A Poetica de Aristoteles/II


 
CAPITULO II.
Da ſegunda Differença das Artes, ou
dos diverſos objetos da ſua
imitação.
I.

Tres diverſos objectos da imitação.
I. Os homens melhores.
II. Os homens ſemelhantes.
III. Os homens peiores.
MAs como os que imitão, imitão homens, que fazem alguma acção, e eſtes hão de ſer neceſſariamente ou bons, ou máos, porque os coſtumes ſó ſe achão neſtes dous generos de peſſoas, (pois que em quanto aos coſtumes todos ſe diſtinguem ou pelo vicio, ou pela virtude;) ſegue-ſe neceſſariamente, que elles hão de imitar os homens ou melhores do que são, ou ſemelhantes, ou peiores: da meſma ſorte que os Pintores;Verifica-ſe eſta doutrina na Pintura. porque Polygnoto repreſentava os hosmens melhores, Pauſon peiores, e Dionyſio ſemelhantes.

II.

Ora he claro, que cada huma das referidas imitações ha de ter eſtas meſmas differenças, e que cada huma dellas varía em imitar couſas diverſas deſta maneira.

III.

Na Orcheſtica, na Auletica, e na Cythariſtica. Porque tanto na Orcheſtica, como na Auletica, e na Cythariſtica póde haver eſta variedade.

IV.

Na Epopêa. E tambem nas Orações, e no puro metro. Aſſim Homero imitou homens melhores, Cleofon ſemelhantes; e Hegemon de Thaſos, o primeiro que eſcreveo Parodias, e Nicoclaris Author da Deliada, imitárão homens peiores.

V.

Nos Dithyrambos e nos Nomos. Semelhantemente a reſpeito dos Dithyrambos, e dos Nomos; aſſim Timotheo, e Filoxeno imitárão os Perſas, e os Cyclopes.

VI.

Na Tragedia, e na Comedia. Neſta meſma diverſidade de imitação ſe diſtingue a Tragedia da Comedia; porque eſta procura imitar os homens peiores, e aquella melhores, do que elles são ordinariamente.