Fortaleza (arquitetura militar)

Fortaleza dos Cavaleiros, na Síria
Plano duma fortaleza, obras exteriores e outros dispositivos de defesa e aproximação
Detalhes da fortaleza e das obras exteriores

Uma fortaleza (forte ou fortificação) (do latim fortis = forte ou facere = fazer) é uma estrutura arquitetônica militar projetada para a guerra defensiva. A humanidade vem erguendo este tipo de estruturas há milhares de anos, com uma variedade de desígnios crescentemente complexos.

Em termos técnicos, uma fortaleza é composta por duas ou mais baterias de artilharia, distribuídas em obras independentes, e com largo intervalo entre si. Por outro lado, um forte é composto de uma ou mais baterias na mesma obra. Algumas instalações militares são conhecidas como fortes, embora nem sempre sejam fortalecidos. A palavra fortificação também pode se referir à prática de melhorar a defesa de uma área com trabalhos de defensiva.

As estruturas de fortificação normalmente são divididas em duas categorias:

  • Fortificações permanentes - erguidas com todos os recursos que um Estado pode prover em termos de habilidade construtiva e mecânica, empregando materiais duradouros.
  • Fortificações de campanha (ou de campo) - erguidas no contexto de um combate ou de uma guerra, por tropas no campo, com o emprego de materiais locais que não exijam muita preparação, como terra apilhada, madeira de mato (faxina) etc.

Na segunda categoria ainda podem ser consideradas as fortificações semipermanentes, aquelas que, no curso de uma campanha, se tornam necessárias para proteger alguma localidade propiciando uma defesa permanente e que podem ser erguidas com o trabalho de civis e em pouco tempo.

Fortificações Bizantinas

As fortificações bizantinas foram essencialmente cinturas amuralhadas urbanas que sofreram remodelações constantes em épocas posteriores, muitas vezes reaproveitando materiais de estruturas romanas precedentes. No Istmo de Corinto, imediatamente a sul do atual canal, persistem os vestígios de uma importante obra de alvenaria mandada erguer pelo imperador Teodósio II no século V para enfrentar as invasões bárbaras de visigodos e hunos. Esta muralha era tecnicamente denominada Hexamilion devido à sua extensão de seis milhas, aproximadamente nove quilómetros, e foi posteriormente reforçada no reinado de Justiniano I para garantir a integridade do Peloponeso. A eficácia desta estrutura residia na densidade das suas torres quadrangulares, que permitiam um fogo defensivo cruzado contra os atacantes. Esta fase histórica é detalhada por Timothy E. Gregory na sua obra sobre as fortificações de Isthmia, onde analisa a transição das defesas clássicas para as medievais no mundo bizantino. [1]

Idade Média e o Castelo

Na Europa Ocidental, o castrum romano e a fortaleza de colina foram os precursores diretos do castelo, que começou a afirmar-se como o elemento defensivo central do Império Carolíngio a partir do século IX. Durante a Alta Idade Média, a proliferação destas estruturas esteve ligada à fragmentação do poder central, um processo que o historiador Dominique Barthélemy associa à necessidade de proteção local contra incursões externas e conflitos senhoriais. [2] Inicialmente, muitas cidades dispunham apenas de muros simples ou valas associadas a paliçadas, seguindo o modelo do vallum romano. Contudo, a partir do século XII, a fundação de novos centros urbanos, especialmente na Europa de Leste durante o período do Ostsiedlung, levou à construção de muralhas de tijolo e pedra com traçados regulares e fossos profundos. Estas fortificações medievais caracterizavam-se por uma tipologia de defesa vertical, utilizando muralhas de grande altura dotadas de ameias e merlões para proteção dos arqueiros, além de matacães ou caditóias, que eram aberturas no pavimento das galerias superiores destinadas ao lançamento de projéteis e substâncias sobre os sitiantes. [3] No final deste período, cidades como Nicósia e Chania foram fortificadas pela República de Veneza com muralhas que já evidenciavam a transição para a geometria moderna.

Era moderna e a fortificação de traçado italiano

As altas muralhas medievais tornaram-se obsoletas com o uso generalizado do canhão e dos projéteis de metal no século XV. Este avanço tecnológico forçou a evolução das fortificações para estruturas mais baixas e maciças, capazes de absorver o impacto cinético da artilharia através de aterros internos e da técnica de alvenaria de enchimento. Surgiu assim a fortificação de traçado italiano, ou trace italienne, onde a geometria desempenhava um papel crucial. O baluarte, uma plataforma pentagonal projetada para fora da cortina, eliminava os ângulos mortos e permitia o fogo flanqueado de cobertura. [4] Exemplos desta transição podem ser observados na Fortaleza de Sarzanello e nas muralhas de Rodes, que combinam elementos medievais com revelins e plataformas de tiro angulares. [5] Este modelo atingiu o seu expoente máximo em cidades-fortaleza de planta estrelada, como Palmanova em Itália ou Elvas em Portugal, sendo esta última um dos maiores sistemas abaluartados do mundo.[6] No início do século XVI, os rondéis foram substituídos por apêndices pentagonais denominados baluartes, sistema que se desenvolveu intensamente na Itália. No início do século XVII, o engenheiro francês Blaise François Pagan formulou métodos geométricos para o desenho de baluartes. Esta ciência foi refinada por Sébastien Le Prestre de Vauban, que adaptou as fortificações à topografia. No reinado de D. João V, a engenharia militar consolidou-se sob a influência de tratados como o de Sebastián Fernández de Medrano. As dimensões das praças-fortes deviam seguir métricas rigorosas: as faces do baluarte não deviam exceder trezentos pés; os flancos deviam medir entre cem e cento e oitenta pés para garantir o alcance do tiro forte de mosquete; e a cortina devia situar-se entre quatrocentos e cinquenta e quinhentos e cinquenta pés em uma praça real.[7]

Século XIX e a fortificação poligonal

O advento das granadas explosivas e dos canhões de alma estriada no século XIX tornou as complexas fortificações abaluartadas extremamente vulneráveis ao tiro parabólico. Em resposta, os engenheiros militares desenvolveram a fortificação de base poligonal, um conceito promovido inicialmente por Marc-René de Montalembert. Este sistema privilegiava fossos profundos cortados diretamente na rocha, protegidos por casamatas e caponidreiras situadas no fundo do fosso, o que permitia um tiro rasante contra a infantaria inimiga.[8] O perfil do forte tornou-se quase invisível à distância, sendo rodeado por um glacis de terra que desviava os projéteis e negava cobertura aos atacantes. Durante este século, as potências europeias continuaram a utilizar versões simplificadas destas defesas em contextos coloniais, onde a superioridade tecnológica garantia a resistência de pequenas guarnições contra forças numericamente superiores.

Séculos XX e XXI e a Era dos Bunkers

A Primeira Guerra Mundial demonstrou que as fortificações permanentes de betão armado podiam ser destruídas por artilharia super-pesada, como os morteiros alemães de 42 cm. [9] No período entre guerras, a França construiu a Linha Maginot, um sistema de defesa em profundidade com túneis subterrâneos e torres retráteis. Embora tecnicamente avançada, a sua eficácia foi limitada pela guerra de movimento e pela capacidade alemã de contornar a linha através da Bélgica.[10] Na Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento de bombas de alta penetração, as chamadas bunker busters como a Tallboy, eliminou a segurança das estruturas de superfície. [11] Na era contemporânea, as fortificações militares tornaram-se essencialmente subterrâneas, como o complexo do NORAD no Monte Cheyenne, ou assumiram a forma de zonas desmilitarizadas, como a que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul, funcionando como barreiras passivas de alta vigilância.[12]

Evolução entre os séculos XVI e XVIII

A arquitetura das fortalezas evoluiu da verticalidade medieval para o sistema abaluartado, um processo que exigiu profundas adaptações estruturais para suportar o impacto da artilharia e otimizar o tiro defensivo através de cálculos matemáticos. Com o aparecimento das armas de fogo, a artilharia passou a ser utilizada primordialmente para o cerco de praças-fortes. Em resposta, para proteger as muralhas contra as balas de canhão, estas passaram a ser construídas com maior espessura e a sua parte superior foi arredondada para desviar os projéteis.

A base das fortificações passou a ser protegida por fossos mais profundos e largos, utilizando-se o excedente de terra para criar o glacis além da contraescarpa. O contraescarpa passou a ser revestido por muralhas de pedra com contrafortes voltados para o inimigo. No interior, foram instalados banquetes com degraus para a infantaria e o valgango, uma rampa de terra para a movimentação da artilharia, enquanto as muralhas recebiam ameias e canhoeiras de diversas formas para o disparo de canhões e culebrinas.[13][14]

Transição arquitetónica e a influência manuelina

As torres medievais sofreram modificações para desempenharem o papel de estruturas de flanqueamento, permitindo o fogo ao longo das cortinas. Adotaram formas semicirculares, projetando-se para a frente com a gorja aberta. Estas estruturas ficaram conhecidas como rondéis ou baluartes circulares. Nelas, por vezes, localizavam-se casamatas para as bocas de fogo. Um dos principais teóricos desta transição foi Albrecht Dürer, que expôs as suas ideias na obra "Manual para a Fortificação de Cidades, Castelos e Desfiladeiros", publicada em 1527.

Nesta fase, sob a influência de mestres como Francisco de Arruda, a fortaleza portuguesa experimentou morfologias híbridas que rompiam com o modelo do castelo gótico. Segundo Mário Jorge Barroca, a principal inovação foi o surgimento dos bastiões ultra-semi-circulares, como os do Castelo de Portel em 1510, que permitiam o fogo flanqueado paralelo ao pano da muralha.[14] As áreas de tiro eram inicialmente concebidas como casamatas a céu aberto, como na Torre de Belém, surgindo apenas em 1531, na Torre de Évora Monte, sistemas eficazes de ventilação em espaços fechados. Outro elemento distintivo é o uso do alambor, uma escarpa inclinada na base das muralhas que reforçava a estrutura contra impactos e dificultava a escalada. O tijolo passou a ser utilizado nas molduras das canhoeiras por possuir uma capacidade de absorção de impacto superior à pedra de cantaria rígida.[14]

Obras exteriores e defesas avançadas

A eficácia de uma fortaleza abaluartada dependia de um sistema complexo de obras exteriores destinadas a retardar o inimigo e proteger o recinto principal. Estas estruturas eram desenhadas para serem dominadas pelo fogo das muralhas interiores caso fossem capturadas.

O elemento exterior fundamental era o revelim (ou meia-lua), uma obra isolada de planta triangular posicionada no fosso em frente à cortina. A sua função era proteger a cortina contra o fogo direto da artilharia inimiga e flanquear as faces dos baluartes adjacentes.[15] Situada no fosso, imediatamente em frente à cortina, encontrava-se a tenalha. Era uma obra de baixa elevação destinada a fornecer uma plataforma de tiro rasante para a infantaria defender o fosso contra assaltos diretos.[7]

Para proteger subúrbios ou pontos fracos na topografia, utilizavam-se obras de maior escala denominadas hornaveques (obra em corno) e obras coroadas. O hornaveque consistia em dois meio-baluartes ligados por uma cortina. Quando a estrutura possuía um baluarte central e dois meio-baluartes nas extremidades, recebia o nome de coroada ou coronaveque[nota 1]. Estas estruturas eram ligadas ao corpo principal por muralhas paralelas chamadas braços.[16]

Na periferia extrema, para além do caminho coberto e do glacis, podiam ser construídas lunetas e contra-guardas. Todo este sistema era complementado por minas e contra-minas subterrâneas, galerias escavadas sob o glacis onde os defensores detonavam cargas explosivas sob as trincheiras dos atacantes.[14]

Papel estratégico e logístico

Nas guerras dos finais do século XVII e XVIII, as fortalezas desempenharam um papel crucial logístico. A dependência dos exércitos em relação ao abastecimento a partir de armazéns militares tornava as fortalezas os locais mais seguros para o depósito de mantimentos. As campanhas militares desta época reduziam-se frequentemente a cercos sistemáticos conduzidos através da poliorcética.[17]

Seguia-se o método do cerco científico, formalizado por Vauban, que consistia em isolar a praça e avançar gradualmente as defesas do atacante através de trabalhos de terra e trincheiras. O primeiro passo era o investimento da praça, onde a cavalaria e a infantaria cercavam o perímetro. De seguida, construíam-se a linha de circunvalação, voltada para o exterior, e a linha de contravalação, voltada para a fortaleza.[16]

Para aproximar as tropas das muralhas, utilizava-se o sistema de paralelas. A primeira paralela servia como base de operações; a segunda abrigava as baterias de ricochete; e a terceira paralela era escavada junto ao sopé do glacis, de onde a infantaria podia fazer fogo sobre o caminho coberto.[16] Uma vez dominado o caminho coberto, o atacante instalava a bateria de brecha na crista do glacis para criar uma rampa de escombros praticável.[7]

Espécies, tipos e classes

Na arte militar, existia uma divisão das fortalezas por espécies, tipos e classes:

  • Fortaleza terrestre — complexo de estruturas defensivas para a proteção de algum território, objeto militarmente importante (cidade, entroncamento rodoviário, travessia de rio ou desfiladeiro);
  • Fortaleza marítima — complexo de estruturas de defesa costeira para a proteção do litoral, da zona marítima e do porto;
  • Fortaleza costeira;
  • Fortaleza insular;
  • Fortaleza de fortes (ou Praça-forte de cintura de fortes);
  • Fortaleza de I (1.ª) classe (fortaleza de primeira ordem);
  • Fortaleza de II (2.ª) classe (fortaleza de segunda ordem);
  • Fortaleza de III (3.ª) classe (fortaleza de terceira ordem);
  • Fortaleza-depósito;
  • e assim por diante.

Notas

  1. A obra em corno (hornaveque) tem apenas uma frente composta por dois meio-baluartes e uma cortina; mas a obra coroada (coronaveque) tem duas, isto é, um baluarte inteiro no meio e dois meio-baluartes nas extremidades, o que lhe confere muito mais força e ocupação de terreno.

Elementos da fortaleza

Obras exteriores

  • Chapéu de bispo
  • Contraguarda
  • Contra Escarpa
  • Escarpa
  • Fosso
  • Glacis ou Declive
  • Hornaveque
  • Meia-lua
  • Obra coroada
  • Ponte
  • Revelim
  • Tenalha

Dispositivos de defesa

Ver também

Bibliografia

  • NUNES, António Lopes Pires. Dicionário de Arquitetura Militar. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2005. 264p. il. ISBN 972-8801-94-7
  • VAUBAN, Sebastién Le Preste. A Manual of Siegecraft and Fortification. Michigan: Ann Arbor, 1968.

Ligações externas

Referências

  1. Gregory, T. E., The Hexamilion and the Fortress, Isthmia, Vol. V, ASCSA, 1993.
  2. Barthélemy, D., The Serf, the Knight, and the Historian, Cornell University Press, 2009.
  3. Viollet-le-Duc, E., Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle, 1854.
  4. Parker, G., The Military Revolution: Military Innovation and the Rise of the West, 1500-1800, Cambridge University Press, 1988.
  5. Harris, J., Sarzana and Sarzanello, Fort, No. 37, 2009.
  6. Duffy, C., Siege Warfare: The Fortress in the Early Modern World 1494-1660, Routledge, 1979.
  7. a b c SILVA, Luiza Nascimento de Oliveira da. Reflexões políticas e as instruções de manutenção das conquistas ultramarinas: ensino da arquitetura militar (1700-1750). Rio de Janeiro, 2012, pp. 4-7.
  8. Hogg, I. V., Fortress: A History of Military Defence, Macdonald and Jane's, 1975.
  9. Donnell, C., The Forts of the Meuse in World War I, Osprey Publishing, 2007.
  10. Halter, M., History of the Maginot Line, Moselle River, 2011.
  11. Murray, S., Bunker Buster: The History of the Deep Penetration Bomb, Pen & Sword, 2010.
  12. Turchetti, S., The Globalization of Knowledge in the Context of the Cold War, Max Planck Institute, 2014.
  13. VAUBAN, Sébastien Le Prestre de. Traité de l'attaque et de la défense des places. Paris: Pierre de Hondt, 1704.
  14. a b c d BARROCA, Mário Jorge. Tempos de resistência e de inovação: a arquitectura militar portuguesa no reinado de D. Manuel I. Portugália, Nova Série, Vol. XXIV, 2003, pp. 95-118.
  15. MENDONÇA, Marcos Carneiro de. Dicionário de Fortificação. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1954.
  16. a b c VAUBAN, Sébastien Le Prestre de. Traité de l'attaque et de la défense des places. Paris: Pierre de Hondt, 1704, pp. 112-114.
  17. GOLITSYN, Nikolai Sergeevich. General Military History of Modern Times. SPb, 1872, Vol. 2, p. 28.