Cruz de Lotário

Parte da frente da Cruz de Lotário

A Cruz de Lotário (em alemão: Lotharkreuz) é uma cruz gemada (cruz com joias) para procissões datada de c.1000, embora sua base date do século XIV. Foi feita na Alemanha, provavelmente em Colônia.[1] É um excelente exemplo do trabalho dos ourives medievais, e é "um importante monumento da ideologia imperial",[2] formando parte do tesouro da catedral de Aquisgrão, que inclui várias outras obras-primas da arte sacra otoniana. As medidas da porção original são 50 cm de altura, 35,5 de largura e 2,3 de profundidade. A cruz provém do período quando a arte otoniana evoluiu na arte românica.

História

A cruz levou o nome de Lotário II (r. 835–869) da Lotaríngia, o sobrinho de Carlos, o Calvo (r. 840–877), que estava gravado em um grande selo de quartzo esverdeado próximo de sua base. A cruz, na verdade, foi feita ao longo do século seguinte à morte de Lotário por um membro da dinastia otoniana, a sucessora da dinastia carolíngia; possivelmente por Otão III (r. 980–1002).[1][nt 1]

Descrição e interpretação

O núcleo de carvalho da Cruz de Lotário está envolto em ouro e prata incrustada com joias e gemas gravadas - um total de 102 gemas e 35 pérolas. A frente da cruz[nt 2] é feita com uma placa de ouro e prata ricamente decorada com pedras preciosas, pérolas, filigrana de ouro e cloisonné.[4] O esmalte está, sob as bandas terminais, interrompido pelas pontas das seções triangulares. As gemas nas linhas do centro estão montadas em plataformas levantadas como tambores, e seus lados decorados com arcadas em filigrana. A superfície dos braços estão todos decorados com cachos de filigrana. No ponto de encontro dos braços está um camafeu em três camadas de ônix do século I do imperador romano Augusto (r. 27 a.C.–14 d.C.) segurando um cetro de águia,[1] também montado em um tambor elevado.[5] A segunda gema maior, abaixo da de Augusto, era provavelmente o selo de Lotário e tinha seu retrato com a inscrição "+XPE ADIVVA HLOTARIVM REG" (Deus salve o rei Lotário).[nt 3] Este serviu uma função similar, ligando os otonianos com a dinastia carolíngia que tinha estabelecido a posição do Sacro Império Romano-Germânico. Outras gemas na cruz tem esculturas clássicas nelas, incluindo uma ametista das graças e um leão em ônix, ambos dos quais estão montados com as imagens colocadas de lado.[nt 4]

Camafeu de Augusto (r. 27 a.C.–14 d.C.)

Partindo do pressuposto de que os otonianos estavam cientes de que o camafeu tinha o retrato de Augusto, eles usaram-no para ligar a dinastia otoniana com os imperadores romanos originais e afirmá-los como os representantes de Deus na terra.[1] Por outro lado, uma gema gravada com o retrato de Júlia, a filha de Augusto, no topo do Relicário de Carlos Magno, um elaborado tesouro dado para a Abadia de São Denis por Carlos, o Calvo, foi tratado como uma imagem de Virgem Maria. Outra gema com o retrato do imperador romano Caracala (r. 198–217) tinha uma cruz e o nome de São Pedro adicionado a ele antes do uso em metais para a Sainte-Chapelle em Paris. Agora é impossível saber o grau de consciência desta reciclagem iconográfica entre as diferentes categorias de pessoas criando e vendo estes objetos.[7][8][nt 5]

O lado reverso da cruz é uma placa de ouro plana gravada com a cena da "Crucificação de Cristo", estando acima dela a Mão de Deus segurando a Coroa da Vitória contendo a pomba do Espírito Santo; aqui está representando Deus, o Pai aceitando o sacrifício de Cristo. Este é a primeira aparição conhecida da pomba neste tema, que introduz toda Trindade em uma crucificação, uma iconografia que era para ter um longo futuro.[9] A serpente, representando Satã, está torcida em volta da parte inferior da cruz. Nos medalhões no fim dos braços estão personificações do Sol e da Lua com cabeças baixas e encimados por seus símbolos.[10][11][12] A Mão com a coroa foi um motivo comum nos mosaicos em Roma, e também usado na arte associada com os primeiros sacro imperadores romanos, incluindo os retratos em manuscritos iluminados deles mesmos, para enfatizar a proveniência da autoridade deles de Deus.

Parte reversa da Cruz de Lotário.

Isto é um exemplo notável da "Crucificação", intimamente relacionado com a um pouco mais antiga Cruz de Gero em Colônia, que foi um trabalho crucial no desenvolvimento da imagem ocidental do Cristo crucificado e morto, cuja cabeça está caída em seu ombro, e cujo corpo flácido forma um S, mostrando as marcas de seus ferimentos, aqui com sangue jorrando do ferimento à lança na sua lateral.[13][14] Reversos gravados são encontrados em muitas cruzes com joias do período.[15] A cruz está agora montada em um suporte gótico do século XIV, decorado com duas crucificações pequenas e outras figuras.

O estilo da decoração de ouro com cravejado de joias, reutilizando o material da Antiguidade, foi comum nos objetos mais ricos do período.[1][16] Em particular, o motivo da cruz com joias glorificada, uma "transformação da força bruta sobre a qual Cristo morreu", remonte a Antiguidade Tardia, quando oponentes pagãos do cristianismo frequentemente ridicularizavam a natureza média do símbolo cristão primário.[17] Até ca. século VI, cruzes raramente mostravam a figura de Cristo, mas pelos anos 1000 outras grandes cruzes com joias já haviam mudado a crucificação, geralmente em molde de bronze dourado, para a face da frente da cruz, para torná-las crucifixos, que permaneceram a forma católica mais comum da cruz. Alguns exemplos são as cruzes de Bernardo de Hildesheim (c.1000, Catedral de Hildesheim), Gisela da Baviera (c.1006, Ratisbona, agora na Residência de Munique) e Matilda de Essen (973, Catedral de Essen),[18][10][nt 6] que usavam o padrão praticamente idêntico para os terminais dos braços da Cruz de Lotário.[12]

A Cruz de Lotário é a este respeito um objeto um pouco conservador, deixando a frente livre do simbolismo imperial, e também talvez como um renascimento deliberado do estilo carolíngio; por exemplo muitas cruzes ricas de data similar fizeram mais uso de esmalte. Os dois lados podem ser tomados para representar a Igreja e o Estado, de forma apropriada para a doação imperial que foi realizada na frente dos sacro imperadores romanos como se eles transformados em Igreja.[19] A ampla forma do projeto coincide com o da pequena cruz da frente da coroa imperial do Sacro Império Romano-Germânico (c. 973/983?), que também tem uma frente com joias e uma crucificação gravada na parte traseira.[20]

Notas

  1. Peter Lasko não vê a necessidade de datar a cruz para depois dos anos 980.[3]
  2. Por motivos procissionais, há fontes que considerem a face com as incrustações como a parte de trás da cruz.
  3. Lasko saliente que a inscrição não está revertida, e por isso não seria lida corretamente em uma impressão de cera, tornando improvável que realmente tenha sido usado como selo.[6]
  4. As graças estão na gema roxa central, duas para baixo de Augusto, e o leão é preto, à esquerda do topo da seção do eixo principal. Vê-los na imagem aproximada.
  5. A gema de Júlia está aqui, e a de Caracala aqui. Ambas agora sobrevivem na Biblioteca Nacional da França, destacadas de suas configurações originais, que foram destruídas durante a Revolução Francesa.
  6. Cruz de Gisele aqui e a Cruz de Matilda aqui

Referências

  1. 1 2 3 4 5 Calkins 1979, p. 115.
  2. Barasch 1997, p. 30.
  3. Lasko 1972, p. 101.
  4. Henderson 1972, p. 261 n. 135.
  5. «Close-up photo of the Lothair Cross» (em inglês). Consultado em 3 de outubro de 2013. Arquivado do original em 18 de julho de 2011
  6. Lasko 1972, p. 49.
  7. Henderson 1972, p. 110-111.
  8. Lasko 1972, p. 24-26.
  9. Schiller 1972, p. 108; 122.
  10. 1 2 Swarzenski 1974, p. 42.
  11. Schiller 1972, II, fig. 395.
  12. 1 2 Lasko 1972, p. 100.
  13. Schiller 1972, p. 142.
  14. Harries 2004, p. 49.
  15. Legner 1985, III, H28, H29 e H31.
  16. Lasko 1972, p. 99-106; passim.
  17. Henderson 1972, p. 202-209.
  18. Beckwith 1964, p. 138-143.
  19. Honour 1982, p. 273.
  20. Lasko 1972, placas 81 e 82.

Bibliografia

  • Barasch, Moshe (1997). The language of art: studies in interpretation. [S.l.]: NYU Press. ISBN 0-8147-1255-X 
  • Beckwith, John (1964). Early Medieval Art: Carolingian, Ottonian, Romanesque. [S.l.]: Thames & Hudson. ISBN 0-500-20019-X 
  • Calkins, Robert G. (1979). Monuments of Medieval Art. [S.l.]: Dutton. ISBN 0-525-47561-3 
  • Legner, Anton (1985). Ornamenta Ecclesiae, Kunst und Künstler der Romanik. Catalogue of an exhibition in the Schnütgen Museum, Köln. [S.l.: s.n.] 
  • Henderson, George (1972). Early Medieval Art. [S.l.]: Penguin 
  • Harries, Richard (2004). The Passion in Art. [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd. ISBN 0754650111 
  • Honour, Hugh; John Fleming (1982). A World History of Art. Londres: Macmillan. ISBN 0-333-37185-2 
  • Lasko, Peter (1972). Ars Sacra, 800–1200. [S.l.]: Penguin History of Art. ISBN 14056036X Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Schiller, Gertrud (1972). Iconography of Christian Art. Londres: Lund Humphries. ISBN 853313245 Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Swarzenski, Hanns (1974). Monuments of Romanesque Art; The Art of Church Treasures in North-Western Europe. [S.l.]: Faber and Faber. ISBN 0-571-10588-2