta materia os principios immutaveis da natureza, que foi ſempre a ſoberana legisladora das Artes. Pelo que veio a fazer-ſe hum homem raro, e de hum ſaber immenſo.

Quaes as vantagens, que tirou ſeu ſeculo. Além diſto vivia ellc em tal tempo, em que todas as bellas Artes tinhão chegado na Grecia á ſua mais alta perfeição; e não lhe foi neceſſario ſahir fóra do ſeu paiz, nem quaſido ſeu ſeculo, para achar os mais completos modêlos das principaes eſpecies da Poezia; modêlos, que ſe depois algumas vezes ſe igualárão, nunca já mais ſe excedêrão. Por quanto teve a Homero, que lia profundamente para deſentranhar da Iliada, e da Odyſſea as regras do Poema Epico; e deſtas meſmas obras, e das de Eſchylo, de Sophocles, e de Euripedes pôde deſenvolver felizmente os preceitos da Tragedia, aſſim como das obras de Ariſtophanes, e de outros mais os da Comedia. Pôde ainda fazer nais: porque pôde communicar com os diſcipulos de Eſchylo, que tinha levantado a Tragedia da ſua primeira groſſeria, e ouvir os meſmos meſtres, que enſinárão a Sophocles, e a Euripedes, que a elevárão á ſua maior perfeição. Pôde em fim ſer teſtemunha dos ſentimentos, que tinha hum povo o mais polido, e o mais ſabio do mundo ſobre as obras dos Poetas, e obſervar quaes erão as couſas, que attrahião, e encantavão geralmente os Gregos; quaes aquellas, que ainda inteiramente os não ſatisfazião; e quaes as outras, que de nenhuma ſorte os contentavão.

Qual o ſeu talento pára a Poezia. Accreſcentemos a iſto, que elle meſmo era hum grande Poeta, bem que ſe tenha vulgarmente por hum ſó ſimples Filoſofo; porque iſto he o que ſe moſtra do precioſo fragmento de huma Canção, que temos delle, ſobre a morte de ſeu amigo Hermias Tyranno de Atarne Cidade de Myſia, o qual nos conſervárão Diogenes Laercio[3], e Athenco[4]. E he de tal preço eſte fragmento, que delle concluio Eſcaligero, que Ariſtoteles não cedêra em Poezia ao meſmo Pindaro[5], e Caſaubono lhe chamou huma obra de Ouro[6]. E forão outros muitos os feus verſos, quaes as Elegias, que fez a Eudemo[7], e os ſeus Epitafios aos mais famoſos dos Heroes Gregos, e Troianos[8].

Ora hum grande Poeta, qual parece ter ſido Ariſtoteles, aſſás podia diſcorrer ſobre a Poezia não menos pelos ſentimentos do ſeu proprio genio, e pela pratica, e experiencia, que tinha tido, que pelas ſublimes meditações da ſua theoria. E ſe he certo, o que muitos querem, que ſó aos grandes Poetas he que pertence o dar preceitos ſobre a Poezia, porque ſó elles conhecem os ſegredos, que eſcapão aos outros, Ariſtoteles pelo ſeu genio, e pela ſua pratica eſtava em eſtado de os conhecer, e de dar leis ſobre a Poetica.

Eis-aqui pois como todas eſtas couſas concorrêrão, para que Ariſtoteles havendo de eſcrever dos preceitos da Poezia para inſtrucção do Principe, que lhe tinha ſido confiado, fizeſſe eſta grande obra, em que deſenvolveo os principios confuſos de huma Arte ainda naſcente, e fixou as regras, que devião dirigir na carreira o eſpirito dos Poetas[9].

A Poetica não eſtá hoje inteira. He pena que tamanha obra nos não chegaſſe toda inteira, e que huma parte della ſe perdeſſe pela injúria dos tempos[10]. Não ſe ſabe com certeza nem o que ſe perdeo deſta obra, nem de quantos livros ſe compunha [11]. O que ſabemos he, que não temos hoje o que elle certamente eſcrevco ſobre a purgação das paixões[12], nem a parte, em que tratou largamente da Comedia, e das diverſas eſpecies do Ridiculo[13], pois que diſto atteſta elle meſmo em outras obras. Por certo que outras couſas mais trataria na Poetica, de que nada nos reſta hoje[14]. Talvez eſcrevceo elle em particular da Poezia Dithyrambica, da Auletica, e da Cythariſtica, pois que no principio parece que promette tratar juntamente deſtas couſas. E he de crer, que eſcreveria tambem da Poezia dos Nomos, e da Sátyra, e concluiria talvez com a emenda dos coſtumes, que era o fim principal dos antigos na Poezia. Ainda a meſma parte, que nos reſta hoje, ha conjecturas, que a não temos toda inteira[15].

O que pois nos ficou ſalvo da Poetica he unicamente o que pertence á natureza da Poezia em geral, e em particular á Tragedia, e á Epopêa.

Com tudo eſta Poetica aſſim meſmo truncada, e diminuta, como eſtá, he a melhor couſa, que temos da antiguidade, e o que tem ſervido de fundamento a quaſi tudo, o que ſe tem eſcrito neſte aſſumpto; de maneira que ſe póde dizer com razão, que eſte fragmento tem ſido a fonte, e origem das regras mais capitaes, e mais exactas, que expuzerão, e illuſtrárão depois os melhores meſtres. Com effeito os Sabios a tem eſtimado em muito, porque dos antigos a eſtimouJuizo dos Sabios ſobre a Poetica. em tanto Horacio, grande Poeta, e Filoſofo, e o mais judicioſo Critico dos Romanos, que ſeguio em quaſi tudo as doutrinas, que ſe continhão nella; o que moſtra bem, quão grande era ſeu preço, e merecimento.

Os modernos não a tem avaliado em menos; porque Antonio Lullo diſſe, que ſe havia alguma obra entre as muitas de Ariſtoteles, que mereceſſe a noſſa eſtimação, e admiração, a Poetica a merccia com muita particularidade, porque ella moſtrava a que alto ponto de Sabedoria ſe tinha elevado Ariſtoteles ſobre os demais Filoſofos. Voſſio diz, que não ha couſa alguma tão excellente na antiguidade, e que os eſcritores modernos, que tratárão do meſmo aſſumpto, adquirírão mais, ou menos reputação á proporção, que ſe chegárão, ou ſe deſviárão mais deſte modêlo.

Oláo Borriquio não duvidou dizer, que no commum ſentir de muitos Sabios eſte célebre Filoſofo ſe excedera a ſi meſmo na Poetica; e que ſe nas outras obras apparecia huma admiravel grandeza, e magnificencia, neſta parecia que havia alguma couſa de divino: que com effeito tinhão elles razão de julgar aſſim; porque Ariſtoteles de tal maneira examinára e profundára o ſeu aſſumpto, que nada ſe podia inventar nem mais ſubtil, nem mais ſolido do que aquillo, que nos deixou. O Bibliografo Alemão chama a eſte reſto da Poetica hum fragmento todo de ouro; e accreſcenta, que o que nelle ſe achava da Tragedia, era certamente incomparavel, e que difficultoſamente ſe acharia couſa de melhor goſto entre os antigos.

Alongariamos demaziadamente eſte diſcurſo, ſe quizeſſemos referir todos os elogios, que tem feito a eſta immortal obra de Ariſtoteles outros Criticos da primeira ordem. Baſtará por todos o de Rapin, que ſoube pezar o ſeu merecimento, porque diſſe que ella era a meſma natureza poſta em methodo, e a boa razão reduzida a principios.

Merecimento da Poetica. Na verdade não são exceſſivos eſtes elogios, com que os Sabios tem lionrado eſta obra de Ariſtoteles; porque ſe a examinarmos exactamente, acharemos, que ella he admiravel pela materia, pelo ſyſtema, pelo methodo, e pelo eſtilo.

Pela Materia. Pela materia; porque ainda que neſta obra ſe não ache hoje quanto Ariſtoteles tinha eſcrito, e quanto nós podiamos deſejar, todavia contém ella as couſas mais capitaes, que ſe podião dizer ſobre a Poezia em geral, e em particular ſobre as duas maiores obras do entendimento humano, quaes são a Tragedia, e a Epopêa. Porque primeiramente aqui ſe achão as noções geraes, e neceſſarias ſobre a natureza da Poezia, e das ſuas eſpecies particulares; ſobre as differenças de cada huma dellas, a reſpeito dos inſtrumentos, dos objectos, e da maneira das ſuas imitações; e finalmente ſobre a origem, e progreſſos da Poezia em geral, e das ſuas principaes eſpecies em particular. Depois paſſa Ariſtoteles a tratar das couſas mais eſſenciaes, que ha na Tragedia , e na Epopêa; e começando pela Tragedia, fixa a ſua natureza, deſcreve as ſuas partes, e diſtingue a Fabula, os Coſtumes, a Sentença, a Dicção, a Melopêa, e a Decoração.

E pelo que reſpeita á primeira parte, que he a Fabula, entra a tratar das partes, que conſtituem a ſua Fórma, e Qualidade; e principia fallando da ſua juſta Grandeza, e Extensão, e da ſua Unidade, da Veroſemelhança, e do Maravilhoſo, que nella deve haver. Falla depois dos dous generos de Fabula, Simples, e Implexa; e explica quaes fejão os Incidentes, de que deve naſcer huma, e outra. Expõem as tres couſas, que póde ter a Fabula, quaes são a Agnição, e a Peripecia, que fazem a Fabula Implexa , e a Perturbação, que a faz Pathetica.

Tendo tratado das partes, que conſtituem a fórma, e qualidade da Fabula, paſſa a tratar das partes de Quantidade, em que ſe divide a Tragedia, como são o Prologo, o Epiſódio, o Exodo, e o Chorico. Depois diſto entra no exame dos Caracteres, que deve haver na Tragedia, e deſcobre as fontes, donde deve naſcer o terror, e a compaixão; e moſtra quaes são as Acções, e Acontecimentos, que podem excitar eſtas paixões, entre quaes peſſoas, e por quantos modos podem acontecer eſtas couſas, e qual eſcolha ſe deve fazer niſto; e he eſta a parte, em que Filoſofo moſtra maior profundidade de idéas.

Paſſa depois á ſegunda parte da Tragedia, que são os coſtumes, e declara as condições que devem ter a ſaber, a Bondade, a Conveniencia, a Semelhança, e a Igualdade; e como dos Coſtumes naſcem as Acções, e do encadeamento deſtas a Agnição, que he o movel das revoluções da Tragedia, expõem logo as differentes eſpecies de Agnição, e moſtra qual ſeja a mais perfeita.

Tendo aſſim moſtrado a Theoria da Arte, pelo que reſpeita á conſtituição da Fabula, e aos Coſtumes, deſce a tratar da Pratica, e enſina aos Poetas hum excellente methodo de formar o plano de huma Tragedia; methodo, que realmente concorre muito para a regularidade da Fabula, e vivacidade do eſtilo.

Por ultimo, antes de paſſar ás outras partes da Tragedia, falla do Nexo, e Solução da Fabula, e declara a natureza de cada huma deſtas couſas, e de que modo ſe ſórmão ellas; e por fim conclue com a doutrina ſobre as obrigações do Coro, que faz as vezes de hum Actor na Tragedia.

Depois de tudo iſto entra elle na terceira, e quarta parte da Tragedia, que he a Sentença, e a Dicção. Pelo que reſpeita á Sentença, declara em ſumma o que ella he, remettendo-ſe para os Livros Rhetoricos, em que ſe trata della mais amplamente. Quanto á dicção, expõem os primeiros principios, e elementos da Grammatica, a fim de que o Poeta ſaiba formar a ſua dicção mais polida, mais doce, e harmonioſa, Diſtingue oito partes na Oração, a Letra, a Syllaba, a Conjunção, o Nome, o Verbo, o Artigo, o Caſo, e a Oração; e define exactamente cada huma dellas. Depois paſſa a explicar todas as qualidades, e differenças dos Nomes, moſtrando quaes são os Simplices, quaes os compoſtos, quantas as eſpecies de Metafora, e outras couſas mais; e por fim trata da Clareza, e Nobreza da Dicção, e do ſeu Ornamento, e Decóro.

Depois de ter eſtabelecido as regras principaes ſobre as quatro primeiras partes da Tragedia, as applica á Epopêa, moſtrando como a Fabula deve ſer Dramatica, e ſe ha de comprehender em huma ſó Acção, como a Epopêa differe da Hiſtoria, como ha nella as diverſas eſpecies, e as meſmas partes da Tragedia, que aquella não differe deſta, ſenão pela ſua extensão, e pela fórma dos ſeus verſos; e depois de outras couſas, compara entre ſi eſtes dous poemas, e dá á Tragedia a preferencia, por ter ella por ſi a evidencia da Acção, e produzir melhor o ſeu effeito com mais unidade e menos extensão. Reſtava tratar da quinta, e ſexta parte da Tragedia, que era a Melopêa, e a Decoração; porém ou ſe perdêrão eftes lugares, ou Ariſtoteles deixou de fallar deſtas couſas, viſto que a Tragedia podia ſubſiſtir ſem ellas, e a Decoração pertencia mais á arte dos que fazião as Scenas, do que ao Poeta.

Pelo Syſtema. Quanto ao Syſtema com que trata eſtas couſas, he elle maravilhoſo, porque o ſeu plano he o mais Simples, o mais fecundo, e o mais exacto, que podia ſer. Primeiramente he Simples, por quanto são poucos, e Simplices os ſeus principios, pois que reduz cada materia que trata, por mais complicada que pareça, a hum pequeno número de penſamentos directos, e capitaes, que naſcem do meſmo fundo da materia, e vai ſempre ſubordinando as verdades ſecundarias a huma, ou duas verdades primitivas, e principaes; de maneira, que o noſſo entendimento percebe logo as conſequencias, e o principio como hum todo regular, e perfeitamente unido em as ſuas partes.

Mas eſte plano aſſim Simples como he, he ao mesmo tempo o mais fecundo, que ſe póde imaginar, porque comprehende em pouco espaço infinitas couſas, e cada huma das idéas, que nos offerece, contém em ſi principios de outras muitas, que dalli naſcem; e he de admirar, que não ſahindo já mais o Filoſofo da eſfera, que ſe propoz, multiplique, por aſſim dizer, as perſpectivas, e corra hum Horizonte immenſo.

He finalmente exacto, porque abraça o ſeu aſſumpto por toda a extensão, que póde ter, e o mede pelos ſeus verdadeiros limites. Ariſtoteles o vai ſempre ſeparando de tudo o que lhe póde ſer eſtranho: rejeita as noções ou muito vagas, ou muito limitadas: fixa o verdadeiro ſentido das couſas, que diz, e dos termos com que as explica. Uſa de definições claras, e adequadas, e de divisões faceis, e naturaes: ſerve-ſe ſempre de argumentos ſolidos, e com elles prova cada huma das couſas, que affirma, quando aſſim he neceſſario; e o que não illuſtra á clara luz, ſempre o moſtra em algum raio, com que fere vivamente as couſas.

Pelo Methodo. Além diſto tem hum methodo de doutrina, que logo dá bem a conhecer hum conſumado Meſtre. He verdade, que pelo commum não procede ſenão por inducção do exemplo para o preceito; mas os exemplos, que elle propõem, e ſobre que eſtabelece os ſeus principios, são ſempre exemplos dos maiores Poetas, exemplos, que por ſerem formados ſobre a natureza, tinhão tido o applauſo geral dos mais Sabios, e polidos de Athenas; eſtavão conſtituidos modêlos do bom goſto, e tinhão já ſido, pelo dizer aſſim, aſſellados das Muſas. Aſſim os verdadeiros Fyſicos ajuntão as experiencias, e fundão depois ſobre ellas hum ſyſtema, que as reduz a principios.

Mas propondo eſtes exemplos, remonta logo aos verdadeiros principios da natureza e dalli deſce, e vai caminhando regularmente de verdade em verdade, e de conſequencia em conſequencia, deduzindo ſempre com admiravel ordem as conclusões dos ſeus principios, e as doutrinas, que ſe ſeguem, das que lhe precedem.

Pelo eſtilo. Pelo que pertence á ſua Dicção; he ella muito pura, e muito cheia de propriedade: o ſeu eſtilo he grave, e chega a ſer auſtero, e ſempre expreſſivo, e ſignificante; mas tão préſſo, e conciſo, que nem huma ſó palavra eſcreve para ornamento, e dá ſempre muito mais a penſar do que diz.

Sobre as couſas da obſcuridade de alguns lugares da Poetica. He verdade que por iſſo meſmo alguns lugares da Poetica são obſcuros, e difficeis, porque a extrema brevidade, com que elle eſcreve, o faz algum tanto ſubtil, e difficil; pelo que pede hum Leitor muito attento, ſoffredor de trabalho, coſtumdo mais ás couſas, do que ás palavras, e que penſe ainda mais do que lê: mas tambem he certo, que outras couſas concorrem para eſta obſcuridade; porque primeiramente Ariſtoteles vio-ſe obrigado a dar algumas vezes a huma parte das ſuas expreſsões hum ſentido novo, affaſtando-ſe da accepção commum.

Depois diſto os exemplos, que elle cita para fundar, ou juſtificar os ſeus principios, são tirados de Poemas conhecidos, e vulgares no ſeu tempo, de que muito pouco nos reſta hoje. Muitos deſtes exemplos referem-se ou a ſucceſſos hiſtoricos, que nos são deſconhecidos, ou a certos coſtumes paſſageiros da antiguidade, de que não temos idéas claras, de maneira que nos he impoſſivel depois de mais de dous mil annos perceber hoje toda a ſua exacção perfeitamente.

Accreſcentemos a iſto, que muitas couſas não comprehendemos hoje bem, porque nos faltão os lugares, que ſe perdêrão, em que elle as explicava mais claramente, como he por exemplo, o que pertence á Purgação das paixões, que he huma das couſas, que mais tem embaraçado os Interpretes. Não he logo de admirar ſe a Poetica em alguns lugares he difficil, e obſcura.

Sobre outros defeitos, que ſe reprehendem na Poetica. Em quanto ás couſas, que ſe tratão nella, talvez deſejaria alguem que Ariſtoteles deſeeſſe a tratar daquellas regras particulares, que os modernos multiplicárão depois infinitamente. Porém os ſeus principios são tão extenſos, e fecundos, que abſorvem a maior parte deſſas regras miudas, que baſtará conhecer talvez pelo ſentimento natural, ſendo que a ſua theoria muitas vezes não faz mais, que conſtranger o genio, ſem chegar já mais a eſclarecello. Muitas outras, ſendo meramente arbitrarias, e fundadas no goſto particular dos tempos, e das Nações, não podia o Filoſofo fazer-ſe cargo dellas em hum Seculo, em que havia outras idéas. Se pelo contrario alguem achar, que elle deſce alguma vez a couſas vulgares, e triviaes, conſidere os effeitos, para que eſtas couſas concorrem, e pela dignidade das conſequencias honre os principios.

Alguns ha que querem reprehender o Filoſofo con alguns pontos de doutrina. Lembremo-nos porém, que os Gregos não diſcorrião em tudo ſobre a Poetica, como nós hoje diſcorremos. Nós os lemos pelo commum com as preoccupações da noſſa educação, e queremos achar nos antigos as noſſas meſmas idéas; e porque as não achamos, dizemos que ſe não explicão bem, quando ſe não explicão ao noſſo modo.

Com tudo devemos confeſſar, que algumas couſas ha, que ſe podem hoje aperfeiçoar: ha tambem outras, que pódem ſer corrigidas. Hum ſó homem creando huma nova Arte, que não havia, não a pôde logo aperfeiçoar em tudo. Aſſás fez Ariſtoteles em lançar os fundamentos della, e eſtabelecer os ſeus principios verdadeiros: poucos defeitos, que lhe eſcapárão no calor de huma obra tão ſublime, deſapparecem á viſta das admiraveis reflexões que fez, e das immenſas bellezas, que deſcubrio.

Eis-aqui pois qual he a Poetica de Ariſtoteles, Chefe de obra do Goſto, e da Filoſofia; e por ſer de tanto preço, e eſtimação, pareceo util a muitos Sabios das Nações eſtrangeiras promover, e facilitar a ſua intelligencia por meio das Traducções, que fizerão della em diverſas Linguas, e dos amplos, e eruditos Commentarios, com que illuſtrárão ſua doutrina.

Traductores da Poetica. Porque em quanto ás Traducçoes, ſó na Lingua latina a traduzírão Alexandre Paccio[16], Franciſco Robortello[17], Antonio Riccoboni[18], Pedro Victorio[19], e Theodoro Goulſton[20]. Em linguas vulgares a traduzírão outros, por quanto Luiz Caſtelvetro a traduzio em Italiano[21], Joſé Antonio Gonzales de Salas em Caſtelhano[22], Rimer em Inglez[23], e André Dacier em Francez[24].

Commentadores da Poetica. Pelo que reſpeita aos Commentadores forão elles muitos; porque além dos meſmos Traductores Robortello, Victorio, Caſtelvetro, Riccoboni, Goulſton, Gonzales, e Dacier, que acompanhárão as ſuas Traducções com notas, e Commenta-

rios, outros muitos a illuſtrárão tambem, como forão Vicente Madio de Brixia, e Bartholomeu Lombardo de Verona nas ſuas Explanações Commuas e o ultimo nas ſuas Proprias Annotações; Paulo Beni, Alexandre Piccolomini, João André Giglio, e Bartholomeu Botta nos ſeus Commentarios; Friderico Rappolti nas ſuas Obſervações, Gerardo João Voſſio nos ſeus Livros das Inſtituições Poeticas, em que foi quaſi hum puro Scholiaſtes de Ariſtoteles, Daniel Heinſio nas ſuas Notas, Franciſco Patricio, Antonio Sebaſtião Minturno, e M. Antonio Majoragio nos ſeus Livros ſobre a Poetica, por não referir outros, que em varios lugares de ſuas obras explicárão com ſumma exactidão muitas paſſagens da Poetica. No que fizerão por certo hum grande ſerviço aos eſtudos da Poezia.

Pelo exemplo deſtes homens nos lembrou, que devia haver entre nós quem tomaſſe a meſma empreza; porque que nos pareceo, que ſería igualmente util á Mocidade Portugueza o ter ella traduzida, e illuſtrada na ſua lingua a Poetica do Filoſofo, de maneira que lhe foſſe mais facil, e corrente a leitura della, maiormente em hum tempo, em que ſe cuida por extremo em cultivar eſtes eſtudos.

Em quanto porém algum eſclarecido Meſtre da Nação não toma a ſi eſte trabalho, e nos não dá huma traducção exacta, e perfeita de tão bella obra, poderá ſervir de alguma couſa, a que preſentemente ſe offerece ao público, Houve grande cuidado em a fazer fiel, e expreſſiva, quanto podia conſentir hum original tão difficil, como he eſte de Ariſtoteles, e quanto podia caber em huma lingua, que ſe bem não he das mais pobres, e menos energicas, todavia não tem nem a força, nem a concisão da Grega. Seguir-ſe-ha com brevidade hum Commentario trabalhado ſobre as obſervações dos melhores Interpretes, e Expoſitores deſta obra de Ariſtoteles, em que ſe illuſtrará o texto com o que pertencer á Critica, á Hiſtoria, á Filoſofia, e á Poetica, e ſe dará conta da traducção de alguns lugares deſta obra, em que poſſa haver algum eſcrupulo, ou novidade.

Praza a Deos, que eſte trabalho venha a ſer util á Mocidade, e que ella aprenda do mais Sabio dos Meſtres da Poetica huma Arte, que enſina a cantar em ſom alto, e ſublimado tudo o que corrige o vicio, tudo o que honra a virtude, a Religião, e os homens, por quanto he eſte o fim da Poezia.

  1. Ariſtoteles naſceo em Stagyra Cidade de Macedonia 384. annos antes de Chriſto, e no anno I. da Olympiada XCIX. foi filho de Nicomacho, que era Medico do Rei Amyntas, pai de Filippe de Macedonia, e deſcendente de Eſculapio. Sua mãi foi Pheſtiades, deſcendente dos primeiros povoadores de Stagyra: morreo de idade de 63. annos, e no meſmo anno, em que morreo Demoſthenes, iſto he, no anno III. da Olympiada CXIV. 2. annos antes da morte de Alexandre M. e 322. antes da Naſcimento de Chriſto.
  2. Ariſtoteles de idade de 18. annos paſſou a Athenas; e como a fama de Platão convidava a todos os eſtrangeiros para a ſua eſcola, Ariſtoteles entrou na Academia para ouvir tão grande meſtre: he certo que de Platão recebeo elle huma parte da ſua doutrina, porque tinha Platão meditado muito ſobre a natureza da Poezia, como ſe vê do ſeu Dialogo intitulado Jon, e dos lugares de outros Dialogos, dos quaes todos formou depois Paulo Beni huma Collecção, a que chamou Poetica de Platão. Criton, contemporaneo de Socrates, e algum dos outros, de que falla Voſſio de Artis Poeticae natura cap. v. Sect. v. tambem tinhão eſcrito alguma couſa da Poetica, dos quaes talvez que Ariſtoteles ſe ſerviſſe: porém he igualmente certo, que iſto não erão mais do que huns principios ainda rudes, e confuſos da Poetica; e póde-ſe dizer com razão, que Ariſtoteles foi o primeiro, que creou eſta Arte.
  3. In Ariſtotel.
  4. Lib. XV. c. XVI.
  5. Lib. I. Poet. XLIV.
  6. Lib. XV. cap. XVI. Animadverſ. in Athen. Foi de tanta conſideração eſte hymno de Ariſtoteles, que delle ſe aproveitárão ſeus inimigos para o criminarem; porque Eurymedon, Sacerdote de Ceres, e Demophylo o accuſárão de impiedade, dizendo, que aquella Canção era huin verdadeiro Pean, e que a ninguem era licito cantar daquella forte á honra de hum ſimples mortal, hum Cantico ſagrado, que ſṕ era particular dos Deoſes.
  7. Olympiodoro ſobre o Gorgias de Platão faz menção deſtas Elegias, e cita alguns verſos de huma dellas en louvor de Platão.
  8. Temos ainda hoje o ſeu ΠΕΠΑΟΣ, que conſiſte em mais de quarenta Epitafios em diſtichos Elegiacos a outros tantos Heroes os mais célebres, que ſe deſcrevem na Iliada. Guilherme Cantero foi o primeiro, que reconheceo, e moſtrou, que eſtes Epitafios erão de Ariſtoteles, excepto aquelle, que he feito a Ayax. Henrique Eſtevão os tinha publicado ſem nome em 1566. no fim da Anthologia dos Epigrammas Gregos.
  9. Poderá alguem duvidar ſe eſta Poetica he de Ariſtoteles, por quanto houve outro do meſmo nome, qual foi Ariſtoteles Cyrenaico, que eſcreveo tambem do meſmo aſſumpto, ſegundo o teſtemunho de Diogenes Laercio v. 35. E com effeito Joaquim Camerario nas ſuas notas a Ariſtoteles creo, que eſta obra ou era hum mero compendio da Poetica original de Ariſtoteles, ou obra de outro author do meſmo nome.
    Porém o meſmo Diogenes Laercio, Ammonin Simplicio, Hernias, e outros dos antigos a attribuem ao Filoſofo de Stagyra, como obſervou já Voſſio de Art. Poetic. Além diſto he tal o methodo de Doutrina, e o eſtilo da Poetica, que dão logo moſtras evidentes do eſpirito dp Filoſofo. Conhece-ſe ainda melhor que eſta obra he ſua, fazendo-ſe algumas confrontações entre a Poetica, e a ſua Rhetorica; por quanto na Rhetorica cita elle algumas vezes a Poetica e ſe achão neſta juſtamente os lugares, que elle cita, como por exemplo o lugar do c. II. do Liv. III. da Rhetorica, que começa aſſim: Compondo-ſe a oração de nomes, e verbos, e tendo os nomes tantas eſpecies, quantas ſe conſiderão na Poetica, &c. &c. o qual lugar bem conſiderado ſe refere ao que ſe diz na Poetica no c. XXIII. Examine-ſe tamhem o lugar do meſmo Capitulo já citado da Rhetorica, em que diz: Fique aſſentado, que he virtude da Dicção o ſer clara, &c. &c. a qual paſſagem ſe refere á outra do c. XXIV. da Poetica. Eſtas, e outras mais confrontações, que ſe podem fazer, moſtrão manifeſtamente, que o author de huma obra compoz tambem a outra. Além deſta obra, compoz Ariſtoteles hum Livro ſobre a Tragedia, e tres Livros ſobre os Poetas, o que tudo ſe perdeo.
  10. Luiz de Caſtelvetro creo, que a Poetica eſtava toda inteira, e completa: e Frederico Boaventura, ſegundo refere Nicio Erythreo na ſua PinaCothea I. p. 176. quiz moſtrar o meſmo, e que ſó em hum lugar ſe achava mutilada.
  11. Vicente Madio, e Franciteco Robortello julgárão, que ſómente hum Livro ſe perdêra; e Victorio, que o ſegundo, e o terceiro. Paulo Benidiz, que a Poetica formava hum ſó Livro no ſeu principio, pois que Ariſtoteles ſe referia muitas vezes a hum ſó; mas que fora depois dividida em diverſas partes por Theophraſto, Andronico, e outros, ſegundo o goſto de cada hum; pelo que chegara ás mãos de Plutarco dividida em tres Livros, e ás de Laercio ſómente em dous. Voſſio in Praefat. Oper. Inſtit. Poetie. quer que conſtaſſe ſómente de dous Livros, e que ſó eſtes foſſem conhecidos na antiguidade; porque o lugar de Diogenes Laercio na vida de Socrates, em que parece fazer menção do terceiro Livro, o tem elle por corrupto, julgando que em lugar de Poetica πεὶ ποιητεκῆς ſe deve ler πεὶ ποιητῶν dos Poetas, porque Ariſtoteles compoz tres Livros dos Poetas; e que a meſma emenda ſe devia fazer tambem em outro ſemelhante lugar de Plutarco na vida de Homero. Caſtelvetro, e Nunes ſeguem iſto meſmo: e Baillet Jugemens dos Scavans parece ſer da meſma opinião. Porém João Alberto Fabricio na ſua Bibliotheca Grega no Liv. III. c. VI. Sect. III. de Poet. Ariſt. com a authoridade de Boecio no principio do Liv. I. dos Commentarios Maiores an Livro de Interpretatione, ſegue, que Ariſtoteles eſcrevêra tres Livros de Poetica, e que o lugar de Laercio não eſtá corrupto. O meſmo ſegue Mr. de la Monnoye da Academia Franceza, que nas notas a Baillet corrige o ſentimento de Voſſio com a authoridade de Fabricio.
  12. Ariſtoteles no Livro VIII. dos Politicos c. ult. affirma, que na Poetica havia de tratar da Purgação dos animos mais claramente, do que naquelle lugar o fazia; o que ſe não acha hoje na Poetica.
  13. O meſmo Ariſtoteles no Livro I. da Rhetor. c. XXII. no fim diz, que na Poetica tratára do Ridicolo ſeparadamente, iſto he, quanto parece, com extensão, e como ex profeſſo, o que tambem ſe não acha na Poetica, porque ſó em o c. IV. diz muito levemente alguma couſa da Comedia, e do Ridiculo em geral. Tambem no Liv. III. da meſma Rhetorica affirma, que na Poetica explicara quantas eſpecies havia de Ridiculo, o que não achamos hoje nella.
  14. Simplicio ás Categorias de Ariſtoteles cita da Poetica a definição dos Synonymos, que não exiſte hoje no dito Livro.
  15. Jerardo João Voſſio de Natur. Poetic. c. V. p. 28. e 29. cré, que eſta parte, que hoje temos, eſtá completa, e o quer provar pela bella ordem, e admiravel encadeamento, que ſe acha nella deſde o principio até o fim. Porém outros Criticos ſuſpeitão juſtamente o contrario, como são Pedro Vitorio nos Commentarios á Poet. e ao cap. VII. do Livro VIII. dos Politicos; o Author da Bibliotheca Curioſ. Hiſtor. Philolog. e o Abbade Vatry na Reſpoſta a huma Memoria, ou Diſſertação, que vem no Tom. IX. da Hiſtor. da Acad. Real das Inſcripções. e Bell. letr. nas Memor. de Literat. p. 292. He de crer, que Ariſtoteles trataria no fim deſte primeiro Livro das duas ultimas partes da Tragedia, iſto he, da Molopéa, e da Decoração, pois que dellas falla no principio.
  16. Vem junto con as Explanações Commuas de Vicente Madio, e de Bartholomeu Lombardo. Veneza 1550. em fol. delle ſe não lembra Fabricio, nem Baillet.
  17. Uſou Robortello de tres Cod. Mss. e fol impreſſa a ſua traducção em Florença em 1548. fol. e depois em Baſilea em 1555. fol.
  18. A ſua versão he a que vulgarmente ſe tem ſeguido nas edições Groeco-Latinas de Ariſtoteles, e na meſma ultima de Guilherme Duval no Tom. VI. Ha duas edições de Veneza, huma de 1579. em 8.° e outra de 1584. em 4.° ha huma de Padua em 1587. em 4.° e outra de Paris em 1564.
  19. Ha huma edição de Florença 1573. fol.
  20. Londres 1623. em 4.° outra em Cantabrigia 1696. em 8.°
  21. Ha huma edição de Baſilea de 1576, em 4.° e outra de Vienna de Auſtria em 1570.
  22. Madrid em 1633. em 4.°
  23. Londres 1674. em 8.°
  24. Paris 1692. em 4.°