Coraixitas

Os coraixitas (em árabe: قُرَيْشٍ) eram uma tribo árabe que controlava Meca antes da ascensão do Islã. Seus membros estavam divididos em dez clãs principais, incluindo notavelmente os haxemitas, clã no qual nasceu o fundador do Islã, o profeta Maomé. No século VII, eles se tornaram comerciantes ricos, dominando o comércio entre o Oceano Índico, a África Oriental e o Mediterrâneo. A tribo conduzia caravanas para Gaza e Damasco no verão e para o Iêmen no inverno, além de explorar minas e outros empreendimentos ao longo dessas rotas.

Quando Maomé começou a pregar o Islã em Meca, os coraixitas inicialmente demonstraram pouco interesse. No entanto, sua oposição cresceu rapidamente à medida que ele desafiava o politeísmo árabe, predominante na Arábia pré-islâmica. Com o agravamento das relações, Maomé e seus seguidores migraram para Medina (conhecida como Hégira) após negociações com os aucitas e os cazerajitas para mediar o conflito. Entretanto, as duas partes não conseguiram alcançar uma resolução pacífica, e os coraixitas continuaram a obstruir as tentativas da comunidade de Maomé de realizar a peregrinação islâmica a Meca, levando-o a confrontá-los por meio de conflitos armados, principalmente através de ataques às suas caravanas. Esses ataques eventualmente evoluíram para várias batalhas importantes, incluindo Badre, Uude e o Cerco de Medina ("a Trincheira"). Após esses confrontos e mudanças no cenário político de Medina, incluindo a expulsão de três tribos judaicas, Maomé supostamente passou a focar suas campanhas militares em tribos árabes do norte, como os laianitas e os mutaliquitas.[1]

À medida que a posição de Maomé em Medina se consolidava, a atitude em relação a ele em sua cidade natal tornou-se mais favorável. O Tratado de Hudaibia formalizou uma trégua de dez anos (a partir de março de 628) com os coraixitas e permitiu que Maomé realizasse a Unra em Meca no ano seguinte. Durante essa peregrinação, Maomé reconciliou-se com seu clã, simbolizado pelo casamento com Maimuna binte Alharite. Além disso, vários mequenses proeminentes, como Calide ibne Ualide e Anre ibne Alas, reconheceram a crescente influência de Maomé na sociedade árabe e se converteram ao Islã, vindo a desempenhar papéis fundamentais nas primeiras conquistas muçulmanas. [2]

Segundo fontes muçulmanas, o Tratado de Hudaibia foi violado pelos coraixitas aproximadamente dois anos após sua ratificação; uma facção beligerante da tribo, agindo contra o conselho de seu chefe Abu Sufiane, apoiou um de seus clãs clientes em um conflito contra os cuzaítas, aliados de Maomé, levando-o a marchar com um exército de 10 mil homens para sitiar Meca. Diante da força que se aproximava, Abu Sufiane e outros, incluindo o aliado de Maomé, Cuzai Budail ibne Uarca, encontraram-se com ele para solicitar anistia para todos os membros dos coraixitas que não resistissem ao avanço. Assim, Maomé e suas tropas entraram em Meca praticamente sem oposição, e quase todos os habitantes da cidade se converteram ao Islã. [3] Após a morte de Maomé em 632, a liderança da comunidade muçulmana tradicionalmente passou a pertencer aos coraixitas, como ocorreu com os califas ortodoxos, os omíadas, os abássidas e, supostamente, com os fatímidas.

Nome

As fontes diferem quanto à etimologia do nome coraixita ou coraixe (Quraysh), sendo que uma teoria sustenta que seria a forma diminutiva de qirsh (tubarão).[4] O genealogista árabe Hixame ibne Alcalbi afirmou que não havia um fundador homônimo dos coraixitas;[5] em vez disso, o nome derivaria de taqarrush, uma palavra árabe que significa "reunião" ou "associação". Os coraixitas adquiriram seu nome quando Cussai ibne Quilabe, um descendente de sexta geração de Fir ibne Maleque, reuniu seus parentes e tomou o controle da Caaba. Antes disso, os descendentes de Fir viviam em grupos nômades e dispersos entre seus parentes quinanitas.[6] O nisba ou sobrenome dos coraixitas é Coraxi (Qurashī), embora nos primeiros séculos da Ummah islâmica, a maioria dos membros dos coraixitas fosse identificada pelo clã específico, e não pela tribo. Mais tarde, especialmente após o século XIII, os descendentes que reivindicavam origem Qurayshiya passaram a usar o sobrenome Coraxi.[4]

História

Origens

O progenitor dos coraixitas foi Fir ibne Maleque, cuja genealogia completa, segundo fontes árabes tradicionais, é a seguinte: Fir ibne Maleque ibne Alnadre ibne Quinana ibne Cuzaima ibne Mudrica ibne Ilias ibne Mudar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane.[6] Assim, Fir pertencia à tribo dos quinanaítas e sua descendência é traçada até Adenane, o ismaelita, considerado semilendário como o pai dos "árabes do norte". Segundo as fontes tradicionais, Fir liderou os guerreiros quinanitas e cuzaimaítas na defesa da Caaba, que na época era um importante santuário pagão em Meca, contra tribos vindas do Iémen; entretanto, o santuário e os privilégios associados continuaram sob o controle da tribo iemenita dos cuzaítas. Os coraixitas adquiriram seu nome quando Cussai ibne Quilabe, um descendente de sexta geração de Fir ibne Maleque, reuniu seus parentes e assumiu o controle da Caaba. Antes disso, os descendentes de Fir viviam em grupos nômades e dispersos entre seus parentes quinanitas. [6]

Estabelecimento em Meca

Todas as fontes muçulmanas medievais concordam que Cussai unificou os descendentes de Fir e estabeleceu os coraixitas como a força dominante em Meca. [7] Após conquistar Meca, Cussai designou bairros para os diferentes clãs coraixitas. Aqueles estabelecidos ao redor da Caaba eram conhecidos como Quraysh al-Biṭāḥ ("Coraixita do vale"), incluindo todos os descendentes de Cabe ibne Luai e outros. Os clãs estabelecidos nos arredores do santuário eram conhecidos como Quraysh al-Ẓawāhir ("coraixitas dos arredores"). Segundo o historiador ibne Isaque, o filho mais jovem de Cussai, Abde Manafe, tornou-se proeminente durante a vida de seu pai e foi escolhido por Cussai como seu sucessor para ser guardião da Caaba. Ele também atribuiu outras responsabilidades relacionadas à Caaba a seus outros filhos, Abde Aluza e Abde, garantindo que todas as decisões dos coraixitas fossem tomadas na presença de seu filho mais velho, Abde Adar. Este último também recebeu privilégios cerimoniais, como ser guardião da bandeira de guerra coraixita e supervisor da água e suprimentos para os peregrinos que visitavam a Caaba. [8]

Segundo o historiador F. E. Peters, o relato de ibne Isaque revela que Meca, na época de Cussai e de seus descendentes imediatos, ainda não era um centro comercial; ao contrário, a economia da cidade baseava-se na peregrinação à Caaba, e "o que se considerava cargos municipais [designados por Cussai] tinha relação apenas com operações militares e com o controle do santuário".[9] Naquele período, os membros da tribo coraixita não eram comerciantes; em vez disso, eram responsáveis pelos serviços religiosos, dos quais obtinham lucro significativo. Eles também se beneficiavam dos impostos cobrados dos peregrinos que chegavam. Embora Cussai aparentasse ser o líder dominante dos coraixitas, ele não era oficialmente um rei da tribo, mas sim um dos muitos xeiques (chefes tribais) proeminentes.[10]

Segundo o historiador Gerald R. Hawting, se as fontes tradicionais forem acreditadas, os filhos de Cussai "devem ter vivido na segunda metade do século V".[11] No entanto, o historiador W. Montgomery Watt afirma que Cussai provavelmente morreu na segunda metade do {séc|VI}}. A questão da sucessão entre o sucessor natural de Cussai, Abde Adar, e seu sucessor escolhido, Abde Manafe, levou à divisão dos coraixitas em duas facções: aqueles que apoiavam o clã Abde Adar, incluindo os clãs samitas, aditas, maquezumitas e jumaítas, ficaram conhecidos como Alalafe (al-Aḥlāf; "os Confederados"), enquanto aqueles que apoiavam o clã Abde Manafe, incluindo os taimitas, assaditas, zuraitas e Banu Alharite ibne Fir, eram conhecidos como al-Muṭayyabūn ("os Perfumados").[4]

Controle do comércio em Meca

No final do século VI, a Guerra Fijar eclodiu entre os coraixitas e os quinanitas de um lado e várias tribos caicitas de outro, incluindo os hauazinitas, taquifitas, amiritas e soleimitas. A guerra começou quando um membro da tribo quinanita matou um membro da tribo amirita que escoltava uma caravana lacmita para o Hejaz, durante a temporada sagrada, quando lutar era geralmente proibido. O patrono quinanita era Harbe ibne Omaia, um chefe coraixita, que, junto com outros chefes, foi emboscado pelos hauazinitas em Nacla, mas conseguiu escapar. Nas batalhas ocorridas nos dois anos seguintes, os caicitas foram vitoriosos, mas no quarto ano a maré virou a favor dos coraixitas e dos quinanitas, e após mais alguns confrontos, a paz foi restabelecida.[12] Segundo Watt, o verdadeiro objetivo da Guerra Fijar era o controle das rotas comerciais do Négede. Apesar da resistência particularmente forte dos principais rivais comerciais dos coraixitas, os taquifitas de Taife e o clã Banu Nácer dos hauazinitas, os coraixitas acabaram dominando o comércio no oeste da Arábia, assumindo o controle do comércio de Ta'if e adquirindo propriedades em Ta'if, onde o clima era mais ameno.[13][6]

A vila sagrada de Meca desenvolveu-se em um importante centro comercial árabe. Segundo Watt, por volta do ano 600, os líderes dos coraixitas "eram mercadores prósperos que haviam obtido algo como um monopólio do comércio entre o Oceano Índico e a África Oriental, por um lado, e o Mediterrâneo, por outro".[6] Além disso, os coraixitas organizavam caravanas comerciais para o Iêmen no inverno e para Gaza, Bostra, Damasco e Alarixe no verão.[6][14] os coraixitas estabeleceram redes com mercadores nessas cidades sírias e formaram alianças políticas ou econômicas com muitas das tribos beduínas (árabes nômades) nos desertos do norte e centro da Arábia para garantir a segurança de suas caravanas. Eles investiam suas receitas no desenvolvimento de empreendimentos comerciais e compartilhavam lucros com aliados tribais, traduzindo sua fortuna financeira em considerável poder político no Hejaz (Arábia Ocidental).[14] Nas palavras de Fred Donner:

[No final do século VI,] o comércio mequense florescia como nunca antes, e os líderes desse comércio [os coraixitas] haviam se desenvolvido de simples mercadores para verdadeiros financistas. Eles não estavam mais apenas interessados em "comprar barato e vender caro", mas também em organizar dinheiro e homens para alcançar seus objetivos comerciais. Surgia, em suma, uma classe de homens com habilidades gerenciais e organizacionais bem desenvolvidas. Foi um desenvolvimento inédito e quase único na Arábia Central.[15]

Os maquezumitas e os omíadas, em particular, adquiriram grande riqueza com o comércio e detinham a maior influência entre os coraixitas na política de Meca.[14] Os omíadas e os naufalitas, outro clã descendente de Abde Manafe que havia se tornado rico com suas atividades comerciais, separaram-se da facção al-Muṭayyabūn em 605 e passaram a negociar com os Alalafe.[4] Suas fortunas financeiras os tornaram uma força por si mesmos.[4] Durante um incidente comercial em que um mercador iemenita teve sua mercadoria roubada por Alas ibne Uail Assami, a facção al-Muṭayyabūn se reorganizou no Hilfe Alfudul, composta pelos haxemitas e mutalibitas — que, assim como os omíadas, eram descendentes de Abde Manafe — e pelos clãs taimitas, assaditas, zuraditas e Alharite ibne Fir.[4] Os haxemitas detinham os direitos hereditários relacionados à peregrinação à Caaba, embora os omíadas fossem, em última instância, o clã coraixita mais poderoso.[11] Segundo Watt, "Em todas as histórias do período pré-islâmico há, sem dúvida, um elemento lendário, mas o contorno principal dos eventos parece estar aproximadamente correto, mesmo que a maioria das datas seja incerta."[4]

Conflito com Maomé

Os coraixitas, a tribo dominante de Meca, inicialmente demonstraram pouca preocupação quando Maomé começou a pregar sua nova fé na cidade; entretanto, à medida que sua mensagem passou a desafiar de maneira crescente as práticas religiosas e sociais tradicionais, as tensões se intensificaram.[16][17] Com o deteriorar das relações, Maomé organizou a emigração gradual de seus seguidores para Medina e, após negociações com várias facções locais estabelecerem uma base de apoio, realizou ele mesmo a jornada — evento conhecido como a Hégira. Nessas negociações, Maomé foi visto como um possível mediador para conflitos tribais persistentes, embora seu papel provavelmente tenha sido mais complexo do que uma simples mediação. Em Medina, ele recebeu uma revelação divina permitindo que os muçulmanos se defendessem, o que incluía ações contra as caravanas comerciais dos coraixitas em resposta à contínua hostilidade e perseguição promovidas por eles.[18]

Após obter despojos de uma caravana em Nacla, Maomé soube da aproximação de uma caravana maior dos coraixitas que retornava de Gaza. Ele tentou interceptá-la, mas a caravana mudou de rota. Em vez disso, Maomé encontrou tropas dos coraixitas lideradas por Anre ibne Hixame,[18] e, apesar de estar em desvantagem numérica, venceu a Batalha de Badre, conquistando prestígio e novos seguidores.[19] A derrota dos coraixitas em Badre foi significativa, pois lhes custou muitos homens influentes ou experientes, além de seu prestígio.[19] Buscando restaurar sua honra, os coraixitas, liderados por Abu Sufiane, mobilizaram três mil combatentes para enfrentar Maomé, o que resultou na Batalha de Uude. Inicialmente, as forças de Maomé levavam vantagem, mas sofreram um revés quando seus arqueiros abandonaram suas posições para perseguir os soldados de Meca em retirada. O estrategista militar Calide ibne Ualide aproveitou essa falha, forçando as tropas de Maomé a recuar. Os coraixitas não avançaram além disso, considerando seu objetivo cumprido.[1]

Em Medina, algumas tribos judaicas demonstraram satisfação com a derrota de Maomé, o que o levou a atacar os Banu Nadir, expulsando-os para Caibar e outros assentamentos, além de confiscar suas propriedades. Enquanto isso, as caravanas dos coraixitas continuavam a ser atacadas, e, incentivados pelos judeus de Caibar, eles reconheceram a importância estratégica de ocupar Medina. Conseguiram então negociar com várias tribos beduínas e mobilizar um contingente de 10 mil combatentes.[1] Para se defender das tropas dos coraixitas, Maomé, aconselhado por um de seus seguidores, ordenou a escavação de uma trincheira ao redor de Medina, o que resultou na Batalha da Trincheira. A trincheira dificultou o avanço dos coraixitas, e Maomé conduziu negociações secretas com os gatafanitas para criar desconfiança entre seus inimigos. Condições climáticas desfavoráveis acabaram minando o moral dos sitiadores, que por fim se retiraram.[20][21]

Posteriormente, Maomé voltou sua atenção para os curaizaítas, acusados de trair os muçulmanos ao conspirarem com os coraixitas. Após um cerco, os homens foram julgados e sentenciados à execução, enquanto as mulheres e crianças foram tomadas como cativas. Esse episódio representou um ponto de inflexão significativo, pois Maomé consolidou seu controle em Medina. Em seguida, seu foco se voltou para outras tribos, como os laianitas e os mustaliquitas. Estes últimos foram derrotados em batalha, e muitos dos cativos acabaram posteriormente libertados.[2]

Com o tempo, as tensões entre Maomé e o povo de Meca diminuíram, culminando no Tratado de Hudaibia, um armistício de dez anos. Maomé e seus seguidores passaram então a ter permissão para realizar a Unra no ano seguinte, em Meca. Pouco depois, Maomé atacou a região judaica de Caibar, onde instituiu uma prática que se tornaria precedente para o comportamento posterior dos muçulmanos em relação a judeus e cristãos, a saber, a cobrança da jizia.[2] Ele não exterminou aqueles que se renderam; permitiu que permanecessem na terra e cultivassem seus campos, ficando metade da produção destinada a ele e a seus seguidores.[22] A colônia judaica de Uádi Alcura também passou ao seu domínio nessa expedição, trazendo grande riqueza para a comunidade muçulmana.[2]

No início de 627, Maomé realizou a Unra conhecida como a “peregrinação cumprida” em Meca, ocasião em que se reconciliou com sua família, os haxemitas, selando essa aproximação ao casar-se com Maimuna binte Alherite. Algumas figuras influentes de Meca, como Calide ibne Ualide e Anre ibne Alas, reconheceram Maomé como o líder do futuro na Arábia e converteram-se ao Islã. Em dezembro de 629, após o grupo beligerante de Meca — contrariando o conselho de Abu Sufiane — decidir apoiar um de seus clãs clientes contra os cuzaaítas, aliados de Maomé, violando assim o Tratado de Hudaibia, Maomé partiu com seu exército rumo a Meca. À medida que diminuía o número de mequenses dispostos a lutar, Abu Sufiana, acompanhado de outros, inclusive o amigo de Maomé, Budail ibne Uarca Alcuzai, dirigiu-se a ele para pedir anistia para todos os coraixitas que abandonassem a resistência armada. Dessa forma, Maomé conseguiu entrar em Meca sem oposição, e quase todos os seus habitantes adotaram o Islã.[3]

Derrota e conversão ao Islã

Em 630, Maomé entrou vitoriosamente em Meca, levando o restante dos coraixitas a abraçar o Islã. Maomé buscou consolidar a unidade de sua comunidade muçulmana em expansão "conquistando este grupo poderoso [os coraixitas]", segundo Donner; para isso, garantiu a participação e influência dos coraixitas no nascente Estado Islâmico. Assim, apesar de sua longa inimizade com Maomé, os coraixitas foram integrados como parceiros políticos e econômicos, tornando-se um componente chave da elite muçulmana. Muitos líderes das tribos coraixitas foram colocados em posições governamentais estratégicas e no círculo de formulação de políticas de Maomé.[23] Segundo Donner, a inclusão dos coraixitas "na elite governante do Estado Islâmico foi muito provavelmente responsável pelo que parece ter sido uma abordagem mais cuidadosamente organizada e sistemática de governança praticada por Maomé nos últimos anos de sua vida, à medida que as habilidades organizacionais dos coraixitas eram colocadas a serviço do Islã".[24]

Liderança islâmica após a morte de Maomé

Com a morte de Maomé em 632, surgiu uma rivalidade entre os coraixitas e os outros dois componentes da elite muçulmana, os ançares e os taquifitas, pelo controle das questões do Estado.[25] Os ançares desejavam que um de seus membros sucedesse o profeta como califa, mas foram persuadidos por Umar a aceitar Abu Becre.[4] Durante os reinados de Abu Becre (r. 632–634) e Omar (r. 634–644), alguns ançares se mostraram preocupados com sua participação política.[26] Nesse período, marcado pelas conquistas muçulmanas, os coraixitas aparentemente detinham o poder real. Durante a Primeira Fitna, os ançares, que apoiavam o califa Ali dos haxemitas contra duas facções de clãs rivais coraixitas, foram derrotados e posteriormente excluídos da elite política, enquanto os taquifitas mantiveram certa influência graças ao seu longo relacionamento com os coraixitas.[27]

Um hádice que estipulava que o califa deveria ser da tribo coraixita tornou-se quase universalmente aceito pelos muçulmanos, com exceção dos carijitas.[4] De fato, o controle do Estado Islâmico passou a ser essencialmente uma disputa entre várias facções dos coraixitas.[27] Na primeira guerra civil, essas facções incluíam os omíadas, representados por Moáuia ibne Abi Sufiane, os haxemitas, representados por Ali, e outros líderes coraixitas, como Zobair ibne Alauame dos assaditas e Tala ibne Ubaide Alá dos taimitas.[28] Mais tarde, durante a Segunda Fitna, essas mesmas facções lutaram novamente pelo controle do califado, com os omíadas saindo vitoriosos ao final da guerra em 692/3. Em 750, a questão de qual clã coraixita deteria o poder voltou a ser levantada, mas desta vez os abássidas, um ramo dos haxemitas, triunfaram e eliminaram grande parte dos omíadas. Posteriormente, a liderança islâmica passou a ser disputada entre diferentes ramos dos haxemitas.[29]

Clãs

Clã Genealogia Alianças / Sub‑Ramos Membros notáveis
Banu Abde Adar Abde Adar ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Alafes Muçabe ibne Omair
Maquezumitas Maquezum ibne Iacaza ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Alafes Abu Jal, Ualide ibne Almoguira, Abu Hudaifa ibne Almoguira, Calid eibne Ualide
Aditas Adi ibne Cabe ibne Luai ibne Ghalib ibn Fihr Alafes Alcatabe ibne Nufail, Omar ibne Alcatabe, Zaide ibne Anre, Axifa binte Abedalá, Abedalá ibne Omar
Samitas Same ibne Anre ibne Hussais ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Alafes Alas ibne Uail, Anre ibne Alas
Jumaitas Juma ibne Anre ibne Hussais ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Alafes Omaia ibne Calafe, Sufuane ibne Omaia
Banu Abede Xemece (mais tarde omíadas) Abede Xemece ibne Abde Manafe ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Alafes Omaia ibne Abede Xemece, Abu Sufiane ibne Harbe, Uqueba ibne Abi Muaite, Otomão ibne Afane, Um Habiba, Moáuia I
Naufalitas Naufal ibne Abde Manaf ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Alafes Jubair ibne Mutim
Amiritas Amir ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Suail ibne Anre, Abedalá ibne Suail
Haxemitas (mais tarde Banu Abde Almotalibe) HaXim ibne Abde Manafe ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Fudul Maomé, Abedal Motalibe, Hâmeza, Abu Talibe, Alabas, Ali
Zuraritas Zura ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Fudul Abde Manafe ibne Zura, Uabe ibne Abedal Menafe, Amina, Abderramão ibne Uafe, Sade ibne Abi Uacas
Taimitas Taime ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Fudul Abu Becre, Tala ibne Ubaide Alá, Aixa, Asma
Assaditas Açade ibne Abde Aluza ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Muttayabun, depois Fudul Cadija, Uaraca ibne Naufal, Zobair ibne Alauame, Abedalá ibne Zobair
Banu Alharite ibne Fir Alharite ibne Fir Muttayabun, depois Fudul Abu Ubaida ibne Aljarrá
Mutabilitas Almotalibe ibne Abde Manafe ibne Cussai ibne Quilabe ibne Murra ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir Fudul Axafii

Árvore genealógica

Cabe
┌────────── ───────────
Adi Murra
┌────────── ┴────────── ───────────
Riza Taim Cilabe
Corte Sade Cuçai
Abedalá Cabe Abde Manafe
┌──────────
Ria Anre Abedal Xemece Haxim
Abedal Uza Anre Omaia Abedal Motalibe
┌────────── ├─────────── ┬────────── ┬────────── ┬──────── ┬───────
Nufail Abu Cuafa Abu Alas Harbe Abas Abedalá Abu Talibe Alharite Abu Laabe Hâmeza
Catabe Abacar Afane Abu Sufiane Maomé Maomé Ali Abu Sufiane
Omar Aixa Otomão Omíadas Abássidas

Referências

  1. a b c Buhl & Welch 1993, p. 370.
  2. a b c d Buhl & Welch 1993, p. 371.
  3. a b Buhl & Welch 1993, p. 372.
  4. a b c d e f g h i Watt 1986, p. 435.
  5. Peters 1994, p. 14.
  6. a b c d e f Watt 1986, p. 434.
  7. Peters 1994, pp. 14–15.
  8. Peters 1994, p. 15.
  9. Peters 1994, pp. 15–16.
  10. Peters 1994, p. 16.
  11. a b Hawting 2000, p. 22.
  12. Fück 1965, p. 883.
  13. Fück 1965, p. 884.
  14. a b c Donner 1981, p. 51.
  15. Donner 1981, p. 52.
  16. Buhl & Welch 1993, p. 364.
  17. Lewis 2002, p. 35–36.
  18. a b Buhl & Welch 1993, p. 364-369.
  19. a b Watt 1961, pp. 124–127.
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  21. Lings 1983, p. 227f.
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  26. Donner 1981, pp. 273–274.
  27. a b Donner 1981, p. 274.
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Bibliografia

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