Capuchinho Vermelho
Capuchinho Vermelho | |
|---|---|
| 'Le Petit Chaperon rouge' | |
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| Chapeuzinho Vermelho encontra o lobo. - Ilustração para "The Little Red Riding Hood" por Jessie Willcox Smith, 1911 | |
| Conto popular | |
| Título | Capuchinho Vermelho |
| Título(s) alternativo(s) | Capuchinho Vermelho Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau |
| Grupo | ATU 333 |
| Folclore | |
| Gênero | Conto de fadas |
| País | França |
| Literatura folclórica | |
| Publicação | Charles Perrault, Mamãe Gansa (1697) |
Capuchinho Vermelho (título em Portugal) ou Chapeuzinho Vermelho (título no Brasil) é um conto de fadas clássico, cujas origens podem ser traçadas a fábulas europeias do século X.[1] O nome do conto vem da protagonista, uma menina que usa um capuz vermelho. Publicada pela primeira vez pelo francês Charles Perrault, e depois pelos Irmãos Grimm (da versão mais conhecida), o conto sofreu inúmeras adaptações, mudanças e releituras da cultura popular mundial, sendo considerado o conto de fadas mais popular do mundo ocidental.[2]
História clássica

A versão mais conhecida do conto é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1857 em Kinder und Hausmärchen. Nesta narrativa, Chapeuzinho Vermelho é enviada por sua mãe para levar comida à avó doente que mora na floresta. No caminho, ela encontra um lobo que, após descobrir seu destino, corre para a casa da avó, devora a velhinha e se disfarça em seu lugar. Quando Chapeuzinho chega, o famoso diálogo se desenrola ("que orelhas grandes você tem!", "que olhos grandes!", culminando em "que boca grande você tem!"), momento em que o lobo a devora também.
Na versão dos Grimm, um caçador ouve os roncos do lobo, entra na casa e, percebendo o que aconteceu, corta a barriga do animal com tesouras, libertando vivas Chapeuzinho e sua avó. Eles então enchem a barriga do lobo com pedras pesadas, e quando ele acorda e tenta fugir, cai morto devido ao peso.
A versão original dos Grimm inclui ainda uma segunda história, na qual Chapeuzinho, agora mais experiente, encontra outro lobo, mas desta vez consegue enganá-lo com a ajuda de sua avó, fazendo-o cair em uma tina de água fervente onde se afoga.[3]
Origem

As origens de Chapeuzinho Vermelho podem ser rastreadas até por de vários países europeus e mais do que provavelmente anteriores ao século XVII, quando o conto adquiriu a forma conhecida atualmente, com a versão dos irmãos Grimm de inspiração. Chapeuzinho Vermelho era contada por camponeses na França, Itália e Alemanha, sempre com um caráter muito popular.
Charles Perrault
A versão impressa mais antiga é de Charles Perrault, Le Petit Chaperon Rouge, retirada do folclore francês foi inserida no livro Contos da Mamãe Gansa. A história de Perrault retrata uma "moça jovem, atraente e bem educada", que ao sair de sua aldeia é enganada pelo lobo, que come a velha e arma uma armadilha para a menina que termina sendo devorada, sem final feliz. Essa versão foi escrita para a corte do rei Luís XIV, no final do século XVII, destinada a um público, que o rei entretinha com festas extravagantes e prostitutas, que pretendia levar uma moral as mulheres para perceberem os avanços de maus pretendentes e sedutores. Um coloquialismo comum da época era dizer que uma menina que perdeu a virgindade tinha "visto o lobo". O autor explica a moral da história ao fim do conto nos seguintes termos:
A partir desta história se aprende que as crianças, especialmente moças jovens, bonitas, corteses e bem-educadas, não se enganem em ouvir estranhos, E não é uma coisa inédita se o Lobo, desta forma,(arranjar) o seu jantar. Eu chamo Lobo, para todos os lobos que não são do mesmo tipo (do lobo da história), há um tipo com uma disposição receptiva - sem rosnado, sem ódio, sem raiva, mas dócil, prestativo e gentil, seguindo as empregadas jovens nas ruas, até mesmo em suas casas. Ai de quem não sabe que esses lobos gentis são de todas as criaturas como as mais perigosas!
Os Irmãos Grimm

No século XIX duas versões da história foram contadas a Jacob Grimm e ao seu irmão Wilhelm Grimm: a primeira por Jeanette Hassenpflug (1791-1860) e a segunda por Marie Hassenpflug (1788-1856). Os irmãos registram a primeira versão para o corpo principal da história e a segunda em uma sequência do mesmo. A história com o título de Rotkäppchen foi incluído na primeira edição de sua coleção Kinder und Hausmärchen (contos infantis domésticos) (1812). Perrault é quase certamente a fonte do primeiro conto. No entanto, eles modificaram o final, introduzindo o caçador que abre a barriga do lobo e tira a menina e sua avó, colocando pedras no lugar; este final é idêntico ao que há no conto O lobo e os sete cabritinhos, que parece ter influenciado tal mudança. A segunda parte conta como a menina e sua avó prendem e matam um outro lobo, desta vez antecipando seus movimentos baseados em sua experiência anterior. A menina não deixou o caminho quando o lobo falou com ela, sua avó trancou a porta para mantê-lo fora, e quando o lobo se escondia, a avó manda Chapeuzinho colocar no fogo da lareira uma panela com água fervente. O cheiro que sai da chaminé atrai o lobo para baixo, e ele se afoga; O desfecho desta segunda parte também possui semelhança com o de outro conto, o dos Três Porquinhos. Os irmãos revisaram novamente a história em edições posteriores até alcançar a versão final, acima mencionada, e publicá-la na edição de 1857 de seu trabalho.
Outros autores e variantes
As versões contadas da história da Chapeuzinho Vermelho variam muito, com a adição ou a diminuição de elementos de acordo com cada autor. Em algumas versões, é acrescido o aviso da mãe de que Chapeuzinho pegue o caminho da vila para chegar à casa da avó e de não falar com estranhos, retratando a desobediência da garota em ir pelo bosque, que seria o caminho mais curto, e em falar com o Lobo-Mau na primeira oportunidade. Este fato atribui mais uma moral ao conto, que é o de dar atenção aos conselhos dos pais. Também em releituras mais leves e adaptadas à reação sensível de uma criança, a avó e a Chapeuzinho não chegam a serem devoradas pelo lobo, já que a avó é apenas escondida no armário pelo vilão, enquanto Chapeuzinho consegue fugir antes que ele a alcance. Com a chegada do politicamente correto, algumas versões nem mesmo incluem uma punição para o lobo, deixando no lugar a redenção do antagonista ou mesmo uma fuga sem volta.
Andrew Lang incluiu uma variante como "A Verdadeira História do Chapeuzinho Dourado" em O Livro Vermelho de fadas, derivado da obra de Charles Marelles, em Contos de Charles Marelles. Esta variante dizia explicitamente que a história havia sido mal contada. A menina foi salva, mas não pelo caçador, quando o lobo tentou comê-la, sua boca foi queimada pelo capuz de ouro que ela usava, que ficou encantado.
James N. Barker escreveu uma variação de Chapeuzinho Vermelho em 1827 como uma história de cerca de 1000 palavras. Mais tarde foi reimpresso em 1858 em um livro de histórias coletadas editada por William E Burton, chamado de Enciclopédia de Inteligência e Humor. A reimpressão também apresenta uma gravura em madeira de um lobo vestido de joelhos segurando a mão de Chapeuzinho Vermelho.
No século XX, a interpretação do conto foi muito popular, com muitas novas versões sendo escrito e traduzidas, especialmente na esteira da análise freudiana, desconstrução e teoria crítica feminista. Esta tendência também levou a uma série de textos acadêmicos sendo escrito que se concentram em Chapeuzinho Vermelho, incluindo obras de Alan Dundes e Zipes Jack.
No Brasil, é comum relacionar o conto a duas músicas de sucesso do cantor Braguinha feitas especialmente para a historinha contada para crianças: Pela Estrada a Fora e Lobo Mau.
Depois, quando a história já tinha um forte caráter infantil, o século XXI trouxe ainda novas versões: a irreverência e o deboche em Dalton Trevisan, os desenhos de Maurício de Sousa atraindo o público mais infantil, Neil Gaiman impressionando seus leitores ao expôr uma Capuchinho/Chapeuzinho indiferente a morte da vó pelo lobo, e Deu a louca na Chapeuzinho, filme de 2005 com paródia dos personagens.
Guimarães Rosa, em Fita verde no cabelo, traz uma versão para adolescentes. Ela vai desde o fluxo das fantasias de uma jovem até o momento em que se defronta com a morte de sua avó, sendo desta forma, obrigada a enfrentar seus medos, angústias e solidão. Chico Buarque faz uma paródia, Chapeuzinho Amarelo, para o público pré-adolescente.
Raphael Draccón, em sua série Dragões de Éter, apresenta novamente a fábula da Chapeuzinho Vermelho, mas dessa vez o lobo é um animal marcado por uma bruxa para matá-la, pois esta garota, que tem seu capuz marcado pelo sangue do lobo, é um jovem a ser iniciada na magia branca, da qual sua mãe e sua avó, que dessa vez não foi morta, também são.
Em 2005, Ivone Gomes de Assis publicou Bonezinho Vermelho e a Internet no século XXI, uma releitura parodiada, que traz as tendências da mídia virtual. Nesta obra ilustrada, a vovozinha é uma hacker, que se disfarça até nas preferências do cotidiano, afirmando não gostar de nada que é tecnologia. A figura "feia" da vovó tenta quebrar o mito que muitos carregam ao pensar que a voz e a escrita, suave e gostosa, dos participantes de chats, sempre pertencem a pessoas bonitas e cheias de boa intenção. É uma obra bilingue, para crianças e adultos.
Hilda Hilst, também contribui no estudo deste conto, com a divertida paródia A Chapéu, publicada na obra Bufólicas. A autora recria uma Chapeuzinho cafetina do Lobo.
Foi lançado em 1984 o filme de drama e fantasia The Company of Wolves (A Companhia dos Lobos), que retrata a maturidade da mulher e sua vida sexual numa metáfora do conto de Chapeuzinho Vermelho. No filme, Rosaleen é uma jovem e ingênua aldeã que ouve de sua avó histórias sobre os terríveis lobos que vivem na floresta e se disfarçam de homens para seduzir e devorar garotinhas.
Em março de 2011, a Warner Bros. lançou o filme Red Riding Hood (A Garota da Capa Vermelha no Brasil e A Rapariga do Capuz Vermelho em Portugal), com direção de Catherine Hardwicke e roteiro por David Leslie Johnson. Nesta versão sombria do conto, um lobisomem assombra um pequeno vilarejo no qual vive a garota Valerie (interpretada por Amanda Seyfried), que deve escolher entre o casamento prometido pela sua mãe e a fuga planejada com seu amor de infância, ao mesmo tempo que desconfia de quem possa ser o lobo.
No seriado americano Grimm, baseado nos contos dos Irmãos Grimm, os "blutbad" são criaturas semelhantes a lobisomens que vivem disfarçadas de humanos. Apesar de alguns serem pacíficos e civilizados, alimentam-se de carne humana por natureza e não resistem à cor vermelha, que libera seus instintos.
Já na série Once Upon a Time, que retrata releituras de contos de fadas clássicos, Chapeuzinho é uma jovem que mora com sua avó numa aldeia aterrorizada por um terrível lobo que ataca em noites de lua cheia. Mais tarde ela descobre que assume a forma do lobo sem se lembrar depois por causa de uma maldição em sua família, sendo que sua avó a protege dos caçadores fazendo-a vestir uma capa vermelha mágica que serve para repelir a maldição. Depois de matar seu próprio amado quando em forma de lobo, ela decide fugir para sempre.
A história também é um dos contos de fadas que aparece no filme musical Into the Woods, de 2014. Aqui, Chapeuzinho é uma menina gulosa, salva do Lobo Mau (interpretado por Johnny Depp) graças ao protagonista, que deve quebrar um feitiço. Em retribuição, ela lhe oferece sua capa vermelha como o sangue, um dos itens solicitados pela Bruxa Má (Meryl Streep) para desmanchar a maldição.
Interpretações
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Além da advertência ostensiva sobre falar com estranhos, há muitas interpretações do conto de fadas clássicos, muitos deles de cunho sexual.
Influência cultural e advertências sociais
O conto de Chapeuzinho Vermelho estabeleceu-se como um dos arquétipos culturais mais duradouros sobre perigo e predação na tradição oral europeia. Por séculos, a narrativa serviu como ferramenta pedagógica para advertir crianças, especialmente meninas, sobre os riscos de confiar em estranhos que aparentam ser inofensivos.[4]
A metáfora do "lobo em pele de cordeiro" ou do "lobo disfarçado" tornou-se expressão comum em múltiplas culturas para descrever indivíduos que mascaram suas verdadeiras intenções maliciosas por trás de uma fachada amigável e confiável. Esta construção simbólica influenciou profundamente a percepção social sobre predadores sexuais e outros tipos de agressores que utilizam táticas de sedução e manipulação.[5]
Historicamente, o conto foi utilizado em campanhas de conscientização pública desde o século XIX. Durante os séculos XIX e XX, educadores e moralistas frequentemente recorriam à narrativa para ensinar às crianças sobre "perigos desconhecidos" e a importância de obedecer advertências parentais. O lobo, neste contexto, representava não apenas um animal perigoso, mas qualquer ameaça potencial à segurança infantil, particularmente aquelas que se apresentam de forma sedutora ou enganosa.[4]
A persistência do conto na cultura popular moderna - em cartazes de segurança pública, campanhas educacionais e discussões sobre proteção infantil - demonstra sua contínua relevância como narrativa de advertência. O arquétipo estabelecido por Chapeuzinho Vermelho contribuiu para moldar conceitos contemporâneos sobre identificação de comportamentos predatórios, especialmente aqueles que envolvem aliciamento gradual e abuso de confiança. Esta conexão explica a inclusão do conto em discussões acadêmicas e populares sobre predadores sexuais e segurança infantil.[5]
Despertar sexual
Chapeuzinho Vermelho tem sido amplamente analisado pela crítica literária e psicanálise como uma parábola sobre maturidade sexual e os perigos da sexualidade feminina emergente. Esta interpretação, consolidada no século XX através de análises freudianas e estudos feministas, reconhece nas camadas simbólicas do conto uma narrativa sobre transição sexual, predação e perda da inocência.[4][5]
Jack Zipes, professor emérito da Universidade de Minnesota e um dos mais importantes estudiosos de contos de fadas, analisou mais de 500 versões de Chapeuzinho Vermelho em seu estudo seminal The Trials and Tribulations of Little Red Riding Hood (1983). Zipes argumenta que as versões orais anteriores a Perrault continham conteúdo sexual explícito que foi gradualmente suavizado nas versões literárias posteriores. Nas narrativas camponesas medievais francesas, o encontro entre a menina e o lobo frequentemente incluía elementos de canibalismo involuntário (a menina comendo a carne da avó sem saber) e striptease (o lobo pedindo que ela tire cada peça de roupa antes de entrar na cama).[4]
Catherine Orenstein, em Little Red Riding Hood Uncloaked (2002), demonstra como a versão de Charles Perrault de 1697, escrita para a sofisticada e libertina corte de Luís XIV, era explicitamente uma advertência sexual. O contexto histórico é fundamental: a corte francesa do final do século XVII era conhecida por sua licenciosidade, e Perrault dirigia sua moral especificamente às jovens aristocratas sobre os perigos de "lobos gentis" - sedutores cortesãos que mascaravam intenções predatórias sob aparência de cavalheirismo.[5] A expressão coloquial francesa da época "elle a vu le loup" (ela viu o lobo) significava explicitamente que uma jovem havia perdido sua virgindade, demonstrando que a conexão sexual do conto era entendida pelos contemporâneos de Perrault.[5]
O simbolismo sexual permeia múltiplos elementos da narrativa:
- O capuz vermelho é interpretado como símbolo multivalente: pode representar o sangue menstrual, marcando a transição da menina para a puberdade; a perda da virgindade (o "vermelho" do hímen rompido); ou simplesmente a sexualidade emergente e visível da adolescente.[6]
- A floresta escura representa o território liminar entre infância e maturidade, o espaço do desconhecido onde ocorrem transformações perigosas. Psicanaliticamente, simboliza também o inconsciente e os impulsos sexuais reprimidos.[7]
- O lobo é consistentemente interpretado como símbolo do predador sexual - o sedutor masculino, potencialmente violento, que busca "devorar" (possuir sexualmente) jovens inexperientes. A capacidade do lobo de falar, seduzir e enganar o diferencia de uma mera fera selvagem, marcando-o como ameaça especificamente humana e sexual.[5]
- A cama representa o clímax da metáfora sexual. O diálogo na cama entre a "avó" (lobo disfarçado) e Chapeuzinho - "que braços grandes você tem", "que olhos grandes", culminando no "que boca grande" - tem sido lido como exploração progressiva do corpo e crescente consciência do perigo sexual.[4]
- Despir-se e entrar na cama (presente em versões orais mais antigas) simboliza a vulnerabilidade sexual e a consumação do ato predatório. Perrault encerra sua versão com a menina sendo devorada - uma metáfora para violação sexual sem redenção.[5]
Esta conotação sexual é especialmente evidente na moral explícita que Perrault acrescenta ao final de sua versão, onde ele alerta que os "lobos" mais perigosos não são bestas selvagens, mas homens de aparência gentil, educada e sedutora que seguem "jovens empregadas nas ruas e até suas casas". Perrault não deixa ambiguidade: está advertindo contra predadores sexuais humanos, não animais literais.[5]
A versão dos Irmãos Grimm (1812), ao introduzir o caçador que resgata a menina cortando a barriga do lobo, transforma a narrativa de advertência sexual irredimível em conto moral sobre arrependimento e salvação. Esta modificação reflete valores vitorianos do século XIX, que preferiam finais edificantes e evitavam confrontar crianças com violência sexual irreversível. No entanto, mesmo nesta versão "sanitizada", os elementos simbólicos de predação sexual permanecem subjacentes ao texto.[4]
Análises feministas contemporâneas, como as de Angela Carter em The Bloody Chamber (1979), reinterpretam o conto explorando a agência sexual feminina e criticando a construção da mulher como vítima passiva. Estas releituras mantêm o reconhecimento do lobo como predador sexual, mas questionam o moralismo implícito que responsabiliza a vítima por "sair do caminho" ou "falar com estranhos".[8]
A persistência desta interpretação sexual em análises acadêmicas - desde estudos freudianos até teoria crítica feminista - demonstra que o conto de Chapeuzinho Vermelho funciona como texto fundacional sobre sexualidade, perigo e predação na cultura ocidental. O arquétipo do "lobo" estabelecido pelo conto influenciou profundamente a linguagem cultural usada para discutir predadores sexuais e comportamentos predatórios, permanecendo como referência simbólica em discussões contemporâneas sobre proteção infantil, consentimento e violência sexual.[5]
Ataques de lobos
O Etólogo Geist Valerius da Universidade de Calgary, Alberta, Canadá escreveu que a fábula foi baseada em risco real de ataques de lobo na época. Ele argumenta que os lobos eram de fato perigosos predadores, e fábulas serviam como uma advertência válida para não entrar em florestas onde era conhecido para que os lobos vivessem, e estar a olhar para tal. Essa interpretação tem o respaldo dos muitos ataques de lobos frequentes em regiões campestres da França, onde a história era frequentemente contada. A figura do lobo como antagonista também é muito comum nas fábulas de Esopo.
Os ciclos naturais
Em termos de mitos solares e outros ciclos de ocorrência natural, o capuz vermelho pode representar o sol brilhante que é, em última análise, engolido pela noite terrível, simbolizada pelo lobo. As variações em que ela é retirada da barriga do animal representam o amanhecer. Nesta interpretação, há uma conexão entre o personagem Lobo Mau e Skoll, lobo do mito nórdico que vai engolir a deusa Sól, personificação do astro solar, no Ragnarök, o fim dos mundos dentro da cosmologia Nórdica.
Ritual
O conto tem sido interpretado como um ritual de puberdade, decorrentes de uma origem pré-histórica (às vezes uma origem decorrente de uma era matriarcal anterior). A menina, sai de casa, entra em uma liminar e passando pelo atos do conto, é transformada em uma mulher adulta ao sair da barriga do lobo.
Ou ainda como um renascimento, mas assim adquirindo uma visão mais cristã. A menina que insensatamente ouviu o lobo renasceu como uma nova pessoa ao ser salva da barriga dele. Havendo aí um paralelo com a narrativa biblíca em que Jonas consegue ressurgir com vida de dentro da barriga de um Grande Peixe.
Os dois caminhos
No começo da história a protagonista pode escolher entre um caminho longo e seguro e um caminho rápido e perigoso. Fica então evidente um arquétipo cristão de moralidade, aonde a menina escolhe um caminho que vai lhe levar de encontro a fera do lobo, ao invés de perseverar na segurança do caminho longo. Essa seria uma moral essencial das fábulas em geral, aonde o protagonista é levado a fazer uma escolha entre a virtude e desafio, ou o vício e o aparente atalho que este parece oferecer.
Modernidade
Lana Del Rey em uma de suas músicas faz alusão ao conto. A música chama-se "Big Bad Wolf", em português: "Grande Lobo Mau".
Ver também
- Os Três Porquinhos
- O Lobo e os Sete Cabritinhos
- O Pastor Mentiroso e o Lobo
Referências
- ↑ Spurgeon, Maureen (1990). Red Riding Hood. England: Brown Watson. ISBN 0709706928
- ↑ Zipes, Jack. «A Second Gaze at Little Red Riding Hood's Trials and Tribulations». Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Cap. 26. Little Red-Cap». The complete Grimm's fairy tales. [S.l.]: Pantheon Books Inc. 1944
- 1 2 3 4 5 6 Zipes, Jack (1983). The Trials and Tribulations of Little Red Riding Hood. [S.l.]: Routledge. ISBN 0897890809
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Orenstein, Catherine (2002). Little Red Riding Hood Uncloaked: Sex, Morality, and the Evolution of a Fairy Tale. [S.l.]: Basic Books. ISBN 0465041256
- ↑ Dundes, Alan (1989). Little Red Riding Hood: A Casebook. [S.l.]: University of Wisconsin Press. ISBN 0299119947
- ↑ Bettelheim, Bruno (1976). A Psicanálise dos Contos de Fadas. [S.l.]: Paz e Terra
- ↑ Carter, Angela (1979). The Bloody Chamber and Other Stories. [S.l.]: Penguin Books. ISBN 0140178236
