Décimo nono problema de Hilbert

O décimo nono problema de Hilbert é um dos vinte e três Problemas de Hilbert, publicados em 1900 pelo matemático alemão David Hilbert, e questiona se as soluções de problemas regulares no cálculo de variações são sempre necessariamente analíticas.[1][2] Informalmente, e talvez menos diretamente, dado que o conceito de Hilbert de um "problema variacional regular" identifica precisamente um problema variacional cujas equações de Euler-Lagrange são uma equação diferencial parcial elíptica com coeficientes analíticos, o décimo nono problema de Hilbert, apesar de sua afirmação aparentemente técnica, simplesmente pergunta se, nesta classe de equação em derivadas parciais, qualquer função solução herda a estrutura relativamente simples e bem entendida da equação resolvida.[1][3]

O décimo nono problema de Hilbert foi resolvido de forma independente no final da década de 1950 por Ennio de Giorgi e por John Forbes Nash.

História

As origens do problema

"Um dos feitos mais notáveis em todos os elementos da teoria das funções analíticas me parece ser este: que existem equações diferenciais parciais cujas integrais são todas necessariamente analíticas das variáveis independentes, é dizer, em suma, que equações só são suscetíveis quando são analíticas."

— David Hilbert (Hilbert 1900, p. 288) (tradução do alemão para o inglês por Mary Frances Winston Newson)

David Hilbert, em agosto de 1900, apresentou o agora chamado de décimo nono problema de Hilbert, junto aos outros 22 problemas, em seu discurso no segundo Congresso Internacional de Matemáticos.[4] Hilbert afirma que, em sua opinião, um dos fatos mais incríveis da teoria das funções analíticas é que existem classes de equações diferenciais parciais que admitem só esse tipo de funções como soluções, alegando a equação de Laplace, a equação de Liouville, a superfície minimal e uma classe de equações diferenciais parciais lineares estudadas por Charles Émile Picard como exemplos. Depois, observa o fato de que a maioria das equações diferenciais parciais que compartilham esta propriedade são a equação de Euler-Lagrange de um tipo de problema variacional bem definido, que apresenta as três seguintes propriedades[1]:

(1)     

Hilbert chama a este tipo de problema variacional um "problema variacional regular"[5]: a propriedade ((1)) significa que esse tipo de problemas variacionais são problemas de mínimo.

(2)     

A propriedade ((2)) é a condição de elipsidade nas equações de Euler-Lagrange sócias ao funcional dado.

(3)      é uma função analítica em todos seus argumentos p, q, z, x e y.

A propriedade ((3)) é um suposto simples de regularidade da função F

Tendo identificado a classe de problemas a tratar, então propõe a seguinte pergunta: " ... paraa cada equação diferencial parcial de Lagrange de um problema de variação regular existe a propriedade de admitir integrais analíticas exclusivamente?" e questiona também se este é o caso inclusive quando se requer que a função assuma, como sucede com o problema de Dirichlet na função potencial, valores de fronteira que são contínuos, mas não analíticos.[1]

O caminho para a solução completa

Hilbert propôs seu décimo nono problema como um problema de regularidade para uma classe de equação diferencial parcial elíptica com coeficientes analíticos. Portanto, os primeiros esforços dos pesquisadores que procuraram resolvê-lo se dirigiram a estudar a regularidade das soluções clássicas das equações pertencentes a esta classe.[1]

Para as soluções C 3 , o problema de Hilbert foi respondido pelo ucraniano Sergei Natanovich Bernstein em sua tese de 1904 Sur la nature analytique des solutions des équations aux dérivées partielles du second ordre, em que demonstrou que as soluções de C 3  de equações analíticas elípticas não lineares em 2 variáveis são analíticas.[6][7]

O resultado de Bernstein foi melhorado nos anos por vários autores, como I. G. Petrowsky em Sur l'analyticité des solutions des systèmes d'équations différentielles de 1939[8], que reduziram os requisitos de diferenciação da solução necessários para demonstrar que é analítica.

Por outro lado, os métodos diretos no cálculo de variações mostraram a existência de soluções com propriedades muito fracas de derivada. Durante muitos anos teve uma brecha entre estes resultados: sabia-se que as soluções que podiam se construir tinham segundas derivadas integráveis quadráticas, que não eram o suficientemente fortes para alimentar a maquinaria que podia demonstrar que eram analíticas, já que precisavam da continuidade das primeiras derivadas. Este vazio foi enchido de forma independente por Ennio de Giorgi[9] e por John Forbes Nash[10][11]. Ambos puderam demonstrar que as soluções tinham primeiras derivadas que eram contínuas de Hölder, o que, por resultados anteriores, implicava que as soluções são analíticas sempre que a equação diferencial tenha coeficientes analíticos, completando assim a solução do décimo nono problema de Hilbert.

Contra exemplos a várias generalizações do problema

A resposta de tanto De Giorgi quanto de Nash ao décimo nono problema de Hilbert estimulou o surgimento do questionamento de que se essa mesma conclusão também era válida para as equações de Euler-Lagrange de funcional mais gerais.

No final da década de 1960, Maz'já[12],De Giorgi[13] e Giusti e Miranda[14]construíram vários contra exemplos de forma independente, evidenciando que, em geral, não há esperanças de provar este tipo de resultados de regularidade sem agregar mais hipótese.[15][16]

Precisamente, Maz'ya forneceu diversos contra exemplos que envolvem uma equação elíptica de ordem maior do que dois com coeficientes analíticos: para os experientes, o facto de que este tipo de equações pudessem ter soluções não analíticas e inclusive não suaves causou sensação.[17][18] Além disso, De Giorgi e Giusti e Miranda deram contra exemplos que mostram que, no caso de uma solução que detenha um valor vetorial em lugar de um valor escalar, não é necessário que seja analítica: o exemplo de De Giorgi consiste num sistema elíptico com coeficientes dimensionados, enquanto o de Giusti e Miranda tem coeficientes analíticos.[19] Mais tarde, Nečas proporcionou outros exemplos mais refinados para o problema de valores vectoriais.[20]

Teorema de De Giorgi

O teorema chave demonstrado por De Giorgi é uma estimativa a priori que estabelece que se é uma solução de uma equação em derivadas parciais linear de segunda ordem estritamente elíptica adequada da forma

e tem derivadas de primeira ordem integráveis quadradas, então é contínua de Hölder.[21]

Aplicação do teorema de De Giorgi ao problema de Hilbert

O problema de Hilbert pergunta se os minimizadores de de uma energia funcional como

são analíticos. Aqui, é uma função em algum conjunto compacto de Rn, é seu vetor gradiente e é o Lagrangiano, uma função das derivadas de que satisfaz determinadas condições de crescimento, suavidade e convexidade. A suavidade se pode demonstrar ao utilizar o teorema de De Giorgi como está a seguir. As equações de Euler-Lagrange para esse problema variacional são a equação não linear

e diferenciar isto com respeito a

Isto significa que satisfaz a equação linear

com

de modo que segundo o resultado de De Giorgi, a solução w tem primeiras derivadas contínuas de Hölder, sempre que a matriz esteja dimensionada. Quando este não é o caso, é necessário um passo a mais: deve-se demonstrar que a solução é contínua de Lipschitz, isto é, o gradiente é uma função .

Uma vez que se sabe que w tem (n+1) derivadas contínuas de Hölder para algum n≥1, então os coeficientes aij têm n derivadas contínuas de Hölder, pelo que um teorema de Schauder implica que as (n+2) derivadas também são contínuas de Hölder, e ao repetir isto infinitamente demonstra que a solução w é suave.[9][21]

Teorema de Nash

Nash deu uma estimativa de continuidade para as soluções da equação parabólica

onde u é uma função dimensionada de x1, ..., xn, t, definida para t≥0. Segundo sua estimativa, Nash pôde deduzir uma estimativa de continuidade para soluções da equação elíptica

considerando o caso especial no que u não depende de t.[10][11]

Ver também

Notas

  1. a b c d e Hilbert, David (1970). «Mathematische Probleme». Berlin, Heidelberg: Springer Berlin Heidelberg: 290–329. ISBN 978-3-662-23645-1. Consultado em 28 de maio de 2025 
  2. Hopf, Eberhard (dezembro de 1929). «Zum analytischen Charakter der Lösungen regulärer zweidimensionaler Variationsprobleme». Mathematische Zeitschrift (1): 404–413. ISSN 0025-5874. doi:10.1007/bf01187779. Consultado em 28 de maio de 2025 
  3. Costa, Rafael Ramos Santos (15 de julho de 2022). «O método de De Giorgi e o 19º problema de Hilbert». repositorio.ufpb.br. Consultado em 28 de maio de 2025 
  4. D'Ambrosio, Ubiratan (2003). «UM BRASILEIRO NO CONGRESSO INTERNACIONAL DE MATEMÁTICOS DE 1900». Revista Brasileira de História da Matemática (5): 131–139. ISSN 2675-7079. doi:10.47976/RBHM2003v3n5131-139. Consultado em 28 de maio de 2025 
  5. Gilbarg, David; Trudinger, Neil S. (2001). Elliptic partial differential equations of second order. Col: Classics in mathematics 2nd ed., rev. 3rd printing ed. Berlin ; New York: Springer 
  6. Bernstein, S. (março de 1904). «Sur la nature analytique des solutions des équations aux dérivées partielles du second ordre». Mathematische Annalen (em francês) (1-2): 20–76. ISSN 0025-5831. doi:10.1007/BF01444746. Consultado em 28 de maio de 2025 
  7. Noronha, B. C. M.(2022). Breves considerações sobre os 23 Problemas de Hilbert. HIPÁTIA - REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA, EDUCAÇÃO E MATEMÁTICA .
  8. «I. G. Petrowsky, "Sur l'analyticité des solutions des systèmes d'équations différentielles", Sb. Math., 47:1 (1939)». www.mathnet.ru. Consultado em 28 de maio de 2025 
  9. a b De Giorgi, Ennio (1957), «Sulla differenziabilità e l'analiticità delle estremali degli integrali multipli regolari», Memorie della Accademia delle Scienze di Torino. Classe di Scienze Fisiche, Matematicahe e Naturali, Serie III (en italiano) 3: 25-43, MR 0093649, Zbl 0084.31901
  10. a b Nash, John (1957). «Parabolic Equations». Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (8): 754–758. ISSN 0027-8424. Consultado em 28 de maio de 2025 
  11. a b Nash, J. (outubro de 1958). «Continuity of Solutions of Parabolic and Elliptic Equations». American Journal of Mathematics (4). 931 páginas. doi:10.2307/2372841. Consultado em 28 de maio de 2025 
  12. Maz'ya, V. G. (1969). «Examples of nonregular solutions of quasilinear elliptic equations with analytic coefficients». Functional Analysis and Its Applications (em inglês) (3): 230–234. ISSN 0016-2663. doi:10.1007/BF01076124. Consultado em 28 de maio de 2025 
  13. De Giorgi, E. (1968) Un esempio di estremali discontinue per un problema variazionale di tipo ellittico. Boll. Un. Mat. Ital. (4) 1, 135–137
  14. Giusti, E. e Miranda M. (1968), Un esempio di soluzioni discontinue per un problema di minimo relativo ad un integrale regolare del calcolo delle variazioni, Boll. Unione Mat. Ital. 1, 219–226.
  15. Giaquinta, Mariano (2010). Multiple integrals in the calculus of variations and nonlinear elliptic systems. Col: Annals of mathematics studies. Princeton, N.J: Princeton University Press 
  16. Giusti, Enrico (2005). Direct methods in the calculus of variations Reprinted ed. New Jersey: World Scientific 
  17. Hedberg, Lars Inge (1999). Rossmann, Jürgen; Takáč, Peter; Wildenhain, Günther, eds. «On Maz'ya's work in potential theory and the theory of function spaces». Basel: Birkhäuser Basel (em inglês): 7–16. ISBN 978-3-0348-9726-6. doi:10.1007/978-3-0348-8675-8_2. Consultado em 28 de maio de 2025 
  18. Kristensen, Jan; Mingione, Giuseppe (October 2011), Sketches of Regularity Theory from The 20th Century and the Work of Jindřich Nečas, Oxford: Oxford Centre for Nonlinear PDE, pp. 1-30.
  19. Giaquinta, Mariano (2010). Multiple integrals in the calculus of variations and nonlinear elliptic systems. Col: Annals of mathematics studies. Princeton, N.J: Princeton University Press 
  20. Nečas, Jindřich (1977), Example of an irregular solution to a nonlinear elliptic system with analytic coefficients and conditions for regularity, en Kluge, Reinhard; Müller, Wolfdietrich, eds., Theory of nonlinear operators: constructive aspects. Proceedings of the fourth international summer school, held at Berlin, GDR, from September 22 to 26, 1975, Abhandlungen der Akademie der Wissenschaften der DDR 1, Berlin: Akademie-Verlag, pp. 197-206
  21. a b De Giorgi, Ennio; Ambrosio, Luigi (2006). Selected papers. Berlin ; New York: Springer