Encefalopatia espongiforme bovina

Encefalopatia espongiforme bovina
SinónimosDoença da vaca louca, BSE
Uma vaca infectada com EEB. Uma das principais características da doença é a incapacidade do animal em ficar de pé
Especialidadeneurologia, medicina veterinária, medicina, epidemiologia, patologia, patogénese
DuraçãoProgressiva
CausasIngestão de farinha de carne e ossos contaminada
Método de diagnósticoExame histopatológico post-mortem
PrevençãoProibição de farinha de carne e ossos na alimentação de ruminantes
TratamentoNão existe
PrognósticoMorte
Classificação e recursos externos
CID-10A81.0
CID-9046.5
OMIM123400
DiseasesDB1718
MeSHD016643
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A encefalopatia espongiforme bovina (EEB), vulgarmente conhecida como doença da vaca louca ou BSE (do acrônimo inglês bovine spongiform encephalopathy), é uma doença neurodegenerativa que afeta o gado doméstico bovino. A doença surgiu em meados dos anos 80 na Inglaterra e tem como característica o fato de ter como agente patogénico uma forma especial de proteína, chamada prião. É transmissível ao homem, causando uma doença semelhante, a nova variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (nvCJD).[1][2]

Histopatologia

Ao exame histopatológico, as lesões apresentam-se como vacuolizações simétricas, não inflamatórias, nos neurônios e no tecido intersticial da substância cinzenta do cérebro e da medula espinhal. Estas lesões são típicas do scrapie, da encefalopatia transmissível dos visons (TME), da doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD) e do kuru, todas encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSE) já bem conhecidas.[carece de fontes?]

Os pesquisadores deram à doença o nome de encefalopatia espongiforme bovina (EEB), uma tradução do nome inglês bovine spongiform encephalopathy (BSE). O termo "espongiforme" deve-se ao aspecto esponjoso que o cérebro doente apresenta ao exame microscópico.[carece de fontes?]

Epidemiologia

Um estudo epidemiológico foi realizado para identificar os fatores comuns a todos os rebanhos afetados que pudessem ser imputados como causas da doença, monitorar a incidência da doença dentro de cada rebanho e entre os rebanhos das diferentes regiões do Reino Unido, coletar dados clínicos dos animais e levantar hipóteses sobre sua cadeia de transmissão.[carece de fontes?]

Foram coletadas informações desde o pedigree dos animais até a utilização de insumos como medicamentos, hormônios, antibióticos, vermífugos, inseticidas organofosforados e piretróides, herbicidas e ingredientes alimentares usados na formulação de rações, entre outros.[carece de fontes?]

Os pesquisadores também investigaram se havia ligação da EEB com a política de compras do proprietário (se o rebanho era "aberto" ou "fechado"), estágio da prenhez do animal, idade ao início dos sinais e estação do ano. Em função da semelhança com o scrapie, o estudo também procurou determinar se havia contato direto ou indireto (uso de mesmas pastagens ou instalações) de bovinos com ovinos na propriedade.[carece de fontes?]

Os pesquisadores concluíram que a EEB estava associada ao uso de apenas um produto: a farinha de carne e ossos (seja comprada para produzir rações na propriedade, seja como constituinte de rações prontas para uso adquiridas no comércio). Essa farinha, conhecida nos países de língua inglesa como MBM (de "Meat and Bone Meal"), resulta da transformação industrial dos corpos de animais que, por alguma razão, não podem ser destinados ao consumo humano. Tais animais são chamados eufemisticamente de "animais 4-D". Os "D" são as letras iniciais das palavras inglesas: Disabled (animais incapacitados para atividades básicas necessárias à sobrevivência e à produção, como alimentar-se ou andar), Diseased (doentes), Dying (em processo de morte, isto é, em estado agônico) e Dead (já mortos na fazenda).[carece de fontes?]

Animais "downer cows" (animais que por qualquer razão não conseguem levantar-se) são animais "disabled" ou "diseased". A causa do problema pode ser uma simples fratura (coluna, quadril ou membro distal) ou uma doença metabólica não transmissível (hipocalcemia), mas também pode ser uma doença infecciosa.[carece de fontes?]

Independentemente da causa do problema que os retirava da cadeia alimentar humana, os animais 4-D eram (e ainda são, em alguns países) utilizados para a fabricação de farinha de carne e ossos. Essa farinha era (e ainda é) usada para constituir rações para alimentar animais da mesma espécie que as usadas em sua produção. Tal decisão tecnológica resultou na transformação de bovinos herbívoros em carnívoros que consumiam indivíduos da mesma espécie possivelmente contaminados com agentes patogênicos. Esta situação apresentava muita semelhança com a descrição feita pelo professor Daniel Carleton Gajdusek da cadeia de causa-efeito que produziu a epidemia de kuru entre nativos da Papua-Nova Guiné (estudo que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1976).[carece de fontes?]

Ação do governo britânico

O governo britânico tornou a doença de notificação obrigatória em junho de 1988 e proibiu o uso de proteína originada de tecidos de ruminantes na alimentação de ruminantes no mês seguinte (HMSO, julho de 1988). Esta proibição foi relativamente eficaz, pois a incidência da doença começou a declinar em 1993, quando a epidemia atingiu seu auge.[carece de fontes?]

Estes cinco anos de demora foram necessários para que os animais infectados pelo prião apresentassem os sinais da doença, pois o período de incubação das encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSE) é muito longo.[carece de fontes?]

Transmissão experimental

Foi demonstrado que apenas 0,1 grama de cérebro (em matéria úmida) de um animal com EEB, administrado por via oral a outros bovinos, era capaz de causar a doença dentro de períodos semelhantes aos da doença natural (após 5 anos de idade). Assim, nova ordem governamental proibiu a alimentação de ruminantes com qualquer proteína de mamíferos em abril de 1996 (HMSO, 1996).[carece de fontes?]

Para evitar este risco, hoje é proibido o uso de farinha de carne e ossos de qualquer animal de fazenda, inclusive aves, na alimentação de ruminantes.[carece de fontes?]

Para que uma epidemia se sustente, é necessário que cada caso atual transmita a doença para pelo menos um outro animal. A epidemia de EEB no Reino Unido vem declinando ano após ano. Não havendo o aparecimento de novos fatores que transmitam o prião, a incidência da EEB deverá extinguir-se paulatinamente. No entanto, o aparecimento de alguns casos de EEB em animais nascidos após a proibição de 1996 parece evidenciar que pode estar ocorrendo transmissão natural lateral e vertical (maternal), porém sem força suficiente para manter a epidemia. Observa-se que a idade de início da EEB mudou das faixas de 4 a 5 e de 5 a 6 anos para 7 a 8 anos. Mas também se observaram alguns poucos casos nas faixas de 3 a 4 anos em 2002. É cedo para afirmar com segurança, mas estes casos podem indicar que a EEB pode comportar-se como o scrapie dos ovinos em relação à transmissão vertical.[carece de fontes?]

Impacto da EEB no mundo

Em função de o Reino Unido ser, antes da epidemia de EEB, um grande exportador de animais para reprodução e de farinha de carne e ossos, a EEB acabou atingindo sucessivamente outros países. Ocorreram mais de 5.068 casos (aproximadamente 2,75% do total mundial de casos) de EEB até dezembro de 2004 em diversos países.[carece de fontes?]

Embora haja poucos casos de EEB em outros países, o aparecimento de um único caso é catastrófico para as exportações do país. Epidemiologistas de diversas nações entendem que apenas um caso indica que toda a cadeia de produção do país é instável em relação ao risco de os príons da EEB alcançarem produtos bovinos como a carne.[carece de fontes?]

A incidência em relação ao número de animais do rebanho acima de 24 meses dá uma ideia do risco de se importar um animal com BSE de um país. Em 1993, na França, a incidência relativa foi de 12 e, na Alemanha, de 8,7 casos por milhão de bovinos acima de 24 meses. Em 2003, a incidência relativa da EEB na Grã-Bretanha foi de 130 casos por milhão de bovinos acima de 24 meses (contra 7.596 em 1992, no auge da epidemia).[carece de fontes?]

A ligação da EEB com a nova variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD)

No Reino Unido, concomitantemente à evolução da epidemia de EEB, foram diagnosticadas TSE em outras espécies de animais ao final da década de 80 e início da de 90. Gatos domésticos apresentaram a Encefalopatia Espongiforme Felina (FSE). Felinos (pumas e chitas) e ruminantes selvagens (elande, cudu, niala, órix, gazela, entre outras espécies de antílopes) mantidos em zoológicos britânicos também apresentaram TSE. Os estudos mostraram que a ingestão de ração contendo farinha de carne e ossos era o fator comum ao surgimento dessas doenças. Diferentemente do scrapie, a EEB havia quebrado a barreira interespecífica entre bovinos e muitas espécies animais diferentes; isto implicava que pudesse fazer o mesmo em relação à espécie humana.[carece de fontes?]

Foi exatamente esta possibilidade que levou o governo britânico a proibir, já em novembro de 1989, o uso de alguns órgãos e vísceras específicas ("Specified Bovine Offals", abreviadamente SBO) para uso na alimentação humana. A utilização de cérebro, medula espinhal, intestinos, baço, gânglios linfáticos e globos oculares foi proibida na produção de embutidos e produtos para a alimentação humana ou como insumos na fabricação de medicamentos (como hormônios). Presumia-se que estes órgãos, como no caso do scrapie, contivessem grande quantidade do agente da EEB (mesmo reconhecendo-se que o scrapie não era uma zoonose).[carece de fontes?]

Mesmo com esta proibição, em março de 1996, cerca de 8 anos após o início da epidemia em bovinos, foi identificada uma nova forma de Doença de Creutzfeldt-Jakob em seres humanos. Essa nova forma foi chamada de nova variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (abreviadamente vCJD).

Estudos de tipificação em linhagens endogâmicas de camundongos mostraram que os padrões de lesões cerebrais e de período de incubação eram semelhantes aos da EEB, sugerindo forte ligação causa-efeito entre a ingestão de produtos bovinos contaminados com o agente da BSE e o desenvolvimento da vCJD em pessoas.[carece de fontes?]

Os pesquisadores estão divididos quanto ao número de casos futuros da epidemia de vCJD. Alguns cientistas, trabalhando com modelagem matemática, pensam que milhares de casos de vCJD (até 130 mil até o final da epidemia) ainda poderão ocorrer, pois as TSE têm caracteristicamente longos períodos de incubação e os seres humanos têm vida muito longa. Outros pesquisadores, também baseados em modelos matemáticos, pensam que não mais que 500 casos deverão ser registrados ao total. Felizmente, no momento, parece que os últimos estão corretos e, no final das contas, a epidemia de vCJD terá poucos casos.[carece de fontes?]

Ver também

Referências

  1. Laurindo, Ellen Elizabeth; Barros Filho, Ivan Roque de (2017). «Encefalopatia espongiforme bovina atípica: uma revisão». Arquivos do Instituto Biológico. 84: 1-10. ISSN 1808-1657. doi:10.1590/1808-1657000392015 
  2. «Bovine Spongiform Encephalopathy (BSE) | Prions Diseases». Centers for Disease Control and Prevention, CDC. 1 de fevereiro de 2019. Cópia arquivada em 4 de junho de 2019