Últimos Cantos/A Tempestade

III.

A TEMPESTADE.

Quem porfiar comtigo.... ousara
            Da gloria o poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
            Turbar-se o claro rio?

Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E tremulo
E puro

Se aviva,
S’esquiva,
Rutila,
Seduz!

Vem a aurora
Pressurosa,
Côr de rosa,
Que se cora
De carmini;
A seus raios
As estrellas,
Que erão bellas,
Tem desmaios,
Já por fim.

O sol desponta
La no horisonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céo e o mar;
E um manto bello
De vivas côres
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.

Um ponto apparece,
Que o dia entristece,
O céo, onde cresce,
De negro a tingir;
Oh! vêde a procella
Infrene, mas bella,
No ar s’encapella
Já prompta a rugir!

Não sólta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto d’inspirado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quanto habita
Da terra n’amplidão.
A coma então lusente
Se agita do arvoredo,
E o vate um canto a medo
Desfere lentamente,
Sentindo oppresso o peito
De tanta inspiração.

Fogem do vento que ruge
As nuvens auri-nevadas,
Como ovelhas assustadas

D’um fero lobo cerval;
Estilhão-se como as velas
Que no alto mar apanha,
Ardendo na usada sanha,
Subitaneo vendaval.

Bem como serpentes que o frio
Em nós emmaranha, — salgadas
As ondas s’estanhão, pesadas
Batendo no frouxo arcal.
Disseras que viras vagando
Nas furnas do céo entre-abertas,
Que mudas fuzilão, — incertas
Fantasmas do genio do mal!

E no turgido occaso se avista
Entre a cinza que o céo apolvilha,
Um clarão momentaneo que brilha,
Sem das nuvens o seio rasgar;
Logo um raio scintilla e mais outro,
Ainda outro veloz, fascinante,
Qual sentelha que em rapido instante
Se converte d’incendios em mar.

Um som longinquo cavernoso e ouco
Rouqueja, e n’amplidão do espaço morre;

Eis outro inda mais perto, inda mais rouco,
Que alpestres cimos mais veloz percorre,
Troveja, estoura, atrôa; e d’entro em pouco
Do Norte ao Sul, -d’um ponto a outro corre:
Devorador incendio alastra os ares,
Em quanto a noite pesa sobre os mares.

Nos ultimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteião, rebramão, doudejão nos ares,
Até que lascados baqueião no chão.

Remeche-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia tambem;
E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas azas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.

Da nuvem densa, que no espaço ondeia,
Rasga-se o negro bojo carregado,
E em quanto a luz do raio o sol roxeia,
Onde parece á terra estar collado,
Da chuva, que os sentidos nos enleia,

O forte peso em turbilhão mudado,
Das ruinas completa o grande estrago.
Parecendo mudar a terra em lago.

Inda ronca o trovão retumbante,
Inda o raio fuzila no espaço,
E o corisco n’um rapido instante
Brilha, fulge, rutila, e fugio.
Mas se á terra desceu, mirra o tronco.
Cega o triste que iroso ameaça,
E o penedo, que as nuvens devassa,
Como tronco sem viço partio.

Deixando a palhoça singela,
Humilde labor da pobreza,
Da nossa vaidosa grandeza,
Nivela os fastigios sem dó;
E os templos e as grimpas soberbas,
Palacio ou mesquita preclara,
Que a foice do tempo poupára,
Em breves momentos é pó.

Cresce a chuva, os rios crescem,
Pobres regatos s’empolão,
E nas turvas ondas rolão

Grossos troncos a boiar!
O corrego, qu’inda ha pouco
No torrado leito ardia,
É já torrente bravia,
Que da praia arreda o mar.

Mas ah! do desditoso,
Que vio crescer a enchente
E desce descuidoso
Ao valle, quando sente
Crescer d’um lado e d’outro
O mar da alluvião!
Os troncos arrancados
Sem rumo vão boiantes;
E os tectos arrasados,
Inteiros, fluctuantes,
Dão antes crua morte,
Que asylo e protecção!

Porém no occidente
S’ergueu de repente
O arco luzente,
De Deos o pharol;
Succedem-se as cores,
Qu’imitão as flores,

Que sembrão primores
D’um novo arrebol.

Nas aguas pousa;
E a base viva
De luz esquiva,
E a curva altiva
Sublima ao ceo;
Inda outro arqueia,
Mais desbotado
Quasi apagado,
Como embotado
De tenue véo.

Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
I ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que n’uma hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.

A folha
Luzente
Do orvalho
Nitente
A gota
Retrae:
Vacilla,
Palpita;
Mais grossa,
Hesita,
E treme
E cahe.