Joseph Liouville

Joseph Liouville
Nascimento24 de março de 1809
Saint-Omer
Morte8 de setembro de 1882 (73 anos)
Paris
SepultamentoCemitério do Montparnasse
NacionalidadeFrancês
CidadaniaFrança
Filho(a)(s)Marie Liouville
Irmão(ã)(s)Félix Liouville
Alma materÉcole Polytechnique
Ocupaçãomatemático, político, engenheiro, professor, cientista, professor universitário, astrônomo
Distinções
  • Comendador da Legião de Honra (1879)
  • Membro Estrangeiro da Royal Society (1850)
  • Oficial da Legião de Honra (1861)
Empregador(a)Escola Politécnica, Collège de France, Journal de Mathématiques Pures et Appliquées, Collège de France, Faculdade de Ciências de Paris, Bureau des Longitudes
Orientador(a)(es/s)Siméon Denis Poisson e Louis Jacques Thénard
Tese1836: Sur le développement des fonctions ou parties de fonctions en séries de sinus et de cosinus, dont on fait usage dans un grand nombre de questions de Mécanique et de Physique, suivi de Sur la figure d'une masse fluide homogène en équilibre, et douée d'un mouvement de rotation
Obras destacadaslist of things named after Joseph Liouville

Joseph Liouville (Saint-Omer, Pas-de-Calais, 24 de março de 1809 — Paris, 8 de setembro de 1882) foi um matemático francês.

Carreira

Frequentou a École Polytechnique (Escola Politécnica) de 1825 a 1827. Em seguida, começou a frequentar a École Nationale des Ponts et Chaussées, mas não chegou a se licenciar por razões de saúde e por estar mais interessado em seguir uma carreira académica do que uma de engenheiro. Doutorou-se em matemática em 1836 pela Faculdade de Ciências de Paris.[1]

Foi assistente na École Centrale de Paris de 1831 a 1833 e professor de 1833 a 1838, ano em que foi nomeado professor da Escola Politécnica. Em 1850 foi nomeado professor no Collège de France e, em 1857, professor de mecânica clássica na Faculdade de Ciências de Paris. Em 1870 foi eleito presidente da Académie des Sciences, da qual era membro desde 1839 e vice-presidente desde 1869.[1]

Liouville fundou o Journal de Mathématiques Pures et Appliquées (que, por isso, é também conhecido por Journal de Liouville), onde fez publicar, em 1846, os trabalhos de Galois, de cuja importância foi o primeiro a aperceber-se.[1]

Embora tenha trabalhado em todas as áreas da matemática pura e aplicada, é sobretudo conhecido por:[1]

  • o teorema de Liouville (que, ironicamente, é da autoria de Cauchy);
  • ter sido o autor da primeira demonstração da existência de números transcendentes;
  • ter sido a primeira pessoa a demonstrar que certas funções não têm primitivas elementares (exp(x2), por exemplo);
  • ter divulgado os trabalhos de Galois.

Está sepultado no Cemitério do Montparnasse.[2]

Contribuições

Análise, álgebra e teoria dos números

Página de rosto do primeiro volume do Journal de Mathématiques Pures et Appliquées em 1836.

Em uma série de artigos em 1833, Liouville estabeleceu a existência de integrais não elementares e um critério para integração em termos finitos, isto é, em termos de funções elementares.[1][3]

Em 1838, Liouville publicou um método para estabelecer a existência de soluções para equações diferenciais ordinárias de segunda ordem envolvendo aproximações sucessivas, posteriormente associado ao nome de Émile Picard, que apresentou uma abordagem mais geral no início da década de 1890.[4]

Em álgebra, Liouville foi um dos primeiros a reconhecer a importância das contribuições do falecido Évariste Galois, cujo trabalho lhe foi encaminhado por Auguste Chevalier, amigo de Galois.[5] Liouville editou e publicou a obra de Galois em seu próprio periódico em 1846, após o que a Teoria de Galois atraiu a atenção de muitos matemáticos, entre eles Paolo Ruffini, Joseph-Alfred Serret e Augustin-Louis Cauchy.[4]

As pesquisas sobre soluções de equações algébricas estimularam o interesse em números irracionais algébricos e transcendentes.[4] Em 1844,[6] Liouville foi o primeiro a provar a existência de números transcendentes. Fez isso demonstrando alguns resultados sobre a aproximação de irracionais algébricos por números racionais e estabelecendo uma desigualdade que serviu como critério de transcendência.[4] Em seguida, forneceu um exemplo explícito. Demonstrou que qualquer número da forma

em que os são inteiros de 0 a 9, é transcendente.[4]

A função de Liouville, um conceito importante na teoria dos números, recebeu seu nome em sua homenagem.

Em seu trabalho sobre integrais elípticas, Liouville fundamentou todo o assunto nas propriedades gerais das funções duplamente periódicas e demonstrou a transcendência das funções abelianas. Foi nesse contexto que ele descobriu o teorema de Liouville em análise complexa: funções inteiras limitadas são constantes.[1] Um resultado análogo é o teorema de Liouville para funções harmônicas, ou soluções da equação de Laplace, que afirma que funções harmônicas limitadas no espaço euclidiano são constantes. Edward Nelson apresentou uma demonstração curta em 1961, explorando a propriedade do valor médio das funções harmônicas.[7]

Física matemática

Desde meados do século XVIII, matemáticos e físicos estudavam diversas equações diferenciais parciais com valores de contorno, utilizando a separação de variáveis para reduzi-las a sistemas de equações diferenciais ordinárias, as quais carregavam seus próprios parâmetros. As soluções encontradas para valores específicos desses parâmetros, denominados autovalores, eram conhecidas como autofunções. A separação de variáveis em diferentes sistemas de coordenadas levou a novas funções especiais, como as funções de Bessel e os polinômios de Legendre, como autofunções de equações diferenciais ordinárias.[4] Liouville e seu amigo Jacques Charles François Sturm buscaram tratar o problema geral para qualquer equação diferencial linear de segunda ordem. Em uma série de artigos publicados na década de 1830, os dois estabeleceram a Teoria de Sturm-Liouville.[4] Atualmente, ela constitui um procedimento padrão para resolver certos tipos de equações integrais. O trabalho de ambos foi inspirado pela análise da difusão de calor em um cilindro realizada por Jean-Baptiste Joseph Fourier.[8] Em sua formulação original, a teoria de Sturm-Liouville não era totalmente rigorosa, pois não tratava adequadamente a completude do conjunto de autofunções (ou conjunto de base ortogonal) nem a convergência da solução em relação à expansão em termos das autofunções.[4]

Independentemente de Niels Henrik Abel, Liouville estudou equações integrais especiais e empregou um método de substituições sucessivas, antecipando Carl Neumann por algumas décadas. Contudo, suas contribuições nesse domínio foram posteriormente absorvidas pelo trabalho de Vito Volterra, pioneiro da teoria geral das equações integrais.[4]

Em 1837,[9] Liouville buscou soluções aproximadas para equações diferenciais lineares de segunda ordem com coeficientes espacialmente variáveis e obteve, em linguagem moderna, uma série assintótica.[4] George Green descobriu independentemente essa técnica no mesmo ano, em um artigo sobre ondas em um canal.[10] O método de Liouville-Green foi redescoberto em 1923 por Harold Jeffreys,[11] e novamente em 1926 por Gregor Wentzel, Hans Kramers e Léon Brillouin, que estudavam a Equação de Schrödinger da mecânica quântica.[4]

Animação ilustrando o teorema de Liouville para o movimento harmônico simples. A área do retrato do espaço de fase é constante.

Liouville provou, em um artigo de 1838 sobre equações diferenciais,[12] que o volume do espaço de fase de um sistema mecânico conservativo é constante, resultado hoje conhecido como teorema de Liouville na mecânica hamiltoniana.[1] Seguindo Josiah Willard Gibbs, o teorema de Liouville é reconhecido como um resultado fundamental da mecânica estatística.[13] Em um contexto relacionado, Liouville introduziu a noção de coordenadas ação-ângulo como descrição de sistemas completamente integráveis. A formulação moderna disso é às vezes chamada de teorema de Liouville-Arnold, e o conceito subjacente de integrabilidade é referido como integrabilidade de Liouville.

Em seu estudo de eletrodinâmica, Liouville desenvolveu a Integral de Riemann-Liouville para considerar diferenciação e integração de ordem fracionária.[14]

Ele também estudou as formas de massas de fluido em rotação em equilíbrio e a teoria do potencial.[1]

Seus manuscritos não publicados indicaram que ele já conhecia o Método de Rayleigh-Ritz para aproximação dos autovalores de um problema de valor de contorno já em 1845, décadas antes de William Strutt (Lord Rayleigh) introduzi-lo em sua obra Theory of Sound (1877).[1]

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Smithies, Frank (outubro de 1991). «Joseph Liouville 1809-1882: master of pure and applied mathematics, by Jesper Lützen. Pp 884. DM228. 1990. ISBN 3-540-97180-7 (Springer)». The Mathematical Gazette (em inglês). 75 (473): 372–373. ISSN 0025-5572. doi:10.2307/3619531
  2. Jesper Lützen. Joseph Liouville (1809–1882): Master of pure and applied mathematics. Página 259.
  3. Dunham, William (2005). The Calculus Gallery. [S.l.]: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-13626-4
  4. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Kline, Morris (1972). Mathematical Thought from Ancient to Modern Times. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 0-19-506136-5
  5. Ehrhardt, Caroline (agosto de 2011). «A quarrel between Joseph Liouville and Guillaume Libri at the French Academy of Sciences in the middle of the nineteenth century». Historia Mathematica. 38 (3): 389-414. doi:10.1016/j.hm.2011.02.002
  6. Joseph Liouville (maio de 1844). «Mémoires et communications». Comptes rendus de l'Académie des Sciences (em francês). 18 (20,21): 883–885,910–911
  7. Nelson, Edward (1961). «A proof of Liouville's theorem». Proceedings of the American Mathematical Society. 12 (6). 995 páginas. doi:10.1090/S0002-9939-1961-0259149-4
  8. Grattan-Guinness, Ivor (maio de 1973). «More Recent Mathematics: Mathematical Thought from Ancient to Modern Times, Morris Kline». Science. 180 (4086): 627-8. doi:10.1126/science.180.4086.627
  9. Liouville, Joseph (1837). «Sur le développement des fonctions et séries». Journal de Mathématiques Pures et Appliquées. 1: 16–35
  10. Green, George (1837). «On the motion of waves in a variable canal of small depth and width». Transactions of the Cambridge Philosophical Society. 6: 457–62
  11. Jeffreys, Harold (1923). «On Certain Approximate Solutions of Linear Differential Equations of the Second Order». Proceedings of the London Mathematical Society. s2-23: 428-436. doi:10.1112/plms/s2-23.1.428
  12. Liouville, Joseph (1838). «Sur la Theorie de la Variation des constantes arbitraires» (PDF). Journal de mathématiques pures et appliquées. 3: 342–349
  13. Tolman, Richard C. (2010). The Principles of Statistical Mechanics. [S.l.]: Dover Publications. ISBN 978-0-486-63896-6
  14. Lützen, Jesper (1985). «Liouville's differential calculus of arbitrary order and its electrodynamical origin». Icelandic Mathematical Society. Proceedings of the 19th Nordic Congress Mathematicians: 149–160

Bibliografia

  • Jesper Lützen (1990). Joseph Liouville (1809–1882): Master of pure and applied mathematics. Nova Iorque: Springer-Verlag. ISBN 3-540-97180-7 

Ligações externas

  • O'Connor, John J.; Robertson, Edmund F., «Joseph Liouville», MacTutor History of Mathematics archive (em inglês), Universidade de St. Andrews 
  • Joseph Liouville (em inglês) no Mathematics Genealogy Project