A Mangueira

A MANGUEIRA.

Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira,
E a doce fruta amarella,
Sorrindo entre as folhas della,
E a leve copa altaneira?
Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira?

Nos seus alegres verdores.
Se embalança o passarinho;
Todo é graça, todo amores,
Decantando seus ardores
Á beira do casto ninho:
Nos seos alegres verdores
Se embalança o passarinho!

O cansado viandante
Á sombra della acha abrigo;
Traz-lhe a aragem sussurrante,
Que lhe passa no semblante,
Talvez o adeos d’um amigo;
E o cançado viandante
A sombra della acha abrigo.

A sombra que ella derrama
Todas as dôres acalma;
Seja dôr que o peito inflamma,
Ou voraz, nociva chamma
Que nos mora dentro d’alma,
A sombra que ella derrama
Todas as dôres acalma.

O mancebo namorado
Para ella se encaminha;
Bate-lhe o peito açodado,
Quando chega o praso dado,
Quando ao tronco se avisinha,
E o mancebo namorado
Para o tronco se encaminha.

Sob a copa deleitosa
Mil suspiros se entrelação,
E d’uma hora aventurosa

Guarda a prova a casca annosa
Nas cifras que ali se abração:
Sob a copa venturosa
Mil suspiros se entrelação.

Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem,
Deixa-me ouvir teos cantores,
Admirar teos verdores;
Presta-me abrigo tambem,
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem.