Representação esquemática da radiação bremsstrahlung produzida por um elétron de alta energia desviado no campo elétrico de um núcleo atômico.
Bremsstrahlung (ou radiação de desaceleração) é a radiação produzida quando cargas elétricas sofrem desaceleração. A palavra, de origem alemã, significa: Bremsen = "frear"/"travar" e Strahlung = "radiação".
A energia dos raios X de freamento ou desaceleração depende fundamentalmente da energia da partícula incidente. Os raios X gerados para uso médico e industrial não passam dos 500 keV, embora possam ser obtidos em laboratório raios X até com energia na ordem centenas de MeV. Como o processo depende da energia e da intensidade de interação da partícula incidente com o núcleo e de seu ângulo de "saída", a energia da radiação produzida pode variar de zero a um valor máximo, sendo contínuo seu espectro em energia.[nota 1]
Ao interagir com a matéria, a radiação incidente pode também transformar total ou parcialmente sua energia em outro tipo de radiação. Isso ocorre na geração dos raios X de freamento, na produção de pares e na radiação de aniquilação. Já raios X característicos são provenientes da interação em processos de decaimento.
Raios X característicos
Quando ocorre a captura eletrônica ou outro processo que retire elétrons da eletrosfera do átomo, a vacância originada pelo elétron é imediatamente preenchida por algum elétron de orbitais superiores. Ao passar de um estado menos ligado para outro mais ligado (por estar mais interno na estrutura eletrônica), o excesso de energia do elétron é liberado por meio de uma radiação eletromagnética, cuja energia é igual à diferença de energia entre o estado inicial e o final. Ocorre instabilidade do átomo do ânodo, com saltos quânticos e libertação de radiação eletromagnética característica do respectivo material, até que o estado energético do átomo seja mínimo. A denominação "característico" se deve ao fato de que os fótons emitidos na transição, por serem monoenergéticos, revelarem detalhes da estrutura eletrônica do elemento químico e, assim, sua energia e intensidade relativa permitem a identificação do elemento de origem.[2]
A produção de raios X só ocorre por materiais de número atômico elevado (como o caso do tungstênio). Os raios X característicos são, portanto, dependentes dos níveis de energia da eletrosfera e, dessa forma, seu espectro de distribuição em energia é discreto.
Como a emissão de raios X característicos é um fenômeno que ocorre com energia da ordem da energia de ligação dos diversos níveis da eletrosfera, as energias de emissão dos raios X característicos variam de alguns eV a dezenas de keV. Atualmente, baseados no modelo de Bohr, pode-se entender como são gerados os raios característicos e por que o espectro obtido com o tungstênio apresenta apenas linhas discretas.
Quando o elétron proveniente do cátodo incide no ânodo, ele pode expulsar um elétron orbital. A órbita de onde o elétron é expulso depende da energia do elétron incidente e dos níveis de energia do átomo do ânodo. A lacuna deixada por esse elétron é preenchida por um elétron mais externo.
Bremsstrahlung elétron-elétron
Um mecanismo considerado importante para números atômicos pequenos é o espalhamento de um elétron livre nos elétrons da camada de um átomo ou molécula[3]. Como a bremsstrahlung elétron-elétron é uma função de e a bremsstrahlung elétron-núcleo usual é uma função de , a bremsstrahlung elétron-elétron é negligenciável para metais. No entanto, para o ar, desempenha um papel importante na produção de flashes gama terrestres[4].
Partículas no vácuo
Uma partícula carregada acelerada, no vácuo, irradia energia, conforme descrito pela fórmula de Larmor (e pelas suas generalizações relativistas):
onde é a potência, a carga da partícula, a sua aceleração e a velocidade da luz no vácuo.
Embora o termo bremsstrahlung seja geralmente reservado para partículas carregadas aceleradas na presença de matéria, e não no vácuo, as leis são semelhantes.
A potência total irradiada pode ser obtida a partir da fórmula relativista:
onde , em que é a velocidade da partícula, é o fator de Lorentz, e é a derivada temporal de . Utilizando a identidade[5]:
pode-se escrever a expressão de na forma equivalente:
No caso particular em que o vetor velocidade é paralelo à aceleração da partícula, a equação anterior pode ser simplificada como:
onde se definiu .
No caso em que, pelo contrário, a aceleração é perpendicular à velocidade, ou seja, , a potência total irradiada reduz-se a:
Além disso, da relação , depreende-se que a potência total irradiada, em termos de comportamento em relação à massa, varia como ou . Este é o motivo pelo qual os eletrões perdem energia por bremsstrahlung muito mais rapidamente do que outras partículas mais pesadas (como muões, protões, partículas alfa): a título de exemplo, um eletrão perde energia devido ao bremsstrahlung a uma taxa vezes superior à de um protão.
A potência total irradiada também pode ser expressa como função do ângulo sólido ; mais precisamente, se indicarmos por o ângulo sólido infinitesimal e por o versor direcionado da partícula para o observador, então existe a seguinte relação:
No caso em que a velocidade é paralela à aceleração (por exemplo, num movimento retilíneo), a expressão pode ser simplificada para:
onde é o ângulo formado entre o vetor aceleração e a direção de observação.
Em plasma: resultados clássicos aproximados
NOTA: esta secção apresenta atualmente fórmulas que se aplicam no limite de Rayleigh–Jeans , e não utiliza um tratamento quantizado (Planck) da radiação. Assim, um fator usual como não aparece. A presença de em abaixo deve-se ao tratamento mecânico-quântico das colisões.
Resultado clássico de Bekefi para o espetro de potência de emissão de bremsstrahlung de uma distribuição eletrónica maxwelliana. Diminui rapidamente para grandes e é também suprimido perto de . Este gráfico refere-se ao caso quântico , e . A curva azul é a fórmula completa com ; a curva vermelha é a forma logarítmica aproximada para .
Num plasma, os eletrões livres colidem continuamente com os iões, produzindo bremsstrahlung. Uma análise completa requer a contabilização tanto das colisões binárias de Coulomb como do comportamento coletivo (dielétrico). Um tratamento detalhado é dado por Bekefi,[6] enquanto um simplificado é fornecido por Ichimaru.[7] Nesta secção, segue-se o tratamento dielétrico de Bekefi, com as colisões incluídas aproximadamente através do número de onda de corte, .
Considere-se um plasma uniforme, com eletrões térmicos distribuídos de acordo com a distribuição de Maxwell–Boltzmann à temperatura . Seguindo Bekefi, a densidade espetral de potência (potência por intervalo de frequência angular por volume, integrada em todo o ângulo sólido de sr e somada nas polarizações) do bremsstrahlung irradiado é calculada como:
onde é a frequência de plasma dos eletrões, é a frequência do fotão, são as densidades numéricas de eletrões e iões, e os restantes símbolos são constantes físicas. O segundo fator entre parênteses é o índice de refração de uma onda luminosa num plasma, e mostra que a emissão é fortemente suprimida para (esta é a condição de corte para uma onda luminosa num plasma; neste caso, a onda é evanescente). Esta fórmula, portanto, apenas se aplica para . Em plasmas com múltiplas espécies de iões, esta fórmula deve ser somada sobre todas as espécies.
A função é a função integral exponencial, e a quantidade adimensional é:
é um número de onda máximo ou de corte, que surge devido a colisões binárias, e pode variar com a espécie iónica. Aproximadamente, quando (típico em plasmas que não sejam demasiado frios), onde eV é a energia de Hartree e é o comprimento de onda térmico de de Broglie do eletrão. Caso contrário, , onde é a distância clássica de Coulomb de máxima aproximação.
Para o caso usual , obtemos:
No limite , podemos aproximar como onde é a constante de Euler–Mascheroni.
A potência total de emissão por unidade de volume, integrada em todas as frequências, é:
Para , encontramos:
Em unidades práticas, uma versão comum desta fórmula para é:[8]
Esta ambiguidade é frequentemente expressa introduzindo o fator de Gaunt .
Correções relativistas
Correções relativistas para a emissão de um fotão de 30 keV por um eletrão que impacta num protão.
Para temperaturas muito elevadas, existem correções relativistas para esta fórmula, ou seja, termos adicionais da ordem de .[9]
Arrefecimento por bremsstrahlung
Se o plasma for oticamente fino, a radiação de bremsstrahlung abandona o plasma, transportando parte da energia interna. Este efeito é conhecido como arrefecimento por bremsstrahlung. É um tipo de arrefecimento radiativo. A energia transportada é designada por perdas por bremsstrahlung e representa um tipo de perda radiativa. Utiliza-se geralmente este termo quando o arrefecimento do plasma é indesejado, como por exemplo em plasmas de fusão.
Descrição mecânico-quântica
A descrição mecânico-quântica completa foi realizada pela primeira vez por Bethe e Heitler.[10] Eles assumiram ondas planas para elétrons que se dispersam no núcleo de um átomo e derivaram uma seção de choque que relaciona a geometria completa desse processo à frequência do fóton emitido. A seção de choque quadruplamente diferencial, que apresenta uma simetria mecânico-quântica com a produção de pares, é:
onde é o número atômico, a constante de estrutura fina, a constante de Planck reduzida e a velocidade da luz. A energia cinética do elétron nos estados inicial e final está conectada à sua energia total ou aos seus momentos via
onde é a massa do elétron. A conservação de energia fornece
onde é a energia do fóton. As direções do fóton emitido e do elétron disperso são dadas por
onde é o momento do fóton.
Os diferenciais são dados como
O valor absoluto do fóton virtual entre o núcleo e o elétron é
O intervalo de validade é dado pela aproximação de Born
onde esta relação deve ser satisfeita para a velocidade do elétron tanto no estado inicial quanto no final.
Para aplicações práticas (por exemplo, em códigos de Monte Carlo), pode ser interessante focar na relação entre a frequência do fóton emitido e o ângulo entre este fóton e o elétron incidente. Köhn e Ute Ebert integraram a seção de choque quadruplamente diferencial de Bethe e Heitler sobre e e obtiveram:[11]
com
e
No entanto, uma expressão muito mais simples para a mesma integral pode ser encontrada em [12] (Eq. 2BN) e em [13] (Eq. 4.1).
Uma análise da seção de choque duplamente diferencial acima mostra que elétrons cuja energia cinética é maior que a energia de repouso (511 keV) emitem fótons na direção frontal, enquanto elétrons com baixa energia emitem isotropicamente fótons.
Notas
↑Na produção de raios X de freamento são produzidos também raios X característicos referentes ao material com o qual a radiação está interagindo. Esses raios X característicos somam-se ao espectro de raios X de freamento e aparecem com picos destacados nesse espectro.
↑Rider, T. H. (1995). Fundamental limitations on plasma fusion systems not in thermodynamic equilibrium (PhD thesis). MIT. p.25. hdl:1721.1/11412
↑Bethe, H. A.; Heitler, W. (1934). «On the stopping of fast particles and on the creation of positive electrons». Proceedings of the Royal Society A. 146 (856): 83–112. Bibcode:1934RSPSA.146...83B. doi:10.1098/rspa.1934.0140
↑Köhn, C.; Ebert, U. (2014). «Angular distribution of bremsstrahlung photons and of positrons for calculations of terrestrial gamma-ray flashes and positron beams». Atmospheric Research. 135–136: 432–465. Bibcode:2014AtmRe.135..432K. arXiv:1202.4879. doi:10.1016/j.atmosres.2013.03.012
↑Gluckstern, R. L.; Hull, M. H. Jr. (1953). «Polarization Dependence of the Integrated Bremsstrahlung Cross Section». Physical Review. 90 (6): 1030–1035. Bibcode:1953PhRv...90.1030G. doi:10.1103/PhysRev.90.1030