Pontifícia Academia das Ciências

Pontifícia Academia das Ciências

Pontificia Academia Scientiarum
Academia
Pontifícia Academia das Ciências
A entrada da academia.
Informações Gerais
Competência Promover o progresso da matemática, da física e das ciências naturais e o estudo dos problemas epistemológicos relacionados.
Ereção canônica 1603
Mudança de nome 1847; 1936
Liderança
Presidente:
Joachim von Braun
Vice-responsável Chanceler: Peter Turkson
Vice-Chanceler: Dario Edoardo Viganò
Eméritos Presidente Emérito: Werner Arber
Chanceler Emérito: Marcelo Sánchez Sorondo
Localização
Sede Casina Pio IV, 00120 Cidade do Vaticano
Coordenadas 🌍
Sítio oficial
www.pas.va/en.html

A Pontifícia Academia das Ciências (Pontificia Academia Scientiarum) é uma academia pontifícia fundada em Roma, em 1603,[1] com o nome de Academia dos Linces por Frederico Cesi e foi a primeira academia científica do mundo.[2] Galileu Galilei foi um de seus membros.[1] Juntamente com a Accademia Nazionale dei Lincei, é herdeira da original Academia dos Linces; a atual instituição foi refundada em 1847 e assumiu este nome no ano 1936, durante o pontificado do papa Pio XI.[1][3]

Hoje, conta com cerca de 80 "acadêmicos pontifícios", nomeados pelo papa, sob indicação do corpo acadêmico, sem nenhum tipo de discriminação.[4] Muitos dos cientistas-membros, provenientes de todo o mundo, não são católicos.[3] Promover o progresso da matemática, da física e das ciências naturais, o estudo dos problemas epistemológicos relacionados, a pesquisa e examinar questões científicas de interesse da Igreja são objetivos da Academia.[3]

Desde 1936 a Academia tem adquirido cada vez mais caráter internacional.[1] Sempre mantendo seu interesse pelos diferentes ramos da ciência, ela sublinha a importância da cooperação interdisciplinar. No mundo é a única academia de ciências a ter uma única categoria e um caráter supranacional.[4] Atualmente a Academia, além de se interessar pela pesquisa científica, preocupa-se com os problemas notadamente ligados à ética da responsabilidade ambiental da comunidade científica.[5]

A Academia concede a cada dois anos a Medalha Pio XI a um jovem cientista de reputação internacional.[4] Possui ainda a reputação de ser a assembleia que conta com o maior número de membros laureados com prêmio Nobel, sendo que foram majoritariamente escolhidos como membros da Academia bem antes de serem premiados.[6]

Tem sede na "Casina Pio IV",[1] um tesouro da arquitetura do século XVI, construído em 1561 para servir de residência de verão do Papa Pio IV, nos Jardins Vaticanos.[3]

Quadro histórico

Nas intenções originais do fundador Frederico Cesi, os membros da Academia dos Linces deviam praticar um método de pesquisa baseado na observação, na experimentação e no procedimento indutivo.[2] Por isso foi denominada Academia "dos Linces": para indicar que os seus membros teriam olhos aguçados como os da lince, com o fim de penetrar os segredos da natureza, observando-a tanto a nível microscópico como macroscópico.[1]

Figura proeminente da primeira academia foi Galileu Galilei.[1] Pouco após a morte do seu fundador, porém, dissolveu-se.

Em 1847 foi reconstituída pelo papa Pio IX com o nome Academia Pontifícia dos Novos Linces e foi refundada em 1936 pelo papa Pio XI que lhe deu o nome atual, enquanto o Estado italiano constituía a Academia da Itália, que em 1939 englobava a Academia dos Linces.[1] Subsequentemente, os seus estatutos foram atualizados pelo papa Paulo VI em 1976 e pelo papa João Paulo II em 1986.[7]

A partir de 1936 a Pontifícia Academia das Ciências abrangeu tanto as pesquisas sobre temas científicos específicos pertencentes a disciplinas definidas, como a promoção de cooperações interdisciplinares.[1] O número dos acadêmicos e o caráter internacional da sua composição foram crescendo. A academia é um corpo independente no âmbito da Santa Sé e goza da liberdade de pesquisa.[4] Nos estatutos de 1976 afirma-se que "tem como finalidade a promoção do progresso das ciências matemáticas, físicas e naturais e o estudo das questões e dos temas epistemológicos relacionados."[3]

Atividades da academia

A academia e a pertença a ela não são influenciadas por fatores de caráter nacional, político ou religioso; ela representa uma válida fonte de informação científica objetiva disponibilizada à Santa Sé e à comunidade científica internacional.[3] Atualmente a atividade da academia abrange seis áreas principais:[3]

  1. ciência fundamental,
  2. a ciência e a tecnologia requeridas por questões e temas globais,
  3. ciência útil para os problemas do Terceiro Mundo,
  4. ética e política da ciência,
  5. bioética,
  6. epistemologia.

As disciplinas envolvidas são repartidas em nove campos: disciplinas da física e disciplinas conexas; astronomia; química; ciências da terra e do ambiente; ciências da vida (botânica, agronomia, zoologia, genética, biologia molecular, bioquímica, neurociências, cirurgia); matemática; ciências aplicadas; filosofia e história das ciências.[7]

Os membros da academia são eleitos pelo corpo dos acadêmicos entre homens e mulheres de qualquer etnia e religião, com base no valor científico das suas atividades e do seu perfil moral (art. 5 do estatuto).[4] Eles são depois nomeados oficialmente pelo pontífice. A academia é governada por um presidente, nomeado entre os seus membros pelo papa, coadjuvado por um conselho científico e por um chanceler.[8] Inicialmente era formada por 80 acadêmicos, 70 dos quais nomeados vitaliciamente; em 1986 João Paulo II aumentou para 80 o número dos membros vitalícios e estabeleceu que ao seu lado se tenha um número limitado de acadêmicos honorários escolhidos por serem personalidades altamente qualificadas, e outros com a qualificação de acadêmicos por motivo das posições que ocupam, incluindo: o chanceler da academia, o diretor do Observatório do Vaticano, o prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana e o prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano.[7]

Em 26 de outubro de 1996, por ocasião do papa João Paulo II do enunciado sobre a evolução à Pontifícia Academia das Ciências, 26 dos 80 membros da mesma eram vencedores do prêmio Nobel.[9]

Em 1972, pela primeira vez, foi nomeado um presidente leigo, Carlos Chagas Filho.[8]

Os atos eram coletados nos Acta Pontificiae Academiae Scientiarum.[4]

Fins e auspícios da academia

A Aula Magna

Os objetivos e as expectativas da academia foram expressos pelo papa Pio XI no motu proprio que emitiu para a sua refundação em 1936:[7]

"Entre as muitas consolações com as quais a benignidade divina acompanhou o curso do Nosso Pontificado, Nos apraz enumerar também esta: ou seja, que pudemos constatar como não poucos, entre aqueles que investigam experimentalmente os segredos da natureza, mudaram tão profundamente a sua posição mental no que concerne à religião, a ponto de resultarem completamente renovados. A ciência, quando é verdadeiro conhecimento do real, nunca contrasta com as verdades da fé cristã; ao contrário, antes, - como não poderá deixar de confirmar quem tenha consultado os anais das ciências - os Romanos Pontífices, juntamente com toda a Igreja, sempre favoreceram a pesquisa dos cientistas também nas matérias experimentais, de modo que estas disciplinas consolidaram o caminho para defender o tesouro da verdade celeste, em favor da própria Igreja.... Da Nossa parte há também a motivada esperança de que os Acadêmicos Pontifícios, também graças a este Nosso e seu Instituto de pesquisa, prossigam cada vez mais amplamente no incremento do avanço das ciências; e nada mais pedimos senão que com este excelso propósito e com a excelência do empenho resplandeça a dedicação daqueles que servem a verdade, que a eles mesmos pedimos." (Pio XI)[10]

Quarenta anos depois, em 10 de novembro de 1979, o papa João Paulo II enfatizou mais uma vez o papel e os escopos da academia, por ocasião do centenário do nascimento de Albert Einstein:[11]

"...A existência desta Pontifícia Academia das Ciências, da qual na sua mais antiga ascendência foi sócio Galileu e da qual hoje fazem parte eminentes cientistas, sem qualquer forma de discriminação étnica ou religiosa, é um sinal visível, elevado entre os povos, da harmonia profunda que pode existir entre as verdades da ciência e as verdades da fé.... a Igreja de Roma juntamente com todas as Igrejas espalhadas pelo mundo, atribui grande importância à função da Pontifícia Academia das Ciências. O título de Pontifícia atribuído à Academia significa, como sabeis, o interesse e o empenho da Igreja, em formas diferentes do antigo mecenato, mas não menos profundas e eficazes.... Como poderia a Igreja desinteressar-se da mais nobre das ocupações estritamente humanas: a pesquisa da verdade?"
"....Tanto os cientistas crentes como os não crentes estão envolvidos em decifrar o palimpsesto da natureza que foi construído de modo tão complexo, onde as pegadas dos diversos estágios da longa evolução do mundo foram cobertas ou misturadas entre si. O crente tem a vantagem de saber que este puzzle tem uma solução, que em última análise está em jogo fundamentalmente a obra de uma entidade inteligente, e que os problemas interpostos pela natureza foram colocados para serem resolvidos e que a sua dificuldade é sem dúvida proporcional às capacidades humanas presentes e futuras. Isto, talvez, não lhe dará novos recursos para as pesquisas em curso, mas contribuirá para mantê-lo otimista, condição necessária para manter a longo prazo o esforço da pesquisa." (João Paulo II)[11]

Membros da Academia

A Academia conta com 80 membros, homens e mulheres, de diferentes países e religiões, que prestam uma contribuição marcante nos seus domínios de atividade científica.[4] São nomeados pelo Papa após terem sido eleitos pelos outros acadêmicos.[4]

  • Etiópia Zeresenay Alemseged (Paleoantropologia, Evolução Humana, 2021)[12]
  • Suíça Werner Arber (Microbiologia, Evolução Biológica, 1981)[12]
  • Estados Unidos Frances Arnold (Engenharia Química, Bioengenharia, Bioquímica, Química, 2019)[12]
  • Brasil Vanderlei Salvador Bagnato (Física e Engenharia de Ciência dos Materiais, 2012)[12]
  • Argentina Antonio M. Battro (Estudo Neuro-desenvolvimental da Cognição, 2002)[12]
  • Reino Unido David Baulcombe (Genética, Botânica, Virologia, 2020)[12]
  • Estados Unidos Robert Eric Betzig (Química, 2016)[12]
  • Estados Unidos Helen M. Blau (Biologia de Células-Tronco e Medicina Regenerativa, 2017)[12]
  • Bélgica Thierry Boon-Falleur (Biologia, 2002)[12]
  • Alemanha Joachim von Braun (Alimentos, Nutrição e Pesquisa Agrícola, Desenvolvimento e Pobreza, 2012)[12]
  • Argentina Luis Caffarelli (Matemática, 1994)[12]
  • França Emmanuelle Charpentier (Microbiologia, 2021)[12]
  • República da China Chien-Jen Chen (Epidemiologia, Saúde Pública e Genética Humana, 2021)[12]
  • Estados Unidos Steven Chu (Física, 2018)[12]
  • Israel Aaron Ciechanover (Bioquímica, 2007)[12]
  • Argélia Claude Cohen-Tannoudji (Física Atômica e Molecular, 1999)[12]
  • Estados Unidos Francis Collins (Genética, 2009)[12]
  • Austrália Suzanne Cory (Biologia Molecular, 2004)[12]
  • Estados Unidos Edward M. De Robertis (Biologia, 2009)[12]
  • França Stanislas Dehaene (Psicologia Cognitiva Experimental, 2008)[12]

Membros honorários

  • França Jean-Michel Maldamé, O.P. (1997-)[4]

Membros perdurante munere

  • Gana Chanceler da Academia: Peter Turkson (2022-)[8]
  • Estados Unidos Diretor do Observatório do Vaticano: Guy Joseph Consolmagno, SJ (2015-)[4]
  • Itália Prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana: Cesare Pasini (2007-)[4]
  • Itália Prefeito dos Arquivo Apostólico Vaticano: Sergio Pagano, B. (1997-)[4]

Membros prêmio Nobel

Por muitas décadas de atividade a Academia tem tido vencedores do Prêmio Nobel entre os seus membros, vários deles foram indicados membros acadêmicos antes de receberem este prêmio de prestígio internacional. Dentre estes se incluem:[6]

  • Christian B. Anfinsen (Química, 1972)
  • Edward Victor Appleton (Física, 1947)
  • Werner Arber (Fisiologia ou Medicina, 1978)
  • Frances Hamilton Arnold (Química, 2018)
  • David Baltimore (Fisiologia ou Medicina, 1975)
  • Gary Stanley Becker (Economia, 1992)
  • Paul Berg (Química, 1980)
  • Sune K. Bergström (Fisiologia ou Medicina, 1982)
  • Robert Eric Betzig (Química, 2014)
  • Günter Blobel (Fisiologia ou Medicina, 1999)
  • Aage Bohr (Física, 1975)
  • Niels Bohr (Física, 1922)
  • Alexis Carrel (Fisiologia ou Medicina, 1912)
  • James Chadwick (Física, 1935)
  • Emmanuelle Charpentier (Química, 2020)
  • Steven Chu (Física, 1997)
  • Aaron Ciechanover (Química, 2004)
  • Claude Cohen-Tannoudji (Física, 1997)

Outros eminentes acadêmicos incluem o Padre Agostino Gemelli (1878-1959), fundador da Universidade Católica do Sagrado Coração e presidente da Academia depois da sua re-fundação até 1959, e Mons. Georges Lemaître (1894-1966), um dos pais da cosmologia contemporânea que exerceu o cargo de presidente de 1960 a 1966 e o brasileiro neurocientista Carlos Chagas Filho.[2]

Cronologia

Presidentes

  • Agostino Gemelli, O.F.M. (1936 – 15 de julho de 1959 falecido)[8]
  • Georges Lemaître (19 de março de 1960 – 20 de junho de 1966 falecido)[8]
  • Daniel O'Connell, S.J. (15 de janeiro de 1968 – 15 de janeiro de 1972)[8]
  • Carlos Chagas Filho (9 de novembro de 1972 – 30 de outubro de 1988)[8]
  • Giovanni Battista Marini Bettolo Marconi (31 de outubro de 1988 – 29 de março de 1993)[8]
  • Nicola Cabibbo (30 de março de 1993 – 16 de agosto de 2010)[8]
  • Werner Arber (20 de dezembro de 2010 – 20 de junho de 2017)[8]
  • Joachim von Braun (21 de junho de 2017 –)[8]

Chanceleres

  • Pietro Salviucci (28 de outubro de 1936 – 31 de dezembro de 1973)[8]
  • Carlo Enrico Di Rovasenda, O.P. (3 de abril de 1974 – 31 de dezembro de 1986)[8]
  • Renato Dardozzi (30 de janeiro de 1995 – 30 de junho de 1997 retirado)[8]
  • Giuseppe Pittau, S.J. (1º de julho de 1997 – 4 de outubro de 1998)[8]
  • Marcelo Sánchez Sorondo (5 de outubro de 1998 – 5 de junho de 2022 retirado)[8]
  • Peter Turkson (6 de junho de 2022 –)[8]

Bibliografia

  • (em inglês) Marcelo Sánchez Sorondo.[13]
  • Os papas e a ciência na época contemporânea, AA.VV., a cura de Marcelo Sánchez Sorondo (com uma prefácio de Nicola Cabibbo), Jaca Book, 24 de abril de 2009[13]

Ligações relacionadas

  • Observatório do Vaticano
  • Pontifícia Academia das Ciências Sociais
  • Pontifícia Academia de Teologia
  • Pontifícia Academia de Latinidade

Referências

  1. a b c d e f g h i «History». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  2. a b c «Pontifical Academy of Sciences». mathshistory.st-andrews.ac.uk. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  3. a b c d e f g «Pontifical Academy of Sciences - Index». vatican.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  4. a b c d e f g h i j k l «About». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  5. «The Pontifical Academy of Sciences». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  6. a b «Nobel Laureates». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  7. a b c d «Pontifical Academy of Sciences». inters.org. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  8. a b c d e f g h i j k l m n o p q «Governance». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  9. «Mensagem à Pontifícia Academia das Ciências sobre a evolução». vatican.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  10. «Inter praeclaras (Pio XI)». vatican.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  11. a b «To the Pontifical Academy of Sciences». vatican.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  12. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t «Ordinary Academicians». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 
  13. a b «Publications». pas.va. Consultado em 14 de novembro de 2025 

Ligações externas

1847-48 (Tomo I, Ano 1)
1852-53 (Tomo VI, Ano 6)
1858-59 (Tomo XII, Ano 12)
1863-64 (Tomo XVII, Ano 17)
1871 (Tomo XXIV, Ano 24)
1871-72 (Tomo XXV, Ano 25)
1872-73 (Tomo XXVI, Ano 26)
1873-74 (Tomo XXVII, Ano 27)
1874-75 (Tomo XXVIII, Ano 28)
1875 (Tomo XXIX)