Últimos Cantos/Dedicatória

AO


MEU CARO E SAUDOSO AMIGO
O
DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE CARVALHO LEAL


OFFERECENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS.


Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo, — ficticias, mas nem por isso menos agudas, — produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que a espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.

No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes, — inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado — percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer — eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indisiveis, e nunca satisfeitos, — caprichosos como a imaginação, — vagos como o oceano, — e terriveis como a tempestade; — e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes, — ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados comigo, — umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.

Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir — a mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar, — de as ouvir estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem, porque a sentem, porque a adivinhão — paguei bem caro esta momentanea celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a lenta agonia de um martyrio ignorado.

Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo, — a ti, ao teu nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu constantemente ao meu lado, — a aragem bemfazeja da tua amisade sollicita e desvelada, — a tua voz que me animava e consolava, — a tua intelligencia que me vivificava — ao prodigio de duas indoles tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão, se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido, é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente do meu coração.

Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos, — não satisfazer as esperanças, que em mim tinhas depositado, — não realisar a expectação da tua desinteressada amisade. Entrei na luta, e procurei disputar ao tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.

Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda persisto nesta carreira é por teu respeito: continuarei — até que satisfeito dos meus esforços me digas: basta! — Então, já t’o hei dito, voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sahido, e — como um soldado desconhecido — contarei os meus triumphos pelas minhas feridas, voltando a habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os primeiros dias da minha infancia.

Minha alma não está comigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella! — lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a sussurrar nos leques das palmeiras lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Ali sim, — ali está — desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras — desfeita em orvalho sobre as nossas flores, desfcita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gosos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no occano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.

A. Gonçalves Dias.