A Poetica de Aristoteles/IV


 
CAPITULO IV.
Da origem da Poezia; e das diverſas,
e particulares fórmas
que tomou.
I.

Duas cauſas da origem da Poezia. PArece que a Poezia traz inteiramente a ſua origem de duas cauſas, ambas naturaes.

II.
I.
A Imitação natural ao homem.

Porque a imitação he natural ao homem deſde a infancia, e niſto differe dos outros animaes, pois que elle he o mais imitador de todos, aprende as primeiras couſas por meio da imitação, e todos ſe deleitão com as imitações.

III.

He prova diſto o que acontece a reſpeito dos Artifices; porque nós contemplamos com prazer as imagens mais exactas daquelles meſmos objectos, para que olhamos com repugnancia; por exemplo, a repreſentação de animaes ferociſſimos, e de cadaveres.

IV.

E a razão diſto he, porque o aprender he couſa, que muito apraz não ſó aos Filoſofos, mas tambem igualmente aos demais homens, poſto que eſtes ſejão menos inſtruidos. Por iſſo ſe alegrão de ver as imagens, pois que olhando para ellas, podem aprender, e diſcorrer o que cada huma dellas he, e dizer por exemplo: iſto he tal; porque ſe ſucceder que alguem não tenha viſto o original, não recebe então prazer da imitação, mas ou da belleza da obra, ou das cores, ou de outro algum motivo ſemelhante.

V.
II.
A Harmonia, e o Rythmo natural ao homem.

Sendo pois propria da noſſa natureza a imitação, tambem o he a Harmonia, e o Rythmo, (porque he claro, que os Metros são parte do Rythmo).

VI.

Os que ao principio ſe ſentírão com maior inclinação natural para eſtas couſas, adiantando-ſe pouco a pouco, dérão origem á Poezia com obras feitas de improviſo.

VII.

Das diverſas fórmas da Poezia.

Ora a Poezia tomou diverſas fórmas, ſegundo o differente natural de cada hum; porque os homens, que tinhão mais gravidade,
I.
Origem da Poezia Heroica, e da Jambica, ou Satyrica.
e elevação, imitavão as acções boas, e a fortuna dos bons; e os que erão de genio mais humilde, imitavão as acções dos máos, eſcrevendo ao principio vituperios, aſſim como os outros compunhão hymnos, e louvores.
VIII.

Não podemos na verdade citar poema deſte genero de algum dos que vivêrão antes de Homero; mas he provavel que neſſe tempo exiſtiſſem muitos Poetas. Começando deſde Homero, temos exemplos, qual he o Margites do meſmo Homero, e outros ſemelhantes, nos quaes uſárão tambem do metro Jambo, como o mais accommodado; e por iſſo ainda hoje ſe lhe dá o nome de Jambo, porque neſta eſpecie de metros dizião injúrias huns aos outros.

IX.
II.
Origem da Comedia, e da Tragedia.
Dos antigos pois huns forão Poetas Heroicos, e outros Jambicos. E aſſim como Homero foi principalmente Poeta no genero ſério, e he o unico não ſó porque compoz bem, mas porque fez imitações Dramaticas; aſſim tambem foi o primeiro, que deo alguma idéa da fórma da Comedia, reduzindo a Drama não os vituperios, mas o ridiculo, por quanto o Margites tem a meſma analogia com a Comedia, que tem a Iliada, e a Odyſſea com a Tragedia.
X.

Porém outros inclinando-ſe a hum deſtes dous generos de Poezia, ſegundo o ſeu genio particular, huns em lugar de eſcreverem Jambos, eſcrevêrão Comedias; e outros em lugar dos Hexametros, compuzerão Tragedias, por ſerem eſtas eſpecies de Poezia mais excellentes, e mais eſtimadas do que aquellas. Ora, examinar ſe com effeito a Tragedia eſtá preſentemente perfeita na ſua fórma, conſiderando-a em ſi meſma, e pelo que reſpeita ao theatro, he queſtão alheia deſte lugar.

XI.

Augmento da Tragedia, e da Comedia. Sendo pois a Tragedia, e a Comedia ao principio obras toſcas, e informes, aquella dos que cantavão os Dithyrambos, e eſta dos Authores dos Verſos Phallicos, que ainda hoje as leis conſervão em muitas Cidades, pouco a pouco ſe forão augmentando, accreſcentando-ſe a cada huma dellas o que ſe hia deſcubrindo neſta materia.

XII.

Da Tragedia em particular.E a Tragedia, depois de ſoffrer muitas mudanças, parou finalmente aſſim que teve tudo o que era proprio da ſua natureza. EſchyloAddições que lhe fizerão Eſchylo, e Sophocles. foi o primeiro, que em lugar de hum introduzio dous repreſentantes, que diminuio o coro, e inventou huma falla para o principal Actor. Sophoeles introduzio tres repreſentantes, e a decoração da Scena.

Mudança na Fabula, e na dicção.Além diſto a Tragedia tarde recebeo ſua grandeza, e mageſtade, depondo as pequenas fabulas, e a dicção burleſca, que lhe tinha vindo do Satyrico, de que ſahíra.

XIII.

Mudança na qualidade do metro. O metro tambem paſſou de Tetrametro a Jambo, porque ao principio uſárão do Tetrametro por ſer Poezia Satyrica, e mais propria para a Dança. Porém introduzindo-ſe o eſtilo proprio, a meſma natureza achou o metro, que lhe era accommodado, por quanto o Jambo he de todos os metros o mais proprio para converſação; o que ſe moſtra bem, porque quando fallamos huns com os outros, dizemos quaſi tudo em Jambos, e raras vezes em Hexametros, porque então ſahimos fóra da harmonia natural da converſação.

XIV.

Augmento no número dos Epizodios.Dizem finalmente que á Tragedia ſe forão accreſcentando pouco a pouco o número dos Epizodios, e os outros ornamentos.

XV.

Baſte pois o que temos dito ſobre eſtas couſas, porque ſería talvez de muito trabalho o diſcorrer ſobre cada huma dellas em particular.

XVI.

Da Comedia em particular.A Comedia, como já diſſemos, he huma imitação dos peiores homens, não em todos os ſeus vicios mas no ridiculo, que he huma parte do torpe; pois que o ridiculo he huma eſpecie de defeito, e de torpeza ſem dor, e que não deſtroe a quem a tem, por exemplo, ſem ir mais longe, huma cara ridicula he huma couſa torpe, e disforme, ſem dor, e que não paſſa á deſtruição do homem.

XVII.

Cauſa, por que forão tardios os progreſſos da Comedia.Ora nós ſabemos quaes forão os varios progreſſos da Tragedia, e quaes forão os ſeus Authores; mas não aſſim a reſpeito da Comedia, por ſe cuidar ao principio pouco nella: pois que ſó paſſado muito tempo, he que o Magiſtrado deo coro ás Comedias. Mas entravão nelle ſómente os que querião. Só depois que teve a Comedia alguma fórma, he que achámos memoria dos que ſe dizem ſer authores della.

XVIII.

Quaes os primeiros Poetas, que a forão aperfeiçoando.Mas não ſe ſabe quem deo á Comedia as Maſcaras, os Prologos, o número dos Actores, e outras couſas ſemelhantes. He certo que Epicharmo, e Phormo principiárão a compôr Fabulas. Pelo que iſto veio primeiramente da Sicilia. Dos Athenienſes foi Crates o primeiro, que começou a formar inteiramente converſações, ou Fabulas, deixando a Poezia Jambica.

XIX.

Da Epopêa em particular. Em que convém, e em que differem a Epopêa, e a Tragedia.A Epopêa convém com a Tragedia ſómente em ſer huma imitação de homens bons em linguagem metrica; differe porém em conſtar do ſó ſimples metro, e em ſer huma narração; e tambem na extensão, por que a Tragedia procura, o mais que he poſſivel, caber dentro de hum periodo do Sol, ou excedello pouco; porém a Epopêa não tem tempo de terminado, e niſto tem differença, poſto que ao principio praticaſſem eſta liberdade igualmente nas Tragedias, e nos Pocmas Epicos. Em quanto ás Partes, algumas são as meſmas na Tragedia, e na Epopêa; outras são ſó proprias da Tragedia.

XX.

O que julgar bem de huma Tragedia, julgará bem do Poema Epico.Pelo que todo o que he capaz de julgar ſe huma Tragedia he boa, ou má, tambem he capaz de formar juizo ſobre hum Poema Epico, porque a Tragedia tem todas as couſas, que ha na Epopêa; porém neſta nem por iſſo ſe acha tudo, o que ha na Tragedia.