A Onda Verde (2ª edição)/A Onda Verde

A ONDA VERDE

QUEM viaja pelos sertões do noroéste paulista se vê empolgado pelo espectaculo maravilhoso da preamar do café. A onda verde nasceu humilima em terras fluminenses. Tomou vulto, desbordou para São Paulo e aqui, fraldejando a Mantiqueira, veiu morrer, detida pela frialdade do clima, á orilha da Paulicéa.

Mas não parou. Transpoz o baixadão geento e foi espraiar-se em Campinas.

Ahi começa mestre Café a perceber que estava em casa. Corredor de mundo, viajante exotico vinda d՚Arabia ou d՚Africa, provára pelo caminho todos os massapés e sondára todos os climas. Franzia o nariz, porém. Veiu sorrir alli, ao pisar esse Oasis do Rubidio que é o Oéste paulista, onde arranchou de vez, para sempre, em sua casa.

Repete-se, então, o movimento bandeirante de outróra. Attráe o homem aventureiro, não mais o ouro dissimulado em pepitas no seio da terra, mas o ouro annual das bagas vermelhas que se derriçam em balaios.

A região era todo um mattaréo virgem de majestosa belleza.

Rasgara-o a facão o bandeirante antigo, por meio de picadas; o bandeirante moderno, machado ao hombro e facho incendiario nas mãos, vinha agora, não penetral-o, mas destruil-o.

Almas fechadas ao contemplativismo, nunca lhes amollentou o pulso a belleza augusta dos jequitibás de frondes sussurrantes como o oceano, nem o vulto grave das perobeiras millenarias.

Sua ambição feroz preferia á belleza da desordem natuaral a belleza alinhada da arvore que dá ouro. Só esta forma de belleza tem amavios capazes de enlevar a alma fria do paulista. Para ver estadeada ante os olhos a sua belleza — cousa nova no mundo e creação genuinamente local — derrubou, roçou e queimou a maravilhosa vestimenta verde do oasis. Desfez, em decennios, a obra prima que a natureza vinha compondo desde a infancia da terra.

Confessemos: um espectaculo vale o outro.

Nada mais soberbo — e nada desculpa tanto o orgulho paulista — do que o mar de cafeeiros em linha, postos em substituição da floresta nativa.

E՚ de enfunar o peito a impressão de quem pela primeira vez navega sobre o oceano verde-escuro. Horas a fio, num pullman da Paulista ou num carro da Mogyana, a cortar um cafezal só — milhões e milhões de pés que ondulam por morro e valle até se perderem no horizonte, confundidos com o céo... Um cafezal só, que não acaba mais, sem outras soluções de continuidade além do casario das fazendas e dos pastos circumjacentes... Para quem necessita revitalizar as energias murchas e esmaltar-se de indestructivel fé no futuro, nada melhor do que um raid pelo mar interno da Rubiacea.

Mas a arvore do ouro só o produz á custa do sangue da terra. E՚ exuberante na producção da baga vermelha, mas insaciável de humus..

Polvo com milhões de tentaculos, o Café rola sobre a matta e a sovérte.

Nada o sacia.

Já comeu as zonas uberrimas de Ribeirão Preto, Jahú, São Manuel, Araraquara, os pedaços de ouro de São Paulo, e agora afunda os dentes na carne virgem, tresuante de seiva, do Paraná e de Matto Grosso.

Nada lhe detem a offensiva irresistivel.

Não a paralysam geadas monstruosas como a de 1918; nem a inepcia dos governos — que chegou a barrar-lhe o caminho com a cerquinha de taquára de uma prohibição de plantio; nem as taxas e sobretaxas excessivas; nem os impostos de saída; nem a jogatina de Santos; nem a mentalidade altista do fazendeiro.

Caminha sempre.

Tank monstruoso, vivo mas inconsciente, cégo mas instinctivo, lá róla hoje, rumo noroéste, para deante, sempre para deante...

O café é uma epopéa.

Quando nossa literatura largar o cházinho que beberica no Alvear e comprehender a sua verdadeira missão, a epopéa, a tragedia, o drama e a comedia do café serão os grandes themas de quantos sentirem em si a fagulha divina. Hoje, coitadinha, está ella tão entretida com o seu chá das cinco, com os rodopios em torno das saias das meninas hystericas, com a cintura dos almofadinhas, com as escorrencias mercuriaes que o francez nos exporta que é bom, mesmo, não se metta a estragar com mãos de mico o grande thema.

Que folego é mister!

Que amplitude de visão, que dureza d՚alma, que sobrehumana coragem para vêr, sentir e contar a historia da Onda Verde que digere as florestas virgens!

Os aspectos antigos — o eito de negros tocado a bacalháo, e os aspectos modernos — a bravura do italiano, encardido de oxydo de ferro. As hostes de sertanejos, os mais rijos do Brasil, que descem, pelo inverno, dos socavões da Bahia, de machado ás costas e uma furia de destruição nos musculos. O duello entre esses heróes de dentes apontados a faca e a selva bruta. O machado que canta no róseo das perobas. A foice que risca a miuçalha vegetal. A queimada, depois... E depois o sertanejo que volta á querencia, com o dinheiro no lenço, e pago — pago e repago da faina com o espectaculo fulgurante da queimada que levam impresso na retina para todo o sempre.

Elles destróem, mas não sabem construir. Entra em scena, para construir, o colono e começa o drama da formação: quatro annos de enxada no pulso, de corrida paciente atrás de um matto que “corre atrás da gente”. A victoria, afinal, a florada nivea — quando não, como em 1918, uma florada prematura de neve...

O assumpto arrasta. Voltemos atrás.

A penetração do café nas terras novas escreve capitulos curiosissimos, oscillantes entre o tragico e o comico.

Faz-se por bem ou por mal — quasi sempre por mal.

O primeiro passo é a creação da propriedade de titulo liquido. Sem esta base, não póde surgir a fazenda, que é uma empreza de vulto, onde se interessam fortes capitaes. A propriedade crêa-se hoje, como outróra, pela conquista do mais forte, pela espoliação levada a cabo pelo mais audacioso, pelo mais despido de escrupulos.

Um homem timido e perfeitamente moral, chega ao sertão e não tópa brécha onde pôr pé. Encontra-o deserto, mas apossado. Não vê gente, mas esbarra donos. Se quer comprar ninguem lhe vende. Ninguem lhe arrenda. Ninguem lhe aluga. Os detentores, zelosos de uma posse tradicional de paes a filhos, não querem visinhos que lhes perturbem a paz do latifundio. E o homem moral volta para trás, desanimado.

Mas surge o grilleiro e tudo se transforma. Terras paradas, terras inexpugnaveis á cultura, que velhos barbaças detêm aos milheiros de alqueires para tirar dellas um prato de feijão e uns porquinhos de céva, e que vêm vindo assim de avós a netos, e que permaneceriam assim toda a vida; terras devolutas, que a inercia do Estado conserva a monte, sem saber por quê nem para quê; terras legitimamente, legalmente “aproprietariadas” — nada disso é obstaculo á solercia do grilleiro. Elle, ao partir para o sertão, deixou em casa, na gaveta, os escrupulos da consciencia. Vem firme, vem “feito” como um gavião. Opéra as maiores falcatrúas; falsifica firmas, papeis, sellos; falsifica rios e montanhas; falsifica arvores e marcos; falsifica juizes e cartorios; falsifica o fiel da balança de Themis; falsifica o céo, a terra e as aguas; falsifica Deus e o Diabo. Mas vence. E por arte dessa obra-prima de malabarismo, espoliando posseiros ou donos, firmados na gazúa da lei, os grilleiros expellem das terras, num estupendo parigato, todos os barbas ralas que alli vivejam parasitariamente, tentando resistir ao arranque da civilização.

Divididas as glebas em lotes, vendem-nas os grilleiros á legião de colonos que os seguem como urubús — pelo cheiro da carniça. E o grillo, si foi bem feito, é inexpugnavel e provoca admiração, e si foi mal feito fracassa e é apupado pelos embahidos.

Num sertão modorrento, quando a presença de um advogado ou agrimensor esperta os velhos moradores, á uma voz elles murmuram — e si não o murmuram sentem-no lá dentro das tripas:

— O nosso tempo acabou-se...

E acaba, de feito. Acaba o marasmo da terra porque o grilleiro é o precursor da Onda Verde. O seu cri-cri annuncia a approximação do tank. Cinco, dez annos depois, a flôr do café branqueia a zona e a incorpora ao patrimonio da riqueza nacional.

O peregrino espirito de Assis Chateaubriand já explanou em traços geraes, mas incisivos, esta funcção social e civilizadora do grillo. Definiu-o a arte de tirar o direito do nada. E՚ isso. E՚ a victoria da gazúa do mais forte.

— Mas é uma gazúa! Abre as portas do sertão mas é uma chave falsa!... diz a moral.

Responde o café:

— Minha fome está acima da moral, e eu só conheço as leis do meu appetite.

Ha fomes sympathicas, não resta duvida...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.