Sociologia econômica

A sociologia econômica é um ramo da sociologia que busca os elementos socializadores da economia e do mercado. Surgiu em resposta às teorias da economia clássica e neoclássica sobre o Homo economicus e a teoria da escolha racional ao negar que as relações sociais inseridas no mercado visassem somente a satisfação racional e utilitária de interesses individuais.[1]

Vários são os sociólogos e antropólogos que discutem as relações sociais no interior da economia. Uma das críticas centrais à visão da economia clássica é a de que esta teria tomado como modelo de ação aquela objetivada no interior da economia de mercado moderna (i.e. capitalista) e postulado a partir daí que esta seria a base de toda ação humana. Marcel Mauss, por exemplo, mostra como nas sociedades não desenvolvidas/mercantilizadas os povos estabelecem relações de troca pautadas por uma outra lógica que não a mercantil individualista. Nelas, as sociedades primitivas, estabeleceriam tais relações baseadas no que o autor convencionou chamar de princípio da reciprocidade, ou melhor, o dom.

Introdução

Segundo Smelser e Swedberg (1984), embora o termo já apareça em obras de referência de Durkheim e Weber, a consolidação da sociologia econômica como campo autônomo ocorre apenas no pós-guerra, especialmente na segunda metade do século XX, em países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha. Esse campo pode ser definido como a aplicação da perspectiva sociológica — e de seu arcabouço teórico — à análise dos fenômenos econômicos.

A vertente da sociologia econômica orientada por Weber se dedica tanto ao estudo do setor econômico da sociedade quanto às formas pelas quais os fenômenos econômicos influenciam e são influenciados pelo conjunto das relações sociais.

Uma formulação mais detalhada poderia defini-la como:

“[...] the application of the frames of reference, variables, and explanatory models of sociology to that complex of activities concerned with the production, distribution, exchange, and consumption of scarce goods and services.”[2]

Ato econômico e economia mainstream

Os sociólogos da economia argumentam existir uma diferença fundamental entre os pressupostos deles para com os da assim chamada Economia Mainstream. Essa distinção fundamental se radica na negação, por parte dos sociólogos da economia, do homo economicus - referência teórica que idealiza um ser humano racional e egoísta, que age para maximizar seu próprio bem-estar em todas as decisões econômicas. Em contrapartida argumentam a existência apenas de atores econômicos concretos, posicionados de alguma maneira na estrutura social que possuem uma determinada idade, uma determinada inserção, pertencem a um gênero, e assim por diante.

Distinção em relação à economia mainstream

Fonte : The Handbook of Economic Sociology. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1984. p. 4

Característica Sociologia Econômica Economia Mainstream
Ator O ator é influenciado por outros e faz parte de grupos e da sociedade. O ponto de partida é o grupo, as instituições e a sociedade O ator é desvinculado de outros (individualismo metodológico). O ponto de partida analítico é o indivíduo
Ação Econômica Racionalidade como variável. Vários tipos de ação econômica são utilizados (racional, tradicional, especulativa/irracional). A racionalidade é um fenômeno a ser explicado Racionalidade como pressuposto. Todas as ações são assumidas como racionais (maximização da utilidade/lucro)
Restrições - constraits - à Ação As ações econômicas são restringidas pela escassez de recursos, pela estrutura social e pelas estruturas de significado (culturais). Influências de outros atores, grupos e estruturas institucionais são levadas em conta As ações econômicas são restringidas por gostos (tastes) e pela escassez de recursos. O ator deve agir em total independência de todas as outras pessoas e estar livre de valores que não se manifestam no mercado
Relação entre Economia e Sociedade A economia é vista como uma parte integrante da sociedade; a sociedade é sempre a referência básica. O processo econômico é uma parte orgânica da sociedade, interagindo constantemente com outras dimensões da vida social O mercado e a economia são as referências básicas; a sociedade é dada como um pressuposto
Objetivo da análise Descrição e explicação; raramente previsão Previsão e explicação; raramente descrição.
Métodos Utilizados Métodos históricos e comparativos; os dados são frequentemente produzidos pelo analista ("mãos sujas" / “dirty hands”). Baseia-se em análise de dados censitários, pesquisas independentes, observação participante, e dados qualitativos Modelagem formal, especialmente matemática; dados inexistentes ou oficiais são frequentemente utilizados ("modelos limpos" / “clean models”). Baseia-se em dados gerados pelos próprios processos econômicos (ex: comportamento agregado do mercado, estatísticas oficiais)
Tradição Intelectual Marx-Weber-Durkheim-Schumpeter-Polanyi-Parsons/Smelser; os clássicos são constantemente reinterpretados e ensinados, permanecendo muito vivos Smith-Ricardo-Mill-Marshall-Keynes-Samuelson; os clássicos são relegados ao passado,sendo substituídos por teorias de médio alcance e abordagens econômicas mais contemporâneas.

A Tradição Clássica

A tradição clássica da Sociologia Econômica é encontrada nas obras de Marx, Weber, Durkheim, Schumpeter, Polanyi e Parsons-Smelser. As origens da Sociologia Econômica (o termo e a ideia) podem ser rastreadas nos trabalhos de Weber e Durkheim por volta da virada do século.

Karl Marx é uma figura importante na pré-história do campo, com ideias centrais para sua evolução. [3]

Max Weber é fundamental, tendo concebido o projeto da Sozialökonomik (Economia Social) como um amplo campo de investigação multidisciplinar, que deveria integrar a teoria econômica, a história econômica e a sociologia econômica. Sua principal contribuição a esse projeto está presente na seção de Sociologia Econômica do Grundriss der Sozialökonomik — conhecida em português como Economia e Sociedade —, onde analisa a economia e suas conexões com as demais esferas da vida social. O trabalho de Weber é fundamental para a base analítica da sociologia econômica, sobretudo por sua conceituação da ação econômica. Embora parta das ações individuais, o autor enfatiza que elas interessam ao sociólogo apenas quando configuram ações sociais, ou seja , quando orientadas em função do comportamento de outros indivíduos — o que marca uma distinção decisiva em relação à microeconomia tradicional, que tende a isolar o ator econômico. Diferentemente da economia mainstream, que pressupõe a racionalidade como um dado, Weber a trata como uma variável explicativa, reconhecendo que a ação econômica pode ser racional, tradicional ou até especulativo-irracional. Entre suas contribuições clássicas, destacam-se o capítulo “Categorias sociológicas fundamentais da gestão econômica”, capítulo II do Economia e Sociedade, considerado um texto fundador da sociologia econômica, bem como A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904-1905), no qual argumenta que determinadas formas do protestantismo favoreceram o surgimento de uma ética racional que sustentou o desenvolvimento do capitalismo ocidental

Karl Polanyi  desenvolveu uma das mais influentes críticas à concepção liberal da economia de mercado ao afirmar que toda economia humana está enraizada (embedded) nas instituições sociais, políticas e culturais que a sustentam. Para ele, a atividade econômica não existe como uma esfera autônoma, mas está profundamente entrelaçada a instituições não econômicas, como a religião, o Estado e as normas comunitárias, que são tão determinantes para seu funcionamento quanto as instituições monetárias ou produtivas. Essa perspectiva o levou a denunciar o que chamou de falácia economista, sendo ela a tendência de identificar a economia exclusivamente com o mercado e de retratar os seres humanos como agentes movidos apenas por interesses materiais e pela busca racional de lucro. [4]

Ao distinguir entre os significados formal e substantivo da economia, Polanyi propôs uma base conceitual para essa crítica: o significado formal refere-se à definição da economia como escolha racional diante da escassez — a concepção típica da teoria econômica moderna —, enquanto o significado substantivo descreve a economia como o modo pelo qual as pessoas garantem sua subsistência dentro de um conjunto institucional específico. Em sua principal obra, A Grande Transformação, ele analisou historicamente o surgimento e a consolidação do mercado autorregulado, característico do capitalismo moderno, e denunciou suas consequências destrutivas. Segundo Polanyi, permitir que o mecanismo de mercado controle sozinho o destino dos seres humanos e do ambiente natural equivaleria à “demolição da sociedade”, pois dissolveria os vínculos sociais e as proteções morais que garantem a coesão das comunidades.

Joseph Schumpeter ocupa um lugar singular na sociologia econômica, sendo o único economista de formação reconhecido como parte da tradição clássica da sociologia econômica. Schumpeter concebeu a economia como um fenômeno essencialmente social e histórico, cujas transformações não podem ser compreendidas apenas pelos mecanismos de mercado. Inspirado por Max Weber, com quem colaborou na década de 1910, Schumpeter retomou o projeto da Sozialökonomik (Economia Social), propondo um campo de investigação multidisciplinar composto por quatro áreas interdependentes: teoria econômica, história econômica (incluindo a antropologia econômica), sociologia econômica e estatística econômica. Seu objetivo era estabelecer princípios que delimitassem as funções e a divisão do trabalho entre esses domínios, de modo a compreender a economia em sua totalidade. Apesar dessa perspectiva ampla, sua definição de sociologia econômica era mais restrita do que a de Weber e Durkheim. Para Schumpeter, cabia à sociologia econômica estudar o contexto institucional da economia — isto é, os padrões de conduta, os costumes, as formas de propriedade e as estruturas de governo que moldam a ação econômica —, enquanto o exame dos mecanismos de mercado pertencia ao campo da economia propriamente dita. Ainda assim, a fronteira entre economia e sociologia em sua obra é constantemente permeável, sobretudo em sua análise do empreendedor e da mudança econômica. Schumpeter descreve o empreendedor como uma figura inovadora, capaz de romper a “muralha da tradição” e introduzir novas combinações produtivas que impulsionam o desenvolvimento econômico. Essa concepção confere à inovação um caráter social, pois ela se difunde e transforma o tecido institucional da economia, articulando forças econômicas, culturais e psicológicas.

Em sua obra mais influente, Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), Schumpeter aprofunda sua reflexão sobre o destino do capitalismo, formulando o conceito de “destruição criativa” — o processo pelo qual as inovações tecnológicas e organizacionais destroem antigas estruturas produtivas e dão origem a novas formas de atividade econômica. Assim, Schumpeter oferece uma interpretação complexa e ambivalente do capitalismo moderno: um sistema extraordinariamente criativo, mas também autodestrutivo, cuja lógica de inovação incessante redefine continuamente tanto a economia quanto a sociedade.[5]

O Renascimento Contemporâneo (Nova Sociologia Econômica)

O campo da Sociologia Econômica tem experimentado uma espécie de renascimento caracterizado por um crescimento persistente, novas frentes de investigação e uma crescente institucionalização, especialmente desde meados da década de 1980 e no início dos anos 1990.

Este ressurgimento é frequentemente chamado de "Nova Sociologia Econômica".

Bases Teóricas da Nova Sociologia Econômica

O termo "Nova Sociologia Econômica" foi cunhado por Mark Granovetter em 1985, com a mensagem básica de que a sociologia moderna deveria focalizar as instituições e problemas econômicos centrais.

1. Enraizamento e Redes: A principal sugestão para o renascimento, formulada por Granovetter em 1985, foi a fusão das ideias de Karl Polanyi sobre "enraizamento" (embeddedness) com a análise de redes.

2. Ação Econômica em Redes: Essa abordagem argumenta que as ações econômicas não seguem os caminhos concisos e diretos da maximização (como reivindicam os economistas), mas sim os caminhos consideravelmente mais complexos das redes sociais existentes. A tarefa da sociologia econômica seria, portanto, descrever como as ações econômicas são estruturadas por meio dessas redes.

3. Crítica ao Homo Economicus: O renascimento deu continuidade à crítica de que o homo economicus não existe; existem apenas atores econômicos concretos, enraizados na estrutura social, possuindo determinada idade, inserção e pertencentes a um gênero.

II. Institutionalização e Expansão

O renascimento da Sociologia Econômica tornou o campo mais atuante e institucionalizado, especialmente nos Estados Unidos, mas também na Europa.

• Crescimento Acadêmico: O campo está ativo em muitas das principais universidades norte-americanas (como Harvard, Stanford e Cornell) e tem apresentado um crescimento persistente desde os anos 1980.

• Reconhecimento Profissional: Nos EUA, a seção de sociologia econômica da Associação Norte-Americana de Sociologia (ASA) foi criada em 2001. O campo está em expansão, sendo popular entre os estudantes de pós-graduação, com a seção da ASA tendo o maior número percentual de membros discentes.

• Publicações e Manuais: O crescimento é evidenciado pela publicação de coletâneas de textos básicos e manuais introdutórios.

• Desenvolvimento Europeu: O renascimento, embora mais forte nos EUA, também avançou rapidamente na Europa, especialmente na França, onde autores como Bourdieu, Boltanski e Callon trouxeram abordagens originais, como a ênfase na sociologia da ciência e da tecnologia, na performance e na justificação das ações.[6]

Atualmente

A partir da década de 1990, a sociologia econômica ampliou sua agenda de pesquisa, incorporando novos temas e perspectivas analíticas que aprofundaram sua inserção interdisciplinar nas ciências sociais. Na Europa, o desenvolvimento da sociologia econômica também ganhou destaque, especialmente na França, onde autores como Pierre Bourdieu, Luc Boltanski e Michel Callon propuseram abordagens inovadoras. Esses pesquisadores enfatizaram dimensões como a sociologia da ciência e da tecnologia, a performatividade dos discursos econômicos e os processos de justificação moral e social das ações econômicas, contribuindo para a diversificação teórica e metodológica do campo.

Entre essas novas temáticas, destaca-se a área de finanças e performatividade, voltada à compreensão dos mecanismos sociais que estruturam o funcionamento dos mercados financeiros. Pesquisas contemporâneas, frequentemente baseadas em métodos etnográficos e em análises culturais, exploram a noção de performatividade, segundo a qual as teorias econômicas não apenas descrevem, mas também moldam e produzem a realidade econômica que buscam explicar.

Outro eixo importante refere-se à riqueza e estratificação social, temática que passou a receber maior atenção por parte dos sociólogos econômicos. As pesquisas recentes têm articulado o estudo da acumulação de riqueza aos mecanismos de reprodução das desigualdades econômicas e de classe, superando a tradicional ênfase exclusiva na renda e no consumo.

O estudo dos mercados e das firmas manteve-se como núcleo central da sociologia econômica, incorporando novas perspectivas teóricas que integram dimensões políticas e culturais. As análises recentes examinam o papel do status, da reputação e das redes sociais na configuração dos mercados, bem como investigam as dinâmicas internas das organizações, enfatizando a capacidade empreendedora e a ecologia populacional das firmas.

Por fim, os temas cultura e gênero ganharam destaque, reafirmando a importância dos significados historicamente construídos que orientam as práticas econômicas. Nesse contexto, estudos sobre gênero passaram a abordar questões como a desigualdade salarial, a segregação ocupacional e a persistente desvalorização do trabalho doméstico e de cuidado, contribuindo para uma compreensão mais abrangente das dimensões simbólicas e estruturais da economia.

Perspectiva Crítica

A compreensão contemporânea da sociologia econômica vai além de uma visão restrita que reduz a economia a transações de mercado ou operações financeiras. Há uma perspectiva que entende a atividade econômica como um sistema integrado de comportamentos e interações regulados por convenções sociais e relações humanas compartilhadas. Sob esse enfoque, o capitalismo transcende sua dimensão puramente mercantil, funcionando como um modelo de existência que permeia as rotinas diárias, molda identidades e organiza vínculos entre indivíduos e grupos.[7]

Os desenvolvimentos recentes na área enfatizam que as atividades econômicas não funcionam de forma neutra ou desvinculada de valores. Ao contrário, as regras, expectativas e padrões comportamentais encontram-se intrinsecamente vinculados ao modo como as relações econômicas operam e se reproduzem. O capitalismo, enquanto modelo de organização social e existencial, engendra processos que ultrapassam os objetivos e desejos isolados de cada participante. Frequentemente, essas dinâmicas resultam em estruturas que os próprios envolvidos não necessariamente apoiam ou reconhecem como legítimas. Essa perspectiva oferece ferramentas analíticas para examinar não apenas os mecanismos através dos quais as trocas econômicas ocorrem, mas também as estruturas de convivência que o capitalismo estabelece e perpetua. [8]

Ver também

Referências

  1. «Principles of Economic Sociology by Richard Swedberg – An extract». Consultado em 2 de dezembro de 2009 
  2. SMELSER, SWEDBERG, Neil J, Richard (2005). The Handbook of Economic Sociology. 2. ed. Princetown, NJ: Princeton University Press; New York: Russell Sage Foundation. pp. 3–25 
  3. The Handbook of Economic Sociology. Princetown, NJ: Princeton University Press. 1984. p. 8 
  4. The Handbook of Economic Sociology. Princetown, NJ: Princeton University Press. 1984. pp. 14–15 
  5. The Handbook of Economic Sociology. Princetown, NJ: Princeton University Press. 1984. pp. 11–12 
  6. SWEDBERG, Richard (2004). Sociologia econômica: hoje e amanhã. [S.l.]: Tempo Social. pp. 7–34 
  7. JAEGGI, R. (2018). "Um conceito amplo de economia". [S.l.]: Civitas, vol. 18, n. 3. pp. 503–522 
  8. JAEGGI, R. (2018). "Economy as social practice". [S.l.]: Journal for Cultural Research, vol. 22, n. 2. pp. 122–125