Isaac Abravanel

Isaac Abravanel
Nome completoYitzchak ben Yehuda
Outros nomesIsaac ben Judah • Yitzchak ben Yehuda Abravanel
Nascimento
23 de setembro de 1437

Lisboa
Morte
1508 (71 anos)

ReligiãoJudaísmo

Isaac ben Judah ou Yitzchak ben Yehuda Abravanel (hebraico: יצחק בן יהודה אברבנאל; Lisboa, 23 de setembro de 1437 - Veneza, 1508)[1] foi um estadista, filósofo,[2] comentador da Bíblia e financista judeu português. Nasceu em Lisboa em 1437 e viveu vários anos na cidade de Queluz[3]. Foi amplamente reconhecido como um dos mais notáveis judeus da corte do século XV, ao lado de seu amigo Abraham Senior. Ele morreu em Veneza em 1508 e foi enterrado em Pádua. Seu filho Judá Abravanel também teve notoriedade na filosofia.[4][5]

A Família Abravanel é uma das mais antigas e distintas famílias judaicas sefarditas, cuja ascendência direta tem a sua origem ao bíblico, Rei David. Os membros desta família viveram em Córdova (província da Espanha), Calatayud, Castela e Leão e em Sevilha, onde viveu o seu representante mais antigo conhecido de nome Judá Abravanel.[6]

Nome

Em várias obras, Isaac Abravanel foi referido apenas pelo seu apelido, que por vezes surgiu como Abravanel, Abarbanel, Avravanel ou Abrabanel. Muitos estudiosos da Torá e do Talmude referem-se a ele simplesmente como "O Abarbanel".

Há um debate sobre se seu sobrenome deve ser pronunciado Abarbanel ou Abravanel. A pronúncia tradicional é Abarbanel. A literatura acadêmica moderna, desde Graetz e Baer, tem mais comumente usado o Abravanel. No entanto, seu próprio filho Judá insistiu em Abarbanel, e Sefer HaTishbi, de Elias Levita, que era um contemporâneo próximo, duas vezes avoca o nome como Abarbinel (אַבַּרְבִּינֵאל).[7]

A etimologia do nome é incerta.[7] Alguns dizem que vem de "Ab Rabban El",[8] que significa "pai dos rabinos de Deus", o que parece favorecer a pronúncia "Abrabanel".

Notas biográficas

Versado em literatura rabínica e nos estudos do seu tempo, ele devotou os seus jovens anos ao estudo da filosofia judaica. Com apenas 20 anos de idade ele escreveu sobre a forma original dos elementos naturais, sobre questões religiosas, sobre profecias, etc. As suas capacidades na política também lhe valeram a atenção de terceiros mesmo ainda na juventude. Entrou para o serviço do rei Afonso V de Portugal como tesoureiro e em breve ganhou a confiança do seu mestre.

Não obstante a sua alta posição e grande riqueza que ele herdou do seu pai, o seu amor pelos pobres e oprimidos era notável. Quando Arzila, em Marrocos, foi tomada pelos portugueses e os prisioneiros judeus foram vendidos como escravos, ele contribuiu largamente com os fundos necessários para os libertar e organizou também colectas em seu favor por todo Portugal. Também escreveu ao seu rico e influente amigo Jehiel ben Samuel Pisa, em apelo pelos presos.

Após a morte do rei D. Afonso V, foi obrigado a deixar o seu cargo, tendo sido acusado pelo rei D. João II de conivência com o Duque de Bragança, que tinha sido executado sob acusação de conspiração. Avisado a tempo, Abravanel salvou-se, fugindo em sobressalto para Castela em 1483. A sua grande fortuna foi confiscada por decreto real.

Brasão de Isaac Abravanel

Em Toledo, sua nova residência, ele ocupou-se inicialmente com estudos bíblicos, e no decorrer de 6 meses produziu uma grande quantidade de comentários aos livros de Josué, Juízes e Samuel. Mas pouco depois ele começou a servir a casa de Castela. Juntamente com o seu amigo, o influente Don Abraham Senior, de Segóvia, ele encarregou-se de administrar as receitas e fornecer abastecimentos ao exército real, com contratos que ele executou bem, para satisfação total de Isabel de Castela.

Durante as guerras mouriscas, Abravanel emprestou somas avultadas de dinheiro ao governo. Quando foi decretada a expulsão dos Judeus de Espanha, ele tentou por todos os meios convencer o rei a revogar o édito. Em vão, ele ofereceu-lhe 30 000 ducados. Também costumam atribuir a ele um texto que ficou conhecido como “A resposta de D. Abravanel ao Decreto de Alhambra”. Porém a origem real deste documento encontra-se numa obra de ficção publicada em 1988, intitulada Alhambra Decree do autor David Raphael. Com os seus companheiros de fé, Abravanel deixou a Espanha para ir viver para Nápoles, onde em breve entraria para os serviços do rei. Por um período curto, ele viveu em paz, mas quando a cidade foi tomada pelos franceses, ele foi roubado de todas as suas possessões e seguiu o seu rei Fernando, em 1495, para Messina; e mais tarde para Corfu; e em 1496 instalou-se em Monopoli, e finalmente em 1503 em Veneza, onde os seus serviços foram empregues na negociação de um tratado comercial entre Portugal e a República de Veneza.

Um dos descendentes de Abravanel é o apresentador brasileiro Senor Abravanel, também conhecido como Silvio Santos.[9]

Filosofia

Para Benzion Netanyahu, Dom Isaac Abravanel era adepto a linha de Maimónides, no que toca aos Treze Princípios Judaicos, contendo-se algumas características em comum com os Averroístas, contrariando-se a tendência dominante da sua época em se seguir uma linha mais racional, como era feita pelo pensador Albo[10]. Todavia, podemos afirmar que o seu mestre na realidade era Saadia, um pensador judeu anterior ao período pré-tomista, que demonstrou o seu desprezo a ideia de uma superioridade da Razão em detrimento da Fé. Portanto, a cosmovisão de Abravanel, assim como a de Saadia, acreditava no primado da Fé e que a Revelação seria o guia e o objetivo final da Razão, distanciando-o diametralmente do pensamento de Maimónides.

Essa relação com a Revelação, que ditava a sua fé e tinha como norteador as escrituras sagradas do judaísmo, ou seja, a Torá, a Ketuvim e a Neviim, que era em comum, base da fé cristã e islâmica[11]. Uma vantagem que colocava os judeus a frente dos escolásticos cristãos e dos muçulmanos, por ambos crerem nas escrituras judaicas e na sua sacralidade, que resultou em disputas acirradas entre ambos, para ver quem mais dava credibilidade aos profetas judeus, haja vista, que a fonte de todo o saber advém da crença do Deus único que revela-se a Abraão.

Abravanel, segundo alguns, era caracterizado por ter uma cosmovisão que acredita na "criação a partir do nada", ao ponto de escrever duas obras dedicadas ao tema. Tal visão é encontrada quase que exclusivamente no judaísmo, que do ponto de vista de Boodin, era distinda da crença inicial dos judeus na criação como surgimento a partir da matéria, que em essência é dualista. Visão esta, que foi amplamente adotada pelos primeiros padres da cristandade. Apesar dessa problemática histórica, encontramos pensadores judeus partilharem de uma visão contrária, tendo-se como exemplo, Halevi ao evocar a forma de cosmovisão muito antes de Abravanel, que por sua vez, a desenvolve um passo mais a frente, questionando-se que era possível a qualquer observador atento ao funcionamento do mundo, concluir que as ordens são naturais, concordando que tratava-se de um mundo pré-existente. Essa defesa tão enfatizada nessa visão, deve-se em partes, fundamentalmente a comparação que Abravanel faz com outras interpretações que em tese poria em causa a tese da verdade Revelada[12].

Compreendendo-se que a cosmovisão de Dom Isaac é assente na criação a partir do nada, inclusive, tendo-a como a sua pedra angular, conseguimos avançar para a sua ideia de universo, que ao contrário do que possamos imaginar, não esta de todo desprovida de elementos do panteísmo[13]. Vejamos, se considerarmos que o universo tem a matéria criada a partir do nada, o elemento espiritual, no seu ponto de vista, é originário diretamente de Deus. Para chegar-se a essa conclusão, ele baseia-se em ideias oriundas de Aristóteles e Ptolomeu, ajustando-as para o seu modo de ver o funcionamento dos corpos celestes, eliminando, por assim dizer, elementos que contradizem a sua base de pensamento.

Na época contemporânea a Abravanel, era comum enxergar o universo como uma espécie de "máquina gerida por seu Maquinista", o Maquinista em questão é Deus. Essa forma de pensar, é debatida por muitos nomes de relevo como, por exemplo, Maimónides que tem uma visão do universo como um organismo uno, mesmo sendo formado por matéria e de forma. Portanto, tal visão é confrontada por Dom Isaac, que interpreta que há a par dela, existe também um mundo espiritual, profundamente marcado pela hierarquização. Nesse campo, identificamos uma correlação com a teoria aristotélica das inteligências separadas, que é interpretada por Maimónides como sendo os anjos descritos no Tanakh. Contudo, existe uma tentativa de prefixar-se a quantidades dos mesmos, que segundo os seguidores de Avicena, seriam de dez, com o décimo definido como o Intelecto Agente, prefigurado como o mundo sublunar. Doravante a essa questão, Abravanel acata opiniões sugeridas por Albo, desenvolvendo-a a partir dos mesmos pontos, utilizando-se principalmente o livro de Daniel, ligando-a à sua concepção de universo e a funcionalidade concebida aos seres espirituais[13].

Já quando se trata do homem em particular, sua atitude varia entre o desprezo e a admiração, reforçando a sua visão dual, que no caso esta compreendida na carne/espírito. Não fugindo da visão muito difundida na Idade Média, ele também compreende a criação humana como a principal dentre todas de Deus, mas como algo insignificante quando comparado com o Criador. Partindo-se dessa premissa, entendemos como ele encaixa o homem na sua cosmologia, determinando-se que a sua posição encontra-se entre o mundo do espírito de da matéria, ficando encarregado de fazer um elo entre ambos. Em contrapartida, os outros seres não poderiam realizar tal ligação, por serem formados por matéria ou espírito, sendo a criatura mais completa de todas. Nesse ponto vemos o distanciamento da visão de Dom Isaac e a de Maimónides, que influenciado pelas ideias de Aristóteles, vê as esferas e as estrelas como mais perfeitas que o homem, demonstrando mais uma vez o quão baseada estava as ideias de Abravanel no ponto de vista de Saadia, que é antropocêntrica e dominante na Idade Média[10].

Sua visão sobre a astrologia como ciência e a possibilidade de se influenciar a vida do individuo e de localidades, era oposta a de Maimónides que via-a como um método fraudulento, anticientífico[11]. Contudo, isso não o impediu de acreditar na possibilidade da Providência Divina mudar determinações impostas por corpos celestes. Entretanto, no seu pensamento via uma sobreposição dos destinos de um grupo em detrimento ao do individuo que, segundo a sua visão, era mais poderosa e, portanto, fatalmente decidia o destino de um grupo como um todo. É importante salientar que essa ideia esta assente ao facto destas decisões estarem inscritas nas posições celestes, que são controladas pelos "principados celestes", mensageiros de Deus, que são enviados para decidir o futuro de colectividades[11].

Em resumo, podemos concluir que o pensamento de Dom Isaac Abravanel era comum na linha do tempo que viveu, mas encontrava-se em um ponto distante de pensadores contemporâneos da sua época. Em muitos momentos tem discordâncias com Rambam, por ter a sua base de ideias assentes em Saadia, distanciando-o de uma visão racionalista. Sem sombra de dúvida, situava-se num tempo de transições na forma de pensar e ver o mundo. O antropocêntrismo sofreria anos depois, um duro golpe com Copérnico, enquanto a astrologia recebe um travão como ciência creditada com a publicação das Disputationis adversus astrologium, de autoria de Pico della Mirandola[10]. Isso tudo demonstrou uma transformação para um mundo mais cético, menos preso a crenças ortodoxas, que ainda sim, não deixava de influenciar-se pela Idade Média.

Ideias Políticas

As diferenças encontradas entre a sua cosmovisão e visão da história, chamam a atenção por demonstrar-nos um distanciamento acentuado da ideia de Deus estar no controlo de tudo. Ele coloca toda a responsabilidade das decisões e actos no homem, que detentor do livre arbítrio, pode utilizá-lo na prática para realizar mudanças na sociedade. Com isto, ele deixa de salientar repetidas vezes o mundo vindouro, para inclinar-se a um radicalismo político que soa mais próximo as concepções modernas, que, entretanto, muda ao olhar mais de perto as suas bases e objectivos, que apontam na realidade para ideias detrás e longe das tipicamente reverberadas pelo Renascimento[14].

Netanyahu comenta, que é compreensível a aceitação de Abravanel dos princípios dos Padres da Igreja, mas que é estranho a sua adoção das ideias de Aristóteles, quando admite que o homem, originalmente, não tinha a necessidade de nenhum dos serviços prestados pela sociedade que vive, mas que isso resultava do desvio humano da sua natureza primitiva. Entretanto, ao mesmo tempo, com base em Tomás de Aquino, afirmava que o homem é por natureza um animal político[15]. No mais, assim como Aristóteles e os Padres da Igreja, ele acreditava na desigualdade como característica intrínseca do ser humano, tanto do ponto de vista individual como do colectivo. E, também, em paralelo com Aristóteles, que enxergava os gregos numa posição superior com relação aos povos bárbaros, ele via Israel nesse lugar, com o direito igual de exercer domínio sobre as demais nações. Contudo, condenava o direito de exercer a escravatura sobre outro povo, como um crime comparável ao homicídio, interpretando a condição de escravidão como "morte em vida"[16]. Apesar da sua defesa na existência da desigualdade na relação entre as nações, ele acreditava na igualdade entre os homens, por isso a sua defesa a liberdade irrestrita do ser humano e a condenação a escravidão.

Quanto ao direito, vemos um contraste entre ele e o conceito mais comum na Idade Média da divisão tripartida do direito e sua fundamentação, criada pelos Padres da Igreja. Vejamos, tanto os intelectuais da cristandade, quanto Maimónides, acreditavam que haviam três categorias, que se encaixam na forma de leis divinas e outras em leis humanas. Entretanto, devido a diferença religiosa, distinguiam-se na interpretação e visão de mundo. Nesse aspecto, Abravanel tinha uma visão mais próxima a Maimónides, pois via a lei espiritual contendo duas dimensões, a humana e espiritual. Enquanto as leis humanas só incluíam a dimensão material, a espiritual, abarcaria tanto a material quanto a espiritual. Ambos acreditavam que as leis espirituais foram passadas pelos profetas, haja vista, que segundo as suas opiniões, o ser humano era incapaz de a encontrar por sua conta, indo de forma contrária a visão de Aristóteles, que acreditava que os seres humanos eram capazes de alcançarem sozinhos esse êxito, através do seu esforço individual[16].

Já o seu pensamento sobre a constituição ideal, perfaz um longo percurso, que provavelmente deve ter sofrido influências do seu entorno, quer seja em Espanha, ou em Itália, e são identificados através de seus comentários a 1 Samuel 8:4, Deuteronómio 16:18 e do Êxodo 18:13. Para começarmos, em sua interpretação, a Lei Mosaica servia tanto para um governo de natureza secular, quanto de natureza sacerdotal. As suas ideias estão expostas de forma mais clara em seu comentário ao Deuteronómio, onde divide o governo humano em três: Tribunal Inferior, que estaria presente em todas as cidades; seguido do Tribunal Superior, representando a totalidade do povo e; por último, o Rei. Doravante, temos a sua explanação sobre o governo Divino, que por sua vez, estaria dividido em "Santidade, espiritualidade e proximidade a Deus". A mais baixa categoria, segundo Abravanel, estaria representada pelos levitas, seguida dos sacerdotes que saem dessa tribo, com o grau mais elevado sendo representado pelo profeta[17].

Seus comentários também abrangeram o papel do monarca e a sua posição, discordava da opinião dominante de que era indispensável se ter um rei, como também acreditava que o seu poder se devia ser limitado. Ele dava como exemplos de sistemas não-monárquicos bem-sucedidos, os casos de Veneza, Florença, Génova, entre outros. Estendendo-se a sua argumentação, referindo-se que o monarca poderia vir a ser perigoso, pois teria atribuições de poder muito abrangentes, como o de conduzir o povo em uma guerra; ter a última palavra em matéria de legislação e; nos casos emergenciais, tem a prerrogativa de actuação, mesmo que se fosse necessário passar por cima da lei. Ou seja, equivalia a um juiz, com um grau superior, pois lhe seria permitido cobrar impostos, era-se exclusivo a posse da terra conquistada, além dos usos do cetro, cavalos e o pertencimento do direito de sucessão aos seus descendentes para todo o sempre. Em tudo, vê-se aquele conhecido trecho do profeta Samuel, que alertava o povo sobre os perigos da sua escolha de ter um homem para o chamar de Rei[18].

No entanto, é necessário ressaltar que a sua crítica ao poder que muitos soberanos exerciam, tinha pontos em comuns com a filosofia política da Idade Média, que procurava estabelecer limites aos monarcas. Temos o exemplo de Nicolau de Cusa, que dizia que o poder do rei, limitava-se, onde o direito não era capaz de resolver, e a sua legitimidade de actuação era consoante ao que o direito definia-lhe como tal. Portanto, não era bem aceite a ideia de príncipes déspotas, sem algum tipo de travão, baseando-se em muito no modelo de virtudes preconizado na filosofia aristotélica[19].

Messianismo

Considerando que o messianismo é um ideal de modelo de sociedade encontrado tanto no cristianismo como no judaísmo, marcou forte presença na Idade Média entre diversos autores. Um dos quais era Abravanel, filósofo imbuído de ideias místicas e espirituais, que mirava um sistema de governação teocrático, baseado nas escrituras judaicas e nas experiências percorridas pelos hebreus, certamente influenciado pelo ambiente e período que viveu. Constatamos isso, através da sociedade europeia que transformou-se rapidamente, no caminho oposto ao do período clássico, centrando a vida do homem na vontade de Deus, herança que veio do judaísmo, que todavia, naquele momento estava a ser confrontada pela expansão islâmica, também herdeira dessa visão de mundo[20].

O filósofo Dom Isaac, que segundo Baer, iniciou a sua trajetória como um humanista, ficou marcado por sua experiência negativa com a expulsão dos judeus de Espanha, levando-o a afastar-se de comentários políticos e a aproximar-se de uma visão mais religiosa e mística que, segundo alguns estudiosos, influenciou negativamente o pensamento judaico, deixando-o atrás do desenvolvimento evidenciado no período moderno na Europa[21]. Tais afirmações são baseadas na prerrogativa de que o próprio abandonou o naturalismo e o racionalismo preconizado por Maimónides, demarcando mais um contraste entre ele e o conhecido pensador sefardita.

Contudo, é necessário aperceber-se os motivos que o fez chegar a determinadas conclusões, analisando-se as suas obras. Primeiro, temos que ter em conta, que ele situa a diáspora judaica num quadrante do tempo e da geografia entre Edom e Ismael, representados subsequentemente pela civilização ocidental e islâmica, ligando-as as respectivas personagens bíblicas como seus sucessores espirituais. No livro Maayanei Hayeshua, ele discorre sobre a sua escolha em comentar com base em Daniel, a tão esperada vinda do Messias, utilizando-o para relacioná-lo com a expulsão dos judeus da Península Ibérica[22].

No entanto, ele justificou o seu cálculo de quando que ocorreria a Era Messiânica, abordando os seus antecessores que procuraram chegar no mesmo resultado, citando os casos de Saadia Gaon, Rashi, Abraão bar Hia, Nacmânides, entre outros. Ao mesmo tempo, ele escreve na introdução sobre a possibilidade daquelas afirmações não estarem corretas, ressaltando-a mais como uma possibilidade. Com isto, vemos ele construir toda a sua narrativa sobre estarem próximos da redenção com o os fatídicos acontecimentos em Espanha e Portugal, transformando-o num relato com toque realista, que pudesse ser vivido e absorvido por quem viu todo aquele acontecimento[23].

Apesar de ter marcado uma data, mais especificamente o ano de 1503, como a que seria a do início da Era Messiânica, ele passou os anos que antecederam-na a estudar e ampliar os seus comentários sobre outras partes do Tanakh. Com o fim da guerra entre Veneza e o Império Otomano, com um resultado favorável a coligação hispano-veneziana, a sua família dividiu-se entre aqueles territórios, com ele ficando em Veneza[24].

Obras

Cronologia

  • 1437: Nascimento de Dom Isaac Abravanel em Lisboa.
  • 1460: Nessa década Abravanel escreve a sua primeira obra, Ateret Zekeinim.
  • 1478: D. Isaac, conjuntamente com os mercadores judeus Gedaliah Palaçano e Moshe Latam, emprestam o valor de Rs 3.384.515 reais a D. Afonso V no seu esforço de guerra.
  • 1483: Patrono de Abravanel, D. Fernando II de Bragança é decapitado em Évora. Nesse mesmo ano ele foge com sua família para Castela.
  • 8 de Março de 1484: Termina os seus comentários aos livros de Josué, Juízes e Samuel[25].
  • 1492: Os reis católicos expulsam os judeus e mouros de Espanha, Dom Isaac parte ao exílio[26].
  • 1495: Muda-se para Corfu, domínio do então Império Otomano[27].
  • 1503: Estabelece-se definitivamente em Veneza[27].
  • 1508: Falece em Veneza.

Bibliografia

NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra. ISBN 9789728758998

COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. ISBN 9781684580231

Ioanne Henrico Maio Filius, trad. (1711). Don Isaaci Abrabanielis sive Praeco Salutis [Mašmîaʿ yešûʿā]

Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 5 vols. (Lisboa/São Paulo: Editorial Verbo, 1989–1992), I, p. 19.

J. B. TREND, H. Loewe. Isaac Abravanel. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 9781107502086

Ephraim Taubenhaus, Giants of the Spirit: Twenty Biographies of Outstanding Sages and Rabbis, traduzido do hebreo por Binyamin Hoffman; Sinai Publishing House, Tel Aviv, 1981; p. 57: "Don Yitzhak Abravanel... was born in Lisbon in 5197 (1437 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel... nasceu em Lisboa em 5197 (1437 E.C.)") & p. 60: "Don Yitzhak Abravanel passed away in Venice in 5268 (1508 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel faleceu em Venezia em 5268 (1508 E.C.)"

SORIA OLMEDO, Andrés. Los Dialoghi D’Amore de León Hebreo: Aspectos Literarios y Culturales. Granada: Universidad de Granada, 1984.

FELDMAN, Seymour. Philosophy in a Time of Crisis: Don Isaac Abravanel: Defender of the Faith. New York: RoutledgeCurzon, 2003

Referências

  1. Ephraim Taubenhaus, Giants of the Spirit: Twenty Biographies of Outstanding Sages and Rabbis, traduzido do hebreo por Binyamin Hoffman; Sinai Publishing House, Tel Aviv, 1981; p. 57:
    "Don Yitzhak Abravanel... was born in Lisbon in 5197 (1437 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel... nasceu em Lisboa em 5197 (1437 E.C.)")
    & p. 60: "Don Yitzhak Abravanel passed away in Venice in 5268 (1508 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel faleceu em Venezia em 5268 (1508 E.C.)")
  2. Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 5 vols. (Lisboa/São Paulo: Editorial Verbo, 1989–1992), I, p. 19.
  3. Cidade de Queluz - As raízes do futuro, Câmara Municipal de Sintra.
  4. Feldman, Seymour. Philosophy in a Time of Crisis: Don Isaac Abravanel: Defender of the Faith. New York: RoutledgeCurzon, 2003.
  5. Soria Olmedo, Andrés. Los Dialoghi D’Amore de León Hebreo: Aspectos Literarios y Culturales. Granada: Universidad de Granada, 1984.
  6. J. B. Trend, H. Loewe. Isaac Abravanel. [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 9781107502086 
  7. a b Abarbanel and the Censor, page 1, note 1
  8. Ioanne Henrico Maio Filius, trad. (1711). Don Isaaci Abrabanielis sive Praeco Salutis [Mašmîaʿ yešûʿā].
  9. «De Senor Abravanel a Silvio Santos: por que o apresentador mudou de nome?». UOL Splash. 13 de fevereiro de 2022. Consultado em 29 de outubro de 2023 
  10. a b c NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] pp. 176–178. ISBN 9789728758998 
  11. a b c NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] p. 169. ISBN 9789728758998 
  12. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] pp. 153–154. ISBN 9789728758998 
  13. a b NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] p. 158. ISBN 9789728758998 
  14. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] pp. 199–200. ISBN 9789728758998 
  15. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] p. 201-202. ISBN 9789728758998 
  16. a b NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] pp. 204–205. ISBN 9789728758998 
  17. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] p. 208. ISBN 9789728758998 
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  19. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] p. 226. ISBN 9789728758998 
  20. NETANYAHU, Benzion (2012). Dom Isaac Abravanel, estadista e filósofo. Coimbra: [s.n.] pp. 245–247. ISBN 9789728758998 
  21. COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. pp. 243–246. ISBN 9781684580231 
  22. COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. pp. 248–249. ISBN 9781684580231 
  23. COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. pp. 250–257. ISBN 9781684580231 
  24. COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. pp. 262–264. ISBN 9781684580231 
  25. COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. p. 87. ISBN 9781684580231 
  26. Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. [S.l.: s.n.] p. 167 
  27. a b COHEN-SKALLI, Cedric (2021). Don Isaac Abravanel: An Intellectual Biography. Waltham: Brandeis University Press. p. 217. ISBN 9781684580231 

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