Batalha de Alcácer Quibir

Batalha de Alcácer-Quibir
Guerras Luso-marroquinas

Única representação semi-contemporânea conhecida da batalha (Miguel Leitão de Andrade, "Miscellânea", 1629)
Data4 de agosto de 1578 (447 anos)
LocalAlcácer Quibir, Sultanato Sádida Marrocos (atual Reino de Marrocos)
Casus belliApoio português à causa de Maomé Almotauaquil ao trono sádida.
Desfecho
  • Vitória decisiva das forças marroquinas leais a Mulei Maluco
  • Crise de sucessão portuguesa de 1580
  • Ascensão do Sultanato Sádida
Beligerantes
Reino de Portugal Reino de Portugal
Sultanato Sádida Marrocos(aliado)
Mercenários:
Estados Papais Estados Papais
Reino de Espanha Espanha (voluntários)
Sacro Império Sacro Império Romano-Germânico (mercenários)
Sultanato Sádida Marrocos
Comandantes
Sebastião (desaparecido)
Maomé Almotauaquil †
Mulei Maluco †
Amade Almançor Saadi
Forças
  • 12 mil portugueses
  • Seis mil mouros
  • 600 italianos
  • Dois mil espanhóis
  • Três mil alemães e belgas
  • Total: 23 640 homens
  • 40 canhões
  • 60 mil
  • 34 canhões
Baixas
  • Oito mil mortos
  • 16 mil capturados
  • Três mil mortos
  • Mil desaparecidos
  • Seis mil feridos

A Batalha de Alcácer-Quibir[nota 1] (em árabe: معركة القصر الكبير; romaniz.: Maʿrakat al-Qaṣr al-Kabīr; lit. "batalha da grande fortaleza"), também conhecida pela Batalha dos Três Reis (معركة الملوك الثلاثة, Maʿrakat al-Mulūk al-Thalātha) ou também como Batalha de Uádi Mocazim (معركة وادي المخازن, Maʿrakat Wādī al-Makhāzin) foi uma batalha travada no norte de Marrocos, perto da cidade de Alcácer Quibir, a 4 de agosto de 1578, opondo os exércitos do Reino de Portugal, apoiante da pretensa à coroa do então deposto sultão Mulei Maomé Almotauaquil ao do Sultanato Sádida, leais ao sultão reinante Mulei Maluco e apoiados pelo Império Otomano.

A vitória marroquina nessa batalha, infligiu a Portugal, o seu maior desastre militar já sofrido até hoje, marcando o fim definitivo da expansão portuguesa no Norte de África, a perda considerável da classe político-administrativa vigente da época, um aumento brutal da despesa do Reino, o fim do período de expansão português iniciado com a vitória na Batalha de Aljubarrota, e levando à crise dinástica de 1580, e à subsequente união dinástica com a Espanha, sob os Habsburgos, durante 60 anos. Fora isto, a derrota na batalha de Alcácer-Quibir levou ao nascimento do mito do Sebastianismo.[1][2][3][4][5][6]

Por outro lado, a morte dos dois sultões, e a grande derrota portuguesa, permitiram a plena consolidação do poder de Amade Almançor, que transformou a vitória militar num poderoso capital político e simbólico, reforçando a centralização do Estado e a sua legitimidade religiosa e dinástica, entrando Marrocos, durante o seu reinado, no zénite do Sultanato Sádida. A captura de um número elevado de prisioneiros e a subsequente economia dos resgates, associada ao saque e ao prestígio internacional, proporcionou um afluxo extraordinário de recursos, permitindo a expansão da corte, o reforço do exército e uma diplomacia mais afirmada face à Europa e ao Império Otomano. De mesmo modo, e indiretamente, porém, essa mesma vitória inaugurou um modelo de poder assente em receitas excecionais e gastos elevados, estimulando políticas fiscais e militares difíceis de sustentar a médio prazo. Após a morte do sultão em 1603, a ausência dessas condições excecionais contribuiu para a rápida fragmentação política do sultanato, revelando que o triunfo de 1578, embora fundador do apogeu sádida, continha também os germes da sua fragilidade estrutural futura.[7][8][9][10]

Antecedentes

Expansão portuguesa em Marrocos

Com o sucesso da Reconquista na Península Ibérica, os reinos cristãos europeus (em especial, os reinos ibéricos e italianos) iniciaram um período de várias incursões ao norte de África (Magrebe) de modo a reconquistar, novamente para a Cristandade, os territórios do norte do continente africano, perdidos já desde o meados do século VII. De facto, este assunto é em especial sensível aos reinos hispânicos, que viam estas incursões como o prolongamento da Reconquista: não apenas fechar a Reconquista na Península, mas sim empurrar a fronteira entre cristãos e muçulmanos para o outro lado do estreito de Gibraltar.[11]

Possessões portuguesas em Marrocos nos séculos XV e XVI
Arzila Portuguesa, c. 1570

Com a tomada de Ceuta em 1415, inicia-se o início da presença portuguesa no Algarve magrebino. Desde então, a coroa portuguesa tenta, especialmente no reinado de Afonso V, defender, consolidar e expandir a sua presença e influência em Marrocos. Após Ceuta, Portugal toma Alcácer-Ceguer, Arzila, Tânger, entre outros, aumentando assim o controlo militar e comercial da região. Com as tentativas posteriores infrutíferas de recaptura das praças aos portugueses, e o aumento da instabilidade do reino de Marrocos (iniciando-se com o assassinato do sultão Abuçaíde Otomão III em 1420), começa-se então um período de árduas e prolongadas crises sucessivas.[12][13][11]

Com a queda do Império Merínida e a ascensão do Sultanato Oatácida, as situações sociopolíticas e económicas apenas pioraram. Marrocos não saiu da crise — de facto, entrou numa fase diferente e até mais profunda da mesma — havendo uma continuação da fragilização do poder central, agora sob uma dinastia com legitimidade mais limitada e menor capacidade coerciva fora dos centros urbanos do norte, sendo que no sul as autoridades locais eram vistas como as únicas com autonomia e legitimidade de negócio e diplomacia com os portugueses. Os Oatácidas tornaram-se, portanto, mais vulneráveis à pressão portuguesa.[10][7][14][15][16]

Ascensão dos Sádidas

Com o degradar do poder dos Oatácidas, surge na década de 1500, na região mais a sul, a Dinastia sádida, determinada a retirar o poder e influência aos portugueses, tomar o poder e restaurar o poder de Marrocos. Poder-se-á afirmar que houveram três principais razões para a reorganização das tribos do sul sobre a égide Sádida. Em primeiro lugar, e talvez o mais notável, a crescente expansão e força que os portugueses detinham na costa marroquina, e suas pretensas de se adentrarem para o interior alarmou os chefes e líderes locais, levando a procurar uma alternativa ao poder central. Em segundo lugar, as rotas comerciais, que eram uma importante percentagem da economia transariana, estavam agora a ser contestadas pelas alternativas do comércio marítimo europeu, mais eficiente, e por ataques de corsários cristãos. Os portugueses, principalmente, estavam focados em estabelecer rotas comerciais marítimas, e substituir as rotas terrestres, pela via marítima. Por último, os xarifes Sádidas temiam o crescimento do poder otomano na região, estando no seu apogeu, e demonstrando também interesse em influenciar e tomar todo o Magrebe. O Império Otomano, tendo apoiado os Oatácidas na tomada de poder anteriormente, pretendiam assim estabelecer um quase estado cliente do Império, aumentando a sua força e influência na região.[17][18][11]

Em setembro de 1554, após a batalha de Tédula, Maomé Axeique, vence decisivamente e destrona os Oatácidas, fundando assim o Sultanato Sádida de Marrocos. Maomé Axeique teve três filhos — Abedalá Algalibe, Mulei Maluco e Amade Almançor — todos eles demonstrando, desde tenra idade, uma excelente aptidão e potencial para estadistas. No entanto, com a morte de Maomé Axeique, assassinado pelos otomanos em 1557, o seu filho mais velho assume o trono. Este, iria governar o sultanato durante dezassete anos, consolidando as conquistas do seu antecessor e impedindo uma restauração Oatácida, e defendendo o reino dos portugueses, espanhóis e otomanos. Com a sua ascensão ao trono, os seus irmãos mais novos, tinham-se refugiado em Argel (na altura parte do Império Otomano), de modo a escapar à purga de todos os rivais. Daí, foram acolhidos pelos otomanos, onde foram educados e por viagens no Império, ganharam grande experiência, tanto militar como administrativa e política. Mulei Moluco foi à capital otomana em julho de 1571 e, em seguida, com seu irmão Amade Almançor, ingressam ao serviço dos otomanos, tendo servido na Batalha de Lepanto, e na Conquista de Túnis.[16][7][10][19]

Crise sucessória do Sultanato

Miniatura otomana representando a conquista de Marrocos sob o comando do governador otomano de Argel, Ramazã Paxá

No entanto, com a morte de Abedalá Algalibe em 1574, e a sucessão por seu filho Maomé Almotauaquil, não consensual, a dinastia Sádida entrou na sua primeira crise. Após destacarem-se nas campanhas contra os cristãos, Mulei Maluco visitou Constantinopla novamente e obteve do novo governante otomano Murade III, que procura expandir a influência otomana em Marrocos, um acordo para ajudá-lo a recuperar militarmente o trono. Caso vencesse, Mulei Moluco tomaria o trono do Sultanato de Marrocos para si, em troca de se declarar vassalo dos otomanos, e da paga de quantias avolumadas de capital, juntamente com o arrendamento do porto de Larache aos otomanos, permitindo a estes terem uma base no atlântico para a pirataria e corso contra os cristãos.[20][21][22][23]

Em 1576, Mulei Maluco invade o Sultanato Sádida, com cerca de quinze mil homens, ganhando a Batalha de Fez e capturando de seguida a cidade. Depois, vence a Batalha de Rabat, e por fim a Batalha de Tarudante, destronando o seu sobrinho. Com isto, Mulei Moluco reconheceu Murade III como seu suserano, adotando os costumes otomanos na corte, e reorganizando o seu exército de acordo com os moldes otomanos (tropas regulares (guich), artilharia moderna, atiradores montados e infantaria com arcabuzes. Muitos soldados eram descendentes de andalusinos expulsos da Península Ibérica, tribos berberes como os Zwawa, além de turcos e ex-soldados otomanos), tornando-se, de facto, num estado cliente deste.[24][23]

Exílio de Maomé Almotauaquil e proposta a Portugal

Com a sua derrota e tomada do poder por seu tio Mulei Moluco, Maomé Almotauaquil procurou refúgio primeiramente em enclaves espanhóis no continente africano. Primeiramente, refugia-se no em Veléz de la Gomera, e tentou formar uma coligação espanhola e portuguesa de forma a tomar novamente o trono. Com isto, prometeu que, caso ganhasse o trono novamente, Maomé Almotauaquil entregaria a importante cidade e seu porto de Larache, Arzila, e outras importantes praças e territórios ao domínio da Coroa portuguesa, permitindo aos portugueses adentrarem-se no sertão marroquino. Fora isto, daria também tolerância maior a cristãos nos seus territórios, juntamente com permissão de missionários jesuítas de continuarem, se bem que com limitações, a operar em Marrocos. Isto foi visto com bons olhos por vários patrocinadores portugueses e por vários membros da corte portuguesa, que viam na pessoa de Maomé Almotauaquil um aliado útil na expansão e recuperação do domínio português no norte de África, coisa que já era pedido ao rei em cortes anteriores, mas que o mesmo não tinha acedido.[25][26]

Exemplo de um peito de couraça. Este era o tipo de armadura comum das Ordenanças portuguesas de final do século XVI

Exército português

Composição do exército e reformas Sebásticas

Sebastião I de Portugal

Durante o século XVI, é de se notar um crescente processo de renovação das práticas militares de ambos os reinos. Por um lado, em Portugal, a par com o sistema de terços espanhóis, D. João III e seu sucessor D. Sebastião, geraram profundas reorganizações no exército português, de modo a profissionalizarem, e melhor capacitarem o mesmo para os desafios futuros. No último quartel do século XVI português, a expectativa de uma intervenção militar despoletou um esforço institucional sem precedentes, que perdurou, praticamente inalterável, por quase cem anos. Este esforço foi acompanhado pela atualização do conhecimento militar, em especial no reinado de D. Sebastião.[27] Inicialmente, foram estabelecidas capitanias-mores no Porto e em Lisboa. As leis promulgadas contemplavam a normalização do armamento, passando pela fortificação costeira, a construção naval, e a centralização do recrutamento e enquadramento sistemático dos homens em companhias. A criação deste tipo de unidades militares teve o seu início oficial a 6 de Março de 1568 – ainda durante a regência do cardeal D. Henrique – com a criação, no Porto, de companhias com o efetivo de 300 homens, regime que se estendeu, ainda nesse mesmo ano, ao Oriente. Pouco depois, através do Regimento dos Capitães-mores e mais capitães, e officiais das companhias de gente de cavallo e de pé: e da ordem que teram em se exercitarem de 10 de dezembro de 1570, o Rei D. Sebastião regulamenta a Lei das Armas que cada pessoa he obrigada a ter... de 1569 e alarga a estrutura das ordenanças a todo o Reino, criando a base do que seria um exército verdadeiramente nacional. Reduziu-se o seu efetivo de 300 para 250 soldados, fixando definitivamente uma orgânica idêntica para todo o reino. Na prática, as chamadas “ordenanças militares sebásticas” resumiram todo o esforço levado a cabo desde a época de D. Manuel numa única série de diplomas publicados entre 1568 e 1574, que reestruturaram o poder militar do reino de acordo com um sistema único e coerente.[27][28]

Escultura de arcabuzeiro português do Reino do Benim (séc. XVII, Bode-Museum)
Morrião do século XVI. Este tipo de proteção era o mais comum nos exércitos hispânicos de final de século XV e XVI

A grande referência legislativa e organizacional do exército português durante o período sebástico, veio da experiência espanhola, da qual se adotaram muitos aspetos — o efetivo de cada companhia, por exemplo — mas o sistema que vigorava no Ducado de Saboia também influenciou significativamente as leis militares promulgadas por D. Sebastião. Esta é especialmente visível na periodicidade dos exercícios de campo, dos quais existem vários registos da participação de oficiais contratados naquele ducado. O rei esteve sempre profundamente comprometido com as reformas em curso, e seguiu de perto a sua implementação. Presenciou diversos exercícios entre 1570-72, e em 1573 deslocou-se ao Alentejo e Algarve, permitindo uma avaliação da situação no terreno: esta revelou-se um sucesso, com 122 companhias de ordenanças inspecionadas, correspondendo a mais de 20.000 homens. A realidade do cumprimento da legislação levou a alterações ao diploma inicial, e em 1574 fez publicar Providências à lei de 1570, pelas quais se procurou aligeirar o encargo das populações com os exercícios periódicos agravando, ao mesmo tempo, as penas pelo incumprimento das disposições do regimento, nomeadamente no que respeitava às faltas dos soldados ou inexistência de armas.[27]

Com a primeira expedição levada a cabo pelo rei em junho de 1574, às cidades de Tânger, e à recém devolvida Arzila, é feito o primeiro teste in situ do novo exército português reorganizado e reformado. Embora com o diminuto efetivo de quatro companhias de ordenanças, o batismo de fogo destes soldados – e, em particular dos seus oficiais – devia dar origem a um núcleo que havia de enquadrar o grosso dos efetivos a recrutar para outra expedição: essa já de objetivos alargados. Este havia de ter lugar num futuro próximo e, nas palavras do próprio rei, a expedição serviria para que esta gente: "[…] se exercitasse nesta guerra, e do exercício dela sairiam capitães e soldados experimentados com que melhor se pudesse prosseguir e fazer ao diante".[29]

Arcabuzeiros, uma das classes dos soldados dos terços, representado nas Tapeçarias de D. João de Castro, séc. XVI

Infantaria

Arcabuzeiros

Os terços portugueses, adaptados dos tercios espanhóis, eram compostos, como pelo nome indica, de três partes que formariam um todo: os arcabuzeiros, tropa com arcabuz (também apelidadas de espingardas de mecha, derivado do seu tipo de mecanismo de fogo) ou espingardas de alma lisa, os piques, tropa com lanças compridas ou alabardas, e espadachins, tropa com espadas.[30][31]

Os arcabuzeiro, em meados de século XVI, deixou de ser apenas um “especialista” ocasional para se tornar uma peça estrutural da infantaria portuguesa.[28]

Arcabuzes portugueses do século XVI (Legenda: A - primeiros arcabuzes portugueses, de inspiração boémia; B - arcabuz português para as Índias; C - arcabuz japonês, variante do arcabuz do Arsenal de Goa

Os arcabuzeiros portugueses do último quartel do século XVI representam, talvez melhor do que qualquer outra categoria, a tensão entre modernização militar e capacidade real de execução. Entre 1569 e 1574, o aparelho político tentou garantir que haveria um número suficiente de arcabuzeiros para as companhias de Ordenanças, e a doutrina militar da época valorizou a integração do fogo em mangas, protegidas por piques.[32]

A arma utilizada por estes soldados era apelidada comumente (e por vezes simultaneamente) de arcabuz, ou espingarda de mecha. O arcabuz do século XVI é, em regra, uma arma de fogo portátil de antecarga (carregada pela boca) e de alma lisa, em que a ignição é feita por uma mecha lenta presa numa serpentina (alavanca/“cão”) que, ao ser acionada, baixa a mecha acesa sobre a pólvora de isca na caçoleta, ou panela; a chama passa pelo ouvido, e inflama a carga principal dentro do cano.[29][31][32]

Soldados de terço de pique e lança (Paço Ducal de Vila Viçosa)

Piques (lanceiros ou alabardeiros)

Nos terços de matriz hispânica, o piqueiro era o núcleo de forma da infantaria: é com ele que se construía a companhia de ordenanças e é à volta dele que se organizam as mangas de fogo (arcabuzeiros/espingardeiros) para proteger, preparar e explorar o choque. O piqueiro constituía, portanto, o elemento estrutural fundamental da infantaria. Não se tratava apenas de um combatente armado com uma lança longa, mas do suporte físico, tático e disciplinar sobre o qual assentava toda a arquitetura do combate. A unidade de referência não era o indivíduo, mas o esquadrão, isto é, o bloco compacto de piqueiros cuja eficácia dependia inteiramente da coesão, da regularidade geométrica e da obediência rigorosa ao comando.[32]

O esquadrão de piques funcionava como uma verdadeira máquina de guerra coletiva, em que cada homem era uma peça integrada num sistema maior. A utilidade do pique não residia na perícia individual, mas na ação simultânea e ordenada de dezenas ou centenas de homens que apresentavam, em conjunto, uma frente contínua de pontas. A arma, pelo seu comprimento e manejo exigente, impunha disciplina corporal, alinhamento constante e consciência espacial rigorosa. Um piqueiro isolado era praticamente ineficaz; um esquadrão bem formado, pelo contrário, era capaz de deter cavalaria, resistir ao choque inimigo e avançar de forma coesa sobre infantaria adversária.[32]

Nos terços, o esquadrão de piqueiros assumia a função de âncora tática. Era em torno dele que se dispunham as mangas de arcabuzeiros e espingardeiros, que dependiam diretamente da proteção oferecida pelas fileiras cerradas de piques para poderem disparar e recarregar com alguma segurança. Assim, o sistema de “pique e fogo” não era uma justaposição de armas distintas, mas uma articulação funcional: o fogo desorganizava e enfraquecia o inimigo; o pique assegurava a estabilidade do dispositivo e impedia a sua ruptura durante os momentos de vulnerabilidade das armas de fogo.[32]

Além da função defensiva, o esquadrão de piques possuía também um papel ofensivo claro. Quando mantinha a ordem e a moral, podia avançar de forma compacta, exercendo pressão física e psicológica sobre o inimigo. Este avanço não visava tanto o combate individual quanto a ocupação progressiva do terreno, forçando o adversário a recuar ou a quebrar a formação. O sucesso deste movimento dependia de uma coordenação precisa: frentes iguais, intervalos fechados, comando audível e obediência imediata. Qualquer quebra na coesão (seja por terreno irregular, fadiga ou pânico), comprometia a eficácia do esquadrão e expunha toda a infantaria ao colapso.[32]

É por esta razão que a legislação militar e a tratadística portuguesa do período insistem repetidamente na ordem, no exercício e na geometria das formações. O esquadrão não era concebido como uma massa amorfa, mas como uma figura cuidadosamente construída, com profundidade e largura calculadas, capaz de rodar, avançar, deter-se e reformar-se segundo comandos pré-estabelecidos. O piqueiro, neste quadro, era simultaneamente combatente e elemento disciplinado de uma estrutura coletiva, cuja eficácia dependia mais da regularidade do conjunto do que da bravura individual.[32]

Espadachins

Nos terços portugueses do século XVI, a figura do espadachim ocupava um lugar funcionalmente distinto do piqueiro e do arcabuzeiro. Não constituía o núcleo da formação, nem representava o braço tecnológico do fogo, mas desempenhava um papel especializado de combate próximo, sobretudo em contextos de rutura da ordem, assalto, defesa de posições confinadas e exploração do contacto corpo a corpo. A sua presença nos terços deve ser compreendida como herança da infantaria tardo-medieval, adaptada a um novo sistema de guerra em que a coesão coletiva permanecia essencial, mas em que subsistiam momentos decisivos de combate individual e semi-individual.[32][27]

O espadachim era, em regra, um infante armado com espada, frequentemente acompanhado de adarga (escudo pequeno, de origem ibérica e norte-africana), embora o uso desta fosse progressivamente limitado no contexto dos terços mais “modernos”. A espada utilizada não correspondia ainda ao modelo de florete ou rapieira civil plenamente desenvolvido, mas sim a espadas de guerra de lâmina larga, aptas tanto ao corte como à estocada, robustas e eficazes em ambientes congestionados. Em muitos casos, coexistiam diferentes tipologias: espadas de uma mão e meia, espadas largas de infante e, progressivamente, rapieiras militares, sobretudo entre soldados com maior estatuto ou experiência.[32][27]

A operação do espadachim assentava numa lógica radicalmente distinta da do piqueiro. Enquanto este dependia da formação cerrada e da geometria coletiva, o espadachim atuava em espaço curto, explorando brechas, desorganização e proximidade física. O seu momento de relevância surgia quando o sistema “pique e fogo” deixava de funcionar plenamente: em choques confusos, em terrenos irregulares, em assaltos a posições fortificadas, ou quando a ordem das fileiras era quebrada. Nesses contextos, armas longas tornavam-se embaraçosas e as armas de fogo, lentas ou impraticáveis; a espada recuperava então a sua centralidade como instrumento decisivo.[27][32]

Nos terços, os espadachins não formavam, em regra, grandes blocos homogéneos comparáveis aos esquadrões de piques. A sua organização era mais fluida, sendo frequentemente integrados em companhias como uma fração dos homens armados “à espada”, ou destacados para funções específicas. Em modelos mais próximos da tradição hispânica, estes combatentes eram usados para defender os piqueiros em combate próximo, proteger os flancos em situações de contacto iminente ou avançar para limpar posições após o fogo inicial. A sua eficácia dependia menos da disciplina geométrica e mais da destreza individual, da coragem e da experiência.[32][27]

Artilharia

Peças de fogo portuguesas do século XVI feitas de bronze, presente no Pátio dos Canhões do Museu Militar de Lisboa (de notar que a maior peça, o famoso tiro de Diu, não é artilharia de campanha, mas sim, de fortaleza).[33][34]

A artilharia portuguesa, em finais do século XV e XVI, não era considerado apenas um serviço militar restrito, mas sim também como uma arte, ou ofício. A implementação por parte da coroa de alvarás de privilégio especificamente dedicados aos artilheiros tem a ver com a necessidade de existir permanentemente um bom número de especialistas para guarnecer as armadas e o serviço ultramarino.[33][35]

Carregamento de uma peça de campanha de bronze de antecarga

O artilheiro português do século XVI devia, portanto, saber fazer uso do prumo, do esquadro e do quadrante, saber como se regulavam as cargas, segundo a classe da boca-de-fogo, projéteis que devia empregar, modo de dirigir as pontarias segundo as distâncias; devia também conhecer os fogos de artifício então usados, e até o processo de fundição da artilharia.[35] A artilharia desta altura, dividia-se em dois grandes grupos de peças: as que executavam tiro direto (ou tiro tenso) e as que executavam tiro indireto (ou curvo). Dentro das primeiras, ter-se-ia as peças, relativamente à sua forma de carregar a peça: de antecarga, ou de retrocarga (mais usadas no ramo naval). As armas de campanha desta altura, seriam, as peças de alma seguida de comprimento médio ou grande (canhões, falcões, colubrinas ou basiliscos). A quase totalidade das mesmas, eram feitas de bronze, por ser um material mais dúctil e maleável que o ferro fundido, impedindo assim fraturas e roturas da câmara de fogo.[34]

Guerreiros tuaregues (amazigues), pintura de George Francis Lyon em 1821. Os guerreiros tuaregues do exército marroquino de finais de século XVI, assemelhar-se-iam a estes

Exército marroquino

No contexto do exército marroquino, a partir do primeiro quartel do século XVI assiste-se à crescente e progressiva introdução de novos meios e métodos de fazer a guerra. Destes destaca-se a proliferação de armas de fogo entre as populações (proveniente da Europa e de Argel, por exemplo), e pela mão dos andaluzes (descendentes dos expulsos da Península Ibérica aquando o édito de expulsão) e de renegados europeus. Apesar dos otomanos se apresentarem como os grandes campeões do Islão, a sua progressão pelo Mediterrâneo entrou em conflito com a vivência autónoma dos povos da ponta ocidental do Magrebe. O poder regional dos marroquinos foi um dos principais obstáculos à entrada da influência otomana mas também alguns grupos que se mostravam avessos a partilhar o protagonismo de que gozavam, como os “andaluzes”, que tinham usufruído do monopólio da fabricação e utilização da artilharia até ao último quartel do século XVI.[27]

Arcabuzeiros andaluzes e renegados cristãos ("elches") nos exércitos do Sultanato Sádida, por Jorge de Henin, Descripción (1615)

Apesar destes obstáculos, a preponderância da influência militar dos otomanos, tantas vezes vitoriosa no campo de batalha contra os cristãos, fez-se sentir desde cedo entre a elite militar da nova dinastia. O exército que Mulei Maluco levou a Alcácer Quibir contém os elementos fundamentais da ordem de batalha otomana. De um modo geral, é na criação de um núcleo de tropas permanentes com carácter regular que reside a principal influência otomana. No entanto, o exército sádida estaria longe de ser homogéneo na sua composição. Era constituído por soldados de diversas origens: Os “andaluzes” oriundos do antigo reino de Granada, os berberes “gazulas” (yazula) que habitavam a encosta saariana do Atlas, os “azuagos” (Zouaoua) e “xarracas” (sharquis) oriundos da região de Bejaia (actual Bougie) e do leste de Argel, respetivamente, e os renegados cristãos convertidos ao Islão de diversas origens (os “elches”).[27]

Infantaria

Andaluzes (ou Grenadinos)

Desde o Édito de Expulsão, os soldados andaluzes desempenharam um importante papel nos exércitos do Magrebe no primeiro quartel do século XVI. Em Fez, existia, por exemplo, uma oficina de metalurgia onde se fabricavam armas de fogo, bestas, espadas e peças de artilharia sob orientação de mestres armeiros andaluzes. Uns anos antes, sob domínio Oatácida, seriam, precisamente os andaluzes, exclusivamente os artilheiros dos sultões.[36]

Entre o ano de 1562-63, foram registados cerca de catorze mil andaluzes no exército sádida, que serviriam mediante um pagamento de soldo, perdendo, no entanto, espaço no exército para os renegados e cristãos livres e os turcos, acentuando-se após a batalha de Alcácer-Quibir.[37][38]

Renegados e cristãos livres

Os cronistas europeus asseguram que os renegados (elches) formavam o principal pilar do exército sádida. Estes, eram originalmente cristãos católicos ou protestantes que ter-se-iam convertido ao Islão. São apontados como os soldados mais competentes, a par dos andaluzes, dominando com igual mestria o manejo das armas de fogo. De mesma forma, gozavam da maior confiança dos sultões, integrando, juntamente com os turcos, a guarda pessoal do sultão.[37][36][39]

Os homens encarregados da segurança do sultão tinham necessariamente que ser cuidadosamente escolhidos. Maomé Axeique, primeiro sultão Sádida, tinha sido assassinado por dois turcos da sua guarda a soldo dos otomanos, e Mulei Maluco terá sido, com grande probabilidade, envenenado em consequência da conjura urdida pelos principais chefes andaluzes. Assim, no conjunto de todos os soldados mais reputados que serviam os sádidas, apenas os renegados pareciam merecer a confiança plena dos sádidas.[39]

Gazulas

Os gazulas (ou Igezulen, também chamados de Ibudraren) eram bereberes da tribo Ilalen recrutados no sul de Marrocos, na zona do Antiatlas. Esta tribo formava uma confederação mais extensa, cujo território se estendia até à província de Haha, na extremidade atlântica do Alto Atlas.[39]

Quando o irmão de Abedal Maleque, o futuro Almansor, sofreu uma emboscada na região de Tarudante em Julho de 1576, terá combatido contra os gazulas. Soldados deste mesmo grupo étnico ocuparam a primeira linha em Alcácer Quibir ao lado dos andaluzes, em quem, entretanto, já não se depositava a mesma confiança. A importância dos gazulas pode ter decrescido em virtude da “pouca experiência e sem esperanças para a guerra”, mas também pela desconfiança gerada pelo apoio prestado a Maomé Almotauaquil.[39]

Janízaros otomanos, presentes na guarda do sultão Mulei Moluco

Presença otomana

As indicações sobre a presença de uma força otomana acompanhando os marroquinos no campo de batalha variam entre as fontes, levando a algumas discordâncias entre os pesquisadores e historiadores modernos. Enquanto que alguns afirmam que a vitória sádida ocorreu sem qualquer interferência do exército otomano, outros afirmam que algumas fontes turcas modernas atribuem a vitória de 1578 a forças otomanas lideradas por Ramazã Paxá no campo de batalha (de salientar, no entanto, que estas fontes tendem a exagerar a história militar turca). No entanto, apesar da intervenção do exército otomano no campo de batalha ser contestado, é incontestável a presença de forças outrora otomanas, e com treino e formação militar de cunho otomano. Como por exemplo, os janízaros, força de elite do império otomano daquela época, presente na guarda do sultão e do seu séquito. Outros, no entanto, acabam mesmo por afirmar que houve, de facto, envolvimento do exército otomano na Batalha, e que o mesmo se demonstrou fundamental para a vitória sádida.[40][41][42][43][nota 2][44][7]

Com a reconquista de Tunis em 1574, aos Turcos faltaria apenas Marrocos para dominarem por completo o norte de África, ameaçando depois uma entrada na Península Ibérica

Por carta de D. Sebastião a João de Mendonça, em 1576, é visivelmente notória a preocupação do rei em impedir o avanço da influência e poder otomanos ao extremo oeste magrebino, receando que caso caia o Sultanato, se abrissem as portas a uma possível nova invasão da Península Ibérica por parte dos muçulmanos:

Não é somente para dar a posse daquele Reino ao tio do Xarife, mas principalmente com o fundamento de o fazerem tributário e vassalo do Turco, e o Turco se fazer Senhor de toda África, e de todos os portos de mar dela, tendo em cada uma delas muitas galés que lhes será fácil de pôr em efeito. Assim, pela natureza da mesma terra, como por seu grande poder, que quando assim acontecesse, o que Deus não permita, visto é quantos males sem remédio poderiam recrescer a toda Espanha, que da Cristandade se pode dizer que é hoje a melhor e maior parte, e com este intento queria que não somente cuidareis nesta matéria e a discorrereis para me nela dardes parecer e conselho no que farei e devo fazer (…).[45]

Referia-se assim à reconquista de Tunis em 1574 pelos Turcos, o que os tornara senhores de todo o norte de África, excetuando Marrocos, onde o poder se disputaria na Batalha de Alcácer-Quibir, apoiando Sebastião o lado do Xarife deposto, contra o seu tio Mulei Maluco, que contava com o apoio turco. Ainda não se passavam 100 anos da expulsão ibérica do Reino Nacérida de Granada, e temia-se reedição da antiga invasão muçulmana de 711.[45]

Cavalaria

Cavalaria Sádida, autoria de Jorge de Henin, Descripción (1614)

Os contingentes a cavalo sádidas dividem-se em dois grandes grupos: um integrado no exército regular, e outro, mais numeroso, de carácter de levantamentos feudais. O primeiro compreendia fundamentalmente os atiradores montados, com clavinas e outras armas de fogo adaptadas à cavalaria (visto, desde a primeira década do século XVI, os arqueiros montados terem sido definitivamente substituídos por este tipo de cavalaria com arma de fogo). No entanto, as primeiras referências a atiradores a cavalo datam de por volta de 1545.[nota 3][39]

O nome dado a esta cavalaria pelos escritores da altura, é de espaquis, spahis, ou espahis (variações da cavalaria otomanas, os Sipahi).[39]

Os arcabuzeiros montados eram comuns entre os europeus. Talvez por essa razão, os espaquis sádidas eram constituídos por renegados e andaluzes, mais acostumados com as práticas da guerra europeia.[39]

A grande maioria da cavalaria sádida organizava-se de forma semelhante ao sistema de recrutamento dos otomanos. Eram, portanto, forças recrutadas apenas apenas para a guerra, a partir de regiões específicas – comarcas – certamente abastecidos pelos representantes locais do xarife.[39]

Trata-se da cavalaria ligeira de tradição árabe, mas o facto de não utilizarem protecção corporal, não lhes diminuía o valor militar. Estes cavaleiros extremamente versáteis combatiam simulando a fuga para, inesperadamente, voltar ao combate, desgastando o inimigo e mantendo uma linha temporal quase contínua de fogo sobre este.[39]

Preparativos para a batalha

Sebastião empregara uma parte significativa da riqueza do império português para equipar uma grande frota e reunir um grande exército. Este incluía 2 mil voluntários de Castela (liderados por Alonso de Aguilar), 3 mil mercenários vindos da Alemanha e da Flandres (comandados por Martim da Borgonha) bem como 600 italianos inicialmente recrutados para ajudar uma invasão da Irlanda sob a liderança do inglês Thomas Stukeley, bem como o auxílio em armas e munições.

Fez-se o recrutamento do exército português, mas verificou-se alguma corrupção, o que fez com que o exército expedicionário, de cerca de 15 a 23 mil homens, fosse em parte pouco disciplinado, mal preparado, inexperiente e com pouca coesão. A elite do exército era composta pelos "aventureiros", nobres portugueses veteranos nas guerras de África e do Oriente, e pelos mercenários estrangeiros, veteranos das guerras do norte da Europa. A força expedicionária terá reunido também 500 navios.

Sebastião partiu de Lisboa a 25 de Junho de 1578, passou por Tânger, onde estava Maomé Almotauaquil, seguiu para Arzila e daqui para Larache, por terra, havendo quem preferisse que se fosse por mar, para permitir maior descanso às tropas e o necessário reabastecimento em víveres e água. Seguiram depois a caminho de Alcácer Quibir, onde encontraram o exército de Mulei Maluco, muito superior em número.

Campanha

Após incitar suas tropas das janelas da Igreja de Santa Maria, em Lagos, Sebastião partiu daquele porto com sua armada em 24 de junho de 1578.

Desembarcou em Arzila, no Marrocos Português, onde Maomé Almotauaquil juntou-se a ele com mais 6.000 mouros aliados, e ambos marcharam rumo ao interior.

Enquanto isso, Abedal Maleque I, que estava gravemente doente, reunira um grande exército, conclamando seus compatriotas à jiade contra os invasores portugueses. Os dois exércitos se aproximaram nas imediações de Alcácer-Quibir, acampando em lados opostos do Rio Lucos.

Batalha

Cena da batalha. Representação do século XIX
Alcácer-Quibir, rio Lucos. Foi entre este rio e o rio Mocazim que se deu a Batalha

Em 4 de agosto de 1578, as tropas portuguesas e os mouros aliados alinharam-se para a batalha, e Sebastião cavalgou entre as fileiras, encorajando os soldados. Os marroquinos avançaram numa frente ampla, com o objetivo de cercar o exército português.

O sultão dispunha de 10.000 cavaleiros nas alas e, no centro, posicionou mouros expulsos da Espanha, que guardavam profundo ressentimento contra os cristãos.[46] Apesar da doença, Abedal Maleque deixou sua liteira e liderou as tropas a cavalo.

A batalha teve início com a troca de várias salvas de fogo de mosquetaria e artilharia. Thomas Stukley, que comandava o centro português, foi morto por uma bala de canhão logo no início. A cavalaria marroquina avançou e começou a cercar o exército luso. As forças logo se engajaram em combate corpo a corpo.

As alas do exército português cederam diante da cavalaria moura, e o centro passou a ser ameaçado. Com as alas comprometidas e sem seu comandante principal, o centro perdeu o moral e foi derrotado.

Relato e Esquema da Batalha

Esquema da disposição das tropas de D. Sebastião em Alcácer-Quibir

Os relatos da batalha não foram uniformes, especialmente no que diz respeito ao que ocorreu depois de terminada a batalha, em que o rei Sebastião se retira e não há vitória declarada de qualquer lado, conforme consta em - Relação da Batalha de Alcácer que mandou um cativo ao Dr. Paulo Afonso,[47] onde se diz o seguinte:

Neste tempo vendo El Rei que estava na vanguarda o seu campo desbaratado, se veio recolhendo pela banda do Duque de Aveiro, e o seguiu alguma gente de cavalo e a pé, cuidando que ia fazendo uma ponta para volver sobre os mouros, viu o campo já tão desbaratado que se retirou. Durou a batalha quatro horas sem se declarar a vitória.

Nada mais se informa sobre o que ocorreu depois de terminarem esses combates. Apresenta-se logo de seguida um esquema da disposição das tropas de Sebastião (tendo previamente o cativo descrito detalhadamente a sua composição, e apontando Duarte de Menezes como "Mestre de Campo").

Desenlace

Após quase quatro horas de intensos combates, a batalha terminou com a derrota total dos portugueses e do exército de Maomé Almotauaquil, deixando cerca de 8.000 mortos — entre eles, grande parte da nobreza portuguesa. Cerca de 15.000 homens foram capturados e vendidos como escravos no norte da África, e apenas cerca de 100 conseguiram escapar até a costa. O corpo do rei Sebastião, que havia liderado uma carga contra o inimigo e foi cercado, jamais foi encontrado.[48]

O sultão Abedal Maleque morreu durante a batalha, provavelmente por causas naturais (o esforço de cavalgar teria sido excessivo), mas sua morte foi mantida em segredo até a vitória ser assegurada. Maomé Almotauaquil tentou fugir, mas morreu afogado no rio. Devido à morte de Sebastião, Maomé Almotauaquil e Abedal Maleque durante o combate, o confronto ficou conhecido no Marrocos como a Batalha dos Três Reis.

A batalha terminou após quatro horas de combate intenso com a completa derrota dos exércitos do rei Sebastião e Mulei Maomé, com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se incluem grande parte da nobreza portuguesa. Talvez 100 sobreviventes tenham escapado, com custo, do local da batalha.

Mulei Maomé, aliado dos portugueses, tentou fugir ao massacre em que a batalha se convertera mas morreu afogado ao atravessar o rio Mocazim. O sultão Mulei Maluco também morreu durante a batalha, mas de causas naturais, uma vez que o esforço da batalha foi demais para o seu estado debilitado por um envenenamento que sofrera. D. Sebastião, por sua vez, desapareceu liderando uma carga de cavalaria contra o inimigo, e seu corpo jamais foi encontrado. Nestas condições, o exército português, não obstante alguns atos de grande bravura, foi completamente dizimado. Apesar de na época se duvidar da morte do rei português, é muito provável que ele tenha perecido nesta batalha.

Entre os prisioneiros na batalha de Alcácer-Quibir estava o Prior do Crato António, que, conta-se, conseguiu a libertação com recurso à astúcia: quando lhe perguntaram o significado da cruz de S. João que usava, respondeu que era o sinal de uma pequena mercê que tinha obtido do papa e que a perderia se não voltasse até 1 de Janeiro. O seu captor, pensando que se tratava de um homem pobre, permitiu a sua libertação em troca de um pequeno resgate.

Consequências

As consequências desta batalha foram catastróficas para Portugal. Sebastião desaparecera, deixando como sucessor o seu tio-avô, o então Cardeal Henrique que morreu sem descendência dois anos depois. Assim se iniciou uma crise dinástica, ameaçando a independência de Portugal face a Espanha, pois um dos candidatos à sucessão era o seu tio, Filipe II de Espanha.

A disputa do trono português teve vários pretendentes: Catarina de Médici, rainha da França, que se dizia descendente de Afonso, Catarina, duquesa de Bragança e sobrinha do Cardeal Henrique; Emanuel Felisberto de Saboia, duque de Savoia e António de Portugal, Prior do Crato, ambos, sobrinhos do rei; Rainúncio de Parma e Filipe II. Filipe, efetivamente, ascendeu ao trono em 1580.

A maioria da nobreza portuguesa que participou na batalha, ou morreu ou foi feita prisioneira e todos os bispos e arcebispos nela presentes foram mortos. Para pagar os elevados resgates exigidos pelos marroquinos, o país ficou enormemente endividado e depauperado nas suas finanças.

Luís de Camões escreveu, numa carta a Francisco de Almeida, referindo-se ao desastre de Alcácer-Quibir, à ruína financeira da Coroa portuguesa e à independência nacional ameaçada: "Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela".

Na aldeia de Souaken, uma aldeia próxima do local da batalha, encontra-se um obelisco em memória de Sebastião e mais dois em memória dos outros dois reis. A batalha ainda hoje é conhecida em Marrocos como a "Batalha dos Três Reis".

Ver também

  • Lista de participantes na Batalha de Alcácer Quibir
  • "Puestos están, frente a frente"

Notas e referências

Notas

  1. Também grafada Alcácer-Quivir, al Qasr al-kibr, Alcazarquivir ou Alcassar
  2. "A Batalha dos Três Reis, nomeada após o rei de Portugal e os dois pretendentes ao sultanato saádida, ocorreu em Alcácer-Quibir em 4 de agosto de 1578. O pretendente saádida Abedal Maleque usou não apenas janízaros otomanos, mas também um contingente de muçulmanos andalusinos expulsos da Península Ibérica, que, segundo relatos, atacaram espanhóis e portugueses com especial vingança. Otomanos e saádidas também foram abastecidos com artilharia avançada." Fromherz, Allen (2012). Gates, Henry Louis, ed. Dictionary of African Biography (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. p. 313.
  3. Apesar de não ter um paralelo direto em termos de armamento, pois no caso otomano consistiam em cavalaria couraçada, trata-se do mesmo tipo de recrutamento assalariado.

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Ligações externas