Descoberta do Brasil
| Descoberta do Brasil | |
|---|---|
| Parte da Colonização portuguesa da América | |
![]() Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, por Oscar Pereira da Silva (1922) | |
| Data | 22 de abril de 1500 (525 anos) |
| Localização | Monte Pascoal |
| Também conhecido como | Descobrimento do Brasil Chegada dos europeus no Brasil |
| Participantes | Pedro Álvares Cabral Pero Vaz de Caminha |
| Resultado | Estabelecimento do Brasil Colônia Genocídio indígena no Brasil |
Descoberta do Brasil ou descobrimento do Brasil é a designação tradicional do episódio da chegada da armada comandada por Pedro Álvares Cabral ao litoral da América do Sul em 1500, evento que resultou na incorporação do território à esfera de domínio do Reino de Portugal e marcou o início da presença europeia contínua na região que viria a constituir o Brasil. O avistamento da costa ocorreu nas imediações do Monte Pascoal, sendo a nova terra denominada inicialmente Ilha de Vera Cruz e, posteriormente, Terra de Santa Cruz.[1][2] A data tradicional de 22 de abril de 1500 baseia-se na Carta de Pero Vaz de Caminha e corresponde a 3 de maio de 1500 no calendário gregoriano.[nota 1][3]
A viagem cabralina integrava o movimento das navegações portuguesas voltadas à rota marítima para as Índias, aberta por Vasco da Gama em 1498, e inseria-se no processo mais amplo da expansão ultramarina europeia dos séculos XV e XVI, associado à formação do sistema comercial atlântico e à difusão do cristianismo.[4][5] No plano jurídico e ideológico, a apropriação das novas terras foi posteriormente relacionada ao princípio conhecido como doutrina da descoberta, segundo o qual as monarquias cristãs reivindicavam soberania sobre territórios não cristãos, frequentemente desconsiderando as populações autóctones.[nota 2][6]
Antes da chegada de Cabral, expedições espanholas já haviam alcançado partes do litoral da atual América do Sul. Destaca-se a viagem de Vicente Yáñez Pinzón, que atingiu a região do atual Pernambuco em janeiro de 1500, constituindo o primeiro desembarque europeu documentado em território brasileiro, embora sem consequências políticas em razão do Tratado de Tordesilhas.[7][8] Também é objeto de debate a possível passagem de Américo Vespúcio pela costa setentrional do que atualmente é denominado Brasil em 1499, hipótese baseada exclusivamente em seus relatos.[9] Os primeiros contatos com os povos indígenas, principalmente grupos de língua tupi que ocupavam o litoral, foram descritos por Caminha e caracterizaram-se por trocas simbólicas, observação mútua e pela celebração da Primeira Missa no Brasil, sem implicar ocupação territorial imediata.[10][11] A notícia da nova terra difundiu-se rapidamente na Europa, sendo registrada na cartografia já em 1502, como no Planisfério de Cantino.[12]
Na historiografia, o episódio é objeto de debates quanto à sua intencionalidade (se resultado das condições da navegação atlântica ou de conhecimento prévio da existência de terras a oeste) e quanto à terminologia empregada para defini-lo.[13] A denominação tradicional de descobrimento tem sido problematizada por correntes que enfatizam a presença milenar dos povos indígenas e os efeitos da colonização, enquanto outras destacam o significado do evento no quadro das navegações e da formação do mundo moderno.[14] Embora a chegada de 1500 não tenha provocado colonização imediata, intensificada apenas a partir de 1530, ela inaugurou um processo de longa duração que resultou na integração do território americano à economia-mundo europeia, na formação da sociedade colonial brasileira e em profundas transformações demográficas, culturais e ambientais.[15][16] Ao longo do século XIX, o episódio foi elevado a marco fundador da nação brasileira, consolidando-se na memória histórica por meio da historiografia, das comemorações cívicas e da pintura histórica.[17]
Contexto
A chegada da armada de Pedro Álvares Cabral à costa da América do Sul insere-se no processo de expansão marítima portuguesa iniciado no século XV, associado à busca de rotas comerciais para o Oriente, ao acesso direto às especiarias e à ampliação da esfera de influência política e religiosa da monarquia lusitana.[4][5] Esse movimento integrou o fenômeno mais amplo da formação dos impérios ultramarinos europeus e da constituição de um sistema de circulação atlântico que articulava Europa, África, Ásia e, posteriormente, a América.[18]
A conquista de Ceuta em 1415 é frequentemente considerada o marco inicial dessa expansão, sendo seguida pela exploração progressiva da costa africana, pela implantação de feitorias e pelo desenvolvimento de técnicas náuticas que permitiram a navegação em mar aberto.[19] O estabelecimento da rota do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias em 1488 e a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498 consolidaram o projeto de ligação marítima entre o oceano Atlântico e o oceano Índico, reduzindo a dependência das rotas mediterrânicas controladas por intermediários italianos e muçulmanos.[20]
No plano diplomático, a expansão ultramarina foi acompanhada pela definição de áreas de influência entre as monarquias ibéricas por meio do Tratado de Tordesilhas (1494), que estabeleceu um meridiano de partilha das terras a serem descobertas.[8] O acordo refletia tanto a rivalidade entre Portugal e Castela quanto a mediação pontifícia na legitimação da expansão cristã sobre territórios considerados extra-europeus.[6]
A organização da armada de Cabral ocorreu nesse contexto de consolidação da rota oriental. A nova expedição, maior e mais bem equipada que a de Vasco da Gama, tinha como objetivo principal estabelecer relações comerciais permanentes na Índia e afirmar a presença portuguesa no oceano Índico.[21] O desvio para oeste que resultou no avistamento da costa americana é interpretado pela historiografia tanto como consequência das condições de navegação da chamada volta do mar quanto como possível verificação de terras situadas dentro dos limites definidos por Tordesilhas.[13][22]
Do ponto de vista econômico, a expansão portuguesa estava vinculada à formação de um circuito comercial que integrava o ouro africano, as especiarias asiáticas e, posteriormente, os produtos coloniais americanos, contribuindo para a emergência de uma economia de escala atlântica.[15] No plano religioso, a expansão foi acompanhada pela ideia de propagação da fé cristã e pela concessão de privilégios espirituais às monarquias ibéricas, que associavam a conquista territorial à missão evangelizadora.[23]
Assim, a chegada de 1500 não constitui um episódio isolado, mas parte de um processo de longa duração que articulou transformações políticas, econômicas, técnicas e culturais responsáveis pela inserção do continente americano na dinâmica do mundo moderno.[24]
Chegadas europeias anteriores ou paralelas
A primazia da chegada portuguesa em 1500 é tradicionalmente associada à incorporação efetiva do território ao espaço político do Reino de Portugal. Contudo, a historiografia registra viagens anteriores ou contemporâneas que alcançaram partes do litoral da atual América do Sul, sem produzir consequências territoriais duradouras em virtude dos acordos diplomáticos entre as monarquias ibéricas.[8]
Vicente Yáñez Pinzón

A expedição comandada por Vicente Yáñez Pinzón partiu de Palos de la Frontera em novembro de 1499 e alcançou o litoral do atual Pernambuco em janeiro de 1500, provavelmente nas proximidades do Cabo de Santo Agostinho.[7] Esse episódio é considerado o primeiro desembarque europeu documentado em território brasileiro. A viagem prosseguiu em direção ao norte, passando pela foz do rio Amazonas, denominado pelo navegador como Santa María de la Mar Dulce em razão do volume de água doce que se projetava no oceano.[25] Apesar do registro cartográfico e cronístico do feito, a Coroa de Castela não reivindicou a posse da região, uma vez que o território se encontrava na zona atribuída a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas.[8]
Alonso de Ojeda e Américo Vespúcio
_-_cropped.jpg)
A viagem realizada em 1499 sob o comando de Alonso de Ojeda e com a participação de Américo Vespúcio percorreu a costa setentrional da América do Sul.[9] Parte da historiografia admite a possibilidade de que Vespúcio tenha alcançado áreas situadas no atual território brasileiro, embora a documentação disponível dependa exclusivamente de seus relatos e seja objeto de controvérsia quanto à sua exatidão.[26]
Essas viagens demonstram que o litoral atlântico sul-americano era conhecido por navegadores ibéricos antes da incorporação efetiva do território pela monarquia portuguesa, mas foi a expedição cabralina que produziu as consequências políticas, jurídicas e históricas que definiram o processo de colonização.[1]
Armada de Pedro Álvares Cabral

A expedição comandada por Pedro Álvares Cabral constituiu a maior armada enviada por Portugal ao ultramar até então, sendo organizada na sequência direta do sucesso da viagem de Vasco da Gama à Índia (1497–1499).[1][21] O empreendimento inseria-se na estratégia régia de consolidação da rota do oceano Índico, visando assegurar o acesso direto às especiarias e estabelecer relações diplomáticas e comerciais permanentes com os centros asiáticos.[5]
A frota era composta por treze embarcações (dez naus, três caravelas e uma naveta de mantimentos) e reunia entre mil e mil e quinhentos homens, incluindo fidalgos, pilotos experientes, religiosos, degredados e homens de armas.[26] Entre os capitães encontravam-se Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Sancho de Tovar, além do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, autor do principal relato sobre a chegada ao Brasil.[27]
A preparação da viagem envolveu recursos da Coroa e de grupos mercantis ligados ao comércio oriental, evidenciando a articulação entre interesses políticos e econômicos na expansão ultramarina portuguesa.[28]
Partida e navegação

A armada partiu de Lisboa em 9 de março de 1500, após cerimônia religiosa no Mosteiro dos Jerónimos, na qual a empresa marítima foi simbolicamente associada à missão cristã da monarquia portuguesa.[21]
A rota seguida utilizou a técnica da volta do mar, que consistia em afastar-se da costa africana e lançar-se ao Atlântico para aproveitar os ventos e correntes favoráveis à navegação de longo curso.[1] Esse procedimento, já empregado nas viagens para a Índia, explica o deslocamento da frota para oeste que resultou no avistamento do litoral sul-americano.[22]
A historiografia debate se o desvio foi fortuito, decorrente das condições de navegação, ou se correspondeu à verificação deliberada de terras situadas dentro da zona portuguesa definida pelo Tratado de Tordesilhas.[13] A ausência de documentação conclusiva impede o estabelecimento de consenso sobre a questão.
Chegada a Vera Cruz

O avistamento da costa ocorreu em 22 de abril de 1500, nas proximidades do Monte Pascoal.[1] Após a aproximação das embarcações, foram realizados contatos com os habitantes locais, descritos por Caminha como marcados pela curiosidade recíproca e pela ausência inicial de conflito.[29]
A celebração da Primeira Missa no Brasil em 26 de abril de 1500, presidida por Henrique de Coimbra, simbolizou a posse do território em nome da Coroa portuguesa e a associação entre expansão marítima e cristianização.[10] Após a permanência de poucos dias no litoral, foi enviada a Portugal uma das embarcações com a carta de Caminha relatando o achamento da nova terra, enquanto a armada principal prosseguiu viagem em direção à Índia, objetivo central da expedição.[3]
Povos indígenas

No momento da chegada da armada cabralina, o litoral da atual Bahia era ocupado por povos de língua tupi, entre os quais se destacavam os tupinambás e os tupiniquins.[11] Essas sociedades baseavam sua subsistência na agricultura, especialmente da mandioca, na pesca, na coleta e em redes de troca que articulavam diferentes grupos ao longo da costa e do interior.[30]
Os relatos dos viajantes europeus constituem as principais fontes para o conhecimento desses primeiros contatos, sendo marcados por interpretações condicionadas pelas referências culturais dos observadores.[31] A ausência de conflito imediato não implicou relações igualitárias, inserindo-se posteriormente no processo de conquista territorial, escravização indígena e reorganização das alianças intertribais no contexto da colonização.[32]
A historiografia contemporânea tem enfatizado a agência indígena nesses processos, destacando a diversidade sociopolítica das populações autóctones e seu papel ativo nas dinâmicas de contato, negociação e resistência.[33]
Fontes e documentação

O conhecimento histórico sobre a chegada da armada de Pedro Álvares Cabral baseia-se em um conjunto restrito de testemunhos produzidos no próprio contexto da viagem, complementados por documentação administrativa e cartográfica posterior.[27] Esses textos constituem a base empírica da narrativa historiográfica do episódio e condicionam as possibilidades de interpretação do acontecimento.
A principal fonte é a Carta de Pero Vaz de Caminha, redigida entre abril e maio de 1500 e enviada ao rei Manuel I de Portugal.[1] O documento descreve o avistamento da terra, os primeiros contatos com os habitantes locais, a paisagem e os recursos naturais, além de registrar a celebração da primeira missa. A carta permaneceu desconhecida até o início do século XIX, quando foi localizada entre os papéis da Casa da Suplicação e publicada por Manuel Aires de Casal em 1817, fato decisivo para a fixação da data de 22 de abril na memória histórica brasileira.[34]
Outro testemunho relevante é a chamada Relação do Piloto Anônimo, relato sintético da viagem que apresenta informações náuticas e cronológicas sobre o percurso da armada.[27] Soma-se a ele a carta do físico e astrônomo conhecido como Mestre João, que registra observações astronômicas realizadas durante a permanência no litoral e constitui importante evidência para a reconstrução da posição geográfica da frota.[1]
A documentação administrativa portuguesa, incluindo registros régios, contratos mercantis e correspondência diplomática, permite compreender o enquadramento político e econômico da expedição, embora não forneça descrições detalhadas da chegada à nova terra.[28]
A natureza dessas fontes, produzidas exclusivamente por europeus, condicionou por longo tempo a interpretação do episódio a partir de um ponto de vista externo às sociedades indígenas. A historiografia recente tem buscado superar essa limitação por meio do diálogo com a arqueologia, a etno-história e a antropologia histórica, que permitem reconstituir aspectos das populações autóctones ausentes dos relatos escritos.[33]
Cartografia e difusão da notícia
A rápida circulação das informações sobre a nova terra nas cortes europeias pode ser observada por meio da cartografia produzida nos anos imediatamente posteriores à viagem de 1500.[12] Esses registros demonstram que, apesar do caráter estratégico do comércio oriental para a Coroa portuguesa, o achamento do território americano foi prontamente incorporado ao conhecimento geográfico do período.
.jpg)
O exemplo mais significativo é o Planisfério de Cantino, datado de 1502, que representa o litoral brasileiro com relativa precisão e indica a incorporação do território à esfera portuguesa.[12] Produzido em Lisboa e enviado clandestinamente para a Itália, o mapa evidencia a existência de redes internacionais de circulação de informação cartográfica e o interesse das potências europeias nas novas rotas oceânicas.
A presença da Terra de Santa Cruz na cartografia tão pouco tempo após a viagem demonstra que o conhecimento geográfico não permaneceu restrito à Coroa portuguesa, apesar das tentativas de controle das informações consideradas estratégicas.[35] Mapas como o de Juan de la Cosa, de 1500, já registravam a costa setentrional da América do Sul explorada por navegadores castelhanos, indicando a simultaneidade das explorações ibéricas no Atlântico.[25]
A difusão da notícia do achamento ocorreu também por meio de correspondência mercantil e diplomática, especialmente nas cidades italianas ligadas ao financiamento das viagens oceânicas.[12] Esse fluxo de informações contribuiu para a integração do novo território ao imaginário geográfico europeu e para sua inserção no sistema de rivalidades e alianças que caracterizava a expansão ultramarina.
Do ponto de vista historiográfico, a cartografia constitui não apenas um registro técnico, mas uma forma de representação do poder e da posse territorial, expressando a apropriação simbólica do espaço pela monarquia portuguesa e sua legitimação no contexto da competição imperial europeia.[17]
Cronologia da viagem
A reconstrução cronológica da viagem da armada de Pedro Álvares Cabral baseia-se principalmente na Carta de Pero Vaz de Caminha, na Relação do Piloto Anônimo e na carta do Mestre João, complementadas por documentação náutica e por estudos historiográficos posteriores.[1][27] A natureza fragmentária dessas fontes impõe limites à precisão absoluta das datas e à determinação exata dos locais de fundeio e desembarque, razão pela qual a cronologia apresentada resulta de uma reconstituição crítica realizada pela historiografia moderna.[26]
A permanência da armada no litoral foi breve e subordinada ao objetivo central da expedição, a chegada à Índia, não implicando a fundação imediata de núcleos de povoamento.[3]
| Evento | Data (calendário juliano) | Data (calendário gregoriano) |
|---|---|---|
| Partida da armada de Lisboa[21] | 9 de março de 1500 | 19 de março de 1500 |
| Avistamento do Monte Pascoal e identificação de terra firme[1] | 22 de abril de 1500 | 3 de maio de 1500 |
| Aproximação da costa e primeiros contatos com os habitantes locais[29] | 23-24 de abril de 1500 | 4-5 de maio de 1500 |
| Celebração da Primeira Missa no Brasil[10] | 26 de abril de 1500 | 6 de maio de 1500 |
| Ereção da cruz e cerimônia formal de posse[21] | 1º de maio de 1500 | 11 de maio de 1500 |
| Envio da embarcação a Portugal com a carta de Caminha[3] | 2 de maio de 1500 | 12 de maio de 1500 |
| Partida da armada rumo às Índias[21] | 3 de maio de 1500 | 13 de maio de 1500 |
Do ponto de vista historiográfico, a cronologia da viagem evidencia o caráter episódico do contato inicial e reforça a interpretação de que o território americano permaneceu em segundo plano na política régia nas décadas imediatamente posteriores à expedição.[35]
Recepção na Europa
A notícia da chegada da armada de Pedro Álvares Cabral à nova terra integrou-se rapidamente aos circuitos diplomáticos e mercantis europeus, especialmente por meio da correspondência entre Lisboa e as cidades italianas ligadas ao financiamento do comércio oriental.[12] A difusão dessas informações ocorreu em paralelo à produção cartográfica do início do século XVI, indicando que o achamento não permaneceu restrito ao conhecimento da Coroa portuguesa.
Apesar dessa circulação relativamente ampla, o território americano ocupou inicialmente posição secundária na política régia. O objetivo central da expedição de 1500 era a consolidação da rota da Índia e o estabelecimento de feitorias no oceano Índico, de modo que os recursos financeiros e militares do reino permaneceram concentrados no comércio das especiarias.[35] Nesse contexto, a nova terra foi percebida sobretudo como área potencial de exploração futura, e não como espaço prioritário de ocupação imediata.
A incorporação efetiva do território à dinâmica imperial portuguesa ocorreu de forma gradual ao longo das décadas seguintes, inicialmente por meio de expedições exploratórias e do estabelecimento do sistema de capitanias hereditárias a partir de 1534.[38] Esse intervalo entre o achamento e a colonização sistemática reforça a interpretação historiográfica de que o episódio de 1500 foi, em sua contemporaneidade, subordinado à lógica do império oriental.
Do ponto de vista simbólico, entretanto, a existência da nova terra passou a integrar o horizonte geográfico europeu e a compor as disputas políticas decorrentes da expansão ultramarina, inserindo-se no sistema de rivalidades entre as monarquias ibéricas e nas negociações relativas à aplicação do Tratado de Tordesilhas.[12]
Iconografia e construção simbólica
A representação visual da chegada da armada de Pedro Álvares Cabral consolidou-se sobretudo ao longo do século XIX, em estreita relação com o processo de formação do Estado nacional brasileiro e com a necessidade de construção de marcos simbólicos para a história pátria.[17] Nesse contexto, o episódio de 1500 foi reinterpretado como momento fundador da nação, sendo incorporado à cultura histórica por meio da pintura histórica, das comemorações cívicas e da produção didática.
Entre as obras mais influentes destaca-se Desembarque de Cabral em Porto Seguro (1904), de Oscar Pereira da Silva, que apresenta a chegada dos portugueses como um encontro pacífico e hierarquizado, com destaque para a presença simbólica da cruz e para a centralidade da autoridade europeia. Essa composição visual dialoga com o projeto político e cultural do período, marcado pela busca de uma narrativa de origem harmoniosa para o país.[39]
Da mesma forma, a pintura Primeira Missa no Brasil (1860), de Victor Meirelles, enfatiza a cerimônia religiosa como ato fundador, associando a formação do território à expansão do cristianismo e à legitimação espiritual da conquista.[40] A escolha do momento litúrgico como núcleo da representação reforça a leitura do descobrimento como evento civilizador e providencial.
Essas imagens não constituem registros do acontecimento em si, mas interpretações produzidas em um contexto histórico específico, refletindo valores, hierarquias sociais e projetos políticos posteriores ao século XVI.[41] A historiografia contemporânea tem destacado o caráter construído dessas representações, analisando-as como parte do processo de elaboração da memória nacional e de definição dos sujeitos históricos considerados centrais na narrativa sobre as origens do Brasil.
Nesse sentido, a iconografia do descobrimento atua simultaneamente como fonte para o estudo das sensibilidades do século XIX e como elemento constitutivo da cultura histórica brasileira, influenciando a forma como o episódio passou a ser ensinado, comemorado e percebido socialmente.[41]
Impactos de longo prazo
Embora a chegada da armada de Pedro Álvares Cabral em 1500 não tenha implicado ocupação territorial imediata, o episódio inaugurou um processo histórico de longa duração que resultou na incorporação do território americano à dinâmica do império português e à formação da sociedade colonial brasileira.[38] A partir da década de 1530, com a implantação do sistema de capitanias hereditárias e o estabelecimento do governo-geral, a presença portuguesa adquiriu caráter permanente e estruturou um modelo de colonização voltado para a produção de gêneros destinados ao mercado europeu.[15]
No plano econômico, a integração do território ao sistema atlântico esteve associada inicialmente à exploração do pau-brasil e, posteriormente, à consolidação da economia açucareira, baseada no trabalho compulsório.[42] A escravização indígena constituiu a primeira forma de exploração sistemática da mão de obra local, sendo progressivamente substituída pela escravidão africana, que se tornou o eixo estruturador da produção colonial e das relações sociais na América portuguesa.[16]
Do ponto de vista demográfico e cultural, o processo de colonização provocou profundas transformações nas sociedades indígenas, incluindo deslocamentos populacionais, desarticulação de redes de troca, epidemias e conflitos armados.[43] Ao mesmo tempo, as populações autóctones desempenharam papel ativo nas dinâmicas coloniais, estabelecendo alianças, negociando com os europeus e desenvolvendo formas de resistência que marcaram a configuração histórica do território.[33]
A formação da sociedade colonial resultou da interação entre populações indígenas, africanas e europeias, produzindo estruturas sociais, práticas culturais e sistemas econômicos específicos que diferenciaram a América portuguesa de outras áreas do continente.[44] Nesse processo, o território descoberto em 1500 foi progressivamente integrado à economia-mundo europeia, tornando-se fornecedor de produtos tropicais e espaço de expansão da monarquia portuguesa.
No plano ambiental, a colonização implicou a introdução de novas espécies vegetais e animais, a reorganização do uso da terra e a transformação de ecossistemas em função das atividades econômicas coloniais.[45]
A historiografia contemporânea interpreta esses desdobramentos como parte de um processo global de expansão europeia que redefiniu as conexões entre continentes e produziu novas hierarquias políticas, econômicas e culturais em escala mundial.[24]
Debate historiográfico e terminológico
A interpretação do episódio de 1500 tem sido objeto de diferentes leituras ao longo do tempo, refletindo as transformações da historiografia e das formas de construção da memória histórica no Brasil.[14] A denominação tradicional de descobrimento do Brasil, consagrada pela historiografia oitocentista e pelo ensino escolar, relaciona-se à perspectiva europeia das navegações e à incorporação do território à esfera política do Reino de Portugal.[46]
A partir da segunda metade do século XX, o termo passou a ser problematizado por correntes historiográficas que enfatizam a presença milenar das populações indígenas e as consequências do processo de colonização.[14] Nesse contexto, surgiram interpretações que utilizam expressões como conquista, invasão ou ocupação, destacando o caráter violento da expansão colonial e a desestruturação das sociedades autóctones.
Essas abordagens não constituem apenas uma substituição terminológica, mas refletem mudanças mais amplas nos objetos e métodos da historiografia, que passou a incorporar a etno-história, a história indígena e a história atlântica, ampliando o foco para além das ações das monarquias europeias.[33]
No plano do direito internacional e da história das ideias políticas, a discussão relaciona-se ao princípio conhecido como doutrina da descoberta, segundo o qual as monarquias cristãs reivindicavam soberania sobre territórios não cristãos com base na prioridade do achamento e na missão evangelizadora.[6] A crítica contemporânea a esse princípio tem enfatizado seu papel na legitimação jurídica e simbólica da expansão colonial e na marginalização das soberanias indígenas.
Paralelamente, a historiografia tem debatido a própria intencionalidade da chegada de Cabral, questionando se o desvio para oeste resultou das condições da navegação atlântica ou de um conhecimento prévio da existência de terras dentro dos limites definidos pelo Tratado de Tordesilhas.[13][22] A ausência de documentação conclusiva mantém a questão em aberto e evidencia os limites das fontes disponíveis.
A consagração do episódio como marco fundador da nação brasileira ocorreu sobretudo no século XIX, quando a publicação da carta de Pero Vaz de Caminha e a produção da pintura histórica contribuíram para fixar a data de 22 de abril e para estabelecer uma narrativa de origem para o país.[34] A historiografia recente tem analisado esse processo como parte da construção da cultura histórica nacional, distinguindo entre o acontecimento de 1500 e as formas posteriores de sua representação.
Desse modo, o debate terminológico e interpretativo sobre a descoberta do Brasil expressa não apenas divergências sobre a natureza do evento, mas também diferentes concepções de história, de sujeito histórico e de memória coletiva.
Ver também
- Descobrimento da América
- História pré-cabralina do Brasil
- Era dos Descobrimentos
Notas e referências
Notas
- ↑ Em 1500 vigorava o calendário juliano. A adoção do calendário gregoriano ocorreu apenas em 1582, produzindo diferença de dez dias na conversão das datas.
- ↑ A doutrina baseava-se em interpretações do direito internacional da época e em bulas papais do século XV, sendo objeto de crítica historiográfica e jurídica contemporânea.
- ↑ As datas registradas na documentação quinhentista relativa à viagem da armada de Pedro Álvares Cabral foram originalmente expressas segundo o calendário juliano, vigente em Portugal no ano de 1500. A adoção do calendário gregoriano ocorreu apenas em 1582 por meio da bula Inter gravissimas, promulgada pelo papa Gregório XIII, produzindo uma defasagem de dez dias para o século XVI. Assim, o 22 de abril de 1500 mencionado na Carta de Pero Vaz de Caminha corresponde a 3 de maio de 1500 no calendário atualmente em uso.[3][36][37]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Fausto 2013, p. 41.
- ↑ Holanda 2010, p. 107.
- 1 2 3 4 5 Fausto 2013, p. 42.
- 1 2 Boxer 2002, p. 31.
- 1 2 3 Subrahmanyam 2012, p. 138.
- 1 2 3 Vainfas 2000, p. 188.
- 1 2 Vigneras 1976, p. 52.
- 1 2 3 4 Fausto 2013, p. 39.
- 1 2 Vigneras 1976, pp. 47–63.
- 1 2 3 Vainfas 2000, p. 186.
- 1 2 Fausto 2013, p. 44.
- 1 2 3 4 5 6 Subrahmanyam 2012, p. 141.
- 1 2 3 4 Boxer 2002, p. 36.
- 1 2 3 Schwarcz & Starling 2015, p. 43.
- 1 2 3 Boxer 2002, p. 42.
- 1 2 Schwarcz & Starling 2015, p. 53.
- 1 2 3 Schwarcz & Starling 2015, p. 48.
- ↑ Subrahmanyam 2012, p. 3.
- ↑ Boxer 2002, p. 27.
- ↑ Fausto 2013, p. 40.
- 1 2 3 4 5 6 Boxer 2002, p. 35.
- 1 2 3 Subrahmanyam 2012, p. 140.
- ↑ Vainfas 2000, p. 189.
- 1 2 Subrahmanyam 2012, p. 12.
- 1 2 Vigneras 1976, p. 54.
- 1 2 3 Subrahmanyam 2012, p. 139.
- 1 2 3 4 Vainfas 2000, p. 185.
- 1 2 Boxer 2002, p. 33.
- 1 2 Holanda 2010, p. 109.
- ↑ Schwarcz & Starling 2015, p. 45.
- ↑ Holanda 2010, p. 110.
- ↑ Fausto 2013, p. 45.
- 1 2 3 4 Schwarcz & Starling 2015, p. 46.
- 1 2 Schwarcz & Starling 2015, p. 47.
- 1 2 3 Boxer 2002, p. 37.
- ↑ Teixeira 2010, p. 3.
- ↑ Richards 2013, p. 595.
- 1 2 Fausto 2013, p. 52.
- ↑ Schwarcz & Starling 2015, p. 49.
- ↑ Holanda 2010, p. 18.
- 1 2 Schwarcz & Starling 2015, p. 50.
- ↑ Fausto 2013, p. 54.
- ↑ Fausto 2013, p. 55.
- ↑ Boxer 2002, p. 43.
- ↑ Fausto 2013, p. 56.
- ↑ Holanda 2010, p. 15.
Bibliografia
- Boxer, Charles R. (2002). O império marítimo português, 1415–1825. São Paulo: Companhia das Letras
- Fausto, Boris (2013). História do Brasil. São Paulo: Edusp
- Holanda, Sérgio Buarque de (2010). Visão do paraíso. São Paulo: Companhia das Letras
- Richards, E. G. (2013). Explanatory Supplement to the Astronomical Almanac 3 ed. Mill Valley: University Science Books
- Schwarcz, Lilia Moritz; Starling, Heloisa Murgel (2015). Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras
- Subrahmanyam, Sanjay (2012). The Portuguese Empire in Asia. Oxford: Blackwell
- Teixeira, Cristiana do Carmo (2010). Calendários. Belo Horizonte: UFMG
- Vainfas, Ronaldo (2000). Dicionário do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva
- Vigneras, Louis-André (1976). The Discovery of South America and the Andalusian Voyages. Chicago: University of Chicago Press
Leituras complementares
- Ab'Sáber, Aziz N. (1972). História geral da civilização brasileira. Tomo I: A época colonial 4 ed. São Paulo: Difel
- Azevedo, J. Lúcio de (1973). Épocas de Portugal econômico. Lisboa: Clássica Editora
- Cortesão, Jaime (1967). A expedição de Pedro Álvares Cabral e o descobrimento do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional
- Dias, Carlos Malheiro (1921). História da colonização portuguesa do Brasil. Porto: Lello & Irmão
- Gândavo, Pero de Magalhães (1980). História da Província de Santa Cruz. Belo Horizonte: Itatiaia
- Hemming, John (1978). Red Gold: The Conquest of the Brazilian Indians. Cambridge: Harvard University Press
- Marchant, Alexander (1980). Do escambo à escravidão. São Paulo: Companhia Editora Nacional
- Prado Júnior, Caio (1999). Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense
Ligações externas
- A descoberta do Brasil, Diário do Tempo (Extrato de Programa), RTP, 2012
- Descoberta marítima do Brasil por Pedro Álvares Cabral, por António Ferronha, RDP Internacional, 1998
- A chegada ao Brasil, por Pêro Vaz de Caminha, Cuidado com a Língua! (Extrato de Programa), por José Mário Costa, até ao Fim do Mundo
.jpg)