Últimos Cantos/Notas
NOTAS.
Tinha eu podido conseguir do Sr. D. Carlos Guido que me escrevesse um prologo para a presente collecção de poesias. A rapidez com que me vejo forçado a concluir a sua impressão, obriga-me a não publical-o por agora. É para mim uma perda, para o Sr. Guido uma simples demora. Trabalhos como este, ainda que, por serem retardados, alguma cousa possão perder de novidade e de opportunidade, tem comtudo tal merecimento intrinseco, que pouco desmerecem com o tempo.
POESIAS AMERICANAS.
Alguns dos principacs montes da enseada do Rio de Janeiro parecem aos que vem do Norte ou do Sul representar uma figura humana de colossal grandeza: este capricho da natureza foi conhecido dos primeiros navegantes portuguezes com a denominação de — frade de pedra, — que agora se chama o gigante de pedra. — Áquelle objecto se fez esta poesia.
......extincta a antiga crença
Dos Tamoyos, dos Pagés.
Tamoyos erão os primeiros habitantes do Rio. — Pagés erão os sacerdotes, os augures, os medicos dos indigenas de todo o litoral do Brasil — os mesmos a que nos «Primeiros Cantos» dei o nome de plagas. Eis o que n’aquella obra escrevi a este respeito. — «Piagé — Piache — Piaye ou Piaga que mais se conforma á nossa pronuncia era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o cantor dos indigenas do Brasil e de outras partes da America. E em outra nota accrescentei: «Erão anachoretas austeros, que habitavão cavernas hediondas, nas quaes, sob pena de morte, não penetravão profanos. Vivendo rigida e sobriamente, depois de um longo e terrivel noviciato, ainda mais rigido que a sua vida, erão elles um objecto de culto e de respeito para todos; — erão os dominadores dos chefcs — a balisa formidavel, que felizmente se erguia entre o conhecido e o desconhecido — entre a tão exigua sciencia d’aquelles homens, e a tão desejada revelação dos espiritos.» — Hans Staden escreve Paygi; Payé lê-se en uma das obras do Padre Vasconcellos, nome que tambem lhes dá Laet na sua «Descripção das Indias occidentaes.» Lery e Damião de Goes escrevem Pagé, orthographia que agora adoptamos.
Murémuré escreve o padre Vasconcellos nas suas «Noticias curiosas:» collige-se que é um instrumento feito de ossos de defuntos, como alguns outros, de que se servião.
Guanabara — a enseada do Rio de Janeiro. — Escreve-se indifferentemente Genabara ou Ganabara. Lery diz na sua obra «— Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil —» en ceste riviere de Ganabara. Southey (History of Brasil) accrescenta em uma nota, que Nicolau Barré datava desta maneira as suas cartas. — Ad flumen Genabara in Brasilia &c.
Os cantos da victoria
Tangidos no boré.
Boré — era um instrumento de guerra.
Ygaras — erão canoas, feitas de ordinario de um só toro de madeira.
Guau — dansa «São mui dados a saltar e dansar de differentes modos, a que chamão guau em geral.» — Vasconcellos. Noticias Curiosas. L. 1.º n. 143.
Janubia. — Lery escreve diversamente: — des cornets, qu’ils nomment inubia de la grossuer et longueur d’une demie pique, mais par le bout d’embas larges d’environ un demi pied comme un hautbois. — Obra cit. pag. 202.
Arasoya era o fraldão de pennas, moda entre elles. Lact chama assoyave uns mantos inteiros: não sei de que mantos quer o author fallar. Hans Staden (collecção de Ternaux pag 108) dá o mesmo nome a uma especie de cocar preso ao pescoço, e passando além da cabeça, com quanto a este ornato Lery dê o nome de Yenpenamby. Quanto a arasoya, eis o que se lê na obra já citada deste author — (pag. 103). Pour la fin de leurs equippages, recouvrans de leurs voisins de grandes plumes d’austruches, de couleurs grises, accommodans tous les tuyaux serrez d’un costé, et le reste qui s’esparpille en rond en façon d’un petit pavillon ou d’une rose, ils en font un grand pennache, qu’ils appellent arareye: le quel estant lié sur leurs reins avec une corde de cotton, l’estroit devers la chair, et le large en dehors, quand ils en sont enharnachez &e.
O titulo desta poesia, traduzido litteralmente da lingua. tupi, vale tanto como se em portuguez dissessemos — o que hade ser morto. —
Taba — aldeia de indios, composta de differentes habitações, a que chamavão ocas. Quando estas habitações se achavão isoladas ou fossem levantadas para o abrigo de uma ou já para o de muitas familias, tomavão o nome de Tejupab ou Tejupabas.
Tymbiras — tapuyas que habitão o interior da provincia. do Maranhão.
Por este acto declaravão firmadas as pazes. Vieira faz menção desta solemnidade quando, em uma informação ao monarcha portuguez, se occupa da alliança feita entre os missionarios por parte dos portuguezes e dos Nhe-engaybas de Marajó.
A descripção das cerimonias com que elles usavão matar os seus prisioneiros de guerra é rigorosamente exacta, ainda que não adoptamos dos authores senão aquillo em que todos ou a maior parte concordão. Veja-se Ilans Staden — cap. 28 — dos usos e costumes dos Tupinambás. — Noticia do Brasil, cap. 171 e 172. Noticias Curiosas L. 1. n. 128 e Lery cap. XV.
Enduape — fraldão de pennas de que se servião os guerreiros: damos a denominação de arasoya a aquelles de que usavão as mulheres. «Ils font avec de plumes d’autruches, une espèce d’ornement de forme ronde, qu’ils attachent au bas du dos, quand ils vont à quelque grande fête: ils le nomment enduap. H. Staden. pag. 270.» Vasconcellos trata do enduape sem lhe dar nome algum especial. «Pela cintura apertão uma larga zona desta pende até os jelhos um largo fraldão a modo tragico, e de tão grande roda como é a de um ordinario chapeo de sol. — Noticias Curiosas L. 1. n. 129.»
Kanitar — é o nome do pennacho ou cocar, de que usavão os guerreiros de raça tupi, quando en marcha para a guerra, ou se aprestavão para alguma solemnidade d’importancia igual a esta. «Ils ont aussi l’habitude de s’attacher sur la tête un boquet de plumes rouges qu’ils nomment Konmittare (II. Staden).» — Usão de umas coroas a que chamão acangbetar. (Lact.) Os primeiros portuguezes escreverão acangatar, que litteralmente quer dizer — enfeite ou ornato da cabeça.
Chamava-se mussurana á corda com que se atava o prisioneiro. — «Et une longue corde nommée massarana, avec laquelle ils les altachent (les captifs) quand ils doivent être assomés.» (II. Staden, pag. 300). Masurana escreve Ferdinand Denis, accrescentando que era feita de algodão. É possivel que em algumas tribus fosse feita desta materia, mas convém notar que na maior parte dellas usava-se fabricar cordas de embira.
A massa do sacrificio não era o mesmo que a ordinaria, e tinha mais a differença dos ornatos que se lhe juntava, e do esmero com que era trabalhada. Lavravão e pintavão todo o punho — embagadura, como o chamavão — com desenhos e relevos a seu modo curiosos, e della deixavão pendente una borla de pennas delicadas e de cores differentes, sendo a folha ornada de mosaicos —. «Pintão (diz H. Staden, pag. 301) a massa do sacrificio, a que chamão iverapeme, com a qual deve ser sacrificado o prisioneiro: passão-lhe por cima uma materia viscosa, e tomando depois a casca dos ovos de um passaro chamado Mackukawa (acauam?) de côr parda escura, reduzcm-n’as a pó, e com elle salpicão toda a massa. Preparada a iverapeme, e adornada de pennas, suspendem-n’a em uma cabana inhabitada, e cantão em redor della toda a noite.» — Ferdinand Denis, accrescentando-lhe o artigo francez, escreve Liverapeme, que diz ser feita de páo-ferro e com mosaicos de differentes cores. Vasconcellos dá-lhe o nome de Tangapema, que é o termo do diccionario brasiliano.
Encontrámos na «Chronica da Companhia» um trecho que explica a significação desta palavra, e a idéa desta. breve composição. «Tinha certa velha enterrado vivo um menino, filho de sua nora, no mesmo ponto em que o parira, por ser filho a que chamão — marabá — que quer dizer de mistura (aborrecivel entre esta gente).» Vasconcellos. — Ch. da Comp., L. 3, n.º 27.
Os indigenas chamavão ao beija-flor — Coaracy-aba — raios, ou mais litteralmente — cabellos do sol. Convém saber-se esta particularidade para bem entender-se a comparação.
A mãe d’agua é uma naiada moderna, um espirito que habita no fundo dos rios. Acredita-se em muitas partes do Brasil que é uma mulher formosa com longos cabellos de oiro, que lhe servem como de vestido, com olhos que exercem inexplicavel fascinação, e voz tão harmociosa que ninguem que a escute resiste à tentação de se atirar as aguas para que mais de perto a ouça e contemple. O mesmo que as serêas, tem sobre ellas a vantagem de serem creaturas de fórmas perfeitas, e dellas se distinguem em fascinarem tanto com o brilho da formosura, como com a doçura da voz, e de attrahirem principalmente os meninos.
POESIAS DIVERSAS.
Data esta composição de 9 de março de 1849.
Esta poesia, impressa em um dos numeros do Jornal do Commercio de 1848, foi dedicada a Mlle. J. Picot. Havendo-me descuidado de escrever o seu nome no corpo da obra, aproveito-me desta occasião para reparar um esquecimento.
Igual descuido tive deixando de mencionar o nome do Sr. D. Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo — Retractação. Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os «Segundos Cantos», recebi uma. carta do Sr. Guido era uma critica, mas critica benevola, chcia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma e ao correr da penna. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que então pela primeira vez se me revelava como tal, — joven enthusiasta, e cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.
Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2.° volume, accrescentava elle:
«Dir-se-hia que a sua palinodia é um chuveiro de pedras crystalisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem as mais pronunciadas, fortes c soberbas cores; porém que devião converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema fulminante.
«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias, pensaria talvez que aquella mulier existe, e então cu faria ao poeta amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»
Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação, versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito vibrar a lyra doirada do poeta argentino. Consuelo foi o titulo que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido; mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me ficarão no coração. — Consolações e esperanças! — Doces são, por certo, as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, inda que não acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os seus votos não tenhão de ser realisados nunca!